CASO SAMYRA: O MISTÉRIO NA MADRUGADA E A REVIRAVOLTA QUE LEVOU À PRISÃO DA PRÓPRIA MÃE
CASO SAMYRA: O MISTÉRIO NA MADRUGADA E A REVIRAVOLTA QUE LEVOU À PRISÃO DA PRÓPRIA MÃE
Por volta das 2h50 da madrugada de 10 de agosto de 2026, no bairro Caraguava, em Peruíbe, litoral de São Paulo, o silêncio de uma residência foi quebrado pelo desespero de um menino de 9 anos. Ao notar a ausência prolongada da irmã de 10 anos, Samyra Roberta de Lima Almeida, que supostamente havia se levantado para ir ao banheiro, a criança saiu à sua procura. Do lado de fora da casa, o garoto deparou-se com um cenário estarrecedor: Samyra estava suspensa na área externa, com uma guia de cachorro presa ao pescoço.
O irmão correu imediatamente para alertar a mãe, Angélica de Lima Tenório, de 33 anos. Diante da cena, dois vizinhos — pai e filho, de 74 e 47 anos, que residem ao lado, sobre uma borracharia — participaram da tentativa de socorro para retirar a menina daquela posição. O socorro de emergência foi acionado, mas o óbito foi confirmado. Inicialmente tratado como uma morte atípica e sob a hipótese remota de que a própria garota pudesse ter provocado a situação, o caso tomou um rumo totalmente diferente assim que os primeiros exames periciais foram realizados.

Laudos médicos apontam sinais de violência anterior
A apuração sobre a dinâmica do ocorrido transformou-se no momento em que a equipe médica identificou lesões e fortes indícios de violência sexual no corpo de Samyra. Segundo os dados periciais, as marcas não correspondiam a uma agressão pontual ocorrida apenas naquela madrugada; os indícios sugeriam abusos contínuos sofridos enquanto a criança ainda estava viva.
A partir desse resultado, a Polícia Civil, por meio da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), reclassificou a ocorrência como morte suspeita de alta complexidade. Não se tratava mais apenas de entender o mecanismo que interrompeu a respiração da garota, mas de identificar quem tinha acesso àquele ambiente residencial, caracterizado por pouca segurança estrutural e ausência de portões, o que permitia a entrada facilitada de terceiros pelo quintal.
A reconstrução da rotina expõe ambiente de vulnerabilidade
Ao expandir o foco da investigação para o cotidiano da vítima nos meses que antecederam o fato, os policiais constataram que a menina vivia um severo isolamento social e estava fora da escola. Os relatos colhidos apontaram que a rotina de Samyra limitava-se a permanecer em casa ou sair acompanhada exclusivamente pela mãe.
Testemunhas relataram que essas saídas com a genitora ocorriam frequentemente em horários impróprios e em locais de vulnerabilidade, como pontos de venda e consumo de substâncias ilícitas. Naqueles ambientes, a criança permanecia exposta à presença de homens adultos que consumiam álcool e drogas ilegais. De acordo com as informações apuradas pelas autoridades, Angélica é usuária de substâncias ilícitas, e relatos de testemunhas indicaram que a menina chegava a vestir roupas da mãe e era vista segurando copos com bebidas energéticas e alcoólicas. Essas evidências levaram a polícia a formalizar a linha investigativa de exploração sexual e favorecimento de prostituição de vulnerável.
O histórico com a rede de proteção e os questionamentos
Durante as apurações, a delegada responsável pelo caso confirmou que a família de Samyra já vinha sendo acompanhada pelo Conselho Tutelar há algum tempo. Esse acompanhamento prévio gerou a solicitação formal de todos os relatórios do órgão para verificar quais alertas de risco já haviam sido registrados oficialmente — seja por evasão escolar, denúncias de conflitos ou vulnerabilidade social.
Até a data do falecimento, contudo, a Polícia Civil não havia sido formalmente acionada pelo órgão tutelar para intervir criminalmente no núcleo familiar. A análise documental em andamento busca esclarecer a extensão das informações conhecidas pelas autoridades de assistência antes da tragédia.
A reconstituição e as contradições no local
No dia 20 de agosto, exatamente dez dias após a localização do corpo, a Polícia Civil executou a reprodução simulada dos fatos. A mãe e os dois vizinhos que prestaram o socorro inicial participaram do procedimento para demonstrar a movimentação exata daquela madrugada. A análise preliminar indicou que a corda e o gancho onde a vítima estava poderiam ter sido alcançados por alguém com a altura (1,60 m) e a estrutura física da menina de 10 anos, embora os laudos conclusivos continuem em elaboração.
No entanto, a reconstituição evidenciou divergências nos depoimentos dos envolvidos. Além das contradições sobre a cronologia do socorro, os investigadores identificaram suspeitas de que a cena onde o corpo foi encontrado tenha sido limpa ou modificada antes da realização da perícia oficial. Para somar ao alerta da equipe policial, a mãe desocupou e esvaziou completamente a residência no dia seguinte ao falecimento, mudando-se para outro endereço e alegando que não conseguia permanecer no imóvel.
Os celulares dos dois vizinhos foram apreendidos para perícia técnica, e material genético foi coletado para exames de confronto. Atualmente, a mãe e os dois homens são tratados formalmente como suspeitos dentro do inquérito.
A decretação da prisão temporária da mãe
No dia 25 de agosto, 15 dias após o ocorrido, a Justiça acatou o pedido da Polícia Civil e do Ministério Público e determinou a prisão temporária de Angélica de Lima Tenório. A mulher foi localizada no bairro Jardim Caraminguava, em Peruíbe, e conduzida à Delegacia de Defesa da Mulher.
A decretação da prisão tem caráter cautelar e fundamenta-se nas contradições prestadas em depoimento, na suspeita de adulteração da cena do fato e, principalmente, nos fortes indícios de favorecimento à prostituição e estupro de vulnerável decorrentes da reiterada exposição da filha àquele ambiente de risco.
As perguntas que a investigação busca responder
O inquérito policial segue em andamento para definir com precisão técnica a causa direta da morte de Samyra e individualizar a responsabilidade de cada indivíduo envolvido na rotina da vítima. A apuração tenta esclarecer o que ocorreu exatamente entre o momento em que a menina se levantou da cama e a hora em que foi localizada na área externa.
Com o cruzamento de laudos periciais, relatórios da rede de proteção e análises dos aparelhos apreendidos, as autoridades trabalham para determinar todas as violências cometidas contra a criança ao longo dos últimos meses de sua vida.