A explosão que transformou o destino de Ronnie Lessa nos bastidores do Rio de Janeiro

A explosão que transformou o destino de Ronnie Lessa nos bastidores do Rio de Janeiro

Na madrugada de 2 de outubro de 2009, o silêncio da zona norte carioca foi rompido por um estrondo que ecoou por vários quarteirões em Mirindiba. Um veículo de luxo blindado, recém-saído de uma breve parada em um bar para a compra de um refrigerante, transformou-se instantaneamente no epicentro de uma detonação precisa. Ao volante estava Ronnie Lessa, então sargento da Polícia Militar do Rio de Janeiro, cuja trajetória nos quadros de segurança pública já acumulava condecorações, passagens por unidades operacionais de elite e uma reputação incontestável de habilidade com armamentos. Aquele momento não apenas encerrou uma rotina de patrulhamento e operações especiais, mas marcou a ferro e fogo o início de um dos episódios mais emblemáticos sobre as engrenagens ocultas da contravenção estadual.

A violência do impacto foi devastadora. O artefato explosivo plástico do tipo C4, fixado cirurgicamente com ímãs no assoalho do veículo, logo abaixo do assento do condutor, foi acionado remotamente por meio de uma chamada de telefone celular no exato instante em que o motorista pressionou o acelerador. Com a detonação imediata, Lessa perdeu os sentidos na mesma fração de segundo. Desgovernada, a caminhonete seguiu em linha reta por cerca de 150 metros até colidir violentamente contra um poste na calçada. O socorro inicial partiu de uma moradora local, técnica de enfermagem, cujas manobras emergenciais de contenção hemorrágica foram determinantes para que o militar não perdesse a vida no próprio asfalto. Apesar da sobrevivência, a gravidade dos ferimentos custou-lhe a amputação de uma das pernas, um marco físico definitivo que anos depois se tornaria peça-chave em investigações de repercussão nacional.

A trajetória de um atirador condecorado na corporação

Nascido em 1970 na cidade do Rio de Janeiro, Ronnie Lessa iniciou a vida profissional trabalhando como tatuador antes de prestar o serviço militar obrigatório no Exército Brasileiro no final dos anos 1980. Foi durante a experiência na caserna que descobriu um fascínio marcante pelo manuseio e funcionamento de armas de fogo, interesse que o motivou a prestar concurso público para a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, onde ingressou formalmente como soldado no ano de 1992.

Dentro da estrutura da Polícia Militar, Lessa construiu um currículo operacional extenso. Passou pelo Batalhão de Choque — período em que estabeleceu contato com figuras que mais tarde integrariam o submundo carioca, como o sargento Edmilson da Silva Oliveira, conhecido como Macalé — e integrou o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) por meio de um curso rápido de nivelamento técnico adotado na época para ampliação de efetivo. Seu maior destaque operacional, contudo, ocorreu na famosa guarnição Patamo 500, sob o comando do tenente-coronel Cláudio. Reconhecido pela destreza técnica, coragem em confrontos urbanos e alta precisão no tiro, foi condecorado internamente e alcançou o posto de sargento com extrema rapidez. Em 2003, passou a atuar como adido na Polícia Civil, servindo em delegacias especializadas, incluindo o setor de repressão a armas e explosivos.

As sombras da contravenção e a guerra dos caça-níqueis

Paralelamente à imagem de policial condecorado e eficiente, as informações apontam que a alta performance balística de Lessa despertou o interesse direto da cúpula do jogo do bicho. Durante os anos 2000, o submundo da contravenção enfrentava uma transição violenta do tradicional jogo de apostas em papel para os terminais eletrônicos dos caça-níqueis. Esse período de disputa territorial e espólios sucessórios exigia esquemas armados altamente qualificados. Chefes de quadrilhas buscavam habitualmente agentes das forças de segurança que dominassem táticas de confronto e tivessem capacidade técnica para atuar como guarda-costas de confiança — os chamados chefes de segurança ou “brabões”.

O alto padrão de vida de Lessa, evidenciado pelo uso de uma caminhonete blindada de valor muito superior aos vencimentos regulares de um sargento da PM, já levantava questionamentos sobre suas atividades paralelas. No universo da contravenção, o emprego de bombas comandadas à distância não pertencia ao padrão de criminosos comuns de rua, mas sim ao arsenal bélico refinado e de alto custo financeiro utilizado exclusivamente em disputas de alta cúpula entre banqueiros rivais. O atentado sofrido em 2009 indicava de forma contundente que o sargento havia se tornado alvo central no xadrez da contravenção.

A conexão pericial com o atentado na Barra da Tijuca

A complexidade do crime começou a ser delineada meses mais tarde, quando um evento quase idêntico chocou a capital fluminense. Em 8 de abril de 2010, um veículo que transportava Diogo Andrade, filho do contraventor Rogério Andrade, explodiu na Barra da Tijuca assim que o condutor acionou o pedal do acelerador ao deixar uma academia. O jovem não sobreviveu aos ferimentos, enquanto o pai sofreu lesões faciais. A perícia técnica da Polícia Civil identificou que o tipo de explosivo, o sistema de fixação magnética e o mecanismo de detonação remota via aparelho celular eram idênticos aos utilizados contra Ronnie Lessa.

As investigações apontaram que a bomba colocada no carro de Lessa fora fabricada pela mesma pessoa responsável pelo artefato contra a família Andrade: o sargento do Exército Wlber Roberto da Silva Filho. Pouco tempo depois, em julho de 2010, Wlber foi localizado e morto durante uma operação policial em um motel na zona oeste da cidade, em circunstâncias descritas como resistência armada com troca de tiros. Detalhes levantados em apurações jornalísticas e registros de pesquisa indicaram que a equipe policial que participou daquela incursão contava com policiais adidos que haviam trabalhado diretamente com Lessa. O próprio Lessa, anos mais tarde, declarou em depoimento que Wlber havia sido o responsável direto pela instalação da bomba em sua caminhonete, sustentando a tese investigativa de que seu atentado teria funcionado como uma etapa preliminar de eliminação de segurança antes do ataque ao próprio contraventor.

A aposentadoria oficial e a adaptação nas sombras

Apesar dos indícios evidentes de conexão com disputas do crime organizado e da sofisticação incomum do atentado, a apuração interna da Polícia Militar concluiu formalmente que os ferimentos sofridos pelo sargento decorreram de um “ato de serviço”, atestando ausência de irregularidades em sua ficha funcional. Com essa decisão administrativa, Ronnie Lessa obteve em 2012 a aposentadoria remunerada integral com honras de combate, passando a utilizar uma prótese mecânica na perna amputada.

A limitação física provocada pela perda do membro alterou drasticamente sua dinâmica de movimentação e autonomia, impedindo-o de dirigir veículos comuns em ações táticas de alta velocidade. Essa nova condição levou-o a operar de maneira mais seletiva e cadenciada no submundo da pistolagem, passando a depender de comparsas de confiança na direção dos veículos para a execução de serviços sob encomenda. Quase uma década após a explosão que mutilou seu corpo, a particularidade física da prótese e o modo de operação dependente de terceiros serviriam como elementos determinantes para a identificação do ex-policial no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, crime pelo qual foi condenado a mais de 81 anos de prisão.

Diante de uma cadeia de eventos em que perícias técnicas, operações policiais sob suspeita e decisões corporativas se cruzam, como você avalia o impacto das conexões entre agentes de segurança e o crime organizado na história recente do Rio de Janeiro? Compartilhe sua visão nos comentários.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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