A Trajetória do “Papa do Diabo” em Fortaleza: Entre a Fé Polêmica, os Negócios Noturnos e o Crime que Chocou o Ceará
A Trajetória do “Papa do Diabo” em Fortaleza: Entre a Fé Polêmica, os Negócios Noturnos e o Crime que Chocou o Ceará
Por volta das 5h20 da madrugada de 20 de agosto de 2026, um carro Meriva estacionou no cruzamento da Avenida 13 de Maio com a Rua Barão do Rio Branco, no Bairro de Fátima, em Fortaleza. O veículo apresentava problemas em um dos pneus e precisava de reparos imediatos em uma borracharia local. Cerca de cinco minutos depois, a parada rotineira transformou-se em um cenário de violência extrema quando um motociclista armado efetuou múltiplos disparos contra os ocupantes do automóvel.
No banco do motorista estava Luciano Víctor Melo de Souza, de 38 anos, amplamente conhecido nas redes sociais e na capital cearense como o “Bruxo Paulo Padilha” e autointitulado “Papa do Diabo”. Atingido na cabeça e no tórax, Luciano morreu no local antes de receber socorro médico. O jovem que o acompanhava, Juan Gabriel Lima da Silva, de 21 anos, sobreviveu aos disparos na cabeça e foi encaminhado em estado gravíssimo ao Instituto Doutor José Frota (IJF).
O homicídio ocorreu a poucos metros do 23º Batalhão de Caçadores do Exército, gerando forte repercussão pública tanto pela ousadia da ação criminosa quanto pela identidade singular da principal vítima.

A ascensão do sacerdote e a criação do templo luciferiano
Antes de ganhar notoriedade na internet e na imprensa, Luciano iniciou sua trajetória no comércio em 2015 com um mercadinho no bairro Bom Sucesso. Posteriormente, expandiu suas atividades para a vida noturna de Fortaleza ao fundar a rede Mojubar, composta por três estabelecimentos: duas unidades do Mojubar Universitário, no bairro Benfica, e o Mojubar Gato Pink, localizado no Centro. Os locais operavam pela madrugada adentro e se promoviam como espaços de valorização cultural, acolhendo shows ao vivo, apresentações artísticas e performances de drag queens. Luciano costumava utilizar a própria imagem para promover as atrações e passava pessoalmente ao final dos expedientes para recolher o faturamento dos caixas.
No entanto, a visibilidade de Luciano consolidou-se fundamentalmente através da sua atuação religiosa. Como pai de santo da Quimbanda e sacerdote, ele adotou o nome religioso de Paulo Padilha. Suas redes sociais indicavam que seu antigo líder espiritual fora o Bruxo Alberto Cão, falecido em dezembro de 2024. A partir de vertentes que combinavam práticas de Quimbanda com o luciferianismo, Luciano começou a se intitular “Papa do Diabo”, “bispo satânico” e “sacerdote bruxo”, reunindo mais de 4 mil seguidores na internet.
Luciano afirmava publicamente ter fundado a primeira “Igreja de Lúcifer” do Nordeste. Registros de imprensa divergem quanto à data exata de fundação do espaço, apontando períodos entre setembro de 2023 e janeiro de 2024, no bairro Benfica. Em suas plataformas, ele exibia abertamente altares, oferendas, imagens de entidades e registros de rituais, com ênfase especial em amarrações amorosas sob a evocação de figuras como Beelzebub, Exu e Maria Padilha.
Controvérsias públicas e o avanço nas páginas policiais
A exposição do templo atraiu ampla atenção midiática a partir de fevereiro de 2025, quando veículos de imprensa, como o jornal O Povo, noticiaram o funcionamento do espaço na Rua Instituto do Ceará. A divulgação de rituais descritos por matérias jornalísticas como missas negras gerou polarização: de um lado, defensores da liberdade de culto; de outro, moradores e críticos que manifestavam repúdio e temores sobre as consequências espirituais e sociais do local.
Paralelamente às discussões religiosas, Luciano passou a figurar formalmente em investigações policiais. Na madrugada de 15 de março de 2025, uma intervenção da Polícia Militar foi solicitada em um de seus bares após um socorrista do SAMU relatar ter sofrido ameaças. Ao chegarem ao estabelecimento para conter o tumulto e exigir a redução do volume sonoro, os policiais registraram que o proprietário reagiu com exaltação.
Conforme o relatório policial, Luciano proferiu ofensas homofóbicas contra duas mulheres presentes e desacatou os agentes de segurança. Ele ainda teria tentado oferecer dinheiro aos militares para evitar a condução à delegacia. Autuado por desacato, ameaça, conduta homofóbica e corrupção ativa, Luciano teve a liberdade concedida pelo juiz Henrique Botelho em audiência de custódia no dia 16 de março, mediante pagamento de fiança de três salários mínimos e imposição de medidas cautelares, como não se ausentar do município sem autorização judicial e não se aproximar das vítimas.
Em 30 de junho de 2025, a denúncia foi aceita e Luciano tornou-se réu perante a Justiça cearense pelos crimes de injúria racial, ameaça, desacato e corrupção ativa. A audiência de instrução e julgamento do processo estava agendada para o dia 4 de dezembro de 2026.
Um novo relacionamento e o cruzamento de ameaças
Após o término de uma união anterior, Luciano iniciou um relacionamento afetivo com Juan Gabriel Lima da Silva. A presença do jovem de 21 anos estendeu-se para a gestão dos bares da rede Mojubar e para o âmbito religioso, onde Juan atuava também como seu filho de santo.
Essa relação, entretanto, coincidiu com o surgimento de graves conflitos. Familiares de Luciano relataram à polícia que o antigo parceiro do sacerdote não aceitava o término e havia feito ameaças de morte contra ambos, alertando inclusive sobre os perigos da convivência com o jovem.
Segundo informações divulgadas pelo Diário do Nordeste, Juan Gabriel possuía passagens anteriores na polícia por crimes de roubo e utilizava tornozeleira eletrônica. Além disso, depoimentos prestados por familiares de Luciano indicaram que Juan estaria jurado de morte devido a dívidas ligadas ao tráfico de entorpecentes, apontadas em matérias locais como supostamente associadas à facção criminosa Comando Vermelho.
A emboscada na madrugada e o avanço da perícia
No dia 17 de agosto de 2026, três dias antes do ataque, um homem identificado como Levi de Oliveira Lima, de 25 anos, alugou uma motocicleta sob a alegação comercial de prestar serviços de entrega. Segundo informações apuradas pelas forças de segurança, Levi era apontado no bairro Benfica por envolvimento com o tráfico de drogas.
Na madrugada do crime, em 20 de agosto, Luciano e Juan retornavam no veículo Meriva após recolherem a renda dos estabelecimentos comerciais. Devido a um problema no pneu, pararam na oficina mecânica e borracharia na Avenida 13 de Maio. Pouco depois das 5h20, o atirador desceu da motocicleta e efetuou a sequência de disparos de calibre 9 mm contra as vítimas.
O fato de a borracharia estar situada em frente ao 23º Batalhão de Caçadores permitiu que um militar de serviço fornecesse detalhes sobre o vestuário e o tênis do autor dos disparos. Com o apoio de imagens de câmeras de segurança do trajeto e os dados fornecidos pela empresa de locação da moto rastreada por GPS, a Polícia Civil localizou Levi de Oliveira Lima poucas horas depois em um imóvel no bairro Farias Brito.
Durante o mandado de busca no imóvel, os policiais apreenderam a moto alugada, um par de tênis brancos com as mesmas características relatadas por testemunhas, uma pistola calibre 9 mm com numeração raspada, três punhais, um coldre, cerca de 4 quilos de folhas de bananeira em sacos plásticos e aproximadamente 8 quilos de comprimidos. A arma apreendida foi encaminhada para exames de balística comparativa com os estojos recolhidos no local do crime.
As linhas investigativas sobre a autoria e o mandante
Levi de Oliveira Lima foi autuado em flagrante por homicídio qualificado, tentativa de homicídio e porte ilegal de arma de fogo de uso restrito. No dia 21 de agosto de 2026, a prisão em flagrante foi convertida em prisão preventiva pela Justiça, que considerou indícios de premeditação e emboscada.
A 5ª Delegacia do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) conduz as investigações para identificar as motivações exatas da execução e apurar a eventual participação de mandantes ou cúmplices. O inquérito policial analisa simultaneamente se o crime teve relação com as dívidas de drogas atribuídas a Juan Gabriel por grupos criminosos ou com as ameaças pretéritas envolvendo disputas pessoais no entorno das vítimas.