A face oculta do Danúbio Azul: a trajetória de Nando e a rede sombria que marcou Campo Grande

A face oculta do Danúbio Azul: a trajetória de Nando e a rede sombria que marcou Campo Grande

A rotina calma dos moradores do bairro Danúbio Azul, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, escondia uma dinâmica que poucos conseguiam decifrar por completo. Por anos, a figura de Luís Alves Martins Filho, conhecido popularmente pela alcunha de Nando, transitava pelas ruas de terra como alguém prestativo, sempre pronto a carregar compras para idosos, realizar serviços de jardinagem e roçar lotes na vizinhança. No entanto, por trás dessa aparência de homem simples e solitário, articulava-se uma estrutura criminosa que marcaria para sempre a história policial do estado e o destino de dezenas de famílias.

Nascido no município de Três Lagoas, filho de Isaura Barbosa Martins, a infância de Nando foi marcada por episódios dramáticos. Conforme relatos veiculados em programas jornalísticos locais, aos 11 anos de idade ele teria testemunhado o assassinato da própria mãe e de dois irmãos pelas mãos de seu padrasto, dentro da pequena residência da família. O impacto visual e emocional daquela cena gerou traumas profundos que ele alegava carregar pela vida inteira, incluindo uma intensa aversão a sangue. Com o passar dos anos e após os primeiros registros policiais na juventude, ele decidiu se mudar para Campo Grande, fixando-se inicialmente na Vila Almeida, a mais de 300 quilômetros de sua terra natal.

Na capital sul-mato-grossense, o jardineiro se estabeleceu realizando pequenos serviços e pilotando uma motocicleta. Assumido homossexual e alegando problemas crônicos de saúde no trato urinário, ele conquistava facilmente a simpatia dos vizinhos, que viam nele uma pessoa humilde que merecia acolhimento. Contudo, essa relação de proximidade começou a revelar contornos sombrios ainda em meados dos anos 1990, dando início a uma série de episódios que levariam anos para serem completamente compreendidos pelas autoridades.

O primeiro alerta e as contradições periciais

Em dezembro de 1996, em um trecho de características rurais da Vila Almeida, Nando abordou um jovem de 13 anos fingindo interesse na compra de animais criados na região. Sob o pretexto de facilitar o trajeto, convenceu o adolescente a subir em sua motocicleta. O destino real, contudo, foi sua residência, onde o menor foi coagido sob ameaça de faca. O caso veio à tona após a mãe da vítima notar o choro e as dores da criança, levando a denúncia diretamente às autoridades policiais.

Preso pelo episódio, Nando acabou enfrentando uma realidade violenta na cadeia, sofrendo agressões severas por parte de outros detentos que resultaram na necessidade permanente do uso de cateter ligado à bexiga. Paralelamente, o processo judicial esbarrou em exames que não comprovaram lesões físicas no menor e em avaliações psiquiátricas divergentes. Uma perícia apontou perturbação mental e inadaptabilidade social, o que levou o magistrado a suspender o processo por três anos, permitindo que ele retornasse ao convívio social.

Livre e instalado posteriormente no Danúbio Azul, Nando continuou expandindo sua presença comunitária. Enquanto um exame em 2008 reafirmava certas limitações mentais, a sua capacidade de articulação prática demonstrava o oposto. Ele passou a fornecer entorpecentes para jovens vulneráveis da região, criando um ciclo de dependência e dívidas. Aqueles que não tinham condições de pagar acabavam prestando serviços ou cedendo a explorações diversas, transformando a residência do jardineiro em um ponto de encontro movimentado e controlado por ele.

A formação do grupo e os primeiros desaparecimentos

Mesmo após ser condenado em 2011 pelo crime cometido em 1996 e transferido posteriormente para o regime semiaberto na Colônia Penal Agroindustrial de Gameleira, Nando fugiu em junho de 2012. Ele retornou ao Danúbio Azul e, com o auxílio de um veículo utilitário Fiat Strada, ampliou sua influência ao recrutar colaboradores locais. Com um discurso de suposta higienização social, alegando que o bairro estava sendo prejudicado por pequenos furtos e dependentes químicos, passou a atuar como um falso justiceiro.

Para colocar suas ações em prática, Nando aliciou pessoas próximas, como Claudinei Augusto Orneles Fernandes, então com 20 anos, e posteriormente Valdeleide Almeida Júnior, o Juninho. Em dezembro de 2012, Daniel Gomes de Souza, de 17 anos, conhecido como Danielzinho, foi atraído sob falsas promessas até uma área de mata fechada na Rua dos Astronautas, no Jardim Veraneio. No local isolado, a vítima foi surpreendida e asfixiada por meio de uma correia de máquina de lavar, sendo enterrada em seguida em uma cova estreita de cabeça para baixo — método adotado pelo grupo para dificultar a localização de corpos.

Nos meses seguintes, a lista de pessoas que deixavam de ser vistas na comunidade continuou a crescer. Em 2013, o jovem Bruno, de 18 anos, foi levado ao mesmo destino após desentendimentos. Testemunhas e comparsas relatavam momentos perturbadores que antecediam os ataques, mencionando visões estranhas na vegetação e rituais que Nando realizava à beira das covas abertas, ajoelhando-se e pronunciando preces antes e depois de ocultar os restos mortais.

A engrenagem do medo e o tribunal paralelo

A rede criminosa foi se sofisticando com a entrada de novos integrantes, como o sobrinho de Nando, Michel Henrique Vilela Vieira, além de Jean Marlon Dias Dominguez, Wagner Vieira Garcia e Talita Regina de Souza. O grupo estruturou uma espécie de tribunal clandestino no qual Nando decidia sobre a vida de moradores com base em desavenças triviais, dívidas de drogas ou acusações de furtos. Em maio de 2014, outro jovem chamado Daniel de Oliveira Barros, de 28 anos, foi executado por disparos de arma de fogo na região da Chácara dos Poderes após ser atraído para o veículo de Nando.

Em agosto do mesmo ano, Aparecida Adriana da Costa, conhecida como Malu, foi asfixiada e agredida no Jardim Veraneio sob a alegação de pequenos delitos e o furto de um aparelho GPS. Pouco tempo depois, a adolescente Jennifer Luana Lopes, de 16 anos, teve o mesmo destino trágico no cemitério clandestino após admitir a subtração de objetos da casa do líder do grupo. Nando utilizava sua boa convivência no bairro para despistar as famílias aflitas, afirmando rotineiramente que os jovens haviam se mudado da cidade ou acabado presos por má conduta.

A rotina de execuções se estendeu pelos anos seguintes. Em abril de 2015, Flávio Soares Correa, de 25 anos, foi morto no mesmo local isolado. No final do mesmo ano, Eduardo Dias Lima, de 15 anos, também desapareceu após ser levado ao terreno do Jardim Veraneio, que àquela altura já recebia grandes volumes de terra e entulho de obras públicas, elevando o solo em até 15 metros. Em 2016, outras vítimas foram contabilizadas pelas investigações, incluindo Aline, mãe de duas crianças, o jovem Alex da Silva Santos, de 18 anos, um homem identificado apenas pela alcunha de Café, o adolescente Alessandro Valdonado, de apenas 13 anos, e Ana Cláudia Marques, de 37 anos.

O ponto de virada e o colapso do esquema

O silêncio sobre os desaparecimentos começou a ruir em setembro de 2016. Após a morte de Leandro Ferreira, conhecido como Lelec, investigado por elos com o tráfico local, um adolescente apreendido pelo crime relatou à delegada Aline Sinott que jovens da comunidade vinham sumindo sem que houvesse apuração formal. Ao consultar os registros policiais, a delegada constatou a existência de pelo menos uma dezena de boletins de ocorrência de desaparecimento arquivados desde 2012 na mesma região.

A partir desse momento, a Polícia Civil deflagrou a Operação Danúbio Livre, ouvindo mais de 50 pessoas e mapeando as conexões de Nando com os crimes do bairro. Preso preventivamente em 10 de novembro de 2016 em posse de um revólver calibre 38 e ferramentas como pás e enxadas, Nando inicialmente negou qualquer participação. Contudo, à medida que comparsas começaram a colaborar com os investigadores, o jardineiro decidiu indicar a localização exata das covas no aterro do Jardim Veraneio, exigindo inclusive contato com profissionais da imprensa antes de colaborar.

Com o auxílio de maquinário pesado e escavações contínuas, os peritos desenterraram ossadas que confirmaram o horror vivenciado pelas famílias. Os corpos de várias vítimas foram identificados por exames de DNA, enquanto restos mortais de outros, como Flávio, Eduardo e Malu, enfrentaram imensas dificuldades de localização devido às toneladas de entulho depositadas sobre a área ao longo dos anos. Paralelamente, os interrogatórios trouxeram depoimentos desconcertantes sobre oscilações extremas de comportamento do acusado durante as oitivas.

O veredito judicial e as marcas indeléveis do passado

Levado a julgamento em uma série de juris populares entre 2018 e 2020, Nando tentou mudar repetidamente sua versão, alegando ter sofrido coerção policial e atribuindo a autoria dos atos a antigos companheiros. Contudo, laudos psiquiátricos elaborados por peritos judiciais atestaram que, apesar dos transtornos de personalidade diagnosticados, ele possuía plena capacidade de compreender o caráter ilícito de suas condutas. As sucessivas condenações por homicídio qualificado, exploração sexual de vulneráveis, tráfico de entorpecentes e ocultação de cadáver somaram penas que ultrapassam 214 anos de reclusão em regime fechado.

Outros envolvidos no esquema também receberam sentenças expressivas: Michel foi condenado a mais de 50 anos de prisão, Jean a mais de 26 anos, Wagner a 33 anos e Talita a mais de 16 anos. Com o passar do tempo, as consequências do caso continuaram a ecoar na vida das famílias afetadas. Em 2026, pedidos da defesa para concessão de prisão domiciliar a Nando com base no diagnóstico de Doença de Parkinson, problemas urológicos e hipertensão foram negados pela Justiça devido à sua periculosidade e histórico disciplinar.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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