O Desfecho em Paraíso do Norte: Como a Polícia Desvendou o Desaparecimento das Primas de Cianorte Após 120 Dias
O Desfecho em Paraíso do Norte: Como a Polícia Desvendou o Desaparecimento das Primas de Cianorte Após 120 Dias
Uma cova rasa oculta em meio a uma densa área de mata e canaviais em Paraíso do Norte guardava a resposta para uma das buscas mais angustiantes do Paraná. Durante quatro meses, o paradeiro de Letícia Garcia Mendes e Estela Dalva Melegari Almeida, ambas de 18 anos, mobilizou forças policiais e gerou comoção nacional. O mistério chegou ao fim com a localização de duas ossadas e a reconstrução minuciosa das últimas horas das jovens, revelando que a tragédia foi selada por uma discussão violenta na madrugada de 21 de abril de 2026.
As investigações conduzidas pela Polícia Civil apontam que a reviravolta no caso começou a ser desenhada a partir da captura de envolvidos em crimes ocorridos meses após o sumiço. O trabalho conjunto entre as polícias Civil, Militar, Rodoviária Federal e Científica permitiu conectar pistas aparentemente dispersas, confrontar versões e finalmente dar uma resposta às famílias que enfrentavam uma espera dolorosa.
A confirmação encerra um ciclo de incertezas que durou cerca de 120 dias, período em que diferentes linhas de apuração foram checadas, desde teorias sobre tráfico humano até a hipótese central de duplo homicídio que os investigadores sustentavam desde o início.

A cronologia daquela madrugada e o rastro digital
O início da fatídica noite de 20 de abril de 2026 parecia apenas mais um encontro social. Letícia e Estela saíram acompanhadas por Cleito Antônio da Silva Cruz, homem que utilizava o nome falso de “Davi” e era também conhecido pela alcunha de “Dog Dog Sagaz”. Às 22h39, câmeras de segurança registraram o momento em que as primas deixaram Cianorte a bordo da caminhonete conduzida por Cleiton. Esse instante marcou também a interrupção da conexão do telefone de Letícia, que dependia exclusivamente de redes Wi-Fi por não possuir pacote de dados móveis.
Quinze minutos mais tarde, às 22h54, o veículo chegou ao município de Jussara, onde Estela residia com a mãe. A jovem entrou brevemente no imóvel para buscar uma mochila enquanto a mãe estava ausente. Foi ali, às 22h55, que Estela registrou uma fotografia dentro da caminhonete ao lado de uma garrafa de uísque, marcando a prima e inserindo a legenda: “Qual será o nosso destino?”.
Os três deixaram Jussara pela rodovia PR-323 por volta das 23h13, rumando em direção a Maringá. A última publicação de Estela em suas redes ocorreu à 00h16 do dia 21 de abril, na altura do trevo entre Presidente Castelo Branco e Nova Esperança, em imagem onde Cleiton aparecia. Por volta de 01h10, o grupo chegou a uma casa noturna em Paranavaí. Câmeras internas flagraram as duas jovens caminhando de mãos dadas pelo estabelecimento, enquanto Cleiton permanecia nas proximidades. De acordo com a apuração policial, sinais de desentendimento já começavam a surgir no local, onde Cleiton demonstrava postura visivelmente alterada.
A discussão fatal no retorno e a dinâmica dos disparos
O último registro de atividade do aparelho de Estela ocorreu às 03h17, horário obtido por meio de quebra emergencial de sigilo telemático. Pouco depois, os três deixaram a boate no mesmo veículo. O consumo excessivo de bebidas alcoólicas e divergências interpessoais intensificaram o atrito iniciado no estabelecimento. Segundo a reconstituição da polícia, o confronto verbal escalou de forma agressiva durante o trajeto.
Entre 04h00 e 04h40, a discussão atingiu o ponto irreversível. Os relatos apontam que houve ameaças mútuas e que uma das jovens teria afirmado que Cleiton não teria coragem de atirar. Diante do confronto, ele sacou uma arma de fogo e efetuou um disparo na região da cabeça de uma das vítimas. A perícia científica e os exames de DNA nas ossadas deverão determinar oficialmente se o primeiro disparo atingiu Letícia ou Estela.
Em desespero com a cena, a sobrevivente tentou abandonar o automóvel e correr pela vegetação para escapar. Contudo, o agressor desembarcou da caminhonete e efetuou novos disparos contra ela. Após os assassinatos, Cleiton colocou ambos os corpos na caçamba do veículo e seguiu rumo à zona rural de Paraíso do Norte, onde depositou as vítimas a céu aberto em um setor de mata fechada antes de deixar o local.
A ocultação dos corpos e a rede de apoio na clandestinidade
Na tentativa de apagar vestígios imediatos, Cleiton passou pela região de Rondon para mandar lavar a caminhonete, veículo no qual testemunhas relataram ter visto manchas de sangue. Em seguida, dirigiu-se a Umuarama para procurar Michel dos Reis Costa, conhecido como “Magrão”, indivíduo com quem mantinha histórico prévio de envolvimento em roubos e tráfico de drogas. Cleiton surgiu sujo de terra, alegando falsamente ter tido problemas com a polícia e pedindo suporte para retornar a Cianorte.
Por volta das 16h00 do dia 21 de abril, os dois chegaram à residência de Cleiton, onde este reuniu mudas de roupas e ferramentas para escavação. A presença desses instrumentos levantou suspeitas em Michel. No trajeto de volta a Paraíso do Norte, por volta das 17h00, Cleiton admitiu o ocorrido, afirmando ter cometido “o maior erro da sua vida” ao matar as jovens e solicitando auxílio para ocultar os corpos.
Ambos cavaram uma cova rasa e enterraram as primas no canavial. Mais tarde, Cleiton levou sua caminhonete para o Paraguai com o objetivo de eliminar a prova material. Nos dias seguintes, iniciou uma fuga calculada: retornou brevemente a Cianorte, utilizou uma motocicleta em direção a Maringá e, em apenas três dias, transitou por cerca de 27 cidades, percorrendo aproximadamente 970 quilômetros. A polícia constatou a existência de uma rede de apoio composta por familiares, amigos e comparsas, apurando ainda sua ida a Pedro Juan Caballero no final de abril e suspeitas de ligação com comércio clandestino de armamentos.
A máscara levantada em um assalto rural e o cerco final
A caçada que parecia estagnada ganhou um rumo definitivo em agosto, quando uma série de roubos em propriedades agrícolas começou a ocorrer no interior paranaense, inclusive em São João do Ivaí. O bando utilizava veículos com placas adulteradas, como um Peugeot, um Corolla branco e uma picape Montana. Durante uma das ações criminosas, um dos suspeitos cometeu um descuido fatal: levantou a máscara de proteção, sendo reconhecido de imediato por um funcionário da fazenda, que associou seu rosto às amplas divulgações do caso das primas.
A Polícia Rodoviária Federal passou a monitorar os veículos envolvidos e identificou o Corolla transitando em Mandaguari, repassando os dados à Polícia Civil. Foi descoberto que Cleiton residia no local desde o fim de julho. Ao mesmo tempo, a caminhonete Montana foi rastreada até Umuarama sob a condução de Michel.
Na manhã de 21 de agosto, mandados judiciais foram cumpridos simultaneamente nas duas cidades. Em Mandaguari, Cleiton tentou fugir invadindo uma residência vizinha e fazendo moradores reféns. No confronto armado que se seguiu contra as equipes policiais, ele foi baleado e morreu no local. No esconderijo, foram apreendidos explosivos, armas e um carro clonado. Já em Umuarama, Michel foi detido portando armamento, colete balístico e outros materiais ilícitos.
A revelação do paradeiro e a busca por respostas definitivas
Sob custódia, Michel concordou em indicar aos investigadores o local exato onde as vítimas haviam sido enterradas quatro meses antes. Ele conduziu a equipe policial até a clareira em Paraíso do Norte, permitindo a exumação das duas ossadas pela Polícia Científica.
Segundo a investigação, a dinâmica aponta para um crime de ímpeto decorrente de discussões que saíram do controle, sem planejamento prévio. Cleiton possuía vínculo anterior mais próximo com Letícia — com quem costumava sair e arcar com despesas em eventos, havendo inclusive histórico de desentendimentos passados —, enquanto Estela participava daquele encontro pela primeira vez. A participação imputada a Michel até o momento restringe-se à ocultação de cadáver, cabendo ainda à apuração identificar eventuais terceiros que deram suporte logístico à fuga.
Com o encerramento das buscas, o processo ingressa na etapa pericial para consolidação das provas técnicas e confronto balístico. Para as famílias, o doloroso achado encerra o tormento da ausência e abre espaço para a despedida definitiva.