1997 – Um Homem Morto Falou Comigo no Cemitério de Campinas 

1997 – Um Homem Morto Falou Comigo no Cemitério de Campinas

 

Em agosto de 1997, entrei para trabalhar, como em qualquer outro dia, no cemitério da Saudade, em Campinas. Quando saí naquela noite, transportava uma mensagem que não era minha, uma mensagem de um homes. Meu nome é Arnaldo Ferreira. Na altura eu tinha 53 anos. Passei mais de três décadas a trabalhar entre túmulos, enterramentos, exumações e despedidas.

Depois de tantos anos a conviver com a morte, acreditamos que já vimos de tudo. Foi exatamente quando pensei que que aconteceu a única coisa da minha vida que nunca consegui explicar. Era uma terça-feira. Lembro-me porque sempre gostei das terças-feiras. Não havia movimento a mais. Os enterros costumavam ser poucos.

O cemitério ficava silencioso. Naquela manhã o céu estava cinzento. Não chovia, mas parecia que a chuva estava à espera de alguma autorização para cair. Cheguei pouco depois das 7, pois Abri um dos portões laterais. Cumprimentei o vigia da noite. Peguei as minhas ferramentas, tudo normal. O cheiro da terra húmida era forte.

Algumas flores deixadas no fim de semana já começavam a murchar. As velas apagadas deixavam pequenos montes de cera endurecida junto das lápides. Era apenas mais um dia. Pelo menos era o que pensava eu. Por volta das 8h, estava limpando uma área próxima do setor antigo. Era uma parte do cemitério pouco visitada.

Túmulos antigos, árvores grandes, corredores estreitos entre as sepulturas. Foi quando vi aquele homem pela primeira vez. Caminhava devagar, calça escura, camisa clara, mãos nos bolsos. Aparentava ter cerca de 40 anos. Nada chamava atenção. Parecia apenas alguém a visitar um parente. Olhei por alguns segundos, voltei ao trabalho, mas uma sensação estranha ficou.

Não era medo, era desconforto, como quando alguém entra numa divisão e apercebe-se da sua presença antes mesmo de olhar. Continuei a trabalhar. Depois de alguns minutos, levantei a cabeça. Ele ainda estava ali parado, a olhar para uma região específica do cemitério. Imóvel. Aquilo chamou-me a atenção. As pessoas visitam normalmente uma sepultura, acendem uma vela, fazem uma oração, vão-se embora.

Mas ele não fazia nada, apenas permanecia parado, a observar. Continuei a trabalhar, tentei ignorar, mas aquela sensação estranha não me abandonava. Perto das 10 horas, fui buscar algumas ferramentas perto da administração. Quando regressei ao setor antigo, vi o homem novamente, só que noutro lugar, muito distante do ponto onde estava antes.

E eu tinha a certeza de que não o tinha visto passar por mim. Aquilo me incomodou. Pela primeira vez senti um peso no peito, uma pressão ligeira, como ansiedade, sem motivo. Olhei para ele, ele olhou para mim e depois virou o rosto lentamente. Foi só isso, mas fiquei desconfortável durante o resto da manhã. No horário do almoço, sentei-me sozinho perto da capela.

Enquanto comia uma sanduíche, continuei pensando naquele visitante. Não fazia sentido. Algo nele parecia errado. Não fisicamente, era outra coisa. Uma sensação difícil de colocar em palavras. Quando regressei ao trabalho, por volta das 2as da tarde, o céu estava ainda mais escuro.

O vento tinha parado, até os pássaros pareciam ter desaparecido. Foi nesse momento em que o vi pela terceira vez, parado entre duas filas de túmulos, observando. Desta vez a pressão no peito voltou mais forte. Eu parei. Ele também. Nenhum de nós se mexeu. O silêncio ao redor parecia diferente, pesado, estranho, como se o próprio cemitério estivesse à espera de alguma coisa.

Resolvi aproximar-me. Afinal, eu trabalhava ali. Se ele precisava de ajuda, perguntaria eu. Comecei [música] a andar. Um passo, depois outro. Quanto mais me aproximava, maior era a sensação. Meu coração acelerava sem motivo. Quando cheguei a cerca de 10 m dele, algo aconteceu. O homem abriu a boca.

Vi claramente, mas não ouvi som nenhum, nenhum. Mesmo assim, uma frase surgiu dentro da minha cabeça, clara, nítida, como se alguém tivesse falado de dentro de mim. Diga-lhe que eu nunca fui embora por opção. Eu parei imediatamente. O meu corpo inteiro congelou. A frase continuou a ecoar. Diga-lhe que eu nunca fui embora por opção.

Olhei para o homem. Ele continuava imóvel, sem expressão, sem movimento. Então, ouvi um portão bater ao longe. Instintivamente virei o rosto, menos de um segundo. Quando voltei a olhar, ele já não estava lá, simplesmente desapareceu. Fiquei sozinho naquele corredor com aquela frase dentro da cabeça e uma sensação horrível de angústia, porque eu não fazia ideia de quem era, nem de quem era ela. Nessa noite dormi mal.

 

 

 

Sonhei com corredores do cemitério. Nada assustador, mas repetitivo. Eu caminhava à procura de alguém, sempre à procura, sem encontrar. No dia seguinte, a sensação continuava. Decidi voltar ao local onde tinha visto o homem. Passei uma boa parte da manhã andando pelo setor antigo, sem saber exatamente o que procurava.

Foi então que encontrei uma sepultura que nunca me tinha chamado a atenção. A lápide era simples, sem flores, sem visitas recentes, mas houve algo diferente. Uma fotografia apoiada na pedra. Parecia nova, acabada de colocar. Aproximei-me. O meu corpo inteiro gelou. Era ele, o homem que eu tinha visto. A mesma face, os mesmos olhos, a mesma expressão. Li a inscrição.

Marcelo Antunes, 1957, 1995. Morto aos 38 anos. Senti as pernas enfraquecerem. Fiquei alguns segundos encarando aquela fotografia sem conseguir pensar, sem conseguir respirar direito. Foi quando percebi algo. Atrás da foto havia uma anotação, uma palavra escrita a caneta. Helena, só isso. Helena.

Nenhum apelido, nada mais. Nessa noite tive outro sonho. Eu estava diante da mesma sepultura e alguém repetia: “Ela precisa de saber”. Acordei a suar com o coração acelerado. Os dias passaram, mas a sensação piorava. Sempre que passava perto da sepultura de Marcelo, sentia o mesmo peso no peito, o mesmo desconforto, como se algo estivesse incompleto, como se alguém esperasse por mim.

Depois começaram os outros sinais. Primeiro foi o cheiro. Marcelo tinha uma campa rodeada por jasmins. Toda vez que me aproximava, sentia um perfume forte, muito forte. Mas não vinha das flores. Parecia surgir do nada, mesmo em dias sem vento. Depois veio a fotografia. Mais de uma vez encontrei a foto em posições diferentes, ligeiramente inclinada, virada para outro lado, como se alguém a movimentasse, mas ninguém visitava aquele túmulo.

Eu sabia disso. Comecei a ficar obsecado. Precisava de entender. Precisava de encontrar Helena. Mas como Campinas era enorme. Eu tinha apenas um primeiro nome, nada mais. Até que um estranho acontecimento mudou tudo. Certo dia, apareceu uma senhora no cemitério à procura de uma sepultura. Eu a acompanhei. No caminho, ela observou a foto de Marcelo, parou e disse: “Engraçado, parece um rapaz que conheci muitos anos atrás.

Namorava com uma rapariga chamada Helena. O meu coração disparou. Perguntei detalhes. Ela contou que ambos tinham vivido em Valinhos. Era pouco, mas era alguma coisa. Nos meses seguintes, procurei informações, conversei com antigos conhecidos, funcionários, visitantes, até que encontrei um endereço antigo. Valinhos, uma casa simples.

Bati no portão. Quem atendeu foi uma mulher de aproximadamente 40 anos. Quando ela abriu o portão, senti algo difícil de explicar. uma tristeza antiga, daquelas que ficam guardadas durante anos. “És a Helena?”, confirmou ela. “E eu soube imediatamente que estava no local certo. Contei quem era. Expliquei que trabalhava no cemitério.

Vi o rosto dela mudar quando mencionei o Marcelo, como se uma ferida antiga tivesse sido aberta. Ela convidou-me para entrar. Sentamo-nos na varanda. Fiquei nervoso. Parecia absurdo o que eu precisava dizer, mas contei tudo desde o início. O homem, a aparição, os sonhos, a frase. Quando terminei, a Helena estava a chorar em silêncio.

Então, ela revelou-me algo que me fez gelar o sangue. Dias antes de morrer, Marcelo tentou procurá-la. Os dois tinham discutido. Feio. Ela acreditava que ele a tinha abandonado, que não a queria ver mais. A última mensagem deixada por ele dizia: “Se não conseguir voltar, saiba que não fui embora por opção. Eu nunca poderia saber isso.

Ninguém poderia. A mensagem nunca foi escrita, nunca foi registada, nunca foi contada a outras pessoas. Apenas ela conhecia aquelas palavras. Ficámos em silêncio, longo silêncio. Então Helena contou a verdade. Ela nunca tinha ido ao funeral, nunca visitou o túmulo, nunca o conseguiu. Passou dois anos acreditando que tinha sido rejeitada, abandonada, portadora de culpa, raiva, saudade, tudo misturado.

E agora aquela mensagem tinha destruído esta versão da história. Começou a chorar, não de medo, mas de alívio, um alívio doloroso daqueles que chegam depois de anos de sofrimento. Marcámos uma visita ao cemitério para a semana seguinte. No dia combinado, o céu estava nublado, tal como naquele dia em que tudo começou.

A Helena trouxe uma pequena caixa. Dentro dela havia um relógio de bolso antigo, presente que Marcelo recebera do avô. era o objeto mais importante que possuía. Após a morte dele, ela guardou aquele durante anos. Chegámos ao túmulo. O lugar parecia diferente, silencioso, mas não pesado.

Helena ajoelhou-se diante da sepultura, passou a mão sobre a pedra pela primeira vez e começou a conversar como se Marcelo estivesse a ouvir. Pediu perdão. Falou da saudade, falou da dor, falou dos anos perdidos. Eu fiquei alguns metros atrás respeitando aquele momento. Então, algo aconteceu sem aviso, sem explicação. O relógio que estava sobre a lápide parou, ficou imóvel durante alguns segundos, depois voltou a funcionar sozinho com um único clique seco, claro.

No mesmo instante, o vento surgiu suave, movendo as folhas das árvores, movendo as flores, movendo tudo menos a fotografia que permaneceu imóvel. Helena levantou a cabeça e sorriu pela primeira vez. Um sorriso triste, mas verdadeiro. Naquele exato momento, senti algo desaparecer. O peso, a pressão, a angústia.

Tudo desapareceu, como se alguém tivesse finalmente encontrado o caminho para casa. Depois desse dia, nunca mais tive sonhos, nunca mais senti o perfume, nunca mais vi a fotografia mudar, nunca mais ouvi nada. Marcelo desapareceu definitivamente. Hoje, tantos anos depois, continuo recordando aquela tarde. Volto ao cemitério de vez em quando, já reformado, mais velho, mais cansado, mas sempre que passo pelo setor onde tudo aconteceu, lembro-me daquela voz.

A única voz que ouvi sem usar os ouvidos. Não sei explicar o que existe depois da morte. Nunca soube, talvez nunca venha a saber, mas sei o que vivi, sei o que senti. E sei que algumas pessoas não voltam para assustar ninguém. Voltam porque existe algo que ainda precisa de ser dito. Algo que ficou preso entre a saudade e o silêncio.

Algo que só encontra descanso quando chega finalmente ao destino. E a frase que ouvi nesse dia continua comigo até hoje, exatamente como chegou. Clara. firme, impossível de esquecer. Diga para ela que nunca me fui embora por opção. Se acredita que há coisas que não conseguimos explicar, mas consegue sentir, escreva nos comentários.

Eu acredito que Deus o proteja a si e à sua família. Até o próximo relato.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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