O desfecho de quatro meses de angústia: o que a polícia descobriu sobre o caso das primas desaparecidas no Paraná
O desfecho de quatro meses de angústia: o que a polícia descobriu sobre o caso das primas desaparecidas no Paraná
Na madrugada de 21 de abril, o desaparecimento de Letícia e Estela deu início a um dos episódios mais tensos e complexos da crônica policial recente no estado do Paraná. O que começou com a busca desesperada de duas famílias por respostas transformou-se em uma ampla operação de inteligência, perseguições entre cidades, confrontos armados e a descoberta de uma trama de violência que cruzou fronteiras estaduais e internacionais. Quatro meses após as jovens serem vistas pela última vez, peças cruciais começaram a se encaixar, revelando detalhes de uma sequência trágica e as circunstâncias que levaram ao encerramento de um mistério doloroso.
As últimas imagens registradas com vida mostravam as duas primas chegando a uma casa noturna no município de Paranavaí. Dentro do estabelecimento, o clima aparentava tranquilidade em um primeiro momento. No entanto, análises detalhadas das câmeras de segurança revelaram que uma divergência já havia se instalado entre as vítimas e Cleiton, indivíduo conhecido no meio policial pelo codinome “Cleitinho do Pó”. As gravações apontaram que ele apresentava um comportamento transtornado, motivado por desentendimentos que a Polícia Civil classificou preliminarmente como questões envolvendo relacionamento, valores em dinheiro e desacertos comerciais.
A investigação conduzida pelo delegado Luís Fernando Alves Silva apontou que o grupo deixou a boate e embarcou em uma caminhonete Hilux. Dentro do veículo, a discussão ganhou proporções ainda mais graves. Os dados recolhidos pelas equipes indicam uma escalada de agressões verbais e ameaças mútuas de morte, ocorrida no intervalo estimado entre 4h e 4h40 daquela madrugada. Conforme as apurações policiais, a situação culminou em um homicídio de ímpeto: sem planejamento prévio aparente, o agressor sacou uma arma e ordenou que as ocupantes desembarcassem.
Uma das vítimas, que estava no banco traseiro, teria enfrentado a ordem armada e acabou sendo atingida no rosto por um disparo. A outra jovem tentou fugir a pé, correndo desesperadamente, mas foi perseguida e alvejada com múltiplos tiros. Ambas morreram no local da abordagem.

A primeira ocultação e a busca por cumplicidade
Logo após os disparos, o autor colocou os corpos das duas primas na caçamba do veículo e seguiu pela rodovia estadual em direção à região de Paraíso do Norte. Ao alcançar uma área rural cercada por canaviais, entrou em um trecho de mata fechada e realizou o primeiro descarte dos corpos, deixando-os a céu aberto no meio da vegetação.
Em seguida, o homem partiu em direção ao município de Rondon. Elementos levantados pelos investigadores indicam que ele realizou a lavagem da caminhonete para tentar eliminar vestígios evidentes do crime, ocultou o automóvel temporariamente e seguiu viagem rumo a Umuarama. Foi nessa cidade que ele fez contato com Michel dos Reis Costa, conhecido como “Michel Magrão”, parceiro com quem já compartilhava histórico delitivo.
Ao encontrar o cúmplice na tarde de 21 de abril, Cleiton apresentava roupas sujas de terra e justificou seu estado afirmando apenas que enfrentava problemas com a polícia e que precisava de auxílio para recuperar a caminhonete deixada na área rural. Por volta das 16h, os dois seguiram para uma chácara alugada em Cianorte, onde o suspeito recolheu pertences pessoais, roupas e ferramentas, incluindo pás.
Durante o trajeto de volta para a região de Paraíso do Norte, a gravidade da situação foi revelada a Michel. O próprio autor admitiu o que havia feito e solicitou apoio direto para enterrar as vítimas. Por volta das 22h, a dupla iniciou a escavação de uma cova rasa na mata fechada. O trabalho manual durou cerca de quatro horas. Juntos, carregaram os corpos e os sepultaram no local, encerrando a tentativa de ocultação antes de se separarem novamente.
Uma fuga de quase mil quilômetros e rotas internacionais
A partir da madrugada de 22 de abril, a prioridade do executor passou a ser a destruição de rastros e o desaparecimento do veículo utilizado no crime. A Hilux foi conduzida em direção ao Paraguai. Paralelamente, em 23 de abril, o suspeito retornou brevemente a Cianorte por volta das 9h, desligou o aparelho telefônico celular que utilizava e adquiriu uma motocicleta para dar continuidade ao deslocamento. Foi exatamente nessa mesma data que as mães das vítimas compareceram às autoridades policiais para registrar formalmente o boletim de ocorrência de desaparecimento.
O mandado de prisão preventiva contra Cleiton foi expedido no dia 29 de abril pelo Poder Judiciário. A inteligência policial reconstruiu o trajeto percorrido pelo foragido em seus primeiros três dias de fuga: ele atravessou aproximadamente 27 municípios e percorreu uma distância calculada entre 900 e 970 quilômetros.
Em 30 de abril, foi identificado na região de fronteira em Pedro Juan Caballero, onde buscava articular apoio logístico e negociar armamentos. As investigações comprovaram a existência de uma rede de suporte estruturada para mantê-lo fora do alcance da Justiça. Entre as pessoas envolvidas estava sua ex-companheira, Caroline Alves da Silva, de 23 anos. A polícia constatou que o investigado movimentava recursos financeiros por meio de contas bancárias registradas no nome dela.
Em 15 de maio, agentes da Polícia Civil do Paraná se deslocaram até o município de Paraguaçu Paulista, no interior do estado de São Paulo, onde cumpriram um mandado de prisão temporária contra Caroline e realizaram buscas e apreensões em três endereços associados à investigada. Celulares foram retidos e encaminhados para a perícia técnica. Enquanto isso, equipes de busca percorriam áreas de mata e canaviais em Paranavaí, São João do Caiuá, Paraíso do Norte e arredores de usinas da região, enfrentando grandes dificuldades de localização do ponto exato onde as vítimas haviam sido enterradas.
A série de assaltos rurais e o cerco policial em Mandaguari
Mesmo foragido e com ordens judiciais em aberto, o homem manteve atuação criminosa contínua no interior paranaense. A polícia passou a notar um padrão de assaltos violentos a propriedades rurais e fazendas nas regiões de Apucarana, Mandaguari e Jandaia do Sul.
No dia 7 de agosto, durante uma invasão a um sítio em São João do Ivaí com objetivo de subtrair joias, o criminoso levantou a balaclava que encobria seu rosto em determinado instante da abordagem. Uma das vítimas rendidas o reconheceu visualmente como o suspeito procurado pelo desaparecimento das jovens. Após o roubo, ele ateou fogo em um dos veículos utilizados na fuga, gerando um novo alerta para o setor de inteligência.
Nos assaltos subsequentes, veículos com placas adulteradas e clonadas começaram a ser monitorados, incluindo um automóvel Corolla branco e uma picape Montana. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) conseguiu rastrear a circulação do Corolla no perímetro urbano de Mandaguari e repassou os dados para a Polícia Civil, que identificou o endereço exato onde o foragido residia clandestinamente desde o dia 30 de julho.
Simultaneamente, a PRF interceptou a picape Montana na região de Umuarama e identificou que o condutor era Michel Magrão, que utilizava perfis falsos em plataformas digitais contendo sua própria foto. Contra Michel constavam três mandados de prisão pendentes, expedidos por roubo, tráfico de drogas e envolvimento no desaparecimento de Letícia e Estela.
Durante as campanas em Mandaguari, os policiais constataram que uma mulher frequentava assiduamente o imóvel. Tratava-se da nova companheira de Cleiton, que passou a ser monitorada no local. Com a confirmação da presença do suspeito, uma operação tática foi desenhada para a captura.
O confronto matinal e a intervenção de equipes especiais
Na manhã de 21 de agosto — data que marcava exatamente quatro meses desde o desaparecimento inicial —, equipes de elite da Polícia Civil, incluindo o grupo Tático Integrado de Grupos de Repressão Especial (TIGRE), cercaram o imóvel por volta das 5h da manhã. Ao perceber a movimentação policial, o investigado recusou qualquer tentativa de rendição e fugiu pelos fundos da residência, iniciando uma fuga pelos telhados e muros vizinhos.
O avanço do suspeito foi monitorado em tempo real por um drone com sensor térmico operado pelas forças de segurança. Durante a tentativa de escape, ele forçou a entrada no quintal de uma casa vizinha, pertencente ao empresário Adriano Donizete de Oliveira, dono de uma fábrica de estofados local, que se preparava para o trabalho diário.
O invasor conseguiu entrar no imóvel e, armado com um garfo de churrasco, rendeu o morador e o trancou dentro de um banheiro minúsculo, utilizando-o como escudo humano. Agentes da equipe TIGRE entraram na residência e deram ordens verbais para que ele soltasse o objeto pontiagudo e liberasse o refém. Diante da recusa e da constatação de risco iminente à vida da vítima rendida, os policiais efetuaram três disparos.
O criminoso morreu no interior do cômodo. O empresário foi resgatado ileso fisicamente, embora em forte estado de choque emocional. Na casa onde o suspeito se escondia, as autoridades apreenderam um automóvel com indícios de clonagem, armas de fogo, munições de diversos calibres, coletes balísticos e materiais explosivos, que demandaram a intervenção de esquadrões especializados para detonação controlada em área segura. A mulher presente no imóvel foi detida, sendo inicialmente autuada por receptação e investigada por favorecimento pessoal e associação criminosa.
A quebra do silêncio e a localização na mata fechada
Praticamente no mesmo horário em que o confronto ocorria em Mandaguari, outra equipe de policiais civis efetuava a prisão de Michel Magrão em Umuarama, apreendendo armas e outros materiais ilícitos em seu poder. Ciente da gravidade de sua situação jurídica e do encerramento das atividades do comparsa, o detido admitiu formalmente sua participação no transporte e na ocultação dos cadáveres.
Michel concordou em guiar os agentes até a área rural de Paraíso do Norte. Devido à densidade da mata e às alterações naturais da vegetação após quatro meses do ocorrido, as equipes precisaram abrir picadas na mata fechada. Conforme avançavam, o odor característico facilitou a delimitação do ponto exato onde a terra havia sido revolvida em abril.
A escavação minuciosa revelou restos mortais enterrados em cova rasa. A área foi imediatamente isolada para os trabalhos da Polícia Científica do Paraná, responsável por recolher os vestígios biológicos e submetê-los a exames genéticos e antropológicos de DNA para a identificação pericial formal de Letícia e Estela.
A localização dos corpos põe fim a um estado de incerteza que atormentava os familiares das duas jovens. Embora o laudo científico represente a confirmação de uma perda irreparável, o encerramento do desaparecimento possibilita que os parentes realizem as cerimônias fúnebres e encerrem o ciclo de angústia imposto pela falta de respostas. O caso agora segue em fase de finalização dos inquéritos periciais e judiciais para a devida responsabilização de todos os envolvidos que prestaram apoio à rota de fuga e à ocultação do crime.