Emboscada Planejada, Fuga Cinematográfica e a Queda de uma Família Suspeita no Interior Paulista
Emboscada Planejada, Fuga Cinematográfica e a Queda de uma Família Suspeita no Interior Paulista
Drones com sensores térmicos cortavam a escuridão da zona rural de Rio das Pedras, no interior de São Paulo, quando vultos tentaram uma última e desesperada fuga pela vegetação densa. Naquele instante, quase um ano de investigações intensas, buscas que mobilizaram a Interpol e a angústia de famílias em busca de justiça convergiam para um cerco implacável. Os homens capturados naquela operação não eram foragidos comuns: eram apontados pelas autoridades policiais como os arquitetos de uma das emboscadas mais chocantes e calculadas registradas no interior do Paraná.
A operação coordenada pela Polícia Civil encerrou um período de incertezas que começou no dia 4 de agosto de 2025, quando quatro homens deixaram o estado de São Paulo com a intenção de cobrar uma dívida de R$ 255.000. O que se desenhou a partir daquele deslocamento, no entanto, transformou uma reunião comercial de cobrança em um cenário estarrecedor de quádruplo homicídio qualificado, ocultação de cadáver e conexões criminosas complexas.

A Viagem até o Paraná e a Negociação sem Acordo
A origem de todo o conflito reside em uma transação imobiliária rural. Alencar Gonçalves de Souza alegava ter sido prejudicado após a venda de uma propriedade para integrantes da família Buscariolo. Para tentar reaver o montante de R$ 255.000 — referente a dez notas promissórias que não haviam sido quitadas —, Alencar contratou três cobradores na cidade de São José do Rio Preto, interior de São Paulo: Robishlei Irnani de Oliveira, Rafael Juliano Marascaus e Diego Henrique Afonso. O acordo previa que o trio receberia metade do valor efetivamente recuperado.
No dia 5 de agosto, o grupo se reuniu em Icaraíma, no interior do Paraná, diretamente com os devedores. Do outro lado da mesa estava a família Buscariolo: o patriarca Antônio e seus filhos. Durante a primeira conversa, os devedores chegaram a oferecer um imóvel localizado na área urbana da cidade para liquidar o débito pendente. Alencar, contudo, recusou a proposta, exigindo que o pagamento fosse realizado integralmente em dinheiro.
Por volta do meio-dia daquela data, os quatro homens estabeleceram o último contato com seus familiares. Logo após essas mensagens, as vítimas simplesmente desapareceram sem deixar vestígios imediatos, mergulhando amigos e parentes em um clima de desespero e apreensão.
Mensagens Reveladoras e a Falsa Sensação de Segurança
Antes do sumiço definitivo, áudios gravados por Diego Henrique Afonso e trocados com sua esposa e com Alencar revelaram que o clima nos bastidores era de crescente tensão. Em mensagens enviadas no intervalo entre o primeiro encontro e a emboscada fatal, Diego comentou abertamente sobre o perfil arriscado das pessoas com quem estavam negociando na região, mencionando desconfianças sobre atividades ilícitas e tráfico de cigarros.
Alencar também manifestou receio e preocupação, relatando em áudio que só descobriu a real reputação dos envolvidos após avançar nas tratativas da venda do sítio. Em resposta, Diego tentou acalmar o contratante com base em sua experiência profissional, enfatizando que acumulava 25 anos de atuação no setor de cobranças em diversos estados e que uma retaliação violenta nunca havia ocorrido em sua carreira.
Essa tentativa de tranquilização, no entanto, colidiu com a armadilha que já estava montada. Sem notícias do grupo, a esposa de Robishlei registrou formalmente o boletim de ocorrência por desaparecimento na polícia paulista no dia 6 de agosto, dando início imediato às apurações.
O Depoimento Inicial e a Fuga Estratégica
Assim que as investigações começaram em Icaraíma, a polícia convocou Antônio e seu filho Paulo Ricardo Costa para prestarem depoimento na delegacia, visto que estavam entre as últimas pessoas a ter contato com os quatro desaparecidos. No interrogatório, pai e filho mantiveram postura de aparente surpresa, negaram qualquer ato ilícito e declararam aos agentes que a dívida em questão pertencia a outros familiares.
A versão apresentada garantiu aos dois o tempo estritamente necessário para traçar uma rota de fuga. Logo no dia seguinte, percebendo o avanço das apurações policiais e o cerco se fechando, os integrantes da família fugiram da cidade paranaense, reforçando as suspeitas das autoridades sobre o envolvimento direto deles no caso.
Investigações complementares indicaram posteriormente que a família contou com o apoio de terceiros durante a fuga de Icaraíma. A suspeita de facilitação atingiu a própria estrutura policial local, culminando no afastamento de dois policiais civis e no cumprimento de mandados de busca com apreensão de armas, celulares e equipamentos eletrônicos na residência de um investigador.
O Achado Macabro no Bunker Subterrâneo
Foram necessários 44 dias de buscas ininterruptas até que a polícia localizasse vestígios materiais no distrito de Vila Rica do Ivaí. Em uma área de mata fechada, os policiais encontraram o veículo utilizado pelas vítimas completamente enterrado. A cerca de 500 metros do automóvel, as equipes descobriram uma vala clandestina profunda — chamada pelos investigadores de “bunker” —, onde estavam os corpos dos quatro homens.
Os exames periciais constataram sinais evidentes de tortura e múltiplas marcas de disparos de arma de fogo. A perícia técnica identificou o emprego de cinco armas distintas, englobando pistolas e fuzis de diversos calibres, além de indícios claros de que os autores tentaram limpar e alterar a cena do crime após a execução.
A reconstituição técnica conduzida pelos investigadores apontou que o quarteto foi atraído para uma emboscada minuciosamente planejada antes mesmo do primeiro encontro daquele dia. Cerca de meia hora após o último contato com as famílias, quando retornaram à propriedade rural, os homens foram surpreendidos por atiradores estrategicamente posicionados em pelo menos três pontos do terreno.
Negócios Ilícitos e a Caçada Internacional
Conforme as apurações avançavam, o delegado Gabriel Menezes detalhou haver fortes indícios de que o grupo familiar mantinha ligações com o contrabando de cigarros e o tráfico de drogas ligado ao crime organizado. O rastreamento de transações financeiras apontou que Carlos Eduardo Buscariolo, um dos filhos de Antônio, exercia papel central na administração dos negócios ilícitos.
Carlos Eduardo foi o primeiro a ser capturado pela polícia em São Bernardo do Campo, em São Paulo, possuindo mandado de prisão por homicídio e envolvimento com tráfico. Diante do perigo real de fuga dos demais investigados para fora do país, a Polícia Civil do Paraná solicitou a inserção dos nomes de Antônio e Paulo Ricardo na lista de Difusão Vermelha da Interpol.
A Queda no Esconderijo e a Resposta da Justiça
A localização dos foragidos ocorreu após intenso trabalho de inteligência policial e monitoramento de campo no interior de São Paulo. Equipes especializadas do grupo Tigre, unidade de elite da Polícia Civil do Paraná, identificaram que Antônio e Paulo Ricardo estavam homiziados em um sítio na zona rural de Rio das Pedras.
Na terça-feira, dia 18, os policiais cercaram a propriedade para cumprir os mandados judiciais de prisão e de busca e apreensão. Ao notar a aproximação das viaturas, a dupla tentou correr para a mata vizinha, mas foi neutralizada com o auxílio de drones termais e do posicionamento estratégico dos agentes no perímetro. Em ação simultânea, o outro filho, Carlos Henrique Buscariolo, foi preso no município vizinho de Santa Bárbara d’Oeste.
Com as prisões temporárias devidamente homologadas pelo Poder Judiciário paulista na quarta-feira, dia 19, os detidos aguardam transferência para o sistema penitenciário do Paraná. Os membros da família responderão perante a Justiça por quádruplo homicídio qualificado, ocultação de cadáver e associação criminosa, encerrando um dos episódios policiais mais dramáticos e investigados dos últimos anos.