Os bastidores do esconderijo: como um dos fugitivos mais procurados do Paraná viveu dias decisivos antes do desfecho
Os bastidores do esconderijo: como um dos fugitivos mais procurados do Paraná viveu dias decisivos antes do desfecho
As peças de uma das investigações de maior repercussão no estado do Paraná começaram a se encaixar a partir de depoimentos cruciais colhidos pela Polícia Civil. Cleiton Antônio da Silva Cruz, conhecido pela alcunha de “Dog Dog”, era o principal alvo das forças de segurança após o desaparecimento e a morte das primas Estela e Letícia, vistas pela última vez após saírem de uma boate em Cianorte. A caçada ao foragido terminou em um confronto armado com agentes do grupo de elite TIGRE, quando o homem fez um morador refém e acabou morto. No entanto, o fim da linha para o suspeito abriu uma nova frente investigativa sobre a rede de apoio que garantiu seus passos durante o período de fuga.
No centro dessa teia está Jéssica Pereira de Oliveira, apontada pelas autoridades como a mulher que abrigou o criminoso em sua própria residência durante cerca de sete dias. Ao ser presa em flagrante pela equipe policial, Jéssica prestou declarações detalhadas à autoridade policial, tentando justificar por que manteve as portas abertas para alguém cuja imagem estampava os noticiários de todo o estado. O que parecia ser apenas uma narrativa de acolhimento revelou uma rotina surpreendente de deslocamentos diurnos, bens de alto valor e contradições evidentes.

A rotina do foragido e a versão do abrigo temporário
Diante do delegado responsável pelo caso, Jéssica não negou que tinha plena consciência da situação jurídica de Cleiton. Questionada se sabia que ele era ativamente procurado pela polícia e pela imprensa, ela confirmou que conhecia os fatos, mas alegou que a relação de longa data pesou na decisão de ajudá-lo por um período determinado de uma semana. Segundo suas palavras no interrogatório, o pedido partiu do próprio fugitivo por meio de contato telefônico prévio.
A permanência na residência, contudo, não seguia os padrões de alguém totalmente enclausurado. Ao contrário do que se esperava de um foragido de alta periculosidade, Cleiton saía do imóvel durante a luz do dia, utilizando um carro de cor branca. Jéssica afirmou aos policiais que o hóspede mantinha uma postura discreta quando estava dentro da casa, sem fazer alardes, e que ela evitava fazer perguntas ou revistar as malas que ele havia trazido consigo. A mulher também chegou a mencionar que trocou uma quantia de R$ 300 em espécie a pedido dele, sustentando a alegação de que não desconfiava da gravidade do material guardado no local.
Arsenal, explosivos e uma trilha de crimes recentes
A versão de mero desconhecimento ruiu quando os investigadores realizaram a busca minuciosa no imóvel de Jéssica. No local, a Polícia Civil localizou uma quantidade expressiva de objetos de alto valor provenientes de roubos, como joias e relógios, além de materiais explosivos e um veículo com alerta ativo de roubo, que já circulava com placas adulteradas. A apuração policial indicou que Cleiton não havia interrompido suas atividades ilícitas durante a clandestinidade; pelo contrário, continuava atuando em assaltos à mão armada contra fazendeiros da região, caracterizados pelo uso de violência extrema, e estava sob suspeita de envolvimento com o tráfico internacional de armas.
A apreensão desses itens culminou na prisão em flagrante de Jéssica por receptação qualificada, acusação mantida posteriormente após audiência de custódia, quando sua prisão foi convertida em preventiva. Questionada sobre o motivo de nunca ter acionado as autoridades ou fornecido pistas anônimas, ela respondeu com naturalidade que não via razão para denunciar, sustentando que “todo mundo erra” e que o amigo tinha a intenção de se entregar em algum momento à polícia, embora sem definir prazos ou garantias formais para isso.
A confissão feita na estrada e a descoberta dos corpos
Se para a companheira que o abrigava Cleiton dizia ser inocente e negava qualquer envolvimento direto no assassinato de Estela e Letícia, para outro comparsa o discurso foi completamente oposto. Quase simultaneamente à operação que cercou “Dog Dog”, a Polícia Civil localizou e prendeu Michel dos Reis Costa, conhecido como “Magrão” ou “Primo”. Na residência de Michel, os policiais apreenderam armas de fogo, coletes balísticos e munições.
Diferente do silêncio mantido em relação aos armamentos, Michel abriu o jogo sobre a ocultação dos corpos das duas jovens. Em seu interrogatório, o cúmplice relatou que Cleiton apareceu em sua porta coberto de terra, pedindo auxílio urgente sob o pretexto de ter enfrentado problemas com a polícia e deixado uma caminhonete atolada na mata. Durante o trajeto de volta pela rodovia em direção a Paraíso do Norte, no fim da tarde, Cleiton teria quebrado o silêncio com uma declaração contundente: assumiu ter cometido “o maior erro da vida” ao tirar a vida das duas jovens que o acompanhavam na boate. Guiados pelas indicações de Michel, os policiais civis conseguiram finalmente localizar uma cova rasa em uma área de plantação e vegetação densa, encerrando a angústia das buscas pelos corpos.
O desfecho de uma caçada e a dor das famílias
A confirmação da morte das duas primas trouxe um misto de alívio doloroso e profunda tristeza para as famílias das vítimas, que acompanhavam o desenrolar das investigações com expectativas sufocadas pela passagem do tempo. Para as mães das garotas, que tinham apenas 18 anos e diversos planos interrompidos, a localização dos corpos permitiu a realização de uma despedida digna, colocando fim à incerteza que se arrastava desde o sumiço das jovens em Cianorte.
Enquanto a morte de Cleiton encerrou a trajetória do executor material dos assassinatos, a resposta judicial aos atos de apoio segue em andamento nos tribunais. Tanto Jéssica Pereira de Oliveira quanto Michel dos Reis Costa permanecem recolhidos ao sistema prisional após terem as prisões em flagrante convertidas em preventivas. O caso serve de alerta e reflexão sobre os limites da conivência e os impactos severos sofridos por quem decide acobertar foragidos da Justiça, deixando no ar o debate sobre as justificativas apresentadas por aqueles que conviveram lado a lado com a criminalidade sem nunca procurar as autoridades competentes.