A luta pelos direitos dos trabalhadores e um esquema fraudulento: a sequência de eventos que levou à morte de Berenicen
Guerra por direitos trabalhistas e tentativa de fraude: a trama que culminou na morte de Berenice
A Polícia Civil prendeu Magno dos Santos Neri, conhecido como Nei, apontado como participante direto na morte da cozinheira Berenice. O homem é sobrinho de Eliane Alves, ex-patroa da vítima, que já se encontrava detida sob a acusação de ser a autora dos disparos. As apurações indicam que o crime envolveu uma ação conjunta entre a ex-empregadora, o sobrinho e um policial militar aposentado, identificado como Irimar, que é noivo de Eliane. A motivação central apontada no inquérito policial envolve um desacordo sobre a rescisão trabalhista de Berenice, estimada em R$ 4.000 após quatro meses de serviços prestados.
O trabalho investigativo contou com o apoio de denúncias anônimas e da atuação da imprensa no repasse de dados à polícia de São Sebastião, conduzida pelo delegado Tadeu Ricardo de Castro. O cruzamento de dados e a análise de imagens de câmeras de monitoramento permitiram reconstituir a sequência dos fatos entre o dia do desaparecimento da cozinheira e os momentos seguintes ao crime.

A dinâmica dentro do veículo e os disparos
As informações do inquérito revelam a divisão de papéis no momento em que o homicídio foi praticado. No dia 30 de junho, data em que a cozinheira desapareceu, Magno assumiu o volante de uma picape. Berenice ocupava o banco do passageiro dianteiro, enquanto a patroa, Eliane, estava acomodada no banco traseiro. A viagem teve início após um desentendimento acalorado entre as duas mulheres a respeito do valor a ser pago pelo encerramento do contrato de trabalho.
Enquanto a cozinheira cobrava o valor referente aos meses trabalhados, a empregadora concordava em entregar apenas R$ 900. A discussão evoluiu para agressões físicas, momento em que Berenice foi colocada no automóvel. Sob o pretexto de que iriam a um local para sacar o restante do dinheiro, o grupo seguiu viagem. No trajeto, contudo, Eliane disparou quatro vezes contra a vítima a partir do banco de trás. Os exames periciais indicaram perfurações na região torácica e no cotovelo da vítima, confirmando que os tiros foram desferidos dentro do veículo.
Imagens captadas e a tentativa de ocultar evidências
Registros de câmeras de segurança flagraram movimentações ocorridas após a execução. No próprio dia 30 de junho, o corpo foi transportado e descartado. Registros do dia 2 de julho mostram que o veículo utilizado no crime foi levado a uma oficina de funilaria na região para reparar a perfuração provocada pelos disparos e eliminar vestígios. Câmeras instaladas na rodovia já haviam capturado o automóvel com a marca do tiro antes de dar entrada no estabelecimento.
Posteriormente, no dia 5 de julho, novos registros captaram Eliane em um posto de combustíveis acompanhada de seu noivo, o bombeiro aposentado Irimar, utilizando o carro dele. Naquele momento, o sobrinho já não estava no local. A perícia identificou marcas de sangue também no veículo do noivo. Durante o percurso feito pelas estradas da região, pertences da vítima foram arremessados em uma caçamba de lixo, embora as malas não tenham sido localizadas até o momento.
Ações no ambiente digital e apreensão de armas
A análise dos dispositivos eletrônicos dos envolvidos revelou buscas efetuadas na internet após o crime. Mesmo após a remoção de mensagens do celular de Eliane, a perícia digital recuperou históricos de pesquisas referentes ao cálculo de rescisão trabalhista, trajetos entre Ubatumirim e Angra dos Reis para o descarte de corpo, além de consultas sobre procedimentos para trocar carpetes manchados de sangue e reparar danos em funilaria.
Durante as diligências, as autoridades apreenderam três pistolas associadas ao casal: uma de calibre 9 mm, uma de calibre 380 e uma de calibre .40. Uma das armas estava registrada no nome de Eliane, e as outras duas pertenciam a Irimar. Ambos possuíam porte para os armamentos. Os telefones celulares dos investigados também foram recolhidos para análise pericial.
Prisões dos suspeitos e andamento das investigações
Com o avanço do inquérito, a polícia delimitou a responsabilidade dos três suspeitos. Irimar foi localizado em sua residência e não ofereceu resistência no momento da prisão. Ele responde por ocultação de cadáver e fraude processual, acusado de tentar destruir provas e alterar a cena do crime ao longo dos 20 dias em que permaneceu em liberdade. Outros nomes citados no início das investigações chegaram a ser apurados, mas não apresentaram elementos que justificassem pedidos de prisão.
Magno dos Santos Neri, por sua vez, apresentou-se à polícia acompanhado de advogado, após a consolidação das provas que o apontavam como o motorista da picape no dia do homicídio. Ele é considerado testemunha presencial da execução efetuada no interior do carro e investigado por coparticipação no homicídio e na ocultação do corpo. Moradores da região de Ubatumirim relataram que Eliane apresentava histórico de comportamento agressivo no convívio local.
Aspectos jurídicos e desdobramentos da motivação
A motivação financeira apurada pela Polícia Civil aponta para o desacordo trabalhista em torno da quantia exigida pela vítima. Sob a perspectiva jurídica, a divergência de valores pode configurar a qualificadora de motivo torpe, caso fique demonstrado que o crime foi cometido em virtude da recusa em pagar os direitos cobrados.
Embora hipóteses sobre eventuais divergências pessoais ou ciumes tenham sido mencionadas durante o acompanhamento do caso, os dados reunidos até o momento pela equipe do delegado Tadeu Ricardo de Castro indicam a cobrança da rescisão de trabalho como o fator central que desencadeou o crime. O inquérito segue com as provas periciais e os depoimentos colhidos para a conclusão do processo.