VI UMA ALMA NO CORREDOR… ATÉ DESCOBRIR O MOTIVO REAL POR QUE ELA NÃO PARTIA
Eu estava olhando para um canto do quintal quando vi um homem parado ali perto do muro. Na hora, achei que fosse alguma visita. Desviei o olhar por apenas alguns segundos para avisar Susana que tinha alguém lá fora. Mas quando olhei novamente, o homem tinha simplesmente sumido. Eu fiquei olhando para aquele mesmo lugar, tentando entender para onde ele poderia ter ido tão rápido.
Foi quando falei para Susana, tinha um homem parado ali e a resposta que ela me deu foi justamente o que fez toda essa história começar a ficar assustadora. Meu nome é Januário. Naquela época eu tinha 25 anos e levava uma vida simples. Trabalhava, cuidava das minhas coisas e quando chegava o fim de semana gostava de sair para me divertir.
Uma das coisas de que eu mais gostava era ir aos bailes. Não precisava ser nada muito sofisticado. Para mim, bastava ter música, movimento e gente reunida para a noite já valera a pena. Eu gostava daquele ambiente, as luzes, o som alto, as pessoas chegando em grupos, os conhecidos se cumprimentando e os casais se formando aos poucos pela pista.
Alguns iam realmente para dançar, outros ficavam mais pelos cantos conversando e observando. Eu fazia um pouco das duas coisas. Gostava de circular, encontrar amigos e aproveitar a noite sem pensar muito no dia seguinte. Foi em uma dessas idas que conheci Susana. Lembro de entrar no baile como fazia normalmente.
A música já estava tocando e havia bastante gente. No começo, eu não tinha nenhum plano especial para aquela noite. Era apenas mais uma saída dessas que eu já estava acostumado a fazer. Até que vi Suzana. Ela estava no meio de outras pessoas e foi impossível não reparar nela. Era uma mulher muito bonita.
Não foi somente uma questão de aparência. Havia algo no jeito dela que fazia com que eu voltasse a olhar. Mesmo quando tentava prestar atenção na conversa ao meu redor, em algum momento, meus olhos acabavam procurando por ela novamente. Tentei não demonstrar tanto interesse logo de início. Naquele tempo, aproximar-se de alguém em um baile tinha seu próprio ritmo.
Primeiro vinham os olhares. Depois, se existisse algum sinal de interesse do outro lado, surgia uma oportunidade de chegar mais perto e começar uma conversa. Foi assim com Susana. Em determinado momento, percebi que ela também havia me notado. Eu olhava e pouco depois nossos olhos se encontravam. Nenhum dos dois dizia nada, mas aquilo já era uma forma de comunicação.
Passei algum tempo tentando entender se era realmente interesse ou apenas coincidência. Eu não queria me aproximar de maneira inconveniente, então continuei observando, esperando o momento certo. Aos poucos, fui percebendo que não era apenas impressão minha. Quando nossos olhares se encontravam, ela não desviava imediatamente.
Algumas vezes surgia um sorriso discreto. Aquilo me deixou mais confiante. Acabei me aproximando. No começo, a conversa foi simples. Nada de especial ou ensaiado. Falamos sobre o baile, sobre a música, sobre pessoas que estavam ali e outras coisas que surgiam naturalmente. Eu estava interessado nela, mas também queria conhecê-la sem transformar aquele momento em alguma coisa complicada.
Susana era agradável de conversar. Isso fez diferença. Depois dos primeiros minutos, aquela tensão que existia entre duas pessoas que acabaram de se conhecer começou a desaparecer. A conversa ficou mais fácil e eu percebi que já não precisava pensar tanto antes de falar. A gente começou a ficar mais próximo durante aquela noite.
Não aconteceu nada de maneira apressada, foi simplesmente acontecendo. Primeiro os olhares, depois a conversa, a aproximação e a vontade de permanecer perto um do outro. Para minha sorte, o interesse era correspondido. Eu gostava de Susana e percebia que ela também gostava da minha companhia. Depois daquela primeira noite, começamos a nos encontrar outras vezes.
Quando nos víamos, já existia uma familiaridade diferente. Não éramos mais duas pessoas desconhecidas tentando descobrir se havia interesse. Começamos a ficar. Eu gostava da maneira como aquilo havia surgido. Não havia sido planejado. Eu simplesmente tinha saído para um baile como tantas outras vezes. E no meio daquela noite comum, conheci uma pessoa que começou a ocupar um espaço cada vez maior na minha vida.
Quanto mais eu conhecia Susana, mais natural ficava a nossa convivência. Aos poucos, nossos encontros deixaram de acontecer somente nos bailes. Passamos a procurar outras oportunidades para estar juntos e conversar com mais calma. Foi nesse período que ela começou a frequentar minha casa. No início, eram visitas mais curtas.
Depois isso foi se tornando parte da nossa rotina. Eu já esperava por ela e gostava quando sabia que passaria algum tempo comigo. Nossa relação estava ficando mais próxima. Não era algo que eu parava para analisar o tempo inteiro. Naquele momento, eu apenas vivia aquilo. Estava conhecendo Susana, gostava da companhia dela e sentia que a nossa ligação aumentava aos poucos.
Foi também dessa maneira que Renato passou a fazer parte daqueles momentos. Renato era filho de Susana. Sempre que podia, ele acompanhava a mãe até minha casa e desde o começo, percebi que ele gostava de estar ali. Com o tempo, a presença de Susana e Renato na minha casa se tornou algo normal para mim. Já não parecia uma visita formal.
Quando eles chegavam, cada um acabava encontrando alguma coisa para fazer e a tarde seguia sem muita preocupação. Renato gostava bastante de ir lá. Enquanto eu e Susana conversávamos, ele costumava assistir televisão. Às vezes ficava mais perto da gente, outras vezes preferia ir para o quarto e ficar entretido com algum programa.
Eu achava bom que ele se sentisse confortável na minha casa. Afinal, ele fazia parte da vida de Susana e eu entendia que a presença dele também fazia parte daquela aproximação que estava acontecendo entre nós. Havia dias em que passávamos algumas horas juntos sem fazer nada de especial. Conversávamos, assistíamos alguma coisa ou simplesmente ficávamos em casa.
Foi justamente em uma dessas tardes que aconteceu algo que ficou marcado na minha memória. Susana e Renato tinham ido até minha casa e até então tudo seguia normalmente. Nós almoçamos juntos. Foi um almoço tranquilo, sem qualquer acontecimento diferente. Depois que terminamos de comer, permanecemos em casa.
Era uma daquelas tardes em que ninguém estava com pressa. Já tínhamos inclusive feito um pequeno plano para depois. A ideia era assistir a um filme. Não era nenhuma ocasião importante. Queríamos apenas passar o restante da tarde juntos, preparar pipoca e ficar diante da televisão. Era um programa simples, mas eu gostava disso.
Para mim, estar com Susana dessa maneira também mostrava como nossa convivência estava ficando cada vez mais natural. Depois do almoço, Renato foi para o quarto assistir televisão. Isso também não chamou minha atenção, porque ele já fazia isso outras vezes. Ele estava tranquilo quando entrou no quarto. Eu fiquei com Susana em outra parte da casa. Nós conversávamos normalmente.
Não havia discussão, barulho diferente ou qualquer coisa que pudesse mudar o clima daquela tarde. Tudo parecia comum. Foi por isso que estranhei tanto quando Renato apareceu novamente. Ele saiu do quarto de repente. Assim que olhei para ele, percebi que alguma coisa estava diferente. O rosto dele não tinha a mesma expressão de alguns minutos antes.
Renato parecia assustado. Seu olhar chamou minha atenção imediatamente. Ele não ficou andando pela casa, nem tentou explicar muita coisa. foi direto até Susana. Então disse que queria ir embora. Naquele instante eu não entendi. Fiquei olhando para ele, tentando perceber o que poderia ter acontecido durante o tempo em que esteve no quarto.
Pensei que talvez tivesse visto alguma coisa na televisão que o assustara ou que simplesmente tivesse mudado de ideia sobre ficar ali. Crianças às vezes fazem isso. Em um momento estão tranquilas e pouco depois querem voltar para casa. Mas a maneira como Renato apareceu não me pareceu uma simples mudança de vontade.
Ele estava realmente incomodado. Olhei para Susana, esperando que ela perguntasse o que tinha acontecido. A reação dela, porém, me chamou ainda mais atenção. Susana olhou para Renato de uma maneira que eu não soube interpretar naquele momento. Ela parecia entender. Não houve aquela surpresa que eu esperava de uma mãe que ouve o filho pedir para ir embora de repente.
Pelo menos foi essa a impressão que tive. Fiquei sem saber o que dizer. Eu não queria insistir para que Renato permanecesse ali se ele não estava bem. Ao mesmo tempo, também não conseguia entender o motivo daquela mudança tão repentina. Pouco antes tudo estava tranquilo. O almoço tinha terminado normalmente. Renato tinha ido assistir televisão e nós já tínhamos combinado o que faríamos em seguida.
Eu até estava pensando na pipoca que faríamos para acompanhar o filme. Parecia uma coisa pequena, mas aquele plano deixava claro como a tarde estava caminhando. Um dia, Susana me chamou para ir até a casa dela. Apesar de já estarmos juntos havia alguns meses, era muito difícil eu entrar na casa dela. Eu costumava acompanhá-la até lá, mas geralmente ficava apenas no portão.
Conversávamos por alguns minutos, eu me despedia e ia embora. Não havia nenhum motivo especial para isso. Simplesmente tinha se tornado o nosso costume. Por isso, aquela seria apenas a segunda vez que eu realmente entraria na casa dela desde que começamos a ficar. Antes de ir, passei em um mercado, comprei algumas cervejas para a gente tomar e depois segui para a casa dela.
Quando cheguei, entramos e fomos para a cozinha. Era tudo muito simples, nada de ocasião especial ou alguma coisa planejada com antecedência. A intenção era apenas ficar juntos, conversar, tomar algumas cervejas e aproveitar o tempo. Susana começou a preparar alguns petiscos enquanto eu me sentei em uma cadeira na cozinha.
Abri uma cerveja e fiquei ali conversando com ela. Ela estava perto do fogão, ocupada com o que estava preparando. De vez em quando se virava para falar alguma coisa comigo e depois voltava para o fogão. Eu bebia minha cerveja e acompanhava a conversa. Da posição em que eu estava sentado, conseguia enxergar uma parte de fora da casa através de um vitrô.
Não era uma visão completa do quintal. Eu enxergava apenas um determinado canto. Dava para ver uma parte do corredor de entrada da casa e também um pedaço do muro. Preso naquele muro, havia um suporte onde ficava uma mangueira enrolada. Era uma coisa comum. Eu nem estava prestando atenção, especificamente naquele lugar.
Enquanto conversávamos, meus olhos passeavam naturalmente pelo ambiente. Às vezes eu olhava para Susana, outras vezes para o que ela estava preparando e em outros momentos simplesmente olhava através do vitrô. Em determinado momento fiz exatamente isso. Olhei para fora e havia um homem ali. Ele estava em pé próximo daquele suporte onde ficava a mangueira.
Minha primeira reação não foi de medo. Na verdade, por alguns segundos, achei apenas que alguém tivesse entrado pelo corredor. Talvez fosse algum conhecido dela. Como eu quase nunca entrava na casa de Susana, não conhecia bem a rotina daquele lugar. Não sabia quem costumava aparecer, quem eram os vizinhos mais próximos ou se algum parente tinha liberdade para entrar.
Então, simplesmente olhei, vi aquele homem parado ali. Não lembro de ter ouvido o portão abrir. Também não tinha escutado passos ou alguém chamando por Susana. Mesmo assim, ele estava lá. Desviei os olhos por um instante e olhei para Susana. Ela continuava de costas para mim, perto do fogão, preparando os petiscos como se nada estivesse acontecendo.
Pensei em perguntar quem era aquele homem. Antes de falar qualquer coisa, porém, voltei meus olhos para o vitrô. O homem havia sumido. Foi tão rápido que fiquei alguns segundos olhando para aquele mesmo ponto. A mangueira continuava no lugar. O corredor estava vazio. Não havia ninguém. Tentei enxergar melhor, mudando um pouco minha posição na cadeira, mas continuava sem ver pessoa alguma.

Aquilo me deixou confuso. Se o homem tivesse caminhado para algum dos lados, talvez eu simplesmente não tivesse percebido. Afinal, minha visão através do vitrô era limitada. Ainda assim, eu tinha certeza de que havia visto alguém parado ali. Olhei novamente para Susana. Ela continuava preparando as coisas.
Então falei: “Tinha um homem em pé ali. Susana não demonstrou susto. Ela apenas perguntou do lado da mangueira?” A pergunta dela me pegou de surpresa. Olhei novamente para fora e respondi: “Sim, bem ali.” Foi então que ela disse com uma naturalidade que me deixou ainda mais confuso. Ele sempre aparece ali.
Fiquei olhando para ela. Por alguns segundos, nem soube o que responder. Na minha cabeça, aquela frase não fazia sentido. Como assim? Susana continuava tranquila. A reação dela era completamente diferente da minha. Eu estava tentando entender quem era aquele homem, como ele tinha entrado e para onde tinha ido tão rapidamente.
Ela, por outro lado, falava como se aquilo fosse uma coisa conhecida. Foi então que Susana me perguntou como era o homem que eu tinha visto. Parei um pouco para lembrar a imagem. ainda estava muito clara na minha cabeça, porque havia acontecido segundos antes. Comecei a descrevê-lo. Falei das características que tinha conseguido perceber naquele breve momento em que olhei através do vitrô.
Enquanto eu descrevia, Susana prestava atenção. Eu ainda tentava organizar a cena na minha cabeça. O homem estava lá. Eu tinha olhado para ele. Depois desviei os olhos por apenas um instante para olhar para Susana. Quando voltei a olhar, ele já não estava mais. Continuei descrevendo o que lembrava. Então aconteceu uma coisa que me deixou realmente chocado.
Antes que eu terminasse, Susana começou a completar a descrição. Ela falou das roupas, detalhes que eu ainda não tinha mencionado. Olhei para ela sem saber o que dizer. Era justamente daquele jeito. As roupas que ela descreveu eram as mesmas que eu havia acabado de ver naquele homem. Naquele momento parei de falar.
A cerveja estava ali na minha frente. Os petiscos continuavam sendo preparados e a cozinha permanecia exatamente como estava minutos antes. A vontade de continuar ali tinha acabado. Eu sempre tive medo dessas coisas. Espírito, fantasma, aparição. Não importava o nome, era um assunto que me assustava.
Eu podia até ouvir alguém contando uma história, mas viver uma situação daquelas era completamente diferente. Então falei para Susana: “Eu vou embora”. Ela olhou para mim, provavelmente percebendo que eu estava falando sério. “Sério mesmo que você quer ir embora por causa disso?” Quero. Eu não estava tentando bancar o corajoso.
Não tinha vergonha nenhuma de admitir que estava assustado. Só queria sair daquela casa. Foi então que Susana falou uma coisa que eu preferia não ter ouvido. E se eu te falar que tu está fugindo daqui por causa desse homem? E na verdade na tua casa também tem? Na mesma hora olhei para ela. Como assim? na minha casa. Aquilo conseguiu ser pior do que tudo que eu tinha ouvido até aquele momento.
Susana respondeu: “Sim, meu filho falou que várias vezes vê alguém lá”. Quando ela disse isso, lembrei imediatamente de Renato. Lembrei daquela tarde depois do almoço. Ele estava no quarto assistindo televisão e de repente apareceu assustado, dizendo para a mãe que queria ir embora. Na época eu não tinha entendido nada.
O que mais tinha me chamado a coida e atenção era justamente a reação de Susana. Ela parecia saber porque o filho queria sair da minha casa. Agora aquela situação voltava inteira à minha cabeça. Eu permaneci na casa dela depois disso, mas já não estava bem. A conversa podia continuar, a cerveja ainda estava ali, mas minha cabeça estava em outro lugar.
Eu morava sozinho. Essa era a parte que mais me incomodava. Até então, minha casa era simplesmente minha casa. Era o lugar para onde eu voltava, fechava a porta e ficava tranquilo. Eu conhecia cada cômodo, cada barulho normal, cada canto. Depois daquela conversa, isso mudou para mim. Agora eu voltaria para casa carregando uma informação que não queria ter recebido.
Segundo Susana, Renato já tinha visto alguém lá várias vezes e eu nem sabia quem. Nos dias seguintes, comecei a ficar muito assustado dentro de casa, principalmente quando estava sozinho e tudo ficava silencioso. Qualquer barulho chamava minha atenção. Eu tentava continuar normalmente, mas era difícil esquecer o que Susana tinha dito.
Às vezes, eu estava sentado e me pegava, olhando para algum canto da casa sem motivo. escutava alguma coisa em outro cômodo. Demorava alguns segundos antes de ir verificar. Minha própria casa começou a me causar medo. Aos poucos também comecei a me afastar de Suzana. Na minha cabeça, aquelas coisas estavam ligadas a ela.
Eu não tinha nenhuma explicação melhor. Antes de conhecê-la, eu não me lembrava de passar por situações daquele tipo. Depois vieram Renato saindo assustado do quarto, o homem que via ao lado da mangueira, e, por fim, a revelação de que o filho dela dizia enxergar alguém dentro da minha casa. Para mim, era ela que trazia aquelas coisas.
Não sei explicar de outra maneira o que eu pensava naquela época. Eu tinha 25 anos, estava assustado e queria distância de qualquer coisa que pudesse aumentar aquele medo. Com o tempo, acabamos ficando mais juntos. Mesmo assim, aquilo que Susana havia me contado continuava na minha cabeça. Um dia eu estava sozinho em casa, estava sentado na sala.
Era um momento comum, sem nada acontecendo. Eu já não estava mais com Susana e tentava seguir minha vida normalmente. Então, ouvi um barulho vindo da cozinha. Era um som metálico. Prestei atenção. Parecia uma tampa de panela. Debaixo da pia havia uma prateleira onde eu guardava algumas panelas e tampas. Pelo som, tive a impressão de que uma delas tinha caído.
Logo depois veio aquele barulho característico de uma tampa no chão. Ela não simplesmente cai e fica parada, dependendo da maneira como bate, continua se movimentando por alguns segundos, girando pela borda e fazendo aquele som que vai ficando cada vez mais rápido e baixo até parar. Foi exatamente o que ouvi.
A tampa estava trepidando. Naquele primeiro instante não achei nada demais. Uma tampa tinha caído. Levantei da sala e fui até a cozinha. Quando cheguei mais perto, vi a tampa no chão, ainda se movimentando. Fui em direção a ela para pegar. Eu esperava que parasse naturalmente, só que aconteceu o contrário.
Quanto mais eu me aproximava, mais estranho o movimento ficava. A tampa não estava perdendo força, de repente começou a girar mais rápido. Parei, fiquei olhando. A velocidade aumentou de uma maneira absurda. O barulho metálico ficou muito mais forte. A tampa batia no chão e girava com tanta força que eu não conseguia entender de onde vinha aquele movimento.
Não era mais aquele giro normal de uma tampa que acabou de cair. Ela parecia estar ganhando velocidade. Eu estava perto o suficiente para ver aquilo acontecendo diante de mim. Meu corpo reagiu antes mesmo que eu conseguisse pensar direito. Dei um passo para trás. Minha primeira vontade foi correr.
O medo que eu vinha sentindo nos últimos dias voltou de uma vez. Eu estava sozinho dentro da casa. Não havia ninguém na cozinha comigo. Fiquei olhando para aquela tampa, girando violentamente no chão, e pensei em sair dali. Então, de repente, ela parou. Não foi diminuindo aos poucos, simplesmente parou. O barulho acabou. A cozinha ficou em silêncio.
Eu continuei parado a alguns passos dela. Não fui imediatamente pegar a tampa. Fiquei apenas olhando. Ela estava imóvel no chão, como qualquer objeto comum. Mas segundos antes, eu tinha visto aquela mesma tampa girar com uma velocidade que para mim não fazia sentido. Olhei ao redor da cozinha, depois olhei novamente para a tampa.
Eu continuava sozinho e naquele momento, dentro da minha própria casa, lembrei exatamente das palavras que Susana tinha dito. E se eu te falar que na tua casa também tem? Em outro dia, eu estava novamente sozinho em casa. Eu estava na sala e até aquele momento tudo estava tranquilo. Depois do episódio da tampa da panela ampa, eu tinha ficado ainda mais atento aos barulhos e movimentos dentro de casa.
Por mais que tentasse não pensar naquilo, era difícil esquecer. Qualquer coisa diferente já fazia com que eu prestasse atenção. Na sala eu tinha um pequeno barzinho. Em cima dele ficavam algumas coisas que eu deixava ali havia bastante tempo, papéis, contas e outros documentos que iam se acumulando. Alguns estavam naquele mesmo lugar.
Havia dias, talvez semanas. Eu passava por eles todos os dias, nunca caíam. Naquele dia, enquanto eu estava na sala, aconteceu uma coisa muito estranha. De repente, entrou um vento muito forte. Foi rápido. A corrente de ar atravessou a sala com força suficiente para levantar os papéis que estavam em cima do barzinho.
As contas voaram e caíram pelo chão. Na mesma hora, eu me assustei, não pelo fato de alguns papéis terem caído, mas pela força daquele vento e pela maneira como ele apareceu. Olhei ao redor. O dia não estava ventando. Minha casa, inclusive não era um lugar onde costumava entrar vento daquele jeito. Mesmo em dias de vento lá fora, não era comum corrente de ar atravessar a sala com aquela força.
Por isso, aquilo me chamou tanto a atenção. Fiquei parado olhando os papéis espalhados. Se tivesse sido apenas aquele episódio, talvez eu tivesse juntado tudo e seguido normalmente. O problema é que eu já estava assustado com o que vinha acontecendo. Primeiro tinha sido Renato saindo do quarto querendo ir embora.
Depois, na casa de Susana, eu tinha visto aquele homem parado perto da mangueira. Em seguida, ela me contou que o filho dizia ver alguém dentro da minha casa. Depois veio a tampa da panela e agora aquele vento. Eu não conseguia mais olhar para cada situação separadamente. Na minha cabeça, uma coisa começava a se juntar com a outra.
Minha casa tinha deixado de ser um lugar onde eu conseguia relaxar completamente. Quando chegava, eu prestava atenção em tudo. A noite era ainda pior. O silêncio fazia qualquer pequeno ruído parecer maior. Um móvel instalando, alguma coisa na cozinha ou qualquer som vindo de outro cômodo já me deixava atento.
Eu morava sozinho, então não havia outra pessoa para chamar ou simplesmente perguntar. Você ouviu isso? Era só eu e isso tornava tudo mais difícil. Depois daquele vento na sala, senti que precisava conversar com alguém. Foi quando falei com um primo meu. Ele era evangélico. Contei para ele o que estava acontecendo na minha casa.
Não tentei aumentar nem diminuir nada. Falei das situações da maneira como eu tinha vivido. Meu primo me ouviu e disse que pediria para o pastor ir até minha casa fazer uma oração. Eu aceitei. Naquele momento, qualquer coisa que pudesse me devolver um pouco de tranquilidade já seria bem-vinda. Combinamos um dia. Quando chegou a data marcada, o pastor foi até minha casa.
Eu estava esperando por ele. Recebi os dois e expliquei novamente o que vinha acontecendo. Depois disso, o pastor começou a orar. Ele não ficou somente na sala, foi passando pela casa e fazendo suas orações. Eu acompanhei tudo. Enquanto ele orava, eu permanecia em silêncio. Eu não sabia exatamente o que esperar daquele momento.
Não sabia se sentiria alguma coisa diferente, se aconteceria alguma coisa ou se simplesmente terminaríamos a oração e pronto. Para mim, o mais importante era poder voltar a ficar dentro da minha própria casa, sem aquele medo constante. O pastor continuou orando pelos cômodos. Eu observava. Aquela era a mesma casa onde eu tinha vivido normalmente durante tanto tempo.
A mesma sala, a mesma cozinha, os mesmos móveis, o mesmo barzinho onde as contas tinham ficado durante dias até serem derrubadas por aquela corrente de ar. Nada tinha mudado fisicamente. Mesmo assim, para mim, a casa já não parecia a mesma desde que Susana tinha falado sobre o que Renato dizia enxergar ali.
Quando a oração terminou, esperei. O pastor ficou tranquilo. Então ele falou uma frase que eu lembro até hoje. Disse: “Pode ficar sossegado. O que estava aqui acabou de sair. Eu olhei para ele. Aquelas palavras me causaram uma sensação difícil de explicar. Por um lado, era exatamente o que eu queria ouvir, que poderia ficar tranquilo dentro da minha casa novamente.
Mas havia outra parte daquela frase que me atingiu. Ele tinha dito: “O que estava aqui?” Aquilo significava que para ele realmente havia alguma coisa naquela casa. Depois de passar tantos dias esperando que alguma coisa acontecesse, eu não conseguiria simplesmente esquecer tudo de uma hora para outra. Mesmo assim, as palavras do pastor me deram algum alívio.
Naquela noite, quando fiquei sozinho, tentei não procurar explicação para cada ruído. Eu só queria voltar à vida que tinha antes, sentar na minha sala, ir até a cozinha sem medo, dormir sem ficar imaginando se havia alguém em outro cômodo. Antes de ir embora, o pastor ainda me deu uma orientação. Ele falou para eu tomar cuidado com quem eu chamava para frequentar a minha casa.
não falou aquilo para me deixar com mais medo. Apenas disse que eu deveria ter mais cuidado com as pessoas que entravam no meu ambiente e que nem todo mundo precisava ter acesso à minha casa e à minha intimidade. Eu ouvi e guardei aquilo comigo. Depois de tudo que tinha acontecido, não queria mais passar por situações parecidas.
Eu só queria voltar a ter paz dentro da minha própria casa. E foi exatamente o que aconteceu depois daquela visita do pastor e das orações que ele fez em todos os cômodos, nunca mais aconteceu nada estranho na minha casa. Nunca mais vi nada. Nunca mais aconteceu algo parecido com aquela tampa de panela. Também nunca mais senti aquela corrente de ar inexplicável dentro da sala ou presenciei qualquer outra situação que me causasse aquele mesmo medo.
A casa simplesmente voltou ao normal. Com o passar dos dias, eu também fui recuperando minha tranquilidade. No começo, ainda ficava atento. Se escutava algum barulho durante a noite, automaticamente parava para ouvir. Era difícil esquecer tudo de uma hora para outra, mas o tempo foi passando e nada mais aconteceu.
Aos poucos, parei de esperar que alguma coisa surgisse em um canto da casa. Parei de olhar para os cômodos com receio e voltei a enxergar aquele lugar como sempre tinha enxergado antes, a minha casa. E é assim que termina essa parte da minha história. Tudo que contei aqui foram acontecimentos reais que vivi naquela época.
Eu sei que cada pessoa tem sua própria maneira de enxergar essas coisas. Algumas acreditam, outras procuram uma explicação diferente. E eu respeito isso. Eu não estou contando essa história para convencer ninguém. Estou apenas contando aquilo que aconteceu comigo e a maneira como vivi cada um desses momentos.
Quero agradecer de coração a todos que permaneceram comigo até aqui e ouviram a minha história até o final. Agora eu quero saber de vocês. Vocês acreditam nessa história? Eu acredito. Afinal, fui eu quem viveu tudo isso. Que todos vocês tenham muita luz, muita paz no coração e que coisas boas estejam sempre dentro da casa e da vida de cada um. Fiquem com Deus.