121 Dias de Esperança, Fuga e uma Revelação Enterrada
121 Dias de Esperança, Fuga e uma Revelação Enterrada
Cento e vinte e um dias de silêncio, angústia e uma busca incessante que mobilizou o Paraná chegaram a um ponto de inflexão decisivo em uma única manhã de sexta-feira, 21 de agosto. Três acontecimentos simultâneos transformaram as investigações sobre o paradeiro de Letícia Garcia Mendes e Estela Dalva Melegari Almeida, ambas de 18 anos: a morte do principal foragido durante um cerco policial, a prisão de um comparsa e a localização de ossadas humanas enterradas em uma cova rasa na zona rural do estado. Para as famílias que sustentavam a esperança de encontrar as jovens com vida, as revelações trouxeram a confirmação de um dos capítulos mais dramáticos da crônica policial recente da região.
A trajetória que culminou nessa operação começou na madrugada de 21 de abril de 2026, quando as duas primas aceitaram um convite para uma festa na cidade de Porto Rico. Quem intermediou o encontro foi Cleiton Antônio da Silva Cruz, de 39 anos, conhecido por apelidos como Dog Dog, Sagaz e, mais recentemente durante a clandestinidade, Davi. Apenas Letícia possuía uma relação prévia com Cleiton, com quem já havia saído anteriormente. Estela foi para acompanhar a prima. Uma terceira amiga havia sido convidada, mas decidiu permanecer em casa por motivos não esclarecidos — uma decisão que traçou uma linha divisória irremediável entre o destino dela e o das jovens desaparecidas.
Câmeras de segurança registraram os últimos passos públicos das estudantes ao lado de Cleiton em uma casa noturna em Paranavaí, após saírem de Cianorte a bordo de uma caminhonete preta. Naquela mesma madrugada, Estela publicou pela última vez em suas redes sociais antes de qualquer comunicação cessar por completo.

O Rastro Frio e a Esperança que Resistiu ao Tempo
O registro formal do desaparecimento foi realizado dois dias após a saída das primas, um intervalo que dificultou os passos iniciais da apuração. Ao notar que o paradeiro das garotas era desconhecido, as equipes constataram que Cleiton também havia sumido. No dia 29 de abril, oito dias após o sumiço, a Polícia Civil do Paraná formalizou o mandado de prisão preventiva contra ele sob a acusação de duplo homicídio.
Apesar da linha central da investigação apontar para um crime letal, a ausência de provas materiais manteve aberta a expectativa das famílias. Em entrevistas durante os meses de angústia, a mãe de Letícia, Maria da Penha, ressaltava a fé inabalável em encontrar a filha com vida, descrevendo a esperança diária como o principal esteio para continuar a rotina.
Nos bastidores, o trabalho investigativo revelou uma teia complexa de ocultação. Com a atuação da advogada das famílias, Josiane Monteiro, Cleiton foi inserido na lista de Difusão Vermelha da Interpol. A polícia identificou bens e imóveis alugados pertencentes ao suspeito que geravam renda regular para custear sua vida clandestina. Equipamentos eletrônicos e sistemas de monitoramento foram apreendidos em uma propriedade rural vinculada aos parentes dele, além da apreensão do celular de sua mãe para perícia técnica.
Entre as pistas concretas iniciais, a caminhonete preta foi registrada no município de Jussara, a 18 quilômetros de Cianorte, logo após a data do sumiço. Outro elemento contundente veio do depoimento do próprio filho de Cleiton, de 19 anos, que revelou ter sido procurado pelo pai antes da fuga. Na ocasião, o homem admitiu ter cometido um erro e afirmou que passaria um longo período sem aparecer, apontando para um cenário de premeditação.
Os Rumores e a Paciência Tática Policial
Ao longo dos quatro meses, diversas pistas falsas e chamadas anônimas geraram operações desgastantes. Em um dos episódios, mais de 80 profissionais foram mobilizados para vasculhar a margem de um rio após denúncias incorretas, sem que qualquer vestígio fosse localizado. A região de Paraíso do Norte, contudo, já figurava nos relatórios dos investigadores como um ponto de interesse prioritário, tendo passado por buscas terrestres e sobrevoos no passado.
A virada definitiva ocorreu no início de agosto, quando Cleiton cometeu uma falha em seu plano de fuga. Em 7 de agosto, ele teria participado de um roubo na cidade de São João do Ivaí. O rastro da ação criminosa permitiu à polícia localizar seu esconderijo em Mandaguari. Durante uma semana inteira, equipes policiais mantiveram vigilância sigilosa sobre o imóvel, aguardando o momento oportuno para realizar a abordagem com segurança.
Na manhã de sexta-feira, os policiais avançaram para cumprir a prisão. Ao notar a aproximação, Cleiton tentou fugir pelos fundos, mas encontrou as rotas bloqueadas. Em desespero, ele invadiu uma residência vizinha e rendeu o morador. De acordo com o depoimento da testemunha, que não possuía qualquer relação com o caso, o foragido arrombou a porta, foi até a pia da cozinha e se apossou de um garfo para tentar atacá-lo. Diante da ameaça iminente, os policiais interviram e Cleiton foi baleado, morrendo no local.
A Confissão em Umuarama e o Caminho até a Cova Rasa
Enquanto a operação em Mandaguari era finalizada, outra equipe efetuava a prisão de um segundo envolvido em Umuarama. Identificado pelo codinome Magrão, o homem confessou sua participação na dinâmica do crime e colaborou diretamente com a localização do ponto exato onde os corpos haviam sido ocultados.
Magrão conduziu as autoridades a uma cova rasa em uma área rural de difícil acesso nas proximidades de Paraíso do Norte. O local, escondido da visão da estrada e de transeuntes, guardava os restos mortais de duas pessoas, acompanhados de peças de roupas, cabelos e outros vestígios compatíveis com as características de Letícia e Estela.
O secretário de Segurança Pública do Paraná, coronel Hudson Leôncio Teixeira, confirmou publicamente as fortes suspeitas de que as ossadas pertençam às primas. O material biológico foi recolhido e encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML) para a realização de exames complementares de DNA e perícias antropológicas forenses para a emissão dos laudos de identificação oficial.
As Lacunas que Ainda Restam Esclarecer
Embora a localização dos corpos e a neutralização do principal suspeito tragam um fechamento para as buscas, diversas interrogações permanecem abertas no inquérito. A morte de Cleiton impede que ele seja interrogado judicialmente sobre suas reais motivações e impede o confronto direto com as declarações das testemunhas.
A apuração agora se concentra inteiramente no depoimento de Magrão. Entre as linhas avaliadas pela Polícia Civil, investiga-se se as jovens teriam sido mantidas em cativeiro por algum período antes de suas mortes, o que alteraria a cronologia dos fatos após a noite do dia 21 de abril. O esclarecimento total da divisão de tarefas entre os envolvidos e o motivo do crime dependem agora do andamento das perícias técnicas e dos novos interrogatórios perante a Justiça.