Guerra de Facções no Rio: Bastidores do Aniversário de Neves no Dendê e a Arriscada M do ‘Tropa do Rex’ no Muquiço
Guerra de Facções no Rio: Bastidores do Aniversário de Neves no Dendê e a Arriscada M do ‘Tropa do Rex’ no Muquiço
O cenário do crime organizado na cidade do Rio de Janeiro é marcado por dinâmicas complexas, rivalidades históricas e uma busca constante pelo controle territorial. Nas últimas semanas, dois episódios distintos, mas interligados pela rivalidade entre o Terceiro Comando Puro (TCP) e o Comando Vermelho (CV), voltaram a chamar a atenção e a movimentar os bastidores das comunidades cariocas. De um lado, a comemoração do aniversário de Mário Henrique Paranhos de Oliveira, o “Neves” ou “Dançarino”, liderança do TCP na Ilha do Governador. Do outro, uma incursão ousada promovida pela chamada “Tropa do Rex”, oriunda do Complexo do Chapadão, contra os acessos da comunidade do Muquiço.
Ambos os fatos revelam não apenas a movimentação tática dos grupos armados nas ruas e acessos das favelas, mas também a importância do uso de símbolos, músicas, vídeos e postagens em redes sociais como ferramentas de provocação e afirmação de poder perante os rivais.

O CENÁRIO NA ILHA DO GOVERNADOR
A comunidade do Dendê, localizada na Ilha do Governador, figura há anos como um dos principais pontos sob domínio da facção Terceiro Comando Puro na região. No comando das operações locais está Mário Henrique Paranhos de Oliveira, popularmente conhecido pelo apelido de Neves ou Dançarino do Dendê. Sob a liderança de Neves, a Tropa do Dendê tem realizado recorrentes investidas contra territórios vizinhos controlados pela facção rival, o Comando Vermelho.
Entre as áreas afetadas por essas incursões está a comunidade do Barbante, também situada na Ilha do Governador. No final do mês de julho, a equipe comandada por Neves realizou uma investida tática no Barbante — ação conhecida no meio criminal como “baque” —, obtendo êxito ao apreender duas pistolas pertencentes aos integrantes do CV.
O resultado dessa operação foi celebrado internamente pela facção como um feito estratégico significativo. Registros em vídeo que circularam após a ação mostram integrantes da tropa comemorando a apreensão do armamento e enviando recados diretos aos rivais. Em tom de provocação, os homens afirmaram que a resposta a qualquer tentativa de avanço rival seria proporcionalmente superior, destacando que para cada investida sofrida, o grupo retaliaria com múltiplas incursões. A recuperação do armamento e o sucesso da incursão no Barbante serviram como antecedente para as comemorações que viriam a seguir.
DESENVOLVIMENTO: O ANIVERSÁRIO DE NEVES E O DETALHE INESPERADO
No dia 1º de agosto, Mário Henrique Paranhos de Oliveira comemorou seu aniversário no Complexo do Dendê. A data foi marcada por intensa queima de fogos de artifício na Ilha do Governador, assinalando a celebração da liderança local. Contudo, o elemento que mais chamou a atenção e gerou repercussão entre observadores e usuários das redes sociais foi um registro em vídeo no qual Neves aparece comemorando a data ao som de um funk especificamente associado ao Comando Vermelho.
Na gravação, a trilha sonora reproduzida faz menção explícita a Maromba, apontado como uma das lideranças do Complexo do Lins, área sob o domínio do CV. O fato de o chefe de uma comunidade controlada pelo TCP festejar ouvindo uma composição associada à facção rival gerou surpresa e tornou-se ponto central de discussões.
Enquanto a música ecoava, integrantes do grupo entoavam cantos de exaltação ao “Terceiro”, referindo-se à “Equipe do Dança” e proferindo ameaças diretas contra a facção adversária, afirmando que a ordem era confrontar os rivais na madrugada. A sobreposição de um funk do CV em meio às celebrações e ameaças de uma liderança do TCP destacou-se como um momento singular na dinâmica de provocações entre os grupos.
A TENSÃO NO MUQUIÇO: A PRISÃO DE CORONEL E OS PLANOS DE REX
Paralelamente aos acontecimentos na Ilha do Governador, a tensão se elevou em outra região da cidade, envolvendo a comunidade do Muquiço. A estrutura de comando do Muquiço sofreu um impacto significativo em junho, quando o principal chefe da comunidade, conhecido como Coronel, foi localizado e preso pelas forças policiais em um hospital no bairro de Acari, onde realizava tratamento para uma condição de saúde.
A captura de Coronel abriu uma brecha na estabilidade do controle territorial da região. A partir da confirmação da prisão, lideranças do Comando Vermelho iniciaram articulações para tentar tomar a comunidade do TCP. Integrantes conhecidos como Rex, oriundo do Gogó de Guadalupe (comunidade integrante do Complexo do Chapadão), e “W”, do Chapadão, passaram a planejar investidas no Muquiço. Para viabilizar a operação, Rex obteve apoio de homens da Palmeirinha e do chamado “Bonde do Bod”.
Diante da ausência de Coronel, a responsabilidade pela supervisão e defesa do Muquiço ficou a cargo do indivíduo conhecido como Grisalho. O nome de Grisalho ganhou projeção recente após o vazamento de um vídeo gravado durante um evento festivo no Cesarinho, na Zona Oeste. Nas imagens, o cantor MC Robuzinho aparece mandando saudações a Grisalho e fazendo menções que articulam o alinhamento entre o TCP e grupos paramilitares atuantes na Zona Oeste, com ofensas e ameaças explícitas ao Pandinha Vermelho e àqueles que mantêm aliança com o CV.
O BAQUE DA TROPA DO REX E A REAÇÃO DO TCP
A consolidação do plano idealizado pela Tropa do Rex ocorreu na noite de ontem, quando homens armados vinculados ao Gogó de Guadalupe e ao Complexo do Chapadão se deslocaram até os acessos do Muquiço. No local, a tropa registrou a presença e a incursão nos limites da comunidade, demonstrando a intenção contínua da facção rival em expulsar o Terceiro Comando Puro e assumir o controle do território.
Apesar da movimentação ofensiva, a Tropa do Rex efetuou o recuo na manhã seguinte. Pouco após a retirada dos rivais, a resposta dos defensores do Muquiço veio por meio das redes sociais. Um integrante ligado à tropa de Coronel publicou a foto de um fuzil acompanhada de uma legenda provocativa. O texto indicava que o armamento exibido havia sido tomado de um integrante oriundo do Gogó durante um baque realizado pelo TCP contra o Comando Vermelho, sendo ironicamente classificado como o “troféu do Rex”.
CONCLUSÃO E REFLEXÃO
As recentes movimentações na Ilha do Governador e no Muquiço evidenciam um cenário contínuo de disputas táticas e psicológicas entre o Terceiro Comando Puro e o Comando Vermelho. De celebrações pontuadas por detalhes contraditórios a incursões planejadas aproveitando momentos de fragilidade de lideranças, a dinâmica do crime organizado no Rio de Janeiro demonstra estar em constante transformação.
A tentativa de avanço da Tropa do Rex no Muquiço e as retaliações imediatas do TCP deixam o cenário em aberto: até que ponto a rearticulação de alianças e os ataques pontuais alterarão o domínio das comunidades envolvidas? Como as autoridades e a própria estrutura das facções reagirão aos desdobramentos dessas disputas pelo poder territorial?