A ESCRAVA que misturou ‘Veneno de 100 Sapos’ no Perfume da Sinhá por 3 Meses: O Rosto Devorado!
A ESCRAVA que misturou ‘Veneno de 100 Sapos’ no Perfume da Sinhá por 3 Meses: O Rosto Devorado!
Dona escolástica castigava as suas escravizadas com agulhas quentes por puro capricho estético. Mas o erro dela foi obrigar a mulher que mais odiava a preparar o seu perfume exclusivo todas as manhãs. O que ninguém sabia era que a cada pulverização a pele da ciná absorvia a secreção letal de 100 sapos cururus.
O rosto que Escolástica tanto exibia como troféu vai apodrecer enquanto ela ainda respira. No fim, a vaidade será a causa direta da a sua ruína física e social perante toda a a aldeia. Repara bem no silêncio que paira sobre o palacete da quinta de Santa Cruz ali no coração do recôncavo baiano. É um silêncio pesado que sufoca.
Não é o silêncio da paz, mas o silêncio do medo. O sol mal apontava no horizonte e o vapor já sobe da terra húmida, misturando o cheiro do melaço com o cheiro do suor. Lá dentro, no quarto principal, o som que se ouve é o tilintar metálico de uma agulha, sendo aquecida na chama de uma vela.
Dona escolástica não usa o chicote com as próprias mãos. Ela prefere o refinamento da dor lenta. Ela diz que uma cicatriz de agulha no braço de uma mucama é um lembrete mais delicado de quem é que manda. A Escolástica tem 45 anos e uma obsessão que roça a loucura, a própria beleza. Ela olha-se no espelho de cristal trazido da Europa e não aceita uma única linha de expressão, um único poro dilatado.
Para ela, o mundo gira em torno daquela face de porcelana que ela cultiva com cremes, olhos e o o seu famoso perfume francês guardado em um frasco azulado com tampa de prata. Mas por detrás desta máscara de perfeição existe um rasto de sangue que a terra do recôncavo ainda não engoliu. O que o povo da aldeia comenta à boca pequena nas sombras das igrejas é que o antigo senhor da quinta, o marido de Escolástica, morreu de uma forma estranha, uma doença súbita que o consumiu por dentro em poucos dias.
O que ninguém teve coragem de dizer em voz alta é que Escolástica queria a herança e a liberdade de mandar em tudo sem prestar contas a homem nenhum. Ela queria o poder absoluto e o direito de ser a mulher mais invejada da província. E ela conseguiu. Mas para manter este império de aparências, ela precisou esmagar a vida de quem realmente sabia da verdade.
Zoalinda, é esta verdade caminhando. Aos 38 anos, carrega no corpo e na alma as marcas desta zoalinda é a lavadeira da casa, mas no passado era a pessoa de confiança do antigo Senhor. Era ela quem cuidava das ervas, quem conhecia os segredos das matas e quem tinha em mãos um documento que mudaria a sua vida para sempre. O testamento que garantia a sua alforria.
Mas no dia em que o Senhor deu o último suspiro, a Escolástica não só queimou o papel à frente de Zoalinda, como pegou no ferro de marcar gado ainda em brasa, e pressionou contra a face da lavadeira. A marca no rosto de Zoalinda é um mapa de dor, uma cicatriz espessa e escura que deforma o lado esquerdo da sua face.
Escolástica fez isso para garantir que Zoalinda nunca fosse aceite noutra casa, para que ela fosse uma eterna prisioneira do seu ódio. O que assiná não se apercebeu é que, ao marcar o rosto de Zoalinda, esta assinou o próprio destino. Porque quem conhece o poder das plantas e o segredo dos animais sabe que a natureza não perdoa quem brinca a ser Deus.
Todas as manhãs a rotina repete-se. Zoalinda é obrigada a subir ao quarto da SH para entregar as roupas lavadas e engomadas com uma mistura de ervas que mantém o branco impecável. E é neste momento que o ritual mais perigoso acontece. escolástica, com o seu ar de superioridade, ordena a Zoalinda prepare a mistura do seu perfume.

Assim, há acredita que o toque das mãos dos Zoalinda, que ela considera malditas, de alguma forma potencia a fragrância. É um sadismo puro. Ela gosta de ver a mulher que ela mutilou servindo a sua vaidade. Mas o que a escolástica não sabe é que Zoalinda tem passado as noites no lameiro, lá nos limites da quinta, onde o capim é alto e a lama esconde o que a luz solar teme mostrar.
Com a ajuda de Zacarias, um pequeno escravizado de apenas 10 anos que não compreende o perigo do que está a fazer, Zoalinda tem caçado sapos cururus, grandes, pesados, com aquelas bolsas de veneno a latejar atrás dos olhos. O Zacarias acha que é uma brincadeira ou algum tipo de medicamento que a tia Zoalinda está a preparar.
Cuidado, meu filho, não toca-lhes. Ela diz com uma voz que parece vir do fundo de uma gruta. Ela maneja os bichos com uma precisão cirúrgica. Ela não quer matar os sapos, ela quer o leite. Aquela secreção branca, viscosa, que os cururus libertam quando se sentem encurralados. É um veneno que se ingerido mata em minutos, mas se aplicado na pele em doses ínfimas e diluído, actua como um ácido invisível.
Entra pelos poros, viaja pela corrente sanguínea e começa a apodrecer a carne de dentro para fora, muito devagar. Zoalinda mistura esta secreção no frasco de cristal azulado. Uma gota por dia, duas gotas por semana seguinte. É uma alquimia de vingança. Ela observa com um silêncio mortal, enquanto a escolástica pulveriza o líquido no pescoço, no colo e na face.
Assim, fecha os olhos, inala o aroma das flores francesas que mascaram o cheiro acre do veneno e sorri para o espelho. Ela se sente poderosa, sente-se eterna. O problema é que a exploração de Santa Cruz tem olhos e estes olhos pertencem a Tibúrcio, o feitor, um homem bruto que cheira a cachaça barata e a fumo de corda e que tem um prazer doentil em vigiar cada passo dos escravizados.
Tiburcio não gosta de Zoalinda. Ele sente que ela esconde algo por trás daquele olhar fixo e daquela cicatriz. Ele já a viu a voltar do brejo de madrugada, com as saias sujas de lama e um pote de barro escondido sob o chale. Tibúrcio desconfia. Ele acha que Zoalinda está a fazer feitiçaria contra a Sinh, ou pior, que está a tramar uma fuga.
Ele espera o momento certo para dar o bote. Ele quer uma promoção. Quer ser mais do que apenas o homem que segura o chicote. Ele quer a gratidão eterna de Escolástica. E para isso, ele está disposto a remexer nos pertences de Zoalinda até encontrar algo que a leve direto para o tronco. Enquanto isso, a economia da exploração está a desmoronar-se.
A Escolástica gasta o que não tem para manter o luxo, as festas e os vestidos importados. Ela esconde de todos que as dívidas estão a acumular-se e que o antigo senhor deixou um rasto de papelada que prova que a quinta está tecnicamente falida. A Zoalinda sabe disso. Ela viu o diário de contas do antigo senhor, um caderno de capa de couro que ela conseguiu salvar das chamas no dia da sua morte.
Nesse diário, o senhor descrevia os sintomas da doença que o estava a matar. Tonturas, náuseas e um ardor estranha na pele. Sintomas idênticos aos que a escolástica começará a sentir muito em breve. Zoalinda guarda esse diário como se fosse a sua própria vida. é a prova física de que a escolástica é uma assassina, mas ela sabe que entregar-se o diário agora para as autoridades da aldeia, ninguém vai acreditar numa lavadeira marcada.
Ela precisa que a justiça venha de outra forma. Ela precisa que a própria vaidade dos escolástica a destrua diante de todos. O plano está em curso. O veneno de 100 sapos já está acumulado no frasco azul. A reação química começou. Repara que o líquido que antes era límpido, tem agora um ligeiro reflexo esverdeado quando a luz bate de lado.
Escolástica, cega pelo próprio ego, não se apercebe. Ela apenas queixa-se que o perfume parece mais forte ultimamente. Ela gosta. Acha que é a qualidade do produto francês se intensificando-se com o tempo. Mas o primeiro sinal de que o ajuste de contas chegou aparece numa terça-feira de calor insuportável. Escolástica está a vestir-se para receber a visita de um novo médico que chegou da Europa, o Dr. Vigílio.
Ela quer impressioná-lo, quer mostrar que naquelas terras brutas do Brasil existe uma beleza que rivaliza com a das cortes de Paris. Ao passar o lenço de seda no pescoço para limpar um pouco de suor, ela sente uma pontada, um ardor leve, como se tivesse sido picada por uma formiga. Ela corre para o espelho. Aí, mesmo na base do pescoço, existe uma pequena mancha vermelha.
Não é uma mancha comum. É uma ferida que parece não ter bordos definidos, uma irritação que lateja ao ritmo do seu coração. Ela chama zoa linda aos gritos. Olha o que fizeste, sua imunda”, grita escolástica, apontando para o pescoço. “As camisolas estão a vir com alguma coisa? Está a usar sabão estragado? Quer contaminar-me com as suas doenças?” Zoalinda aproxima-se, mantendo a cabeça baixa, mas os seus olhos brilham com uma luz que a escolástica não consegue interpretar.
Ela olha para a ferida, ela conhece aquela marca. É o início da necrose. O veneno está a começar a comer a carne. É só o calor, sim. Há, responde Zoalinda com uma calma que irrita a patroa. O sol do recôncavo não perdoa a pele fina. Vou preparar uma compressa de ervas para a senhora. Escolástica bufa, empurrando zoa linda para longe. Ela não quer ervas de negra.
Ela quer os seus cremes. Ela quer esconder aquela imperfeição. Ela passa mais perfume sobre a ferida aberta, acreditando que o álcool vai limpar o local. O grito que ela solta ecoa por todo o palacete. O veneno puro, em contacto com a pele irritada, arde como o fogo do inferno. Lá em baixo, na cenzala, Zacarias ouve o grito e olha para Zoal Linda, que acaba de descer as escadas. Ela não diz nada.
Ela apenas caminha até ao tanque de lavar roupa, pega num pedaço de sabão de cinzas e começa a esfregar uma camisa branca com uma força que parece querer arrancar a própria pedra do chão. O jogo começou e enquanto aá se fecha no quarto, tentando esconder a mancha que insiste em crescer, Tibúrcio observa a zoa linda de longe, escondido atrás de um pé de manga. Viu a reação da lavadeira.
Viu que ela não se assustou com o grito. Ele sabe que o pote de barro que ela trouxe do lameiro tem algo a ver com isso. O feitor decide que hoje, quando o lua estiver no topo, ele vai invadir o puxadinho onde dorme a Zoalinda. Ele quer o pote, ele quer o segredo e não se importa em usar a força para conseguir o que quer.
O que Tibúrcio não sabe é que Zoalinda já não é a mulher indefesa que açoitava por prazer. Ela é agora a guardiã de uma vingança que está apenas na sua primeira vaga de destruição. A tensão na quinta de Santa Cruz está prestes a explodir e o frasco de cristal azul em cima do toucador de escolástica brilha como uma jóia maldita, à espera da próxima borrifada.
O tempo da beleza está a terminar. O tempo da podridão está apenas a começar. Dona escolástica achava que o perfume caro escondia o cheiro a sangue do seu passado, mas agora o próprio frasco é que transporta a sua sentença de morte. Enquanto a pele do seu pescoço começa a descolar como papel velho, o feitor Tibúrcio decidiu que ia lucrar com a desgraça da Siná.
O que este homem bruto não sabia era que Zoalinda já tinha montou-lhe uma ratoeira muito antes da primeira gota de veneno tocar no cristal. Repara bem, o mal quando é plantado com paciência colhe até quem tenta atravessar o caminho da justiça. O sol do meio-dia no recôncavo não tem piedade e dentro do palacete, o clima é de um velório onde o defunto ainda respira.
Escolástica trancou-se no quarto. O espelho, que antes era o seu melhor amigo, é agora o seu maior carrasco. Ela olha para o reflexo e vê a mancha no pescoço. Já não é apenas uma vermelhidão. A carne ali está a ficar escura, com uma borda amarelada que liberta um líquido fino e transparente.
O cheiro é o que mais a aterroriza. É um odor metálico, doce e podre ao mesmo tempo. Ela pega no frasco azulado, a tampa de prata treme nas suas mãos e ela pulveriza mais uma vez. O álcool atinge a carne viva e esta morde o lábio até sangrar para não gritar e alertar toda a casa. Ela acredita que a fragrância francesa vai vencer a podridão.
Pobre escolástica, ela está alimentando a própria ruína. Zoalinda lá em baixo escuta o silêncio do andar de cima. Ela sabe exatamente o que está acontecendo. Cada pulverização é mais um passo para o abismo, mas o perigo agora vem de outro lado. Tibúrcio, o feitor, não é homem de estar parado. Ele tem o faro de um cão de caça para o medo alheio.
Naquela manhã, enquanto Zoalinda estava no tanque, invadiu o quartinho onde ela dorme, nas traseiras da cenzala. Tibúrcio não procura ouro, ele procura o que dá poder sobre os outros. E ele encontrou. Debaixo do estrado da cama, escondido num buraco na terra batida, encontrou o pote de barro que A Zoalinda trazia do brejo. Dentro do pote não havia ouro nem documentos.
Havia apenas um resto de uma pasta viscosa, esverdeado e o couro seco de dois sapos cururus que não resistiram ao processo de extração. Tibúrcio sentiu um calafrio, mas o sorriso que se abriu em o seu rosto amarelado pelo fumo era de pura vitória. Para ele, aquilo era a prova de feitiçaria. E naquelas terras, uma escravizada acusada de enfeitiçar aá não ia para o tronco, ia diretamente para a forca ou era queimada viva no canavial.
“Apanhei-te, lavadeira”, pensou, guardando um pedaço daquele couro seco no bolso das calças de brinçuja. Ele não ia contar à escolástica ainda. Tibúrcio sabia que a quinta estava quebrando. Ele via cartas de cobrança chegando, via os bois a serem vendidos a preço de banana para pagar juros. Ele queria o silêncio de Zoalinda ou talvez algo mais.
Ele queria o que restava das jóias da Siná e ia usar Zoalinda como a chave para abrir aquele cofre antes que a casa caísse. Só que Zoalinda não é uma mulher que se deixa apanhar sem lutar. Quando ela voltou para o quarto e viu o terra mexida, o sangue não subiu à cabeça. Ela não chorou, não tremeu. Ela sentou-se no chão e respirou fundo.
Ela sabia que o Tiburcio ia tentar o bote. O problema é que o feitor era burro e homem burro com poder torna-se previsível. Zoalinda sabia de algo que Tibúrcio escondia da Siná, o roubo sistemático de gado. Há meses, o feitor desviava vitelos para uma quinta vizinha em troca de aguardente e proteção. Zoalinda tinha as datas, os nomes e sabia onde estava o gado marcado escondido.
A guerra agora já não era apenas entre a vítima e a vilã. Era um jogo de xadrez num tabuleiro de lama. Enquanto isso, o Dr. Vigílio chegou ao palacete. Ele é um homem de poucas palavras, com as mãos sempre limpas e um olhar que parece atravessar as pessoas. Ele foi recebido na sala de jantar por uma escolástica que usava uma gola de renda altíssima, presa por um broche de esmeralda para esconder o pescoço.
Ela tentava manter a pose, mas o suor frio escorria-lhe pelas as suas têmporas, abrindo sucos no pó de arroz que ela utilizava em excesso. “A senhora parece-me pálida, dona escolástica”, disse o médico, sem sequer tocar no café que lhe foi servido. E o cheiro neste ambiente é persistente, alfazema e algo mais. Escolástica forçou um sorriso que mais parecia uma careta de dor.
É o calor, doutor. As flores do jardim sofrem com o sol e o perfume francês é forte. Sabe como são essas coisas importadas? Vigílio não era parvo. Ele sentiu o rasto químico no ar. Ele estudou na Europa, assistiu-se a casos de envenenamento por arsénio e chumbo em fábricas de cosméticos. Mas ali, naquele fim de mundo, o que ele sentia era diferente, era orgânico.
Ele pediu para examinar a doente. Escolástica hesitou. Se ela mostrasse a ferida, o segredo da sua perfeição acabaria. Mas a dor era tanta, uma ardor que parecia que mil agulhas quentes, as mesmas que ela usava nas mucamas, estavam a atravessar a sua pele. Agora, no momento em que ela desfez o broche e a renda baixou, o Dr.
Vigílio deu um passo atrás. A cratera no pescoço da O Sá era de um roxo doentio. A pele em volta estava esticada, brilhante, prestes a romper. O médico aproximou-se com uma pinça de prata. No momento em que o instrumento tocou a borda da ferida, a prata começou a mudar de cor. Ficou baça, acinzentada. Isto não é uma doença da terra, minha senhora! Murmurou o médico com uma frieza que gelou o sangue de escolástica.
Isso é uma reação. Algo está a devorar a sua pele de fora para dentro. O que a senhora tem passado nesse pescoço? Apenas o meu perfume, o melhor de Paris”, gritou ela, a voz a falhar. “Pois eu aconselho a senhora a guardar esse frasco. Vou levar uma amostra para analisar”. Nesse preciso momento, a porta da sala abriu-se com estrondo.
Era Tibúrcio. Entrou sem pedir licença, chapéu na mão, mas com os olhos injetados. Ele olhou para a sua linda que estava no canto da sala e move-o como uma estátua de ébano. “Sim, ah, preciso falar. Coisa urgente de feitiçaria e roubo, disse o feitor, ignorando o médico. Achei coisa nojenta no quarto da lavadeira, coisa de matar gente.
Zoalinda deu um passo em frente antes que Escolástica pudesse responder. Ela sabia que era o momento do tudo ou nada. Se o feitor quer falar de roubo talvez deva começar por explicar porque os vitelos da invernada do sul estão com a marca do coronel pontes, ali na Vila Velha. Eu vi o senhor a levar eles na calada da noite, Tibúrcio. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som de uma mosca varejeira que zumbia à volta do pescoço de Escolástica, atraída pelo cheiro da carne podre. Tibúrcio empalideceu.
A acusação de roubo de gado para um feitor era uma sentença de morte ou no mínimo de degredo. Tentou puxar o couro do sapo do bolso para provar a feitiçaria, mas as mãos tremiam tanto que deixou o objeto cair no chão, mesmo aos pés do Dr. Vigílio. O médico baixou-se e pegou o resto seco do animal.
Ele olhou para o sapo, depois para o frasco azul em cima da mesa de apoio e depois para o pescoço de escolástica. O puzzle começou a montar-se na cabeça do homem de ciência. Ele não disse nada. Ele é um racionalista, e não um juiz de moral. Mas viu a marca no rosto de Zoal Linda. Viu o ódio contido naqueles olhos. Escolástica, sentindo-se traída por todos os lados, explodiu num acesso de fúria e dor. Saiam todos.
Tibúrcio, se eu descobrir que tocaste num fio de cabelo do meu gado, eu própria te mando para a forca. E tu, Zoa Linda, volta para o tanque. Eu vou tratar-me com o doutor. Tibúrcio saiu espumando de raiva, mas o medo era agora maior do que a ganância. Ele sabia que Zoalinda tinha as provas do roubo. Ele precisava eliminá-la antes que ela falasse com o delegado da vila.
Mas o Alinda já tinha se antecipado. Ela tinha dado o diário de contas do antigo Senhor para o pequeno Zacarias esconder na mata. Se algo lhe acontecesse, o menino tinha ordens para entregar o caderno diretamente ao Dr. Vigílio. A noite caiu na quinta Santa Cruz com uma promessa de tempestade. O céu estava roxo, da cor da ferida de escolástica.
No quarto, não conseguia dormir. A febre começou a subir. Ela sentia como se centenas de sapos estivessem a coachar dentro dos os seus ouvidos. Cada vez que ela fechava os olhos, via o rosto do marido morto com a pele a cair, do mesmo modo que a dela estava agora. Ela estendeu a mão para o criado-mudo e pegou no frasco de perfume.
Ela precisava do cheiro das flores. Ela precisava de se sentir limpa. Ela aborrifou o líquido na cara, cobrindo as bochechas, a testa e o queixo. Foi o seu maior erro. O veneno, agora numa concentração altíssima, após meses de preparação de zalinda, reagiu com o calor da febre. Lá fora, um raio cortou o céu, iluminando a cenzala. Zoalinda estava acordada sentada na porta do seu quartinho.
Ela ouviu o primeiro grito. Não foi um grito de raiva, foi um grito de puro terror. Escolástica tinha acabado de passar a mão na cara e sentiu algo estranho. Quando olhou para os dedos, estavam cobertos por uma película fina e branca. Era a sua pele. A pele da bochecha que ela tanto amava estava a soltar-se como se fosse uma máscara de cera derretida.
O Dr. Vigílio, que estava hospedado no quarto de hóspedes, correu para o corredor. Encontrou escolástica de joelhos com o rosto escondido entre as mãos, soluçando desesperadamente. Quando ele tentou ajudá-la a levantar-se, ela afastou-se, mas o médico conseguiu ver. No lugar da pele alva havia carne viva, vermelha e ensanguentada.
O veneno do O sapo cururu tinha terminado o seu trabalho de destruição química. Mas o que ninguém esperava era o que ia acontecer a seguir. Tibúrcio, desesperado para limpar a sua barra, decidiu que ia incendiar o quartinho de Zoalinda com ela lá dentro. Ele se aproximou-se com uma tocha, mas o que ele encontrou não foi uma mulher a dormir, era uma sombra que parecia vir dentro da própria terra.
Zoalinda estava à espera por ele e na mão dela não havia uma faca, nem uma arma de fogo. Havia apenas uma pequena colher de prata, a mesma que ela usava para misturar o perfume da Cá. “Olha bem para esta prata, Tibúrcio”, disse ela com a voz baixa e firme. “Ela ficou preta porque a casa está cheia de veneno e você é o próximo a prová-lo”.
O feitor avançou, mas tropeçou nos próprios pés, caindo sobre a lenha que ele próprio tinha empilhado. O fogo da tocha atingiu o álcool que trazia para apressar o incêndio. Em segundos, as chamas subiram, mas o fogo não atingiu zoa linda. Ele formou uma barreira entre ela e o homem que a torturou durante anos.
Enquanto a quinta começava a acordar com o alvoroço do fogo e dos gritos da Sá, Zoalinda caminhou calmamente em direção à casa grande. Ela tinha um encontro marcado com a verdade. Ela tinha o testamento original, aquele que Escolástica pensou ter ardido, mas que Zoalinda tinha trocado por uma cópia falsa na noite do crime.
O império de Escolástica estava a desfazer-se e o cheiro de flores francesas estava a ser substituído pelo cheiro a queimado e a justiça. O que aconteceria quando o Dr. Vigílio visse o conteúdo do diário? E como escolástica reagiria ao descobrir que a sua beleza não foi roubada por uma doença, mas devolvido pela mesma mulher que ela marcou com ferro quente? A noite estava longe de terminar e o recôncavo estava prestes a ver o maior escândalo da sua história.
O fogo que Tibúrcio acendeu para apagar Zoalinda acabou por iluminar o que mais queria esconder, a própria cobardia. Mas enquanto o feitor gemia no chão, com as mãos queimadas pelo álcool que ele mesmo derramou, o verdadeiro horror acontecia no andar de cima do palacete. Dona escolástica diante do espelho tentava colar de volta pedaços da sua própria pele com banha de carneiro e pó de arroz.
O que ela não sabia era que o veneno dos 100 sapos já tinha atingido a corrente sanguínea e agora cada batida do seu coração mandava a podridão mais fundo para dentro dos seus ossos. Repara ora, a vaidade cega, mas a dor, essa sim faz-nos ver o inferno antes da hora. O cheiro a fumo da cenzala se misturou ao cheiro de carne podre que vinha do quarto da Cá. Dr.
Virílio, parado no corredor, sentia o estômago revirar. Ele já tinha visto feridas de guerra e pestes nos portos da Europa, mas nunca algo que devorasse um rosto com tamanha precisão cirúrgica. Bateu à porta, mas recebeu apenas um grito histérico como resposta. Escolástica não queria ser vista. Ela tinha consciência de que se alguém olhasse para ela naquele estado, o seu reinado de beleza e poder terminaria antes do Sol nascer.
Mas o problema da escolástica era maior do que a pele que caía. O problema chamava-se consciência, algo que ela pensava ter enterrado junto com o marido. Naquela noite de febre alta, as paredes do quarto pareciam sussurrar o nome do falecido. Ela sentia o mesmo frio que sentiu, a mesma ardor no estômago. O medo de morrer como morreu, começou a ser maior que o medo de ficar feia.
Só que para a escolástica, a fealdade era uma morte social e ela não aceitava cair sem lutar. Lá fora, Zoalinda caminhava entre os destroços do incêndio. Ela não olhou para Tibúrcio, que rastejava pedindo ajuda. Ela foi diretamente para o esconderijo, onde o pequeno Zacarias guardava o diário de couro. O menino estava trémulo, escondido atrás de um grande tacho de cobre.
A Zoalinda pegou no caderno e sentiu o peso daquela prova. Aí estavam as datas, as dosagens e as descrições detalhadas de como Escolástica tinha eliminado o marido. Era a arma que faltava para o golpe final. Só que o destino é uma faca de dois gumes. Enquanto Zalinda se preparava-se para entregar o diário ao médico, um dos capangas de Tibúrcio, que tinha ficado à espreita, viu o movimento.
O homem, um sujeito baixo e silencioso chamado Januário, percebeu que aquele caderno era importante. Ele não sabia ler, mas sabia que o papel escrito era o dinheiro ou a liberdade naquelas terras. Januário não ajudou o patrão Tibúrcio. Ele preferiu seguir Zoalinda pelas sombras, esperando o momento de tomar o diário para si. Zoalinda entrou na casa grande pelos fundos, pela cozinha que cheirava a café e medo.
Ela subiu à escada de serviço, fugindo do olhar das outras mucamas que rezavam em cantos escuros. Ela precisava chegar ao quarto do Dr. Vigílio, mas no meio do caminho ela deu de caras com a própria escolástica. Assim a tinha saído do quarto, enrolada num chale de seda negra que lhe cobria até os olhos. Ela parecia um fantasma a vaguear pelos corredores.
Quando viu Zoa Linda, a fúria superou a dor. Você sibilou escolástica, a voz saindo como um rasgo de lixa. Trouxeste a praga para esta casa. Sinto o cheiro do brejo em você, lavadeira. Zoalinda não recuou. Pela primeira vez em anos, ela olhava diretamente nos olhos da mulher que a marcou com ferro quente. O cheiro que a senhora sente não é do lameiro, senhá, é o cheiro do que a senhora tem por dentro.
O perfume acabou, a máscara caiu. Escolástica avançou para dar uma bofetada na cara de Zoa Bonita, mas o esforço físico fez com que a ferida no seu pescoço se abrisse ainda mais. Um líquido escuro manchava a seda a cara do Challe. Ela cambaleou, segurando-se no corrimão de pau-santo. Foi neste momento que o diário escorregou da mão de Zoalinda e caiu no tapete.
Escolástica reconheceu o caderno na hora. Era o diário de contas do marido, o objeto que procurou por meses, pensando que o tinha levado para o túmulo. “Onde é que arranjou isto?”, gritou assim, esquecendo a dor por um segundo. “Entrega-me esse caderno agora.” Zoalinda, foi mais rápida. Ela pegou no diário e correu em direção ao quarto do médico.
Mas Januário, o capanga que a seguia surgiu das sombras e barrou o caminho. Ele estava com uma faca de mato na mão. A situação era desesperada. De um lado, uma vilã apodrecendo. Do outro, um mercenário armado e no meio, uma mulher que só tinha a verdade como escudo. Foi aí que a porta do Dr. Vigílio abriu-se. O médico apareceu segurando um candieiro.
A luz forte revelou a cena. A cinha desfigurada sob o chale, a lavadeira encurralada e o capanga pronto para o ataque. Vigílio com a calma de quem já operou sob fogo de artilharia, não se abalou. Baixa essa faca, homem, disse o médico a Januário. Ou garanto que o delegado saberá quem incendiou o cenzala esta noite. Januário hesitou.
Não queria problemas com a lei, só queria lucro. Ao ver a autoridade do médico, este recuou e desapareceu na escuridão do corredor. Zoalinda, sem perder tempo, entregou o diário ao Dr. Vigílio. Leia, doutor, leia o que aconteceu com o antigo senhor e compare com o que está a acontecer com ela agora.
Vigílio pegou no caderno e entrou no quarto trancando a porta. Escolástica ficou do lado de fora, batendo na madeira, implorando, gritando que era tudo mentira, que Zoalinda era uma feiticeira que tinha forjado os escritos, mas a verdade tem um peso que não se pode ignorar. Dentro do quarto, o médico começou a foliar as páginas amareladas.
Ele lia as descrições dos sintomas. Hoje, dia 14 de maio, sinto a minha pele queimar. Os meus olhos estão turvos. A Escolástica deu-me o tónico, mas o sabor estava amargo. Vigílio sentiu um calafrio. Olhou para o frasco de perfume que tinha levado a analisar mais cedo. Ele pegou numa pequena colher de prata que estava na sua mala e mergulhou no líquido esverdeado.
Em segundos, a prata não só escureceu, ela começou a ser corroída. O veneno era tão potente que estava a destruir o metal. O médico percebeu que não era apenas uma tentativa de vingança de Zoalinda, era uma repetição poética. Escolástica estava a morrer pelo mesmo método que utilizou para matar, mas com uma crueldade refinada.
Ela estava a ser consumida pela própria ferramenta da sua vaidade. Enquanto isso, lá fora, o feitor Tibúrcio, com as mãos enfaixadas, com trapos sujos, conseguiu levantar-se. Estava possuído pelo ódio. Ele perdeu o gado, perdeu o respeito dos capangas e agora ia perder a posição na quinta. Pegou num chicote pesado e começou a subir as escadas.
Ele queria o sangue de Zoalinda. Ele não se importava mais com a Sinal ou com o médico. Ele queria silenciar a mulher que o humilhou. A tensão dentro do palacete era quase palpável. Escolástica, exausta e febril, desabou à porta do quarto do médico. Ela começou a rir. Uma risada maníaca de quem já perdeu a razão. Não adianta, doutor, ela gritava.
Amanhã é o baile da província. O governador vem jantar aqui. Eu serei a rainha da festa. Ninguém vai acreditar num caderno velho e numa escrava marcada. Zoalinda, parada ao fundo do corredor, observava a queda da sua inimiga. Ela sentiu um misto de alívio e nojo. O plano estava a funcionar, mas o preço era alto.
Ela sabia que Tiburcio estava vindo. Ela ouvia o som pesado das botas dele na escada. Ela não tinha para onde fugir. O Dr. Vigílio abriu a porta. O seu rosto estava pálido. Ele olhou para a escolástica no chão e depois para a Zoalinda. “Este diário prova o assassinato do Senhor da quinta”, disse -lhe a voz baixa e grave. “Mas amostras do perfume provam que há um veneno novo agindo agora.
Um veneno que não estava no tónico do marido.” Zoalinda deu um passo em frente. É o veneno do sapo curu, doutor. 100 sapos por cada mês de sofrimento que ela me causou. Vigílio fechou os olhos por um segundo. Ele era um homem de ciência, mas ali naquele corredor escuro do recôncavo, ele entendia que a medicina não tinha poder sobre a justiça da terra.
Ele ouviu os passos de Tibúrcio chegando ao cimo da escada. O feitor apareceu com o chicote em riste, os olhos vermelhos de cachaça e dor. Agora morres tu, lavadeira, o rbúrcio. Mas antes que o chicote pudesse instalar, algo aconteceu. Escolástica. num último surto de loucura, levantou-se e arrancou o chale que cobria o seu rosto.
O que Tiburcio viu foi um crânio vivo, carne vermelha e olhos injetados numa moldura de cabelos desgrenhados. O susto foi tão grande que o feitor, já debilitado pelas queimaduras, deu um passo atrás, perdeu o equilíbrio e rolou escada abaixo, partindo o pescoço no primeiro patamar. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Tibúrcio estava morto.
Escolástica estava caída, respirando com dificuldade, o rosto exposto para quem quisesse ver a sua ruína. O doutor Virílio guardou o diário no bolso do palitó. Amanhã o delegado estará aqui para o jantar do governador”, disse o médico a Zoalinda. “Eu não posso ignorar o que li neste diário. Dona escolástica não irá ao baile.
Ela irá para a prisão se sobreviver até lá.” Zoalinda olhou para a marca no seu próprio rosto. Ela sentiu que, pela primeira vez em 20 anos, a cicatriz não ardia. O veneno dos sapos tinha feito com que o que o ferro quente não conseguiu. Ele tinha nivelado as duas mulheres, uma pela dor da injustiça, a outra pela dor da própria maldade.
Mas o que ninguém sabia era que Escolástica ainda tinha um último trunfo. No seu delírio, ela tinha ordenou que as outras mucamas escondessem todos os outros frascos de perfume pela casa, misturando-os com as bebidas que seriam servidas no jantar do governador. Se ela ia cair, ela pretendia levar toda a elite da província com ela.
O banquete da morte estava a ser preparado na cozinha e nem Zoalinda, nem o médico sabiam que o verdadeiro massacre estava ainda por vir. O que acontece quando o ódio de uma vilã decide tornar-se um atentado contra todos? E será que Zoalinda conseguirá impedir que os inocentes paguem pelo pecado de escolástica antes que o primeiro brinde seja feito? A noite de aniversário da província estava prestes a tornar-se o capítulo mais sangrento da história da Baía.
Dona escolástica decidiu que se não pudesse ser a rainha da província, seria a sua ceifeira. Enquanto o rosto dela caía em pedaços no andar de cima, as mucamas, sob ameaça de morte, despejavam o veneno de 100 sapos nas garrafas de vinho que seriam servidas ao governador. Mas o que a vilã esqueceu é que o rasto de uma serpente é fácil de seguir para quem nasceu no mato.
O banquete da vaidade estava pronto, mas o brinde final não seria com vinho, e sim com a verdade nua e crua perante toda a elite baiana. O casarão da quinta de Santa Cruz estava iluminado como nunca. Carruagens luxuosas paravam à porta, despejando homens de cartola e mulheres com vestidos de seda que custavam o preço de 10 escravizados.
O cheiro a gardénias e jasmim tentava a todo o custo esconder o odor a fumo, que ainda subia das cinzas da cenzala e o cheiro a morte que emanava do quarto da Sá. Lá dentro, Escolástica estava sendo preparada. Ela já não conseguia falar direito. A pele em redor da boca tinha enrijecido e escurecido.
Ela usava uma máscara de seda branca, bordada com fios de ouro, presa por fitas apertadas que faziam latejar o sangue nas suas têmporas. No salão principal, o governador e a sua comitiva riam e comentavam a hospitalidade da famosa dona escolástica. Dr. Vigílio, postado num canto da sala, mantinha a mão dentro do casaco, segurando o diário de couro.
Ele observava as mucamas circulando com bandejas de prata, servindo o vinho tinto que brilhava à luz dos candelabros. Ele notou algo estranho. As mãos das raparigas tremiam tanto que o líquido salpicava as toalhas de linho. Zoalinda estava na cozinha. Ela tinha visto Januário, o capanga, fugir para a mata. após a morte de Tibúrcio.
Mas ela não tinha tempo para ele. Ela intercetou uma das mucamas no corredor de serviço. O que tem nesse vinho, menina? Fala logo antes que o sangue de todos aqui caia nas as tuas costas, sussurrou a sua linda, segurando o braço da jovem. A moça desabou em choro. Assim a mandou misturar o líquido verde do frasco azul em todas as garrafas.
Ela disse que se ela não pudesse mais brilhar, ninguém mais ia ter olhos para ver nada. Zoalinda sentiu um gelo na espinha. A Escolástica não queria apenas vingança contra ela. Ela queria destruir o mundo que a idolatrava. Sem pensar duas vezes, Zoalinda atravessou a porta de Vai vem e entrou no salão nobre.
Uma lavadeira com o rosto marcado e as roupas sujas de cinzas a caminhar entre a nobreza. O silêncio foi imediato. As risadas morreram. O governador, com a taça de vinho a centímetros dos lábios, franziu a testa. O que significa esta interrupção? Perguntou o governador, o seu voz a ecoar no salão. Nesse exato momento, o som de passos pesados vinha da escadaria.
A Dona escolástica estava descendo. Ela parecia uma aparição de um pesadelo. O vestido de veludo negro contrastava com a máscara branca. Ela caminhava com uma rigidez sobrenatural. “Não dêem ouvidos a esta criminosa”, gritou escolástica por detrás da seda, a voz a sair abafada e gutural. Ela incendiou a minha quinta e matou o meu feitor. Prendam-na já.
Os guardas do governador avançaram, mas o Dr. Virílio deu um passo em frente, bloqueando o caminho. “Parem”, ordenou o médico. “Antes de qualquer detenção, o senhor governador deve saber o que está prestes a beber”. Virílio caminhou até à mesa principal. Tirou a taça das mãos do governador. A atmosfera estava carregada.
Dava para ouvir a respiração ofegante de escolástica no topo da escada. O médico tirou do bolso uma pequena colher de prata. Reparem bem todos vocês disse Vigílio. A prata é o juiz dos venenos. Mergulhou a colher no vinho. Em menos de três segundos diante dos olhos arregalados da elite baiana, o metal precioso tornou-se negro como o carvão.
Um murmúrio de horror percorreu a sala. Algumas mulheres gritaram, deixando as suas taças caírem e estilhaçarem-se no chão de mármore. “Envenenamento!”, exclamou o governador, levantando-se bruscamente. “Escolástica? O que significa isto? Assim, vendo que o seu plano de massacre coletivo tinha falhado, perdeu o que restava da sua sanidade mental.
Ela começou a descer os degraus aos tropeções, rindo de forma histérica. “Vocês adoravam-me”, gritava ela, a voz rasgando a garganta. Vocês vinham aqui para ver a minha beleza, pois vejam agora, vejam o que o vosso mundo fez comigo. Num gesto de puro desespero e loucura, ela arrancou a máscara de seda diante de todos. O horror foi absoluto.
Onde deveria haver um rosto, havia apenas carne viva, necrose e ossos começando a aparecer. A vaidade de escolástica tinha-se tornado a sua própria carrasca. O veneno dos 100 sapos, potenciado pelo calor e pelo uso contínuo, tinha transformado a mulher mais bela da província num monstro de carne e sangue.
O governador deu um passo atrás, tapando a boca. Zoalinda depois caminhou até ao centro do salão e entregou o diário de couro e o testamento original ao Dr. Virílio, que passou-os imediatamente para o governador. “Aqui está a prova, excelência”, disse Zoalinda, a sua voz firme e alta pela primeira vez na vida. O crime que cometeu contra o marido, as dívidas que ela escondia e a alforria que ela me roubou, marcando o meu rosto com ferro quente.
A beleza que ela queimou em mim, o sapo consumiu no dela. O governador foliou as páginas com as mãos trémulas. A evidência era innegável. O relato do falecido marido sobre o envenenamento lento batia exatamente com os métodos que acabavam de ser descobertos nos copos de vinho. “Guardas”, disse o governador, a voz carregada de autoridade e nojo.
“Levem esta mulher. Ela será julgada por homicídio, tentativa de homicídio em massa e a crueldade excessiva. Confisque em todos os bens da quinta de Santa Cruz. Escolástica tentou lutar, mas não tinha forças. Ela caiu ao fundo da escada, os seus dedos a arranhar o chão, deixando marcas de sangue.
Ela foi arrastada para fora do próprio palacete, sob os olhares de desprezo daqueles que horas antes imploravam por um convite seu. Ela nunca chegaria a ser julgada num tribunal comum. A infecção causada pelo veneno atingiu o cérebro em poucos dias, deixando-a num estado de agonia que nem a morfina conseguia aplacar. Ela morreu numa cela escura, sem espelhos, gritando por um perfume que já não podia mais esconder o cheiro da sua própria alma.
A quinta de Santa Cruz foi leiloada para apagar os credores e as indemnizações. Com a descoberta do testamento original, Zoalinda foi declarada uma mulher livre no dia seguinte, mas a justiça não parou por aí. O Dr. Vigílio e o governador, tocados pela brutalidade do caso, garantiram que Zoalinda recebesse uma parte considerável das posses confiscados como reparação pelos anos de tortura e pela marca permanente no seu rosto.
Tibúrcio, o feitor, foi sepultado numa cova rasa nos limites da floresta, sem cruz e sem nome, como era o destino dos tiranos daquela época. Januário nunca mais foi visto. Dizem que se embrenhou-se no sertão e morreu de sede, ou que foi devorado pela mesma terra que ele ajudou a manchar com o sangue dos inocentes. Zoalinda não ficou na quinta.
Ela pegou no pequeno Zacarias e levou-o consigo. Ela comprou uma pequena casa perto do mar, longe do cheiro do melaço e do barulho do chicote. Ela nunca tentou esconder a cicatriz no rosto. Para ela, aquela marca não era mais um símbolo de vergonha, mas uma medalha de sobrevivência. Ela continuou conhecendo as ervas, mas agora usava-as apenas para curar, nunca mais para ferir.
Ela sabia que a natureza tinha feito a sua parte e que o equilíbrio tinha sido restaurado. A história da escrava que utilizou o veneno de 100 sapos para derreter a máscara de uma assassina, tornou-se uma lenda no recôncavo baiano. Os pais contavam para os filhos sobre como a vaidade pode ser uma armadilha mortal e como a verdade, por mais que tente ser enterrada, sempre encontra uma saída pelos poros da pele.
Repara bem na lição que o tempo deixou. Quem planta espinhos não pode esperar colher pétalas. Dona escolástica achava que o mundo pertencia a quem tinha o rosto mais limpo, mas descobriu da forma mais dolorosa possível que a verdadeira a podridão começa por dentro. No final, o frasco de cristal azul ficou vazio, mas a memória da justiça de Zoalinda permanece viva em cada canto daquela terra.
Quem planta veneno colhe a própria destruição. A vaidade de escolástica foi a armadilha que ela própria armou. No fim, a verdade encontra sempre uma saída pelos poros da pele, e o destino cobra cada gota de sangue derramada injustamente. A justiça tardou, mas veio com a força de um sapo cururu escondido na sombra da beleza. Se esta história de justiça e mistério tocou-lhe, não se esqueça de deixar o o seu like e subscrever o canal para mais relatos fortes como este.
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