O Caso Samyra: Como uma Madrugada em Peruíbe Revelou uma Rede de Segredos e Chocou a Polícia
O Caso Samyra: Como uma Madrugada em Peruíbe Revelou uma Rede de Segredos e Chocou a Polícia
A atmosfera pesada em uma residência humilde no bairro Jardim Caramanguava, em Peruíbe, litoral sul de São Paulo, já indicava que a tragédia ocorrida ali ultrapassava qualquer explicação superficial. Construída logo acima de uma borracharia antiga e cercada por pneus velhos, vegetação densa e entulho, a pequena casa de apenas um cômodo abrigava Angélica Tenório, de 33 anos, e seus dois filhos: Samira, de 10 anos, e um menino de 9 anos. O que parecia ser um desfecho trágico em uma noite de domingo rapidamente começou a se transformar em uma apuração complexa e repleta de inconsistências assim que as primeiras equipes de socorro e segurança foram acionadas.
A Versão Apresentada e as Primeiras Inconsistências na Madrugada
Segundo o depoimento inicial prestado por Angélica às autoridades, aquele domingo de Dia dos Pais havia transcorrido dentro da normalidade. A mulher afirmou que saiu para passear com os dois filhos, retornou à noite, trancou as portas e todos foram dormir no mesmo espaço. Ela disse ter se deitado com o filho caçula, enquanto Samira foi para sua própria cama. Ainda de acordo com a genitora, por volta das 2 horas da manhã, o menino teria acordado em pânico e chamado pela mãe ao notar algo errado com a irmã, momento em que a menina de 10 anos teria sido encontrada caída com uma coleira de cachorro.
A primeira narrativa tentava sugerir um ato cometido pela própria criança a portas fechadas. No entanto, o estado físico em que o corpo foi encontrado começou a contradizer imediatamente os horários fornecidos. Quando o atendimento médico e a polícia tiveram acesso à criança por volta das 2 horas, Samira já apresentava extremidades arroxeadas, temperatura corporal totalmente fria e sinais evidentes de rigidez cadavérica. Pela avaliação técnica preliminar, esse estado exigiria que o óbito tivesse ocorrido pelo menos entre duas a quatro horas antes, situando a perda dos sinais vitais por volta da meia-noite, e não momentos antes do chamado.
Outros elementos da dinâmica doméstica também levantaram questionamentos imediatos entre os investigadores. Em um espaço reduzido de um único cômodo, chamou a atenção o fato de nenhum ruído, atrito ou pedido de socorro ter sido supostamente ouvido durante o intervalo em que a menina perdeu a vida. Além disso, o cachorro que vivia no imóvel, conhecido por latir intensamente para a aproximação de qualquer pessoa desconhecida, permaneceu em total silêncio durante toda a madrugada, levantando fortes indícios de que nenhuma presença estranha invadira a moradia.
O Deslocamento até a UPA e a Reação que Chamou a Atenção Médica
Diante do quadro, o socorro à menina foi prestado com a ajuda de dois homens que moravam no andar de baixo: o dono da borracharia, um idoso de 74 anos, e seu filho, de 47 anos. A família de Angélica residia de favor naquele imóvel e não pagava aluguel. Foram esses dois vizinhos que transportaram a criança de carro até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Peruíbe, chegando ao local antes da própria mãe.
Ao iniciarem os procedimentos de avaliação clínica, os profissionais de saúde constataram sinais graves e evidentes de abusos físicos anteriores no corpo da vítima. Quando Angélica chegou à unidade hospitalar, a equipe médica se aproximou para informá-la sobre os indícios de violência encontrados. Foi nesse exato momento que ocorreu uma reação inesperada: na presença dos médicos, o idoso de 74 anos exclamou em voz alta que não havia feito nada, antes mesmo que qualquer questionamento ou acusação formal fosse direcionada a ele por qualquer membro da equipe.
A notícia da situação gerou forte revolta na comunidade local do Jardim Caramanguava. Moradores indignados chegaram a arremessar pedras e quebrar vidros da residência e da borracharia no primeiro andar. Com a repercussão, o borracheiro idoso buscou abrigo na residência de parentes enquanto o inquérito policial avançava, enquanto o estabelecimento continuava operando com funcionários terceirizados.
A Alteração do Local dos Fatos e os Achados Periciais
Nos dias seguintes à morte de Samira, a conduta de Angélica intensificou as suspeitas das autoridades. Apenas dois dias após o ocorrido, enquanto a perícia da Polícia Civil ainda realizava diligências técnicas no imóvel, a mãe recolheu todos os pertences do local, incluindo colchões, cobertas e roupas do cômodo, deixando para trás apenas um urso de pelúcia. Testemunhas relataram ainda que o chão do local foi lavado com água e sabão antes da conclusão dos trabalhos periciais. Confrontada sobre a descaracterização do cenário, ela alegou ter ouvido boatos de que populares ateariam fogo na borracharia.
As conclusões do Instituto Médico Legal (IML) trouxeram novos elementos que aprofundaram a gravidade do caso. O laudo necroscópico apontou que as lesões encontradas não eram recentes, indicando uma cronicidade de violência física e abusos que remontavam a anos anteriores, com alterações compatíveis com as de uma mulher adulta que já havia passado por partos normais. As análises técnicas apontaram que o quadro exigiria tempo prolongado de agressões contínuas, incompatíveis com a alegação da mãe de que nunca havia notado nenhuma alteração física, queixas de dor ou mudanças comportamentais na filha dentro do único cômodo em que residiam.
A Rotina da Família e os Depoimentos Conflitantes
Conforme a Polícia Civil avançou nas oitivas, o Conselho Tutelar confirmou a existência de registros anteriores sobre a família. Foi apurado que Samira e o irmão frequentemente eram impedidos de frequentar a escola e viviam em condição de reclusão domiciliar ou eram levados durante a madrugada para estabelecimentos noturnos e bares nas proximidades da rodoviária da cidade. Relatos de testemunhas indicaram que as crianças eram vistas acordadas até altas horas, por vezes segurando copos com misturas de bebidas, enquanto a mãe consumia substâncias e pedia dinheiro.
O depoimento do homem de 47 anos, filho do borracheiro, trouxe novas informações sobre a convivência entre os moradores. Segundo relatado extraoficialmente às autoridades, Angélica mantinha um relacionamento com o idoso de 74 anos e envolvia a própria filha nesse ambiente de convivência em troca de moradia gratuita e benefícios materiais.
Paralelamente, as contradições sobre a mecânica da morte se multiplicaram. Ao prestarem esclarecimentos, o borracheiro afirmou ter retirado uma corda do pé da menina no momento do socorro, divergindo frontalmente do relato inicial da mãe, que sustentava que a coleira estava presa ao pescoço. O outro filho do idoso declarou também ter visto a mãe limpando o chão com uma bacia de água momentos antes do acionamento formal da polícia. Além disso, testes técnicos na estrutura do imóvel avaliaram a capacidade do gancho fixado na parede para determinar a viabilidade da versão apresentada.
O Desfecho das Investigações e as Medidas Judiciais
Diante do conjunto de contradições, dos laudos periciais e dos indícios de adulteração do local, a Polícia Civil de São Paulo representou pelas medidas cautelares cabíveis. Angélica Tenório foi localizada e presa por determinação judicial, sendo conduzida inicialmente para a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Peruíbe e, em seguida, transferida para a Penitenciária Feminina de São Vicente, onde permaneceu à disposição da Justiça.
O idoso de 74 anos e o filho de 47 anos não foram presos de imediato, mas tiveram amostras de material genético recolhidas para exames de confronto de DNA com vestígios encontrados no corpo da vítima e no imóvel. O inquérito policial prossegue sob sigilo para concluir a correlação definitiva entre as agressões crônicas, os frequentadores da residência e as circunstâncias exatas que resultaram na morte de Samira, cuja história interrompida aos 10 anos segue como um dos casos mais debatidos pelas autoridades paulistas.