Caso menino Gustavo: percia e investigao revelam detalhes de crime que chocou Tocantins
Caso menino Gustavo: percia e investigao revelam detalhes de crime que chocou Tocantins
A verso inicial do afogamento e a reviravolta no depoimento
A verso apresentada pelo advogado Igor Veloso de Souza para a morte de seu filho, o menino Gustavo Veloso Feitosa, de apenas três anos, desmoronou nas primeiras horas de investigao da Polícia Civil. Inicialmente, Igor procurou a central da Polícia Civil no dia 3, uma segunda-feira, por volta das 16h30, afirmando que a criança havia se afogado acidentalmente na piscina da residência durante o fim de semana em Palmas. Segundo o relato do pai, o garoto teria caído na água, ingerido um pouco de lquido e vomitado, mas parecia bem após o banho, tendo inclusive se alimentado e dormido na mesma cama que ele.
Entretanto, a cronologia apresentada pelo homem levantou suspeitas imediatas das autoridades. Ele afirmou ter percebido que o filho estava respirando às 6h da manhã, mas, por volta das 9h, ao notar que a criança estava com os pés gelados e no respondia aos chamados, saiu de casa sem rumo e sem acionar socorro mdico imediato. Igor declarou ter retomado a conscincia e procurado a delegacia apenas às 14h30, deixado o corpo do menino na residência por horas. O delegado Eduardo Menezes explicou que a Diviso de Homicídios e Proteo à Pessoa (DHPP) foi acionada assim que a equipe plantonista esteve no local e identificou sinais claros de violncia física incompatíveis com um acidente na piscina.

O laudo do IML e a constatao de extrema crueldade
A necrpsia realizada pelo Instituto Mdico Legal (IML) descartou totalmente a tese de afogamento e revelou que o garoto morreu em decorrncia de hemorragia interna e mltiplas agresses. O documento pericial detalhou a presena de diversos hematomas nos dois lados do rosto, lesões nos lábios, traumatismo craniano, edema cerebral, hemorragia dentro da cavidade craniana e grande quantidade de sangue no abdômen. Além disso, a perícia constatou perfurao no reto, lesões no intestino e sangramento anal.
Diante do cenário encontrado na casa — marcada por baguna e restos de bebidas alcolicas —, a polcia descartou qualquer hiptese de abuso sexual isolado, concluindo que as lesões corporais e anais foram provocadas por instrumentos de tortura durante um severo espancamento. Para o delegado encarregado do caso, a criana passou por uma sesso de tortura contnua dentro do ambiente domstico nas suas ltimas horas de vida.
A ao policial, a fuga e a priso do casal
Mesmo com os indcios graves colhidos na residncia, a priso do pai no pde ser efetuada em flagrante no primeiro momento devido ao entendimento jurdico sobre a sua apresentao espontnea à delegacia e à necessidade de aguardar a comprovao tcnica do laudo cadavrico. Durante o perodo de investigao inicial, a defesa do advogado orientou que ele apenas se manifestasse “no decorrer do inqurito”. Igor e sua esposa, Kley Moreira (tambm citada como Katlen), passaram a ser monitorados pela equipe da delegacia de homicdios.
A ordem de priso preventiva contra o casal foi decretada na tarde de quarta-feira. Policiais localizaram e prenderam os dois escondidos na casa de um amigo de Igor, localizada na quadra 407 Norte, aps denúncias de testemunhas que notaram uma movimentao atpica no local. O advogado foi encaminhado para uma cela isolada na unidade penal masculina de Palmas por volta das 2h30 da madrugada, enquanto a madrasta, que declarou à polcia no ter ouvido os pedidos de socorro da criança, foi transferida para a cadeia feminina da capital.
Histrico de ameaas e os apelos de socorro da criana
O desfecho tragico do caso trouxe à tona um histrico de conflitos judiciais, denúncias e ameaas de morte relatados pela me de Gustavo, Sabrina. Em entrevista, a me revelou que o filho havia demonstrado pavor antes de ir para o encontro de fim de semana com o pai. No ltimo contato em vida, na manh de domingo, a criana pediu para no ir à casa de Igor, afirmando que apanhava do advogado. Sabrina contatou a defesa e tentou impedir as visitas em diversas ocasies, mas alegou que as decises judiciais a obrigavam a entregar o filho.
A me do menino mantinha uma medida protetiva contra o ex-companheiro e relatou episdios anteriores em que Igor teria ido at a sua residncia e derrubado o porto para tentar atacá-la. Sabrina afirmou que o medo e as constantes ameaas de morte impediam que providncias mais drsticas fossem tomadas anteriormente. Advogados que acompanham a me ressaltaram que ela j havia relatado ao Conselho Tutelar e a unidades de sade episdios em que o filho retornava com hematomas das visitas ao pai.
Alertas sobre a rede de proteo e os questionamentos sem resposta
A tragdia gerou comoo social durante o velrio e o sepultamento de Gustavo, realizado no cemitrio Jardim da Paz, sob forte comoo de familiares que pedem justia. O caso levantou questionamentos entre entidades de direitos humanos e rgos de proteo sobre a eficácia do sistema de garantias dos direitos da criança e do adolescente no Brasil. Representantes do Centro de Defesa dos Direitos Humanos ressaltaram a necessidade de agilizar a comunicao entre o Judicirio, o Conselho Tutelar e o Ministrio Pblico, destacando que relatos de violncia feitos por crianças muitas vezes enfrentam desconfiana institucional.
A defesa de Igor Veloso e Kley Moreira declarou que no vai debater as acusaes pela imprensa, afirmando que o processo no se resume ao que foi divulgado e que os esclarecimentos e provas sero apresentados diretamente à Justia no momento adequado. Por sua vez, a defesa da me solicitou novas medidas de proteo e criticou a circulao de boatos que prejudicam o andamento das investigaes oficiais conduziadas pela Polícia Civil e acompanhadas pelo Ministrio Pblico do Tocantins.