A emboscada no Juramento e o jogo de poder entre facções na Zona Norte do Rio
A emboscada no Juramento e o jogo de poder entre facções na Zona Norte do Rio
A dinâmica das disputas territoriais no Rio de Janeiro costuma ser ditada por regras tácitas que raramente perdoam erros de cálculo. Nas ruas e morros da Zona Norte da capital fluminense, a linha que separa as áreas sob domínio de diferentes grupos armados representa uma fronteira rígida, onde circular desatento ou ignorar o mapa da criminalidade pode custar a própria vida. Foi exatamente na confluência dessas tensões que dois integrantes do Terceiro Comando Puro (TCP) romperam uma barreira intransponível na noite de 29 de março de 2025. O destino final da dupla, o Morro do Juramento, transformou-se no cenário de um episódio que repercutiu intensamente após o registro de imagens que circularam pelas redes sociais.
Os dois homens, identificados nas apurações e nos relatos locais pelos apelidos de “da Honda” e “Gui”, atuavam como soldados na estrutura do TCP sediada no Complexo da Serrinha, em Madureira. Da Honda, em particular, exercia um papel de destaque na comunidade da Malvina. Conhecido por sua habilidade na condução de motocicletas, ele atuava como piloto de fuga em ações de roubo e figurava como uma peça de confiança na engrenagem criminosa liderada regionalmente por Wallace Brito Trindade, conhecido popularmente como “Lacoste da Serrinha”.
Apesar de estarem cientes dos perigos inerentes à travessia de divisas controladas por grupos adversários, ambos deixaram a sua base territorial após receberem um convite para um encontro pessoal. O que parecia ser um programa casual revelou-se, em questão de minutos, uma emboscada armada pela facção rival, o Comando Vermelho (CV), consolidando um episódio de violência extrema e propaganda de guerra entre as duas organizações criminosas.

As peças do tabuleiro e a liderança foragida da Serrinha
Para compreender o peso dos nomes envolvidos nessa ocorrência, é necessário observar a estrutura de comando do Terceiro Comando Puro na região de Madureira. O Complexo da Serrinha, que engloba localidades como a própria Serrinha, Fazenda, Patolhinha, São José da Pedra e Dendezinho, tem como figura central Wallace Brito Trindade, o Lacoste. Apontado pelas forças de segurança como líder absoluto dessa área desde pelo menos o início da década de 2010, Lacoste acumula um longo histórico de fuga que remonta ao ano de 2007.
Naquele período, após ser condenado a uma pena de sete anos por tráfico de drogas, o chefe criminoso recebeu o benefício de progressão para o regime semiaberto no Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho. Beneficiado pela saída temporária, ele não retornou ao sistema prisional e passou a viver na clandestinidade. Contra Wallace constam sete mandados de prisão ativos por crimes que incluem tráfico de entorpecentes, homicídio e associação criminosa. Estimativas policiais apontam que o comércio de drogas nas comunidades sob seu controle chega a movimentar cerca de R$ 1.000.000 por mês.
Entre os anos de 2025 e 2026, diversas operações deflagradas pela Polícia Civil tiveram Lacoste como alvo prioritário, contabilizando mais de 40 mandados de prisão expedidos em investigações sobre roubos de cargas, veículos e aparelhos celulares. Além disso, seu histórico registra acusações de atos de extrema truculência, como a determinação de punições físicas e execuções, incluindo relatos de castigos aplicados a mulheres que teriam tido os cabelos raspados. Em meio a esse ambiente de rigor e conflitos armados contra lideranças rivais — entre elas figuras do Comando Vermelho como o traficante conhecido como Doca —, Da Honda e Gui executavam diretamente as ordens da cúpula da Serrinha.
O rastro de uma execução anterior na Avenida Monsenhor Félix
A trajetória de Da Honda no cenário policial já contava com antecedentes graves antes dos acontecimentos de março de 2025. Em novembro de 2024, ele foi formalmente acusado de participar do homicídio de Marlon Sobreira Mourão Araújo, conhecido pelo apelido de Abu. O caso gerou comoção devido às circunstâncias que envolveram o ataque na Avenida Monsenhor Félix, nas proximidades da comunidade da Malvina.
De acordo com as apurações, o verdadeiro alvo dos disparos efetuados por Da Honda não era Marlon, mas sim o passageiro que estava na garupa de sua motocicleta. O indivíduo que acompanhava Marlon possuía registros criminais anteriores e já havia cumprido pena por porte ilegal de arma de fogo em duas ocasiões. Segundo seu próprio depoimento, ele já havia integrado o Comando Vermelho no Morro do Juramento, mas afirmava ter abandonado a organização criminosa para trabalhar como entregador em uma peixaria no bairro de Irajá.
No dia 3 de novembro de 2024, por volta das 4 horas da manhã, Marlon e o passageiro retornavam de um evento em Madureira quando passaram pela calçada onde Da Honda se encontrava. Ao avistar o homem na garupa, Da Honda efetuou vários disparos de arma de fogo. Os tiros acabaram atingindo Marlon, que perdeu o controle da moto e caiu na via. Enquanto o passageiro conseguiu acelerar e fugir pela Rua João Machado, os disparos continuaram. Posteriormente, o corpo de Marlon foi encontrado em um valão na Avenida Pastor Martin Luther King. Testemunhas locais identificaram Da Honda como o autor dos tiros, apontando inclusive que ele e o rapaz eram conhecidos de infância e haviam compartilhado momentos no mesmo bairro antes da entrada definitiva de Da Honda no crime organizado. Marlon, sem envolvimento com a criminalidade, foi vítima fatal do ataque. Mesmo com mandado de prisão preventiva expedido em seu desfavor, Da Honda permaneceu em liberdade e ativo nas fileiras de sua facção.
A geografia do confronto e o encolhimento de territórios
O mapa da criminalidade na Zona Norte do Rio de Janeiro evidencia um cenário de isolamento para os redutos do Terceiro Comando Puro. A Serrinha e os pequenos núcleos adjacentes, como áreas em Irajá e no Para-Pedro (ou Para-Paz), funcionam quase como enclaves em meio a um cinturão de comunidades amplamente controladas pelo Comando Vermelho, a exemplo dos complexos do Alemão e da Penha, considerados centros nevrálgicos da facção rival.
O Morro do Juramento, situado no bairro de Vicente de Carvalho, desponta como um dos pontos mais estratégicos dessa disputa territorial. Separado da Serrinha por uma formação montanhosa, o Juramento tem sido historicamente palco de confrontos sangrentos pelo domínio dos pontos de venda de drogas, atraindo movimentações bélicas que já envolveram diversas facções do Estado ao longo dos anos. A proximidade física e o contraste de comando criam uma atmosfera permanente de vigilância, onde qualquer indivíduo associado ao grupo rival é tratado como ameaça imediata ao pisar fora de seu perímetro delimitado.
O convite fatal e a queda na emboscada
Foi exatamente nesse terreno hostil que a trajetória de Da Honda e Gui chegou ao fim na noite de sábado, 29 de março de 2025. Conforme as informações apuradas, os dois soldados do TCP aceitaram um convite feito por uma ou mais mulheres para irem até o Morro do Juramento. Confiantes de que se tratava apenas de um encontro social, ambos se deslocaram diretamente para o interior do território dominado pelo Comando Vermelho.
Ao desembarcarem no local combinado, a dupla foi imediatamente surpreendida por homens armados que já montavam guarda à espera de sua chegada. Sem qualquer possibilidade de reação ou rota de fuga, os dois foram capturados. O episódio ganhou grande repercussão após a divulgação de materiais visuais nas redes sociais, que registraram momentos anteriores e posteriores à execução. Em uma das imagens, um dos homens aparece sendo obrigado a erguer os dedos fazendo o sinal característico do Comando Vermelho, uma demonstração de submissão forçada antes de terem seus corpos mutilados pelos executores.
As investigações policiais apontaram a autoria intelectual e operacional da emboscada para a liderança local do tráfico no Juramento, Diogo Lopes Lacerda, conhecido pela alcunha de Musfim. O suspeito, que responde a investigações por liderar ações ofensivas e retaliações na comunidade, possui histórico policial que inclui uma prisão realizada em julho de 2018 no município de Mesquita, na Baixada Fluminense, quando foi localizado ao sair do imóvel de sua companheira — endereço apontado na ocasião como refúgio para escapar das operações policiais na capital.
Os desdobramentos e as marcas de uma guerra contínua
A ação orquestrada no Morro do Juramento não apenas encerrou a trajetória de dois operadores de confiança da Serrinha, mas também evidenciou mais uma vez o grau de crueldade empregado nas disputas armadas que assolam a Zona Norte fluminense. O caso ilustra como o crime organizado utiliza armadilhas interpessoais e plataformas digitais para enviar mensagens intimidatórias aos rivais e consolidar sua hegemonia local.
Com o avanço das apurações pelas autoridades de segurança e a persistência da rivalidade entre as principais cúpulas criminosas do Estado, a violência no Morro do Juramento permanece como um reflexo constante da fragilidade da segurança pública nas comunidades do Rio. Resta saber até que ponto as ações policiais e as disputas internas conseguirão frear o ciclo de retaliações que continua a ditar o destino de jovens atraídos pelas engrenagens do tráfico.