Promessas de altos ganhos, drones e heroísmo: a dura realidade dos brasileiros que vão lutar na guerra da Ucrânia
Promessas de altos ganhos, drones e heroísmo: a dura realidade dos brasileiros que vão lutar na guerra da Ucrânia
O braço não responde aos comandos básicos, o joelho já não dobra e o pedido desesperado enviado direto do front resume o choque de quem cruzou oceanos para combater: a ordem é apenas para que tirem os sobreviventes dali. Enquanto o conflito armado no leste europeu completa quatro anos, dezenas de brasileiros continuam deixando seus empregos, famílias e realidades cotidianas no Brasil para ingressar nas Forças Armadas da Ucrânia, descobrindo tarde demais o abismo existente entre o discurso das redes sociais e o combate real nas trincheiras.
A busca por uma oportunidade profissional, a atração pelo militarismo e discursos inflamados na internet têm alimentado um fluxo contínuo de voluntários da América Latina. No entanto, os relatos daqueles que retornam feridos, amputados ou com graves traumas psicológicos revelam uma estrutura marcada por desinformação, promessas não cumpridas e a sensação de descartabilidade no campo de batalha.
Segundo dados compilados pela agência internacional DW Brasil a partir do cenário no front ucraniano, a Colômbia lidera o número de estrangeiros mortos no conflito, com 740 baixas, seguida pelos Estados Unidos, com 124. O Brasil figura na terceira colocação mundial em perdas humanas, registrando 103 cidadãos mortos. Logo atrás aparecem Geórgia (101), Bielorrússia (79) e combatentes russos dissidentes integrados às forças ucranianas (61). Esses números evidenciam como homens sem preparo militar complexo acabam ocupando posições de extremo risco.

A propaganda digital e a miragem dos contratos em moeda estrangeira
O recrutamento internacional opera com forte presença digital. Portais oficiais e vídeos promocionais direcionados ao público estrangeiro utilizam slogans que conclamam voluntários a defender a soberania ucraniana e a Europa contra a expansão russa. Os pré-requisitos exigidos parecem simples: ter entre 18 e 60 anos, ausência de doenças crônicas, ficha criminal limpa e aptidão física básica, passando por etapas de triagem, entrevistas e entrada no país.
Para atrair voluntários, o material de divulgação oferece garantias de alojamento, alimentação, armamento e atrativos financeiros expressivos. Anuncia-se que, durante a participação em operações de combate, os vencimentos mensais podem atingir até US$ 4.500 (cerca de R$ 25 mil na cotação atual). Além do dinheiro, a propaganda enfatiza a formação técnica em funções modernas, como operadores de drones de alta tecnologia e socorristas de combate, vendendo a ideia de uma capacitação profissional valorizada para o resto da vida.
A realidade relatada pelos combatentes que desembarcam no país, contudo, desmente as campanhas. O soldo base fixo gira em torno de R$ 5.000 líquidos, sendo o restante condicionado a bonificações por participação direta em missões de assalto de altíssimo risco. Sobreviventes relatam que os treinamentos, previstos inicialmente para durar meses, chegam a ser reduzidos a apenas uma ou duas semanas. Além disso, equipamentos básicos de proteção muitas vezes são descritos como antigos ou de baixa qualidade, exigindo que os próprios voluntários comprem seus itens táticos.
A transferência forçada para a infantaria de assalto
A expectativa de atuar na retaguarda controlando dispositivos tecnológicos a quilômetros de distância do fogo inimigo desmorona rapidamente na linha de frente. Diversos depoimentos revelam que as funções operacionais mais seguras, como o manejo de drones estratégicos, são destinadas prioritariamente aos soldados ucranianos, restando aos estrangeiros as trincheiras de infantaria pesada.
Um dos casos que ilustram essa ruptura de acordos é o de Lucas Felipe, que se voluntariou com o objetivo específico de prestar suporte técnico em tecnologia bélica. Após chegar ao território ucraniano, ele relatou ter sido gradualmente empurrado para a infantaria, sendo transferido para Kharkiv — uma das regiões de confrontos mais violentos — sob o pretexto de treinamento. Em desabafo, o combatente afirmou ter recebido um fuzil e sido conduzido diretamente à zona de fogo intenso sem seu consentimento, declarando-se formalmente enganado pela coordenação militar.
Em outro relato dramático, o brasileiro Eric Ferreira Soares, natural de Castanhal, no Pará, gravou um depoimento após ser capturado por tropas russas. Ele afirmou ter viajado sob a promessa de exercer funções logísticas em instalações seguras na retaguarda, mas acabou enviado para a primeira linha de combate. Em sua mensagem, ele alertou outros latino-americanos sobre o risco de servirem a interesses alheios em troca de ganhos financeiros que não compensam a perda da integridade física e o distanciamento da família.
O limbo jurídico dos desaparecidos e o bloqueio de indenizações
A divergência nos registros de baixas expõe uma crise administrativa e humanitária. Enquanto levantamentos jornalísticos apontam mais de uma centena de mortes de brasileiros, registros diplomáticos contabilizavam formalmente pelo menos 100 brasileiros no país até o fim do último ano, com dados que indicavam 35 mortes confirmadas e 92 combatentes listados como desaparecidos.
Essa classificação como “desaparecido” tornou-se alvo de graves denúncias por parte de familiares no Brasil. De acordo com relatos colhidos junto a parentes de soldados da Terceira Brigada de Assalto, existe um mecanismo financeiro prejudicial: o repasse de verbas governamentais e o pagamento de salários são mantidos enquanto o militar permanece registrado na folha de serviço. A confirmação oficial do óbito cessa esses pagamentos administrativos imediatos, criando incentivos burocráticos para não notificar a baixa com rapidez.
Além disso, o seguro financeiro por morte em combate — estipulado entre R$ 900 mil e R$ 1 milhão — enfrenta entraves severos. As indenizações, pagas de forma parcelada pelo governo local, dependem de certidões e trâmites internacionais complexos que a maioria das famílias de baixa renda não consegue custear por vias jurídicas. Sem a localização ou repatriação do corpo, cujos custos de translado também reduzem substancialmente o benefício, parentes enfrentam desamparo total. Casos como o de Jefferson de Paula da Silva, de Curitiba, que deixou duas filhas de quatro e nove anos, e de Gustavo Lemos, de 31 anos, morador do interior paulista que sustentava uma filha de 5 anos, exemplificam o rastro de desassistência enfrentado por dependentes no Brasil.
Tratamento de mercenários e o alerta consular do Itamaraty
A situação dos combatentes estrangeiros agrava-se com a postura adotada pelas forças armadas russas. Sob a ótica militar de Moscou, cidadãos de outros países que empunham armas sem pertencer às forças regulares de seu país de origem não são categorizados como prisioneiros de guerra amparados pela Convenção de Genebra, mas sim como mercenários. Esse enquadramento elimina garantias fundamentais de tratamento humanitário, comunicação externa e assistência médica padronizada, elevando os riscos de execuções sumárias, julgamentos sumários com penas extremas ou abandono deliberado em cativeiros improvisados.
Diante do crescimento de mortes e desaparecimentos registrados a partir de 2025, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil emitiu um comunicado formal desaconselhando enfaticamente qualquer engajamento de brasileiros em tropas estrangeiras. O Itamaraty alertou que a assistência consular aos voluntários é severamente restrita pelos contratos firmados diretamente com as forças armadas estrangeiras e que o Estado brasileiro não possui obrigação legal de arcar com passagens de retorno, repatriação de feridos ou translado de restos mortais.
O aviso diplomático ressalta ainda que os cidadãos alistados podem sofrer persecução criminal, tanto em cortes internacionais quanto perante a Justiça brasileira, com base no Artigo 7º do Código Penal, que prevê a aplicação da lei nacional a crimes cometidos no exterior quando vinculados a convenções internacionais assumidas pelo país.
Histórias interrompidas e as motivações para a guerra
A análise dos perfis que chegam à Ucrânia revela quatro motivações centrais: a busca por adrenalina extrema em combate real; o fascínio pela carreira militar combinado com a falta de oportunidades para estabilização nas Forças Armadas brasileiras; a ilusão de enriquecimento financeiro rápido por meio de soldos e bônus; e a influência ideológica propagada por criadores de conteúdo na internet, que retratam o conflito como uma cruzada civilizatória sem nunca terem participado de uma zona de confronto armado.
As consequências dessas escolhas, contudo, costumam ser imediatas e irreversíveis. Jackson Aurélio Lourenço Rosário, de Cáceres, no Mato Grosso do Sul, acumulava quatro anos de serviço no Exército Brasileiro antes de embarcar para o front em 9 de junho de 2025. Alocado nas linhas de maior contato com o inimigo, ele relatou a familiares condições extremas de privação, frio e fome antes de sua morte ser confirmada em meados de julho, sobrevivendo apenas um mês e meio no teatro de operações.
O histórico de tensões entre Rússia e Ucrânia, cujas raízes territoriais, culturais e geopolíticas remontam desde as disputas cossacas do século XVII até a anexação da Crimeia em 2014 e a invasão de 2022, envolve dilemas locais profundos e distantes da realidade brasileira. A experiência acumulada por centenas de voluntários demonstra que deixar a estabilidade cotidiana e a segurança familiar para ingressar em uma guerra alheia tem deixado um rastro de traumas físicos, perdas irreparáveis e famílias desamparadas em todo o país.