O Desfecho Doloroso de Cianorte: 121 Dias de Espera, a Queda do Foragido e a Revelação do Ponto Oculto
O Desfecho Doloroso de Cianorte: 121 Dias de Espera, a Queda do Foragido e a Revelação do Ponto Oculto
Uma única decisão no meio da madrugada, uma carona aceita sob a promessa de uma festa e um rastro que parecia ter desaparecido sem deixar vestígios nas estradas do noroeste do Paraná. Durante exatos cento e vinte e um dias, o silêncio e as dúvidas corroeram duas famílias de Cianorte que se recusavam a deixar morrer a última fresta de esperança. Esse tênue fio que sustentava mães e parentes, no entanto, foi confrontado de forma brutal nesta sexta-feira, vinte e um de agosto, quando três eventos simultâneos e decisivos alteraram para sempre o rumo de uma das investigações mais acompanhadas do estado.
Em Mandaguari, uma tentativa desesperada de fuga terminou com a morte do principal suspeito durante um cerco policial de alta tensão. Quase ao mesmo instante, a cerca de cento e cinquenta quilômetros dali, em Umuarama, um segundo envolvido foi capturado vivo, confessou a participação no episódio e conduziu os investigadores até uma área de mata fechada. Em uma cova rasa, oculta sob a vegetação de Paraíso do Norte, a busca encontrou o que a polícia aponta como os restos mortais das duas jovens.
O caso envolvendo as primas Letícia Garcia Mendes e Estela Dalva Melegari Almeida, ambas de apenas dezoito anos, chega a um momento divisor de águas. Trata-se de uma sucessão de eventos marcados por identidades falsas, redes de apoio financeiro na clandestinidade e um erro fatal que colocou fim a meses de impunidade, deixando em aberto respostas que apenas a perícia e os depoimentos futuros poderão esclarecer por completo.

O convite na madrugada e os últimos passos registrados em vídeo
Tudo teve início na madrugada de vinte e um de abril. Letícia e Estela residiam em Cianorte quando concordaram em ir a uma festa na cidade de Porto Rico. O convite partiu de Cleiton Antônio da Silva Cruz, de trinta e nove anos, um homem conhecido na região por apelidos como Dog Dog e Sagaz, e que já era procurado pela Justiça com mandado de prisão em aberto por roubo desde 2023.
Apenas Letícia mantinha contato prévio com ele, tendo saído juntos em ocasiões anteriores. Estela, por sua vez, aceitou o convite apenas para acompanhar a prima. Havia ainda uma terceira jovem, uma amiga próxima, que também seria convidada para o mesmo trajeto, mas que acabou decidindo não ir. A razão exata pela qual ela permaneceu na cidade não foi esclarecida, mas essa escolha isolada traçou uma linha definitiva entre o destino dela e o das duas primas.
As duas jovens embarcaram com Cleiton em uma caminhonete preta. Imagens registradas por câmeras de segurança de uma casa noturna em Paranavaí capturaram os três juntos, consolidando o que viria a ser o último registro visual público das jovens. Naquela mesma madrugada, Estela realizou sua última publicação em redes sociais. A partir daquele instante, nenhuma mensagem foi respondida e nenhum contato voltou a ser feito. Apenas dois dias depois a família formalizou o boletim de ocorrência por desaparecimento, um intervalo crucial em que os primeiros rastros começaram a esfriar.
A teia de disfarces e a busca que mobilizou forças internacionais
Ao constatar o sumiço repentino de Cleiton, a Polícia Civil do Paraná estabeleceu a linha principal de apuração como duplo homicídio logo no início dos trabalhos. No dia vinte e nove de abril, apenas oito dias após o sumiço, ele foi formalmente declarado foragido da Justiça. No entanto, a ausência de corpos mantinha aberta uma dolorosa lacuna. Enquanto não existisse confirmação física, os familiares se apegavam à possibilidade de que ambas estivessem vivas. A mãe de Letícia, Maria da Penha, chegou a declarar em entrevistas que a fé e a esperança diária eram as únicas coisas que a sustentavam a cada manhã.
Enquanto as buscas seguiam em campo, a dimensão da fuga de Cleiton surpreendeu as equipes de inteligência. A advogada das famílias, Josiane Monteiro, atuou diretamente para que o caso ganhasse alcance global, culminando na inclusão do nome do suspeito na lista de Difusão Vermelha da Interpol. Paralelamente, os investigadores descobriram uma estrutura calculada para manter o foragido invisível. Cleiton utilizava imóveis alugados em seu nome que geravam renda constante, garantindo sustento financeiro sem a necessidade de expor sua presença ao público. Durante a fuga, ele ainda adotou uma nova identidade, passando a se apresentar sob o nome falso de Davi.
Novas evidências foram sendo reunidas aos poucos. O aparelho celular da mãe do suspeito foi apreendido para perícia, assim como equipamentos eletrônicos e sistemas de monitoramento localizados em um sítio ligado à família. Outro dado concreto revelou que a caminhonete preta havia passado por Jussara, a dezoito quilômetros de Cianorte, logo após a madrugada do crime. Para consolidar a linha de premeditação, o próprio filho de Cleiton, de dezenove anos, prestou depoimento afirmando que o pai o havia procurado antes de sumir, declarando ter cometido um erro e que ficaria um longo período sem aparecer.
O desgaste das pistas falsas e o erro de cálculo no esconderijo
A trajetória de cento e vinte e um dias de apuração foi marcada por desgaste e incertezas. Em um dos episódios, mais de oitenta agentes de segurança foram mobilizados após uma denúncia anônima indicar que as vítimas estariam próximas à margem de um rio. Equipes inteiras foram deslocadas, mas a varredura terminou sem qualquer resultado, aprofundando o sofrimento das famílias a cada retorno com as mãos vazias. A região de Paraíso do Norte, contudo, já havia surgido em relatórios preliminares meses antes e chegou a ser alvo de buscas aéreas e terrestres, mas a área exata permanecia oculta.
A virada na investigação ocorreu devido a um deslize do próprio foragido. No dia sete de agosto, quase quatro meses após o desaparecimento, Cleiton teria integrado uma ação de roubo na cidade de São João do Ivaí. O movimento atípico reativou os alertas do setor de inteligência policial, que conseguiu identificar o imóvel onde ele se abrigava, na cidade de Mandaguari.
Em vez de uma incursão precipitada, os agentes mantiveram a residência sob vigilância discreta e contínua durante uma semana completa. O monitoramento silencioso, que aguardava o momento tático ideal para a abordagem, culminou na ação desencadeada na manhã de sexta-feira, vinte e um de agosto.
O confronto na cozinha e a confissão que abriu o solo
Ao perceber a chegada dos policiais civis, Cleiton tentou escapar pelos fundos da residência, mas encontrou o perímetro bloqueado. Em desespero, invadiu uma propriedade vizinha e rendeu o morador, que não possuía qualquer relação com os envolvidos. O dono da casa relatou posteriormente que o fugitivo arrombou a porta de entrada, correu até a pia da cozinha e apanhou um garfo, usando o objeto para ameaçá-lo e tentar garantir sua fuga. Durante a intervenção da equipe para conter a ameaça, o suspeito foi alvejado e morreu no local.
A morte de Cleiton eliminou a possibilidade de interrogá-lo formalmente em juízo sobre a real dinâmica e motivação dos fatos. No entanto, o desfecho ganhou novos contornos em Umuarama, onde os agentes prenderam um segundo envolvido, conhecido pelo apelido de Magrão. Diferente do comparsa, ele decidiu colaborar.
Magrão admitiu a coparticipação no delito e levou pessoalmente os policiais até o local exato onde as vítimas haviam sido enterradas, em uma área rural isolada próxima a Paraíso do Norte. Tratava-se de uma cova rasa, inacessível a partir da visão da estrada e estrategicamente escolhida para dificultar a localização visual. No ponto indicado, os peritos encontraram ossadas humanas acompanhadas de fragmentos de roupas e fios de cabelo compatíveis com as características das jovens.
O trabalho da perícia e as dúvidas que ainda permanecem
O secretário de Segurança Pública do Paraná, coronel Hudson Leôncio Teixeira, confirmou publicamente que os indícios materiais apontam para Letícia e Estela. Todos os restos mortais foram recolhidos e encaminhados ao Instituto Médico-Legal para exames periciais e testes de confronto genético pela Polícia Científica, etapa necessária para a liberação oficial dos corpos aos familiares.
Apesar da localização das ossadas, lacunas cruciais continuam em aberto. A principal linha apuratória busca entender detalhadamente a sucessão cronológica dos acontecimentos após a saída da boate em Paranavaí. Existe a suspeita de que as duas jovens tenham sido mantidas em regime de cativeiro por algum tempo antes de serem mortas, o que alteraria a linha do tempo do caso para além daquela madrugada de abril. Como principal testemunha e participante sob custódia, Magrão passa a ser a chave central dos próximos depoimentos para determinar o grau de responsabilidade individual, o motivo definitivo do crime e as circunstâncias exatas que tiraram a vida de duas jovens de dezoito anos.