A Dinastia Trágica Que Construiu (E Perdeu) São Paulo: A Família Penteado (Documentário) 

A Dinastia Trágica Que Construiu (E Perdeu) São Paulo: A Família Penteado (Documentário)

 

Em cada grande fortuna, existe um momento em que ela deixa de ser dinheiro e torna-se outra coisa. Para algumas famílias, transforma-se num poder, para outras, em mármore. Para uma pequena minoria, transforma-se em arte e para quase todas, no final, transforma-se em silêncio. A história que esta noite vamos contar é a de uma família que percorreu em três gerações todas estas formas de uma fortuna.

Café no início, salões parisienses no meio, o modernismo e as bienais no fim. E depois nada. Não no sentido literal, porque os descendentes continuam existindo, alguns ainda em São Paulo. Mas no sentido que importa para esta história, nada do que tinha sido o orgulho da família. A casa de esquina em Campos Elízios, a quinta no interior, o pavilhão decorado por Lazar Segal, a coleção que reunia Picasso e Tarcila.

Nada disso ficou no local onde foi construído. Em Campos Elíseos, no centro de São Paulo, existiu até 1943 uma mansão eclética numa esquina que hoje é uma avenida de seis faixas. A casa tinha sido projetada por Ramos de Azevedo, o arquitecto que mais palacetes desenhou para aristocracia café eicultora paulista.

Tinha uma cúpula austera, importada de Itália. Recebia nas Terças-feiras de fim de tarde intelectuais franceses, poetas brasileiros, pintores que tinham passado por Paris. No fundo do terreno, em 1924, foi construído um pequeno pavilhão decorado por o lazar cegal, paredes coloridas com murais abstratos, exposição permanente de obras compradas em Paris por uma mulher que tinha nascido numa fazenda em Mogimirim.

Esse pavilhão foi onde Tarcila do Amaral mostrou os seus primeiros quadros importantes, onde Mário de Andrade leu poesia, onde, segundo os relatos da época, Heitor Vilalobos tocou ao piano. Em 1943, 9 anos depois da morte da dona da casa, toda a mansão foi demolida. O presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Prestes Maia, precisava de largar uma rua para transformá-la em avenida.

A casa foi posta no chão, como tinha sido posta de pé, por decisão de alguém que considerava que o futuro da cidade era mais importante do que o passado dela. No terreno construíram um hotel, o comodoro. O hotel também já não existe da mesma forma em que foi inaugurado. A esquina existe, a avenida existe, os os automóveis passam a milhares por dia.

casa, do pavilhão, dos murais de Segal, da coleção de cubistas que tinha viajado de Paris para São Paulo, nos porões de transatlânticos. Não ficou pedra que se possa apontar. É essa a moldura desta história. Uma família que teve tanto dinheiro no auge que comprava picassos para decorar a casa.

Uma mulher que foi chamada pelos modernistas brasileiros de Nossa Senhora do Brasil. Uma sobrinha que duas décadas depois fundaria o Museu de Arte Moderna de São Paulo, organizaria a primeira Bienal de São Paulo, traria Guernica ao Brasil. E no meio de tudo isto, uma queda que não foi gritada, porque o old money brasileiro raramente grita.

Foi uma queda que aconteceu enquanto a família continuava a aparentar em fotografias de jornal e em jantares dados noutras casas que já não eram delas. Subscreva para mais documentários sobre as grandes dinastias do Old Money brasileiro e mundial. Novos episódios todas as semanas. A história começa no interior de São Paulo, no ano de 1830.

Um menino chamado José Guedes de Souza nasce numa propriedade rural. 57 anos depois, este menino, que entretanto se tornou um dos caféicultores mais ricos do Oeste Paulista, recebe do imperador Pedro II, numa das últimas grandes levas de títulos de nobreza concedidos antes da queda da monarquia, o título de Barão de Pirapitingui.

10 anos depois disso, em 1897, já em plena República, José Guedes de Souza morre, deixa para trás sete filhos, uma fortuna em terras e uma filha de 25 anos, casada há nove com seu primo. Uma filha que viria a tornar-se o nome próprio com que esta família ficou inscrita na memória cultural do Brasil.

O nome dessa filha era a Olívia, mas para chegar a Olívia é preciso voltar a Mogimi a fazenda do pai dela. Ao café que a família plantava antes de a família existir como nome, porque os guedes de Souza, antes de serem barões, eram apenas mais uma família de Os sertanejos paulistas que tinha entendido, em algum momento do meio do século XIX que a terra que pisavam dava o melhor café do mundo.

 

 

 

 

 

A história de José Guedes de Souza começa, como tantas histórias, do Old Money Paulista, no interior de São Paulo, na primeira metade do século XIX, a região do Oeste Paulista, onde a família tinha terras, era uma zona em que o solo era escuro e profundo, em que a terra ainda era barata e em que, na altura em que José nasceu, 25 de abril de 1830, começava a desenhar-se o que viria a ser a maior expansão agrícola da história do Brasil.

O café não tinha chegado de uma vez, tinha chegado em ondas, primeiro pelo Rio de Janeiro, no início do século, subindo depois pelo Vale do Paraíba, conquistando vassouras, bananau, areias. E à medida que o solo destes lugares se esgotava, porque o café exigia da Terra mais do que ela podia dar por muito tempo, a fronteira da lavoura empurrava-se para oeste, para Campinas, para Limeira, para Mogimirim.

Era para esta região conhecida na época como o oeste de São Paulo, que migrava o capital, que migravam as famílias, que migravam sobretudo os homens jovens que tinham compreendido uma coisa que parecia simples e era complicada de pôr em prática. Quem comprasse terras virgens nas regiões certas, antes de toda a gente, ficaria rico de uma forma que nenhuma geração anterior da família tinha conhecido.

José Guedes de Sousa era filho de Vicente Guedes Barreto e de Matilde Maria de Jesus. A família já tinha alguma terra, alguma posição local. Mas o que distinguiu José dos irmãos, dos primos, dos vizinhos que ficaram no anonimato dos arquivos cartoriais, foi a combinação de duas coisas que raramente se encontram juntas numa mesma pessoa.

Paciência para acumular e ousadia para apostar. José comprou, comprou terras, comprou mais terras. Comprou as terras dos vizinhos que se cansaram antes do tempo, comprou as terras dos vizinhos que apostaram noutras culturas. comprou as terras dos vizinhos que precisavam de dinheiro num determinado mês e estavam dispostos a vender por um preço que mais ninguém tinha lucidez para ver que era um bom preço.

Em algumas décadas, a propriedade da família, que se foi chamando por hábito local, quinta da Barra, tinha-se tornado uma das maiores plantações de café do concelho. E o município de Mogimirim tinha-se tornado um dos centros do café paulista. Aqui é necessário fazer uma pausa para dizer uma coisa que a história contada apenas pelos descendentes raramente conta.

A fortuna que José Guedes de Souza ia acumulando tinha um fundamento que era, antes de ser uma fortuna, uma estrutura. Antes da abolição de 1888, o café paulista era plantado e colhido, em larguíssima medida, por homens e mulheres escravizados. As quintas da família Guedes não eram exceção. Quando os documentos do Arquivo Público de S.

Paulo registam em algum momento do finais do século XIX as propriedades desta família, registam também o número de pessoas escravizadas que viviam nelas. Este número, segundo as fontes que sobreviveram, era, como de quase todas as grandes fazendas de café do Oeste Paulista, um número elevado. Não é um dado moral, é uma estrutura.

Aqui apenas se regista que sem esta estrutura, a A fazenda da Barra não teria existido na forma que existiu, e o homem que 50 anos receberia depois um título de barão, não teria tido capital para o comprar. Em meados da década de 50 do século XIX, José casou com Carolina Leopoldina de Almeida, 12 anos mais nova do que ele.

Carolina era filha de António Alves de Almeida Lima, um importante lavrador de Limeira, e de Maria Emília de Toledo, ligada à família do Barão do Descalvado. O casamento foi, como costumava ser nas famílias do café paulista da época, uma aliança entre duas fortunas que se reforçaram. A família materna da Carolina trouxe terras em Limeira.

Os Guedes de Sousa ofereceram a expansão da quinta da Barra. Os filhos do casal, sete ao todo, dos quais Alfredo, o primogénito, e Olívia, a quinta filha, herdariam se tudo corresse como costumava correr nessas famílias. Uma fortuna que crescia com o juro composto do café e com a expansão geográfica do Oeste Paulista. A vida na quinta da Barra, no terceiro quartel do século XIX, tinha a textura material das fazendas paulistas daquela época.

A casa grande era ampla, de tijolo e cal, com varandas que davam para os cafezais, capela própria, cozinha externa, onde funcionava em permanência o fogão a lenha, dispensa para a carne salgada e os queijos, adega para o vinho do Porto, que se importava de Lisboa duas vezes por ano. Os móveis vinham em parte do Rio de Janeiro, em parte da Europa.

Cadeiras de pau-santo entalhado, mesas de mármore italiano, espelhos venezianos, candeieeiros de cristal de boia. Havia uma sala onde Carolina recebia visitas. Havia um escritório onde José fazia as contas. Havia, segundo os relatos da família, uma pequena biblioteca. Porque estas famílias do Oeste Paulista, ainda que a maior parte do seu tempo fosse passado a olhar para o céu e a contar sacas, gostavam de ter livros em francês na estante.

Eram, em muitos casos, livros que ninguém na família lia, mas era preciso tê-los. Era também necessário ter filhos com instrução. José e Carolina mandaram os filhos para São Paulo a partir dos sete idade, para estudar, para fazer relações, para tornarem-se elegantes. Olívia, a quinta filha, foi inicialmente criada na quinta com professores particulares e depois, durante algum tempo, frequentou o colégio Bojanas.

Depois, quando a família mudou-se definitivamente para São Paulo no final dos anos 80, a A educação de Olívia continuou em casa com mestres de piano, de francês, de desenho e, segundo se sabe, de arpa. Esses mestres eram, na sua maioria europeus que tinham vindo para São Paulo seguindo a riqueza que advinha do café. Eram pessoas que tinham conhecido salões em Lisboa, em Paris e em Roma.

Eram pessoas que quando ensinavam uma menina de 12 anos a tocar arpa numa sala de uma casa em Campos Elíse traziam consigo, embora não dissessem, o eco de salões muito mais antigos. A mudança da família para São Paulo, no início dos anos 80, fez parte de um movimento mais geral. As famílias do café do interior de São Paulo, à medida que enriqueciam, instalavam-se cada vez mais cedo na capital.

A quinta passava a ser o local onde se ia no inverno, ou em julho, ou nas semanas da colheita. Mas a casa principal, aquela onde se recebia, onde casavam as filhas, onde se preparava o futuro político da família, passava a ser na cidade. José Guedes de Souza comprou em São Paulo um palacete na esquina da rua Ipiranga com a rua Rio Branco.

Não era a casa mais bonita da cidade, foi apenas uma das primeiras a estar entre as casas que eram a cidade dos ricos. Em 1888, ano em que a princesa Isabel assinou no Rio a Lei Áurea, a vida nas fazendas de café paulistas mudou de uma forma que ninguém na altura compreendia totalmente. A mão-de-obra escravizada, que tinha sido até esse momento a base do trabalho nas plantações, deixou de existir como categoria jurídica.

As famílias do café reagiram de várias formas, algumas, sobretudo no Vale do Paraíba, a região onde o café tinha começado 40 anos antes e onde o solo já estava cansado, não sobreviveram. foram à falência, venderam as quintas, dispersaram-se. Outras, sobretudo no Oeste Paulista, a região mais nova, a região onde a Terra ainda dava café com força, fizeram uma coisa que mudaria o futuro de São Paulo.

Substituíram a mão-de-obra escravizada por mão-de-obra imigrante, italiano sobretudo, mais tarde japoneses. O estado de São Paulo, através de uma política de migração activa que tinha iniciado anos antes da abolição, trouxe centenas de milhares de europeus para trabalhar nas explorações do Oeste Paulista nas duas décadas seguintes.

A família Guedes de Souza, tal como as outras famílias do café da região, fez essa transição. Foi exatamente nesse ano de 1888, no auge desta transição, que Olívia Guedes de Souza, com 16 anos, casou com o seu primo em primeiro grau, Inácio Leite Penteado. Inácio era filho de uma tia materna de Olívia, Maria e Gina. Tinha acabado de regressar da Europa, onde tinha passado vários anos em viagens de lazer e de estudo.

Era um homem fino, segundo as descrições da época. fino no sentido em que este palavra era utilizada nos salões paulistas, educado, viajado, com uma certa elegância nos modos, com bom francês, com bom inglês. Era também, no momento em que casou um futuro exportador de café. Pouco depois do casamento, instalou-se com Olívia em Santos, no litoral de São Paulo, para gerir a empresa familiar de exportação.

Santos era, nessa altura, o porto por onde saía a quase totalidade do café paulista para os mercados de Hamburgo, de Nova Iorque, de Trieste. Quem controlava o trânsito do café no Porto controlava em larga medida o preço a que ele saía. Inácio Penteado, como muitos outros homens da sua geração e classe, fez exatamente isso.

Os primeiros anos do casamento de Olívia foram passados ​​em Santos. Foi aí que nasceram, com poucos anos de diferença, as duas filhas do casal, Carolina, a primeira, e Maria, a segunda. Não há nesta história uma terceira filha, e não há filho varão. As duas meninas penteado seriam as únicas descendentes diretas de Olívia.

Esse facto, banal em si mesmo, terá consequências silenciosas, mas importantes para o que vem depois. Porque uma fortuna que se transmite por duas filhas é uma fortuna que, na lógica patrimonial daquela época dissolve-se mais facilmente do que uma fortuna que se transmite por um único filho varão. Em 1891, Carolina, a mãe de Olívia, morreu.

Tinha 49 anos. Não existem registos públicos detalhados das circunstâncias da morte. Segundo as fontes preservadas, foi uma morte natural, doença não especificada. José Guedes de Souza, o pai, enviuvou aos 61 anos. continuou a gerir as terras, a quinta da Barra, os negócios da família, mas segundo os relatos de quem o conheceu, tornou-se mais silencioso a partir desse ano.

Carolina tinha sido, mais do que a esposa, a parte da família que guardava as cartas, as relações, a memória dos casamentos cruzados, a rede social que ligava aquela família a todas as outras famílias do café de São Paulo. Sem ela, José continuava a terras, mas não tinha já uma família no sentido mais amplo do termo.

No final do século XIX, Inácio e Olívia mudaram-se de Santos para São Paulo. Inácio tinha começado a sofrer de uma doença que o iria afetar durante o resto da sua vida. Segundo os relatos preservados, problemas de saúde graves que exigiam tratamento médico de qualidade. Em São Paulo, os penteados instalaram-se inicialmente em casa de familiares.

Nos últimos anos da década de 90, começaram a construção da casa que viria a ficar inscrito no mapa cultural da cidade, o palacete da esquina da rua Conselheiro Nébias com a rua Duque de Caxias em Campos Elízios. O projecto foi confiado, como tinha sido confiada a maior parte dos palacetes da aristocracia paulista desta época, a Ramos de Azevedo.

A construção demorou alguns anos. Na viragem do século XX, um jantar requintado foi oferecido para inaugurar a casa. Mas antes da inauguração da Casa de São Paulo, em 1897, três coisas aconteceram no espaço de 12 meses. A 7 de maio de 1887, numa das últimas grandes levas de títulos concedidos pelo imperador Pedro I, José Guedes de Souza recebeu por decreto imperial o título de Barão de Pirapitíngue.

Faltavam menos de 2 anos para que a monarquia caísse. Em 15 de novembro de 1889, a República seria proclamada e os títulos do império deixariam de ter qualquer função institucional. Mas em Maio de 1887, ninguém na elite paulista ainda imaginava claramente que o império estava no fim. O título referia-se ao rio Pirapitingui, que atravessava as terras da família.

Era um título sem função política, sem privilégio prático, sem rendimento associado. Era apenas o nome, com uma pequena coroa gravada no topo do papel timbrado. 10 anos depois, em 10 de junho de 1897, José Guedes de Souza, primeiro e único barão de Pirapitingui, faleceu em São Paulo. Tinha 67 anos. Não há registos públicos das circunstâncias precisas, A morte natural, segundo as fontes preservadas.

foi sepultado como Carolina tinha sido seis anos antes no cemitério da Consolação em São Paulo. O título, por se tratar de um título do império numa república já consolidada, extinguiu-se com ele. A fortuna, essa, dividiu-se pelos sete filhos. A Olívia, com 25 anos, cobe a parte dos bens que cobe.

Não existem números precisos para esta partilha, mas pelos investimentos que ela e Inácio fizeram nos anos seguintes, a casa de ramos de Azevedo, já em construção, mais tarde, uma segunda residência em Paris, a coleção de AT, que começou a ser comprada na Europa a a partir de 1902, sabe-se que a Pat de Olívia foi uma grande fortuna pelos critérios da época, suficientes para sustentar uma vida em dois continentes durante mais de três décadas, com criadagem, com viagens transatlânticas anuais.

com aquisições regulares de quadros e de móveis. E esta, no fim foi a história de José Guedes de Souza, Barão de Pirapitingui, um homem que tinha começado por comprar terras no interior de São Paulo e que morreu numa casa de esquina em São Paulo com um título que o império tinha demorado a conceder e que a República não reconhecia.

Um homem que tinha construiu ao longo de 67 anos uma fortuna suficientemente grande para que os filhos não precisassem de trabalhar e os netos pudessem comprar picassos. Uma fortuna construída sobre uma estrutura, a do trabalho escravizado até 88, a do trabalho imigrante depois, que ele próprio raramente terá tido razão para examinar em pormenor, porque não era ele o examinador da própria estrutura, era o beneficiário da mesma.

Faltavam ainda muitos anos para que essa fortuna fosse posta à prova. Faltavam mais de três décadas para que a quebra de 1929 a desfizesse para sempre. Mas antes da quebra, antes da casa demolida em 1943, antes do hotel construído no terreno, havia um período de apogeu. E esse auge não foi vivido nem na quinta, nem em Santos.

foi vivida em duas cidades, São Paulo e Paris, pela mulher que, dos sete filhos do Barão de Pirapiting, foi aquela que decidiu, de uma forma mais consciente do que a maior parte das mulheres da sua época e da sua turma, fazer alguma coisa com o fortuna herdada para além de aguardar. O seu nome era Olívia Guedes Penteado.

A segunda geração desta família e o nome próprio com que ela ficaria na memória cultural do Brasil. No início do séc. XX, em São Paulo, uma mulher de 30 anos olhava pela janela da casa de conselheiro Nébias e pensava no marido. Inácio Penteado, com quem tinha casado há mais de uma década, estava doente. A doença era persistente, dolorosa.

E os médicos de São Paulo, segundo o que se diz pelos relatos da família preservados depois, tinham chegado ao ponto em que diziam aquilo que os médicos da época diziam quando já não tinham nada de prático a oferecer, que talvez fosse o caso de procurar tratamento na Europa. Em Paris, sobretudo.

Em Paris existiam os melhores médicos do mundo, segundo a opinião corrente daquela altura. E havia também, embora não fosse esta a razão oficial da viagem, o resto, o resto era o seguinte. Naquela viragem de século, Paris era a capital do mundo ocidental, no sentido em que esta expressão fazia sentido na época.

Era para Paris que iam anualmente os herdeiros das famílias do café paulista a comprar trousseau e mobiliário. Era em Paris que se aprendia a vestir, a falar, a comer, a receber, a ouvir música, a ver pintar, a ter opinião sobre o que estava a acontecer no mundo. E foi em Paris que no início dos anos 900 Olívia e Inácio Penteado estabeleceram na rude de Lafazanderi, no 16º arrondimã, uma segunda residência.

A casa de São Paulo continuaria a existir. As filhas Caroline e Maria eram ainda crianças e fariam parte da sua educação entre os dois continentes. Mas o centro de gravidade da família durante os anos seguintes, deslocou-se para Paris. A rude de Lafazander era uma rua tranquila do bairro residencial mais elegante do oeste parisiense.

As casas eram em edifícios de andares com fachadas de pedra calcário, com varandas em ferro forjado, com porteiros fardados nas entradas. Olívia e Inácio ocupavam um andar inteiro num desses prédios. A decoração, segundo as fotografias preservadas desta fase da vida deles, combinava o gosto francês da Belle Epocóveis em estilo Luís X, com tapeçarias de albussomon, com lustres de cristal de bacará, com um piano de calda STway na sala principal e combinava também alguns objetos do Brasil.

Uma jacarandá colonial, um quadro de paisagem de Víor Meirelles, peças de prata trabalhada pelos joalheiros do Rio. Era uma casa que sinalizava simultaneamente a integração na elite cosmopolita parisiense e a memória brasileira da sua dona. Foi nessa casa que a Olívia começou lentamente a transformar-se em alguma coisa que ainda não tinha nome em português, mas que tinha um nome muito preciso em francês.

Ela tornou-se uma salonier. Isto é, uma mulher que recebia nas tardes de quarta-feira ou nos jantares de sexta-feira um número fixo de convidados escolhidos pessoalmente, que se reuniam para conversar, para tocar música, para ouvir poesia, para discutir o que estava a sair de novo nas revistas e nas galerias.

O salão da Olívia, ainda nos primeiros anos parisienses, era um salão moderado. Os convidados eram, na maior parte brasileiros que passavam por Paris, diplomatas, poetas, jornalistas. Olavo Bilac jantou ali algumas vezes. Alberto de Oliveira também. eram convivas que reconheciam na Olívia uma anfitriã brasileira na altura certa, na cidade certa, com um gosto certo e que faziam o que se fazia naquele tempo nos salões brasileiros em Paris.

Contavam o que tinha acontecido em São Paulo no último mês e perguntavam o que tinha acontecido em Paris. A doença de Inácio, porém, não cedia. No início da segunda década do séc. XX, depois de mais de uma década de tratamentos sucessivos, Inácio Leite Penteado morreu em Paris. Olívia tinha cerca de 40 anos. As As filhas Carolina e Maria eram já adolescentes.

A viuvez podia na época ter significado o regresso imediato ao Brasil, o luto fechado, o afastamento da vida social. Para a maior parte das mulheres da geração e da classe da Olívia, foi este que significou. Mas a Olívia não fez isso. Em parte porque era uma mulher de personalidade forte, em parte porque a fortuna que tinha herdado do pai e que tinha sido reforçada durante o casamento por Inácio era suficiente para sustentar uma vida independente.

Em parte porque Paris nesses anos estava a viver um dos momentos mais intensos da sua história artística. E Olívia, segundo os relatos da família, começava finalmente a perceber porquê. Foi nesta fase que o salão da Rud Lafazanderry deixou de ser apenas uma sala onde os brasileiros em Paris se encontravam e tornou-se uma sala onde Os brasileiros em Paris encontravam-se com artistas, intelectuais e marchan parisienses. O movimento foi gradual.

Nos primeiros anos da segunda década do século XX, Picasso já tinha pintado as demosel da Vinhon há anos. Brack, Leg, Gri já tinham desenvolvido o cubismo até uma fase em que deixou de ser uma experiência isolada e se tornou uma escola. Mari Loransan tinha um lugar no círculo de Apoliner. As galerias da Rivg e do Fobur são Norré expunham simultaneamente o melhor da pintura francesa do século XIX tardio e o que de mais novo se estava a fazer.

Olívia começou, segundo as fontes, a frequentar estas galerias, a acompanhar em algumas tardes Marchan. a entrar em ateliers, a travar conhecimento com artistas vivos. Não era ainda uma colecionadora declarada. Comprava, mas comprava aos poucos. Era, antes disso, uma educanda lenta, uma mulher de 40 e tal anos que tinha decidido que queria compreender e que tinha o tempo e os meios para o fazer com calma.

Em 1914, o salão tornou-se a casa de uma viúva indo elegante, que recebia agora, à altura do chá da tarde, uma mistura de brasileiros e franceses. Uma mistura que, na imensa maior parte dos salões parisienses da época não acontecia. A guerra mudou tudo. Em agosto de 1914, a Primeira Guerra Mundial começou. Paris, embora não tenha sido invadida, viveu nos cinco anos seguintes uma vida diferente.

Muitos dos artistas com quem Olívia tinha começado a conviver foram mobilizados para a frente. Leger combateu em Verdum. Regressou marcado pelas máquinas modernas que tinha visto destruir os homens. A Poliné foi ferida na cabeça por um estilhaço. Recuperou parcialmente. Morreu de gripe espanhola em 18.

A aldeia em Paris durante a guerra tornou-se mais sóbria. Os salões, na sua maioria fecharam. A Olívia, embora tenha mantido a casa de Paris, regressou nesse período a São Paulo, onde passou parte dos anos da guerra. manteve as filhas em casa, acompanhou a primeira república brasileira em alguns dos seus momentos mais ativos, mas o foco para ela deslocou-se temporariamente.

Em 1922, três coisas aconteceram quase ao mesmo tempo. Em fevereiro, em São Paulo, no Teatro Municipal, realizou-se a semana de arte moderna. Foi um evento de três noites em que um grupo de poetas, pintores e músicos brasileiros, Mário de Andrade, Osvalw de Andrade, Anita Malfate, Tarcila do Amaral, Eitor Vilalobos, Víctor Brecherê, entre outros, apresentou ao público de São Paulo em três sessões consecutivas o que viria a ser denominado de modernismo brasileiro.

A reação do público foi, na sua maioria de incompreensão ou de aberta hostilidade. Algumas vaias, alguns assobios, algumas crónicas de jornal escritas em tom de troça, mas o evento ficou, do ponto de vista da história cultural do país, como o ponto de partida formal do modernismo no Brasil.

A segunda coisa aconteceu em Paris, no mesmo ano de 1922. Alguns dos artistas da semana, Tarcila do Amaral, Oswald de Andrade, Anita Malfate, mais tarde Vila Lobos, viajaram para Paris para prolongar o que tinha iniciado em São Paulo. Era na Europa e sobretudo em Paris que se estava a desenvolver o vocabulário plástico do modernismo internacional.

Tarcila instalou-se em Paris, estudou com Fernan Leg, com André Lotte, com Alberto Glisas. Osvaldo de Andrade acompanhou. Os dois estavam naquela altura no início daquela que viria a ser uma das relações mais célebres do modernismo brasileiro. E a terceira coisa aconteceu na ruazão de ri.

A Olívia, que tinha regressado a Paris no início dos anos 20 e que mantinha o seu salão semanal, encontrou os brasileiros recém-chegados. aconteceu, segundo o que se sabe pelos relatos da própria Tarcila e por outras fontes num encontro mais ou menos casual no início desse ano. Tarcila do Amaral entrou em casa de Olívia uma tarde, levada por algum amigo comum.

Olívia tinha então 50 anos, Tarcila tinha 35. As duas mulheres, embora separadas por uma geração e por experiências de vida muito diferentes, Tarcila tinha-se casado, separado, era mãe de uma filha, vinha de uma família também do café Paulista, mas com outro percurso, reconheceram-se, tornaram-se amigas. Tarcila começou a frequentar o salão de Olívia e começou a apresentar a Olívia o que estava a ver pela primeira vez em Paris.

Os ateliers dos cubistas, as galerias dos novos marchãs, o trabalho dos artistas que ainda não tinham preço de mercado e que alguns anos depois tinham. Foi por intermédio de Tarcila e através de marchans como Leonce Rosenberg da galerie Lefor Moderne que a Olívia começou a comprar. Comprou primeiro um quadro de Fernan Leger, o Compotier de Poaré, que viria a ser uma das primeiras obras cubistas francesas a chegar ao Brasil.

Comprou um desenho de Marie Lorenzin. Comprou duas telas a André Elote. Comprou um Picasso Lepolinel Lisan Le Populer de 1920. Comprou mais tarde uma escultura de Constantin Brancuzi, Lanz Blonde T. comprou obras de Folgita. Quando em 1923 decidiu finalmente regressar a São Paulo de forma permanente, fechando a casa de Paris depois de mais de duas décadas, levou na bagagem aquilo que viria a ser na altura uma das primeiras coleções de arte moderna europeia a entrar no Brasil. O Compotier de LG, em particular

ficou na memória pela forma como chegou. Segundo os relatos da família, a chegada do quadro à casa do conselheiro Nébias foi celebrada como uma espécie de pequeno cortejo. Os amigos modernistas, alguns que já se encontravam em São Paulo, outros que vieram especialmente para o ver, desfilaram com a tela pela casa antes de pendurar.

Foi um gesto teatral, é certo, mas era um teatro consciente. Era a forma de Olívia dizer, sem precisar de o dizer por palavras, o que está a acontecer em Paris está agora a chegar a São Paulo e está a chegar por esta porta. A casa da rua Conselheiro Nébias tinha sido construída num estilo eclético de finais do século XIX.

Era uma casa para receber, mas para receber de uma determinada maneira. Para receber em salas com tapetes orientais, com candelabros pesados, com retratos a óleo das senhoras da família nas paredes. Não era uma casa para pendurar legicasso. A Olívia entendeu isso segundo o que se diz pelas fontes conservadas com clareza.

E em 1924 encomendou a um arquiteto e a um pintor uma reforma específica. No pátio das traseiras, onde existia uma coxeira já fora de uso, foi construído um pequeno pavilhão. As paredes deste pavilhão foram entregues a Lazar Segal, o pintor lituano que se tinha estabelecido em São Paulo havia poucos anos. Seg pintou nas paredes um conjunto de murais em estilo já francamente modernista.

Cores fortes, formas planas, motivos geométricos e figurativos misturados. No teto, segundo as fotografias preservadas, havia uma composição também sua. O pavilhão ficou conhecido a partir de 1925 como pavilhão modernista. Era ali, não nas salas principais da casa, ainda decoradas em estilo Belepque, que Olívia pendurava as suas obras de Leger, de Picasso, de Brancuzi, de Lote, de Tarcila, de Brecherê, de Segal.

O pavilhão modernista de Conselheiro Nébias tornou-se ao longo dos anos 20 um dos lugares centrais do modernismo brasileiro. Os encontros aí faziam-se com regularidade. Chá da tarde de terça-feira, jantares mais formais aos sábados. Mário de Andrade ia, Osw de Andrade ia, durante o tempo em que ainda esteve com Tarcila, Tarcila ia, Anita Malfate ia, Heitor Vilalobos tocava ali ao piano nas tardes em que esteve em São Paulo.

Vctor Brecherê levou esculturas suas para a Olívia ver e algumas dessas esculturas a Olívia comprou. Foi neste pavilhão, segundo se sabe, que Tarcila pintou, ou pelo menos mostrou pela primeira vez em 1928 o quadro que se tornaria o ícone visual do modernismo brasileiro, o Abaporu, oferecido como presente de aniversário a Oswald de Andrade, pendurado durante algum tempo nas paredes do pavilhão antes de circular por outros locais.

Os jornais de São Paulo dessa década começaram a chamar a Olívia de Nossa Senhora do Brasil. A expressão foi cunhada pelos próprios modernistas, um misto de homenagem, de ironia carinhosa e de reconhecimento de que ela era nesse momento a figura central do mecenato do movimento. Não era a única figura.

Outras mulheres da elite paulista, Marina Cresp, Carlota Pereira de Queiroz, mais tarde Holanda, também participaram na rede de mecenato. Mas, Olívia, pela conjugação de fortuna pessoal, casa central em São Paulo, casa anterior em Paris e laços de amizade direta com os artistas mais importantes, ocupou uma posição que nenhuma outra messenas paulista da época ocupou.

Houve, ao mesmo tempo, uma outra Olívia. Uma olívia que não estava apenas no pavilhão. Era uma mulher de 50 e tal anos, viúva, mãe de duas filhas já casadas, dona de uma casa, dona de uma coleção, dona de uma fortuna ainda relativamente sólida. Embora os números exatos desta fortuna na década de 20 sejam difíceis de reconstituir hoje.

Em meados da década de 20, Olívia fez uma viagem ao Egito com a amiga Carlota Pereira de Queiroz, que viria a ser, alguns anos depois a primeira mulher eleita deputada federal no Brasil. A fotografia das duas em frente às pirâmides com uma terceira amiga ficou. Era uma olívia em viagem como as senhoras da sua geração e classe viajavam, com criadas, com baús, com um itinerário ao longo do Mediterrânio que durava meses. Em 1930, o Brasil mudou.

A revolução de 1930, o movimento civil militar liderado por Getúlio Vargas depôs o presidente Washington Luiz e marcou o fim da chamada República Velha, em que as oligarquias de São Paulo e mineira tinham governado o país alternadamente. Para a aristocracia cafeicultura paulista, o 30 foi um importante choque político.

O estado de São Paulo, que tinha sido a base do antigo regime, perdeu na transição uma parte significativa do seu peso federal. As famílias do café perderam juntamente com isto a influência política direta, que tinha sido a sua moldura institucional durante mais de quatro décadas. Mas o 30 veio depois de outro acontecimento.

E foi esse acontecimento anterior, mais do que a revolução, que viria a marcar a quebra económica do café paulista e com ela o início do desmoronamento das fortunas das famílias que dependiam dele. Em outubro de 1929, a bolsa de Nova Iorque caiu. A queda foi rápida e profunda. Em poucos meses, o preço internacional do café desceu para níveis que tornavam a exportação economicamente inviável.

As famílias cafeicultoras de São Paulo, que tinham investido fortemente na expansão da lavoura durante a década anterior, encontraram-se de um momento para o outro com sacas de café armazenadas em armazéns de Santos que ninguém queria comprar ou que queriam comprar a preços que não cobriam sequer o custo da colheita.

O estado de São Paulo, através do Departamento Nacional do Café, criado em 1933, organizou a compra e a destruição de milhões de sacas de café excedentes, algumas das quais foram literalmente queimadas em fogueiras, outras lançadas ao mar. Era uma política de sustentação dos preços, mas era também a imagem física do que estava a acontecer com a base económica da aristocracia paulista.

A família penteado, como as outras famílias do café, foi atingida. Não há documentação detalhada que permita reconstituir hoje o montante exato das perdas de Olívia entre 1929 e 1934. Sabe-se pelas fontes da família que ela manteve a casa de conselheiro Nébias, que continuou a receber, que continuou a participar na vida cultural paulista.

Mas sabe-se também que a partir de 1930 certos hábitos mudaram. As compras de novos quadros tornaram-se mais espaçadas. Algumas viagens à Europa foram adiadas. A fortuna, que entre 1902 e 1929 tinha permitido a vida em dois continentes, começou a surgir, segundo as descrições de quem conviveu com a família nesses anos, uma fortuna que necessitava de ser administrada com mais cuidado do que tinha sido até então.

Em 1932, em julho, ecludiu em São Paulo a Revolução constitucionalista, o movimento armado em que parte da elite Paulista, em aliança com sectores das Forças Armadas e da sociedade civil, tentou impor ao governo federal de Getúlio Vargas a convocação de uma assembleia constituinte. A revolução durou três meses, terminou com a derrota de São Paulo em Outubro do mesmo ano, mas teve consequências políticas a longo prazo, entre as quais a antecipação da convocação de eleições constituintes para 1933 e a aprovação em 1934

de uma nova Constituição que consagrava, entre outros direitos, o voto feminino. Olívia Penteado participou ativamente na revolução constitucionalista. Aos 60 anos, com a saúde já não no seu auge, integrou as redes femininas de apoio ao movimento, as associações que organizavam a recolha de fundos, a assistência médica, a propaganda.

Estimulou a candidatura do anos mais tarde da sua amiga Carlota Pereira de Queiroz, que viria a ser a primeira mulher eleita deputada federal no Brasil. Pouco antes do início do movimento, Olívia tinha sido admitida como membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em reconhecimento da sua atividade cultural e cívica.

Tudo isto, o mecenato dos modernistas, a colecção de arte, a participação na revolução constitucionalista, a amizade com Carlota Pereira de Queiroz e com outras mulheres da sua geração aconteceu nos 12 anos entre 1922 e 1934. Foram 12 anos de uma intensidade pública que poucas mulheres da geração e da classe de Olívia conheceram.

E depois, em maio de 1934, alguma coisa começou, uma dor abdominal que não passava. Os médicos consultados em São Paulo não conseguiram, segundo os relatos da família, estabelecer um diagnóstico imediato. A condição agravou-se ao longo de várias semanas. No início de junho, tornou-se claro que o que a Olívia tinha era uma apendicite, uma inflamação do apêndice que naquele altura, antes da era dos antibióticos, era uma condição grave em doentes de idade avançada e que quando se complicava por uma peritonite era frequentemente fatal. A cirurgia chegou

tarde ou foi seguida de complicações que a medicina da época não tinha como controlar. Olívia Guedes Penteado morreu em São Paulo a 9 de junho de 1934. Tinha 62 anos. tinha sofrido, segundo os relatos, durante cerca de um mês. Foi sepultada no cemitério da Consolação, no mesmo cemitério onde tinham sido sepultados antes dela os pais e onde tinha sido sepultado anos antes Inácio Penteado.

O túmulo da família foi ornamentado com uma escultura em granito de Victor Brecheret, intitulada Sepultura, que Olívia tinha encomendado em vida para o jazigo familiar. A casa do conselheiro Nébias ficou, o pavilhão modernista ficou, a coleção de quadros ficou dividida entre as duas filhas, Carolina e Maria, e algumas peças destinadas a amigos próximos.

Mas a sala onde os modernistas se tinham reunido durante 12 anos sem a mulher que a tinha convocado, deixou de ser uma sala viva. Tornou-se uma sala onde havia objetos. 9 anos depois, em 1943, durante a gestão do autarca Prestes Maia, toda a casa foi demolida para o alargamento da rua Duque de Caxias. A coleção de quadros foi dispersa. Algumas peças ficaram com a família.

Outras foram ao longo das décadas seguintes vendidas ou doadas a instituições. O Compotier Deleg acabaria anos mais tarde no Museu de Arte de São Paulo. A Negrés de Brancuzi acabaria no Museum of Modern Art de Nova Iorque. O Picasso acabaria numa colecção particular do Rio de Janeiro. Outros quadros pedem-se na documentação.

O pavilhão modernista de Lazar Segal, com os seus murais foi destruído juntamente com o resto da casa. E esta, no fim foi a história da Olívia Guedes Penteado, uma mulher que tinha sido chamada de Nossa Senhora do Brasil pelos artistas que ela tinha sustentado. Uma mulher que tinha trazido o cubismo francês ao Brasil, uma mulher que tinha morrido aos 62 anos de uma inflamação banal do apêndice.

um tempo em que esta inflamação ainda matava as senhoras das melhores casas. E uma mulher, cuja casa, a casa onde tudo tinha acontecido, foi posta no chão menos de uma década depois da sua morte, sem que ninguém da família tivesse força jurídica ou política ou financeira para a salvar.

Faltava ainda a terceira geração. Faltava ainda a sobrinha de Olívia. uma sobrinha que tinha, à data da morte da tia 31 anos, que tinha já vivido a quebra de 1929, com a própria família a perder uma quinta no interior, que estava casada com um homem chamado Jaime da Silva Teles desde 1921 e que nos anos seguintes faria três coisas que ninguém daquela família tinha feito antes: divorciar-se publicamente, casar com o industrial italiano sem prestígio social e fundar com esse industrial os três grandes museus modernos de São Paulo. O nome dessa

sobrinha era Iolanda, a terceira geração desta família, e o capítulo mais discreto, mas talvez o mais revelador, do desmoronamento silencioso dos penteado. Em 1903, em Leme, no interior de São Paulo, numa propriedade denominada Fazenda Impírio, nasceu uma menina chamada Iolanda de Ataliba Nogueira Penteado. O nome era comprido, ao estilo das famílias do café, Yolanda, do nome próprio francês, na moda da viragem do século, Ataliba e Nogueira, dos apelidos da mãe, Penteado do apelido do pai.

Os pais eram Juvenal Leite Penteado, irmão do Inácio Penteado, que tinha casou com a Olívia, [ressonando] e o Guilomar de Ataliba Nogueira. Iolanda era, portanto, sobrinha por aliança de Olívia Guedes Penteado e sobrinha por sangue de Inácio. no quadro genealógico, a continuação direta da linhagem caféicultora dos penteado paulistas, uma linhagem que descendia, por antecedentes mais remotos, dos bandeirantes do século X, dos primeiros povoadores portugueses de São Paulo, dos casamentos cruzados entre as grandes famílias dos séc.

seguintes. A fazenda Impírio, onde Holanda passou os primeiros 7 anos de vida, era uma das fazendas de café mais notáveis ​​do interior de São Paulo. Tinha uma casa grande e ampla, capelas, cafezais que se estendiam até onde a vista alcançava, animais de raça, criadagem numerosa. Era, segundo as descrições preservadas, uma quinta em que se vivia com a textura material das antigas fazendas escravocratas, com a diferença de que em 1903 a mão-de-obra já era há 15 anos contratada.

imigrantes italianos, sobretudo, como tinha acontecido em toda a região do Oeste Paulista depois da abolição. Aos 7 anos, em 1910, Iolanda mudou-se com a família para São Paulo. A quinta do Impírio continuou a existir como propriedade da família e foi mantida ao longo dos anos seguintes como residência de verão, como ponto de orgulho, como base patrimonial.

Mas a vida principal de Yolanda passou a ser na cidade, em casas de São Paulo, onde se recebia, onde se aprendia francês e inglês, onde se ia a missas dominicais nas igrejas da elite, onde se preparava o casamento futuro. Aos 16 anos, em 1919, Iolanda conheceu um jornalista de 27 anos chamado Assis Chatobrian.

Era um homem pernambucano, sem fortuna ainda, mas com uma personalidade arrebatadora. Viria a ser, 20 anos depois o fundador dos Diários Associados do Museu de Arte de São Paulo e uma das figuras mais influentes da cultura brasileira do século XX. O encontro com Chatubrian, segundo o que mais tarde Holanda escreveu, marcou-a.

Tornaram-se amigos, mantiveram essa amizade ao longo de toda a vida. Em 1921, com 18 anos, Holanda casou, não com Chatou Brian, com quem nunca houve um envolvimento amoroso documentado, mas com Jaime da Silva Telhes, amigo da família, da geração e da classe dos Holanda. O casamento, do ponto de vista social Paulista, foi como costumavam ser os casamentos das herdeiras do café Paulista de início dos anos 20.

Um cerimonial cuidado de russau encomendado em Paris. Lua de mel europeia, casa nova em São Paulo. Esperam-se filhos. Yolanda não teve filhos. Segundo o que mais tarde escreveu na sua autobiografia, a impossibilidade médica de engravidar acompanhou-a toda a vida. Os anos 20 de Yolanda foram, em larga medida os anos 20 da sua tia Olívia também, embora vistos de outro ângulo.

Enquanto a Olívia recebia os modernistas no pavilhão de conselheiro Nébias, Yolanda era sobrinha mais nova que aparecia em algumas destas reuniões. Observava, aprendia. Tornou-se amiga próxima dos artistas, de Tarcila Domaral, de Anita Malfat, de Heitor Vila Lobos. Não era ainda nesta fase uma mecenas pessoal.

não tinha ainda sequer a idade, nem o controlo independente sobre a fortuna familiar para o ser. Era mais propriamente uma herdeira da geração seguinte que estava a herdar, juntamente com a fortuna, os gostos culturais que a tia tinha começado a praticar. Em outubro de 1929, a bolsa de Nova Iorque caiu. Para a família penteada e sobretudo para o rama, que pertencia a Iolanda, a queda foi devastadora.

O pai de Holanda, Juvenal Leite penteado, tinha investido fortemente nos anos 20, tinha expandido a fazenda do impírio, tinha ampliado outras propriedades, tinha-se endividado para o fazer, uma estratégia comum entre os caféicultores paulistas da década, que apostavam na continuação do preço elevado do café e na expansão indefinida da lavoura.

Em novembro de 1929, o preço do café tinha caído mais de metade. Em 1930, tinha caído mais. Os credores bateram com a porta. A família penteado de Holanda, distinta, importa notar, do ramo direto de Olívia, que apesar de afetado, conservou uma fortuna mais sólida, perdeu nesse período uma parte significativa do património. A quinta Empírio, por algum motivo, manteve-se na escritura em nome da família, passaria a Iolanda mais tarde.

Mas a fortuna líquida, a fortuna disponível para a vida quotidiana, a fortuna que sustentava a posição social, dissolveu-se. Yolanda nesse momento tinha 26 anos. Estava casada via 8 com Jaime da Silva Teles. O casamento, segundo se entende pelas fontes da época e pela autobiografia que Holanda escreveu décadas mais tarde, tinha-se tornado, ao longo dos anos 20, um casamento frio.

As razões exatas não estão documentadas com precisão. Uma combinação, segundo os indícios, de incompatibilidades pessoais, da impossibilidade de filhos e, provavelmente, do desgaste comum dos casamentos jovens que duram muito tempo. Em 1934, após 13 anos de casamento, Iolanda separou-se de Jaim da Silva Tes. A separação foi, para os padrões da época, um escândalo.

O divórcio civil não existia no Brasil. Existia o disquite, uma forma de separação jurídica que permitia a divisão dos bens e o fim da convivência, mas não permitia ao divorciado casar de novo. As mulheres divorciadas na São Paulo de 1934 eram uma categoria social marcada. conviviam numa espécie de zona crepuscular da sociedade. Continuavam a frequentar alguns dos salões, mas eram olhadas em alguns destes salões como mulheres que tinham feito alguma coisa que as outras não tinham feito.

E Holanda, aos 31 anos, recém desquitada, encontrou-se nessa categoria. Era simultaneamente uma mulher de família tradicional de São Paulo. com apelidos que pesavam e uma divorciada, o que significava, na lógica social conservadora da capital uma mulher fora do circuito normal de respeitabilidade. Foi neste contexto, desquitada com a fortuna familiar reduzida pela quebra de 29, sem 100 filhos, com 30 e poucos anos, que Holanda viveu os anos 30.

Foram anos relativamente discretos. Frequentou amigas, apoiou com a presença e com o pouco que ainda podia oferecer a revolução constitucionalista de 1932. Viajou, manteve a amizade com o Chatobrian, que, entretanto, se tornava cada vez mais influente em São Paulo, fundando os Diários Associados, aumentando a sua rede política e empresarial.

Manteve também a relação com a tia Olívia até à morte desta em 1934, alguns meses depois do próprio desquite de Iolanda. A morte de Olívia em junho de 1934 fechou um ciclo. Para Iolanda, que tinha então 31 anos, foi a morte da tia, que tinha sido em Lar da Medida, o modelo cultural da geração.

Foi também a morte de uma figura que, com a sua presença social, sustentava de algum modo a respeitabilidade familiar dos penteado paulistas. A casa do conselheiro Nébias começou a a partir desse momento o seu próprio declínio lento que culminaria com a demolição em 1943. Em 1943, no México, Iolanda casou com Francisco Mataraz, sobrinho, conhecido como Citilo.

Era um industrial ítalo-brasileiro, 10 anos mais velho do que ela. Nascido em 1898 numa das famílias mais ricas de São Paulo, a família Matarazo, que tinha fez fortuna na indústria têxtil e alimentar na primeira metade do séc. XX. Cilo era riquíssimo, mas era também, do ponto de vista da elite tradicional de São Paulo, alguém de fora, um industrial italiano, filho de imigrantes, sem o capital social das antigas famílias do café, e estava separado da primeira mulher, o que na lei brasileira da época significava que o

O seu casamento com Iolanda no Brasil era impossível. O casamento foi realizado no México, onde o divórcio era reconhecido. O termo utilizado em São Paulo na época para descrever este tipo de união, válido lá fora, sem efeito legal no Brasil, era curioso. Dizia-se que o casal tinha mexicado.

A escolha de Yolanda, segundo as fontes contemporâneas e segundo aquilo que ela própria mais tarde escreveu, foi uma escolha consciente. Não foi um casamento de paixão. foi, em termos os seus um casamento de alinhamento, uma união entre duas pessoas com interesses comerciais e culturais convergentes. Citilo tinha o dinheiro industrial sem o prestígio social e A Holanda tinha o prestígio social com o dinheiro familiar reduzido.

Juntos, os dois podiam fazer alguma coisa que nenhum dos dois o conseguia fazer sozinho. A frase, que melhor resume isto, foi atribuída anos mais tarde, num registo de uma das pessoas que conviveu com o casal. A I era inteligência por detrás do citilo. O citilo era o dinheiro, a Iolanda eram as relações. O que é que este alinhamento fez entre 1947 e 1961 foi construir as três principais instituições de arte moderna de S.

Paulo. Em 1948, com o apoio do norte-americano Nelson Rockfeller e do crítico Sérgio Milier, Citilo e Yolanda fundaram o Museu de Arte Moderna de São Paulo. A coleção inicial, várias dezenas de obras compradas pelo casal na Europa nos anos anteriores, incluía Brack, Leg, Lot, Modigliani, CER, Picasso. Em 1951, organizaram a primeira Bienal de São Paulo no pavilhão Belvedere, com 1800 obras de mais de 20 países.

Em 1953, a segunda Bienal, integrada nas comemorações do quarto centenário de São Paulo. Foi para esta segunda Bienal que Holanda em pessoa conseguiu o que ninguém antes tinha conseguido, trazer ao Brasil, por empréstimo do Museum of Modern Art de Nova Iorque, o Guernica de Pablo Picasso. Foi a primeira e única vez que o quadro veio à América do Sul.

Em 1954 participaram na organização do primeiro festival internacional de cinema de São Paulo. Em 1959, a quinta Bienal com cerca de 30 telas de Vanangog em destaque. Ao longo destes 14 anos, Yolanda viajou por capitais europeias e norte-americanas. Encontrou-se com artistas, com curadores, com os governos. A sua rede pessoal, que ia desde a elite Paulista aos artistas internacionais, dos jornalistas dos diários associados aos diplomatas em Roma, resultou.

E depois, em 1961, depois de 14 anos juntos, Iolanda separou-se de Titilo Matarazo. As razões pessoais não estão completamente documentadas. Sabe-se, pelos relatos de quem conviveu com o casal nesta fase final, que tinha ter havido divergência sobre a gestão do museu, sobre as bienais, sobre o futuro das instituições que tinham criado juntos.

Em 1962, no ano seguinte à separação, a Bienal Internacional de São Paulo desligou-se formalmente do Museu de Arte Moderna, com a criação de uma fundação bienal separada. O acervo do museu, reunido ao longo de 14 anos pelo casal, foi transferido para o Universidade de São Paulo, dando origem ao Museu de Arte Contemporânea da USP em 1963.

A Iolanda dos anos 60, entre os 58 e os 66 anos, foi uma Iolanda mais discreta. Continuou a participar nos conselhos das instituições que tinha ajudado a fundar. Manteve amizade com Chatobrian, com Ema Clabim, com Maria Martins. Em 1975, com 72 anos, publicou o autobiografia que tinha estado a preparar ao longo dos anos anteriores, Tudo em cor-de-rosa.

O livro saiu com prefácio do historiador Sérgio Buarque da Holanda. O título Tudo em cor- de-os foi escolhido por Iolanda com uma ironia consciente. Não era a vida dela que tinha sido cor-de-osa, era o aspecto da sua vida vista de fora que era cor-de-osa. Na altura em que o livro saiu, a quinta do Impírio, onde Yolanda tinha nascido em 1903, já tinha sido vendida.

A venda tinha sido feita ao senador Pedro Piva e a propriedade tinha sido fragmentada pela construção de uma auto-estrada que a cortou em duas. A Casa Grande, segundo as descrições posteriores, ainda existia. Mas o cafezal já não era um cafezal. A escala antiga da quinta, com os mil e tantos hectares dos anos 20, tinha desaparecido.

Houve, ao longo dos anos 70 uma tragédia familiar particular que afetou Yolanda profundamente. A sobrinha que ela tinha criado quase como filha, Marilu Pujol Penteado Novais, filha do irmão Juvenal Penteado com Odila Pujol, casada com Otávio Novais, filho da pianista Guomar Novais, morreu num acidente de automóvel aos 27 anos.

ia no momento do acidente em direção ao quinta do Impírio. Ea, que não tinha podido ter filhos próprios e que tinha investiu na sobrinha um afeto particular, ficou marcada por esta morte para o resto da vida. A própria autobiografia escrita alguns anos depois contém referências a Marilu, que são entre as mais comovidas do livro.

E Holanda viveu os últimos anos da vida entre São Paulo, alguns períodos na Europa e os Estados Unidos. Em 1983, encontrava-se em Stanford, na Califórnia, em casa de amigos, segundo as fontes conservadas para tratamento médico. Morreu em Stanford a 15 de junho de 1983, tinha 80 anos. Os restos mortais foram trazidos para São Paulo.

Foi sepultada no cemitério da Consolação, no mesmo cemitério onde tinha sido sepultada quase 50 anos antes à sua tia Olívia. Ficou do percurso de Holanda um conjunto particular das coisas. Ficou o Museu de A Arte Moderna, ainda hoje uma das instituições centrais da cultura paulista. Ficou a Bienal, ainda hoje uma das maiores manifestações de arte contemporânea do hemisfério sul.

Ficou o Museu de Arte Contemporânea da USP. ainda hoje detentor de uma das coleções de arte moderna mais importantes da América do Sul, ficou a autobiografia, reeditada algumas vezes ao longo das décadas seguintes e que continua a ser uma das memórias mais citadas para o estudo do mecenato cultural paulista do meados do século XX, mas não ficou a casa onde tinha nascido.

A quinta do Impírio, depois da venda, foi mudando de uso e de mãos ao longo das décadas. Não ficou a fortuna familiar dos penteados de Leme. Essa tinha-se dissolvido em 1929 e o casamento com Citilo Matarazo tinha apenas substituído durante 14 anos uma fortuna familiar perdida por uma fortuna industrial emprestada.

Quando o casamento terminou em 61, o que restava foi a posição cultural, não a posição patrimonial. Yolanda morreu em Stanford não porque tinha querido viver longe de São Paulo no fim da vida, mas porque o tratamento de que necessitava só aí podia ser feito e porque tinha lá amigos. Não era a morte de uma matriarca patriarcal numa casa de família.

Era a morte de uma mulher que, depois de tudo, já não tinha a casa de família onde poder morrer. E que, no fim, foi a história de Yolanda de Ataliba, Nogueira Penteado. uma mulher que tinha nascido numa das quintas mais ricas do interior Paulista, que tinha perdido essa fortuna aos 26 anos no crash da bolsa, que tinha-se divorciado num tempo em que isto era escândalo, que tinha casado em segundas núpcias por alinhamento, que tinha fundado os três principais museus de arte moderna do Brasil e que tinha morreu aos 80 anos numa cidade que não

era a sua, uma mulher cujo O título de autobiografia, Tudo em Cor de Rosa, sintetizava, com a ironia das pessoas que viveram muito tempo, a relação que a A própria autora tinha com a aparência da vida que tinha vivido. Três dirações dos penteado. José Guedes de Souza, o Barão de Pirapitíngui, primeira geração, morto em 1897 na Casa de São Paulo.

Olívia Guedes Penteado, segunda geração, morta em 1934 em casa do conselheiro Nébias, casa que foi demolida 9 anos depois. Iolanda de Ataliba, Nogueira, penteado, terceira geração. Morta em 1983 em Stanford, longe da quinta onde tinha nascido. Entre o barão que tinha plantado o café em Mogimil e a sobrinha neta que tinha faleceu na Califórnia, 86 anos.

Em 86 anos, uma família que tinha sido no início uma das maiores potências agrícolas do interior de São Paulo, tornou-se, no final, uma família cujo nome continua a aparecer nos livros de história da arte brasileira, mas cuja casa principal foi demolida, cuja quinta original foi vendida e fragmentada e cuja última representante notável morreu fora do país, longe das árvores que tinha visto em criança.

Faltava ainda o que ficou. O que de facto ficou. Existe no centro de São Paulo uma esquina onde antigamente existia uma casa. A casa tinha uma cúpula, a casa tinha vitrais. A casa tinha no fundo do terreno um pequeno pavilhão com murais pintados nas paredes por um artista lituano que tinha vivido em São Paulo.

Hoje, nesta esquina existe uma avenida de seis faixas. Há um lote onde existia um hotel que também já foi demolido e há em algum poste municipal junto à calçada uma placa pequena instalada anos mais tarde pela Departamento Municipal de Cultura, uma placa do projeto Memória Paulistana, que regista que ali, naquela morada, viveu entre 1898 e 1934 uma mulher chamada Olívia Guedes Penteado, mecenas do modernismo brasileiro.

Quem passa pela calçada em quase todas as horas do dia, não lê a placa. Quem lê a placa raramente sabe quem foi a Olívia. E quem sabe quem foi A Olívia, em alguns casos, prefere não olhar para a esquina, porque a esquina já não tem nada para evocar. A história dos penteados, vista ao longo de 86 anos, tem essa textura particular. Não é a história de uma família que foi destruída de uma só vez.

Não há uma data como há para algumas outras famílias do Café Paulista em que se possa apontar o ano da falência. A família Penteado não faliu. Continuou, em algumas das suas linhagens a existir, a casar, a ter filhos, a manter alguma presença discreta na sociedade paulista. Mas a forma que esta família tinha tido, a forma da quinta em Mogimi? A forma do palacete em Conselheiro Nébias, a forma do salão modernista no pátio, a forma do Impírio em Leme, essa forma desfez-se, foi-se peça a peça, ao longo de algumas décadas sem ruído.

Há aqui uma diferença que vale a pena registar. A história do Old Money é frequentemente contada como história de quedas espetaculares. A família que perdeu tudo no jogo, o herdeiro que faleceu em circunstâncias nunca esclarecidas num quarto de hotel. O escândalo financeiro que arrastou três gerações para o chão num único processo judicial.

Essas histórias existem. Esta canal contou algumas e contará outras, mas a história dos penteado não é uma dessas. É uma história de declínio silencioso, de patrimónios que se foram vendendo ao longo de décadas para manter as aparências, de casas que foram demolidas não por bancarrota, mas por planos municipais, de explorações que foram vendidas não por urgência, mas por cansaço.

Este tipo de declínio, o declínio silencioso, é talvez o mais comum entre os as antigas famílias do Old Money brasileiro. As famílias raramente se desfazem por um acontecimento único. Desfazem-se por uma sucessão de acontecimentos pequenos, cada um dos quais isoladamente parece administrável. A quebra de 1929 é um deles.

A morte prematura de uma matriz familiar, Olívia, aos 62, ainda no auge é outro. A demolição da casa principal, por decisão de um autarca, é outro. O divórcio de uma sobrinha, num tempo em que o divórcio quebra as redes sociais, é outro. A venda de uma quinta histórica, peças por peça, ao longo de décadas, é outro. Nenhum destes acontecimentos é por si só definitivo, mas a soma dos mesmos ao longo de três gerações, faz uma família desaparecer da forma em que tinha existido.

Há também outra coisa que esta história permite ver com particular clareza e que vale a pena nomear sem alongamento. As três gerações dos penteado, a do Barão, a de Olívia, a de Holanda, viveram, cada uma à sua maneira uma relação diferente com o dinheiro. A primeira geração construiu o dinheiro a partir da terra e do trabalho de outros.

A segunda geração transformou o dinheiro na arte, nas casas, nos salões. A terceira geração, depois de perder o dinheiro, fundou museus que continuam ainda hoje a guardar a arte que a segunda geração tinha comprado. É uma sequência curiosa. Termina ao fim de 86 anos com uma instituição pública, o Museu de Arte Contemporânea da USP.

aguardar quadros que tinham começado a sua vida brasileira no pavilhão modernista de conselheiro Nébias, na casa que já não existe, comprados em Paris pela mulher que tinha morrido em 1934. Há nesta sequência uma forma de compensação que é talvez a única forma de compensação possível. Os quadros sobreviveram, a casa não. A fortuna privada acabou, o acervo público continua.

O nome da família perdeu a sua função de poder, mas o Computier DLG, comprado por Olivia em Paris em 1923, ainda pode ser visto em São Paulo por qualquer pessoa que entre no museu. Uma situação que, provavelmente, nenhuma das três gerações dos penteados teria imaginado como o destino final da coleção. É possível pensar nesta história também de uma outra forma, menos elegíaca e mais documental.

As três mulheres centrais, Carolina Leopoldina de Almeida, a baronesa de Perapting, que faleceu em 1891 com 49 anos, Olívia Guedes Penteado, que faleceu em 1934 aos 62, e Holanda de Ataliba Nogueira Penteado, falecido em 1983 aos 80, atravessam no conjunto das suas vidas exatamente o século de transformação mais radical da história de São Paulo.

Carolina nasceu numa São Paulo que era uma vila colonial poeirenta do interior e Holanda morreu enquanto São Paulo se tornava uma das metrópoles mais populosas do mundo. Entre a infância de uma e a velice da outra, a cidade passou por todas as fases: aldeia imperial, capital cafeicultora, metrópole industrial, megalópole moderna.

A família Penteado atravessou todas estas fases, foi protagonista em algumas delas, foi observadora noutras, foi vítima em sentido patrimonial na transição da segunda para a terceira fase e ficou no fim como uma das famílias cuja história permite ler a história da própria cidade. Em 1943, o ano em que o palacete de conselheiro Nébias foi demolido, foi também o ano em que o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial.

Foi também o ano em que a A fazenda Impírio ainda estava de pé na escritura, embora a fortuna que a tinha sustentado já se tivesse desfeito havia 14 anos. Foi o ano em que Yolanda, com 40 anos, ainda não tinha conhecido o Citilo Matarazo. O casamento chegou 4 anos depois e foi também o ano em que, para grande parte da sociedade paulista, o nome penteado começou a deslizar lentamente da categoria de família de poder para a categoria de família de memória cultural.

Em 1943, a transição já estava feita, mas ainda demoraria décadas até se tornar evidente. Na esquina da Conselheiro Nébes com a antiga Duque de Caxias, hoje, em alguma tarde de Outono em que a luz incide sobre o asfalto com um ângulo particular, é possível, com algum esforço de imaginação, reconstituir mentalmente a cúpula que ali existia, os vitrais, o portão, o pavilhão escondido no fundo do terreno.

Mas o esforço é pessoal, a cidade não ajuda. A cidade seguiu em frente, como fazem as cidades. O hotel veio, o hotel foi, veio um edifício, o edifício também envelhecerá. E daqui algumas décadas alguém escreverá talvez um documentário sobre o edifício e o edifício também, então, já não existirá. Numa das últimas anotações preservadas que Olívia Guedes Penteado escreveu numa carta a uma amiga, segundo aquilo que ficou registado depois nos materiais reunidos pelos seus biógrafos, falava da casa de Paris que tinha vendido em 1922 e de como tinha demorado 10 anos depois

disso para deixar de sonhar com ela à noite. Não há, neste sentido, casas perdidas que se percam de uma vez. Há, sobretudo casas que continuam a existir nos sonhos das pessoas que nelas viveram durante muito tempo, depois de já terem sido vendidas, demolidas, transformadas em hotéis, transformadas em avenidas.

Quando estas pessoas morrem, as casas finalmente acabam. A casa do conselheiro Nébias acabou, neste sentido, em 1983, em Stanford, numa cama de hospital onde uma mulher de 80 anos, chamada Iolanda Penteado fechou os olhos pela última vez. Foi com ela que acabou de existir, em algum sentido subterrâneo, o palacete que a tia tinha mandado construir em 1895.

e que tinha sido posto no terreno em 1943. Não existem, na verdade, monumentos finais para as casas demolidas. Há apenas a vida das pessoas que se lembravam delas. E quando essas pessoas se vão, as casas vão também. Algumas famílias, no final, são lembradas mais pelas obras que deixaram nas paredes dos museus do que pelas paredes que deixaram nas cidades onde viveram. M.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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