Uma pastora respeitada, um crime brutal e uma teia de mentiras que chocou o Brasil. Águida Xavier, vista como exemplo de fé, é acusada de articular o assassinato cruel de um vizinho após uma suposta rejeição amorosa. O que se escondia por trás das vestes religiosas? Entre acusações de abuso, uso de armas de facções criminosas e uma encenação que durou meses, a verdade veio à tona no tribunal. Não perca os detalhes dessa história sinistra e saiba como a justiça finalmente agiu. Leia a matéria completa nos comentários.
Em uma sociedade onde a imagem de líder religiosa costuma ser associada à paz, caridade e auxílio ao próximo, o caso que abalou a cidade de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, surge como uma mancha profunda e perturbadora. Águida da Silva Xavier, uma mulher que se intitulava pastora, teóloga e até psicoterapeuta, viu sua vida e sua reputação desmoronarem sob o peso de acusações de homicídio triplamente qualificado, fraude processual e conspiração. A história, que culminou no julgamento realizado em março de 2026, revela uma trama de obsessão, manipulação familiar e violência que parece extraída de um roteiro de ficção policial.
A Pastora e a Vida Dupla
Águida, aos 41 anos à época dos fatos, em 2021, era uma figura ativa na comunidade religiosa local. Conhecida pelas roupas modestas e pelo discurso fervoroso, ela era a filha de dona Florízia e atuava em diversas congregações, ministrando cursos de oratória e participando de projetos de reabilitação. No entanto, por trás da fachada de conselheira espiritual, a investigação revelou uma mulher que, segundo o Ministério Público, nutria uma obsessão secreta e perigosa. O alvo de seu suposto interesse amoroso era Francisco Gittenberg Vieira Pinto, um homem de 52 anos, casado e pai de três filhos, que residia na mesma rua da pastora.
Francisco levava uma vida exemplar. Funcionário da empresa Metal Frio, ele mantinha uma rotina rígida, caminhando 350 metros diariamente entre sua residência e o ponto de ônibus. A partir de novembro de 2021, essa caminhada tornou-se um pesadelo. Segundo a acusação, Águida não teria sido correspondida em seus sentimentos por Francisco e, sentindo-se rejeitada, decidiu transformar a vida do homem em um inferno, culminando em sua morte.
A Construção da Mentira
O roteiro de vingança foi construído com base em uma narrativa de vitimização. Águida afirmou ter sido vítima de um estupro em sua própria residência na madrugada do dia 8 de novembro de 2021. Ela descreveu um atacante com rosto coberto, óculos escuros e uma faca, que a teria violentado e, curiosamente, ordenado que ela contasse até 30 segundos após sua saída antes de buscar ajuda.
A partir desse relato, a pastora começou a tecer uma teia de fatos e invenções. Ela passou a sofrer uma transformação em seu estilo, adotando calças jeans, batom e uma vaidade que nunca antes demonstrara. A sobrinha, Florízia, tornou-se a primeira confidente, acionando um vigilante noturno para realizar rondas na casa da tia. A mentira ganhou contornos perigosos quando Águida, após supostamente ver um vídeo de câmera de segurança que nunca foi apresentado às autoridades, apontou Francisco como o culpado pelo abuso.

O Envolvimento da Família e o Crime Planejado
A crueldade do plano não terminou na difamação. Águida envolveu seus sobrinhos, Henrique da Silva Raimundo e Florízia, em uma conspiração mortal. Henrique, que enfrentava uma grave dependência química e depressão após o fim de seu casamento, foi manipulado pela tia. Águida buscou uma arma com conhecidos ligados ao crime organizado, alugando uma pistola 9mm com o auxílio de terceiros, como o criminoso identificado como Caio e uma outra pastora, Irani, que intermediou a logística da arma.
Na manhã do dia 21 de dezembro de 2021, Águida teria pedido explicitamente que Henrique matasse Francisco. O sobrinho, em um ato que a defesa tentou retratar como impulso, mas que a acusação provou ser premeditado, aceitou a missão. Munido da pistola e trocando de roupa para se disfarçar, Henrique esperou Francisco no trajeto habitual do trabalhador. Na tarde daquele dia, Francisco foi alvejado com 16 a 17 disparos em um cruzamento da cidade. Ele faleceu no local, a caminho do trabalho.
A Investigação e o Desmoronamento
Após o crime, a família de Águida tentou apagar vestígios. Aparelhos celulares foram formatados e histórias foram inventadas para confundir a polícia. No entanto, o trabalho de investigação da Polícia Civil foi minucioso. Ao apreender o celular do sobrinho Wesley, os investigadores encontraram mensagens que detalhavam a conspiração, incluindo fotos da arma usada no crime.
As prisões ocorreram em etapas. A pastora, os sobrinhos e todos os envolvidos foram levados à delegacia. Sob pressão, a narrativa de que Francisco teria pulado o muro da casa da pastora caiu por terra, revelando que tudo não passava de uma farsa arquitetada para justificar o ódio de Águida. O autor dos disparos, Henrique, chegou a fugir da cidade, passando por carvoarias e cidades do interior, mas foi preso em setembro de 2023, enquanto trabalhava em um supermercado, ironicamente após ter sido apontado como alguém que “se tornou uma pessoa correta” após o crime – uma tese contestada veementemente pelo Ministério Público.
O Veredito Final
No dia 11 de março de 2026, o fórum de Três Lagoas foi palco do encerramento dessa saga sinistra. O julgamento confirmou a condenação dos envolvidos. Águida Xavier, apontada como a mentora intelectual, foi condenada a 16 anos e 2 meses de reclusão. Henrique, o executor, recebeu uma pena de 16 anos pelo homicídio triplamente qualificado e porte ilegal de arma. Florízia, a sobrinha, teve uma participação considerada menor pelos jurados, mas ainda assim foi condenada a mais de 10 anos por transporte de arma e fraude processual.
Este caso levanta questões profundas sobre o papel de líderes religiosos e a responsabilidade de indivíduos que usam a fé como escudo para atos de barbárie. A história de Francisco, um homem trabalhador cuja vida foi ceifada por um capricho vil, permanece como um lembrete trágico da capacidade humana para o mal quando movida por rejeição, ganância e a falta de limites. A justiça foi feita, mas as feridas causadas pela pastora e sua família em Três Lagoas perdurarão por muito tempo.