Do Golpe com Cartões à Liderança do Escritório do Crime: A Ascensão de Mad, o Executor “Caxias” do Rio de Janeiro
Do Golpe com Cartões à Liderança do Escritório do Crime: A Ascensão de Mad, o Executor “Caxias” do Rio de Janeiro
No submundo do crime organizado carioca, a violência raramente é fruto do acaso. Por trás das execuções de grande repercussão que estampam as capas dos jornais, existe uma engrenagem meticulosa, calculada e silenciosa. No topo dessa cadeia operacional, uma figura ganhou destaque nos últimos anos pela precisão quase cirúrgica com que executava suas missões: Leonardo Gouveia da Silva, conhecido como “Mad” — apelido derivado da palavra em inglês para “louco”.
Apontado pelas investigações da Polícia Civil e do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) como um dos matadores mais habilidosos, inteligentes e eficientes da história recente da pistolagem carioca, Mad alcançou um nível de frieza e método que lhe rendeu o respeito de figuras sombrias do crime, como o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega. Classificado por investigadores como um verdadeiro “Caxias da morte”, Leonardo e seu irmão, Leandro Gouveia da Silva, o “Toinhão”, transformaram a eliminação de alvos encomendados em uma operação de alta inteligência e logística.
Para compreender como esse jovem da Zona Norte do Rio de Janeiro se tornou o chefe da segunda geração do temido “Escritório do Crime”, é preciso analisar uma trajetória marcada por disciplina criminal, uso intensivo de tecnologia e um monitoramento obsessivo de suas vítimas.

Das Origens no Campinho aos Serviços “Freelancer”
A história de Leonardo Gouveia da Silva começa no bairro do Campinho, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A região, historicamente dominada por grupos paramilitares, serviu de pano de fundo para a formação do jovem no universo ilícito. O Campinho funcionava como um ponto estratégico, onde a milícia local mantinha articulações consolidadas com outros grupos armados e agentes do mercado ilegal.
A entrada de Mad no crime não ocorreu diretamente pelas armas. Inicialmente, ele atuava na clonagem de cartões de crédito e na aplicação de pequenos golpes financeiros na região. No entanto, sua capacidade intelectual, aliada a um perfil extremamente articulado e frio, fez com que ele subisse rapidamente na hierarquia do grupo paramilitar local.
Conforme ganhava espaço, Mad migrou do estelionato para os crimes de sangue, passando a atuar como pistoleiro “freelancer”. Nessa primeira fase, suas ações visavam alvos de menor expressão econômica, como pequenos comerciantes locais e adversários de disputas territoriais de menor porte. Contudo, no mercado da pistolagem, a ascensão financeira e operacional depende da conquista de um padrinho influente. Foi nesse cenário de prestação de serviços independentes que a trajetória de Mad cruzou com a de Adriano da Nóbrega.
A Conexão com Adriano da Nóbrega e a Criação do “Escritório do Crime”
O grupo de matadores de aluguel que mais tarde ganharia notoriedade nacional começou a ser desenhado sob a liderança de Adriano da Nóbrega e do ex-policial Antônio Eugênio de Souza Freitas, conhecido como “Batoré”. O consórcio prestava serviços para contraventores, milicianos e grandes chefões do crime. Batoré era a principal força letal do grupo na primeira fase, porém, segundo investigadores, carecia de visão tática e planejamento refinado.
Com a prisão de Batoré e sua posterior morte durante uma perseguição policial, Adriano da Nóbrega viu-se na obrigação de recrutar um novo perfil de executor. Ele buscava alguém que combinasse disposição operacional com baixa visibilidade perante as autoridades. Mad preenchia perfeitamente os requisitos: não possuía ficha criminal, era desconhecido da imprensa e dominava as dinâmicas operacionais da milícia.
De acordo com relatos jornalísticos da época, partiu do próprio Mad o termo “Escritório do Crime” para denominar o consórcio de homicídios encomendados. Ao ser integrado à quadrilha, ele trouxe consigo seu irmão mais velho, Leandro Gouveia da Silva, o “Toinhão”. Enquanto Mad planejava e coordenava as ações, Toinhão atuava como o motorista oficial e homem de confiança, responsável pela logística de fuga e pelas campanas.
O Primeiro Grande Alvo: A Execução de Aílton Escafura
A estreia de Mad na alta cúpula do Escritório do Crime ocorreu com a execução de Aílton Escafura, filho do contraventor José Caruzzo Escafura, o “Peruinha”. Na madrugada de 14 de julho de 2017, Escafura e sua namorada, a soldado da Polícia Militar Franciene de Souza, estavam hospedados em um hotel na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, quando o quarto foi invadido por homens encapuzados e fortemente armados. O casal foi morto com pelo menos dez disparos.
A autoria do crime permaneceu sob mistério por anos até que a quebra de dados digitais revelou a metodologia do grupo. As investigações do Ministério Público apontaram que Mad realizou pesquisas no Google pelo nome de Aílton Escafura quatro meses antes do homicídio. Além disso, dois meses antes do ataque, ele utilizou aplicativos de mapas para traçar as rotas de acesso ao hotel Transamérica, local onde a vítima mantinha residência fixa.
Os dados revelaram ainda que Toinhão buscou imagens atualizadas do alvo na véspera do crime e, no dia seguinte à execução, pesquisou matérias jornalísticas sobre o assassinato, prática adotada pelo grupo para confirmar a eficácia do serviço prestado aos contratantes.
A Metodologia do “Caxias da Morte”: Dossiês, Drones e Falsas Identidades
A atuação de Leonardo Gouveia da Silva consolidou um novo padrão de operação no mercado dos assassinatos por encomenda. As investigações demonstraram que o Escritório do Crime cobrava valores elevados devido ao grau de sofisticação e à eliminação de vestígios operacionais.
Para escapar da vigilância policial, Mad adotava procedimentos rigorosos de contrainteligência:
Gestão de Identidades Digitais: Mantinha nove contas de e-mail distintas para fragmentar a comunicação e evitar o rastreamento IP.
Disciplina de Comunicação: Evitava o uso de telefones celulares convencionais durante o período de planejamento das ações.
Logística de Veículos: Utilizava exclusivamente automóveis roubados com placas clonadas. Após o crime, a estrutura ilícita garantia a destruição das placas e o rápido descarte ou adulteração dos veículos.
Vigilância Meticulosa: Os alvos eram monitorados 24 horas por dia, por meses a fio. Mad posicionava olheiros em carros descaracterizados para filmar, fotografar e mapear a rotina das vítimas.
Em determinadas operações, o grupo recorreu ao uso de drones para mapear pontos cegos de edifícios e chegou a alugar pequenas embarcações, com integrantes simulando a prática de pesca, apenas para observar a movimentação de alvos à beira-mar ou em áreas de lagoa.
Nada era deixado ao acaso: a equipe analisava a resistência de portas e portões, os horários exatos de deslocamento de familiares, o tempo de abertura de garagens e a dinâmica dos seguranças das vítimas. O objetivo era garantir que a abordagem durasse poucos segundos, sem dar margem para reação ou identificação.
O Crime do Dia 14 de Março de 2018 e o Caso Marcelo Diotti
O nome de Mad e do Escritório do Crime entrou definitivamente no radar dos órgãos de inteligência da Segurança Pública a partir de 14 de março de 2018. Naquela noite, a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram assassinados no centro do Rio. A gravidade do atentado fez com que o Ministério Público e a Polícia Civil voltassem suas atenções para todos os grupos de exterminadores atuantes no estado.
Embora tenha sido intimado a prestar depoimento na fase de apuração sobre o caso Marielle, a investigação concluiu que Mad não participou daquele homicídio específico. No mesmo dia e praticamente no mesmo horário em que a parlamentar era atacada, o Escritório do Crime executava outra missão de alta complexidade na Barra da Tijuca: a morte do contraventor Marcelo Diotti.
Diotti era um antigo rival de Adriano da Nóbrega. Tempos antes, ele havia tentado contratar pistoleiros para eliminar a liderança do Escritório do Crime, mas o plano vazou. Em uma tentativa anterior de vingança, Adriano e Mad chegaram a fazer campana atrás da residência de Diotti com um fuzil de alta precisão do tipo sniper. O plano de disparar contra o alvo durante sua festa de aniversário foi suspenso apenas porque Diotti estava abraçado a Wellington Silva Braga, o “Ecko”, então chefe da maior milícia do estado. Para evitar um conflito de grandes proporções com a facção paramilitar de Ecko, a ação foi adiada.
Após alinhamentos diretos entre Adriano e Ecko, o conflito pessoal foi liberado. Na noite de 14 de março de 2018, Diotti foi atingido por múltiplos disparos ao sair de um restaurante na Barra da Tijuca, confirmando a atuação de Mad e Toinhão na operação.
A Herança da Bicho e a Liderança Definitiva
Com a morte de Adriano da Nóbrega em uma operação policial na Bahia, em fevereiro de 2020, o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (GAECO) do MPRJ apontou que Leonardo Gouveia da Silva, o Mad, assumiu o comando supremo do Escritório do Crime.
Na nova função, Mad passou a gerenciar diretamente os contratos, negociar valores com os mandantes e coordenar a distribuição de tarefas entre os executores. Sob sua liderança, o grupo envolveu-se nas disputas sangrentas pelo espólio da família Garcia, tradicional oligarquia do jogo do bicho no Rio de Janeiro.
Em janeiro de 2022, os irmãos Mad e Toinhão foram denunciados pela execução de Alcebíades Paes Garcia, o “Bid”, filho do contraventor Miro Garcia. Bid foi morto no final de fevereiro de 2020, ao retornar do Sambódromo da Marquês de Sapucaí. A van em que ele estava foi cercada na entrada de um condomínio na Barra da Tijuca, e a vítima foi atingida por dezenas de disparos. As investigações indicam que a morte foi encomendada por Bernardo Bello, figura central nas disputas pelo controle da contravenção carioca.
A Queda e o Legado de Investigação
A trajetória operacional de Leonardo Gouveia da Silva começou a ruir em junho de 2020, durante a Operação Thanos, deflagrada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil. A ação visava desmantelar a estrutura de comando do Escritório do Crime.
Mad e seu irmão Toinhão foram presos e, posteriormente, condenados a 26 anos e 8 meses de prisão pelo assassinato de Marcelo Diotti, além de responderem a diversos outros processos por homicídio qualificado e organização criminosa.
A queda do “Caxias da morte” expôs as entranhas de um modelo de crime organizado que extrapolava a violência bruta, apoiando-se na tecnologia, em estudos minuciosos de rotina e na exploração de falhas do sistema urbano. A história de Mad permanece como um dos capítulos mais sombrios e reveladores sobre a evolução da pistolagem profissional no Rio de Janeiro.