TRABALHEI 6 ANOS EM UM CEMITÉRIO E RIA DE TODAS AS HISTÓRIAS… ATÉ O ENTERRO DE UMA JOVEM EM 1988
Trabalhei como coveiro no cemitério municipal de Porto Velho durante 6 anos. Durante todo este tempo, ride de todas as histórias que os meus colegas contavam sobre aquele lugar. Para mim, tudo tinha uma explicação. Mas em 1991, assisti ao enterro de uma jovem de nome Cristiane Almeida Rocha. Enquanto fechava aquele túmulo, ouvi a mãe dela sussurrar uma frase que nunca mais me saiu da cabeça.
E foi nesse instante que senti pela primeira vez em se anos de profissão algo que nunca consegui explicar. O meu nome é Aparecido Alves da Silva. Tenho 69 anos e esta é a a minha história em minutos. O clima daquele dia era pesado, como costuma ser quando quem morre é gente nova. tinha choro contido, olhares baixos, aquele silêncio de quem não sabe bem o que dizer ao outro.
Eu já tinha visto que tantas vezes ao longo da minha profissão que já nem prestava tanta atenção assim. Era apenas mais um dia de serviço para mim, igual a tantos outros que eu já tinha feito nesse mesmo lugar. O padre conduziu a cerimónia devagar, com aquelas palavras do costume, de conforto. Eu fiquei a observar de longe, da forma que sempre ficava, ao lado de outro funcionário que trabalhava comigo havia muitos anos naquele cemitério.
A gente ficava sempre quieto nessa parte, apenas aguardando o momento certo de entrar em ação, sem perturbar a cerimónia dos outros. Quando chegou a hora de descer o caixão, eu me aproximei, segurei a minha ponta da corda com cuidado, olhando para o chão, pensando só em fazer aquilo bem, sem erro e sem pressas.
Foi mesmo nesse instante, quando o caixão começou a descer lentamente dentro da cova, que a mãe da rapariga soltou um grito de dor. Não foi um grito de palavras claras, foi mais um desespero puro que dela saiu sem controlo nenhum, repetindo: “Minha filha, minha filha”, várias vezes seguidas, como se aqueles palavras pudessem trazer a sua filha de volta para cima da terra, para perto dela de novo.
O padre e os familiares apressaram-se a amparar ela, que quase caiu de joelhos ali mesmo perto da cova aberta. Seguraram-na pelos braços, tentaram acalmar da maneira que dava. A cerimónia continuou depois daquilo, mas de uma forma mais contida, mais quieto. Aos poucos, a família foi-se despedindo-se e saindo do cemitério. Cada um à sua maneira, alguns chorando baixinho, outros só andando calados, olhando para o chão.
A sua mãe ficou um instante a mais sozinha, parada na frente daquela cova que ainda estava aberta, como se não conseguisse se afastar dali de maneira nenhuma. Antes de ir embora, ela baixou-se bem perto da terra e disse qualquer coisa baixinho, quase só para ela própria. Eu não devia ter escutado aquilo, mas escutei porque estava perto, a arrumar as coisas que ia precisar para fechar a cova.
Ela disse: “Quem é que te fez isto, minha filha?” “Quem?” repetindo baixinho num tom que misturava dor com raiva, fiquei parado por um instante, sem saber o que fazer com aquilo que tinha acabado de ouvir vindo dela. Foi ali, ouvindo aquela pergunta, que senti pela primeira vez naquele cemitério um arrepio diferente de tudo que já tinha sentido antes.
Foi um frio que passou rapidamente pelo corpo inteiro, sem eu perceber bem de onde tinha vindo aquilo, nem por tinha vindo precisamente ali. Fiquei parado com a pá na mão, sem me conseguir mexer direito durante alguns segundos, como se o meu corpo tivesse travado sozinho. Nunca tinha passado por nada parecido e não sabia nem como reagir correctamente àquilo.
Fiquei ali só a olhar para o chão, esperando aquela sensação estranha ir-se embora do maneira que tinha vindo. O outro funcionário que trabalhava comigo notou a minha cara mudar na hora. Ele olhou-me sério, com aquele jeito de quem também tinha sentido alguma coisa parecida, mas nenhum dos dois disse nada naquele instante.
Só trocamos aquele olhar rápido e voltamos a fazer o que precisava de ser feito ali, cada um do seu jeito, sem comentar nada entre nós. A mãe levantou-se devagar e foi-se embora, amparada por um familiar que veio buscar ela. Assim, acabei de fechar a cova já sozinho, porque o outro funcionário tinha ido resolver alguma coisa noutra parte.
E foi aí que reparei numa coisa estranha. O local estava mais quieto do que o normal, um silêncio diferente de tudo o que eu já tinha reparado antes ali dentro. Não havia vento, não havia pássaro a cantar, nada. Era um silêncio pesado, diferente de qualquer outro enterro que eu tinha feito naquele cemitério. Tentei explicar aquilo do forma mais simples que consegui pensar.
Pensei que era por causa da cena pesada que eu acabara de ver, do grito daquela mãe ainda a ecoar dentro da a minha cabeça sem parar. Mas por dentro eu sabia que nunca me tinha sentido daquela maneira depois de nenhum outro serviço. Quando o outro funcionário voltou, comentou comigo sério que aquele túmulo ali não ia ser dos tranquilos.
Eu ri-me disse aquilo e disse que era só a imaginação dele, que o cemitério mexe com a cabeça de qualquer pessoa e que nós não devia dar ouvidos a este tipo de coisa. depois de tantos anos naquele serviço. Mas por dentro, desta vez eu mesmo não tinha tanta certeza do que estava a falar para ele. Fui embora daquele cemitério nesse dia, sem conseguir esquecer a frase daquela mãe, nem o arrepio que senti quando a ouvi falar.
Aquele foi o primeiro dia em que levei algo daquele lugar para casa comigo dentro da cabeça, sem conseguir tirar. Eu ainda não sabia, mas aquele funeral da Cristiane Almeida Rocha, 29 anos, ia mudar uma certeza que eu carregava desde que comecei naquele trabalho. No dia seguinte ao enterro, Cheguei ao cemitério no horário de sempre e fui logo para a sala dos funcionários, onde nos costumávamos se juntar antes de iniciar o serviço do dia.
Lá dentro encontrei o vigia da noite, que já estava a terminar o turno dele e à espera para ir embora, descansar depois de uma noite inteira de trabalho. Trocamos um cumprimento rápido, da maneira habitual, enquanto eu deixava a minha mala perto da porta. Ele estava com uma cara um pouco diferente nessa manhã, meio sem graça, tomando aquele café que bebia sempre antes de sair para casa depois do turno.
Logo que me viu, comentou que tinha tido uma estranha madrugada perto do túmulo novo, o mesmo que tinha fechado no dia anterior. Percebi que ele estava mais sossegado que o costume, sem o jeito brincalhão de sempre. Ele jurou ter ouviu um som estranho vindo daquela direção lá para as 3 da madrugada. um som que não sabia explicar bem o que era.
Contou que foi lá verificar com a lanterna na mão, sozinho no meio da escuridão, mas não encontrou absolutamente nada fora do lugar e nem sinal de ninguém por perto. Eu disse que devia era dormir mais cedo antes do de serviço, que cemitério de madrugada mexe demais com a cabeça de quem fica sozinho ali dentro tantas horas seguidas, todo santo dia.
por dentro, sem admitir aquilo para ninguém. Eu sabia que a sensação do dia anterior ainda não tinha passado de verdade dentro de mim. Aquele arrepio que senti no enterro continuava meio colado a mim, mesmo eu tentando fingir à frente dos outros que já tinha esquecido do assunto e seguido a vida normal.
Segui o trabalho desse dia, fazendo os serviços que precisavam de ser feitos. Durante a tarde, acabei por ir fazer uma reparação simples num túmulo que ficava muito perto do da Cristiane. O sol estava forte e o cemitério tinha poucos visitantes àquela hora do dia. Enquanto eu trabalhava ali, reparei numa senhora que visitava um túmulo que se encontrava mais um pouco adiante.
Ela estava a arrumar flores devagar e de repente, sem qualquer aviso, ela cambaleou para trás e caiu desmaiada ali mesmo no chão, entre os jazigos daquela zona do cemitério. Eu larguei tudo o que estava a fazer na hora e corri para a ajudar. Chamei o nome dela algumas vezes, mas ela não respondia, o que me deixou ainda mais preocupado naquele momento.
Quando ela voltou a si, ainda meio desnorteada, levantei-a com cuidado e assentei num banco de pedra que havia ali perto e fui a correr buscar a minha garrafa de água. Ainda meio desnorteada, bebeu um pouco da água e ficou a olhar para o chão durante um tempo antes de conseguir falar direito comigo.
Disse, com a voz ainda fraca, que aquilo nunca tinha acontecido com ela antes. Contou que momentos antes de desmaiar, tinha escutado um sussurro muito perto do ouvido dela, sem conseguir saber de onde vinha aquilo, nem o que dizia direito. falou que sentiu uma pressão forte no peito logo a seguir, juntamente com uma falta de ar repentina.
E foi aí que tudo ficou negro, sem tempo nem de se apoiar em algum lugar por perto naquele instante. Fiquei escutando aquele relato em silêncio, sem saber direito o que responder por ela naquele momento tão delicado, ainda a pensar em tudo o que ela tinha acabado de contar sobre o que sentiu.
Foi então que, sem querer, olhei para o lado e vi que o túmulo da Cristiane ficava mesmo ali perto de onde estávamos, a poucos passos daquele banco de pedra onde ela se sentava. Nessa altura senti de novo aquele arrepio que já tinha sentido no dia do funeral, só que desta vez bem mais forte do que da primeira vez.
Foi uma sensação que subiu pelo corpo inteiro, diferente do frio rápido de antes, mais pesada, como se demorasse mais tempo a passar de vez. Fiquei ali mais um pouco até garantir que ela estava suficientemente bem para voltar sozinha para casa dela. Mesmo ainda meio preocupado com o estado dela depois de tudo aquilo. Ela agradeceu bastante, ainda meio abalada com o que tinha passado, e foi-se embora.
O resto da tarde decorreu de forma tranquila, apesar de eu não conseguir tirar aquela cena da cabeça enquanto continuava a trabalhar nas outras zonas do cemitério, tentando manter a rotina normal. Já perto das 18 horas, quase na hora de fechar os portões para o público, um colega meu entrou a correr na sala dos funcionários com uma cara de assustado que eu nunca tinha visto nele.
Ele contou que tinha visto uma jovem parada em frente a um túmulo. Foi lá avisar que o horário estava a terminar sem imaginar o que ia acabar por acontecer. Quando ele chegou perto de onde tinha visto a rapariga, não não havia mais ninguém naquele lugar. nem sinal de que alguém tivesse passado por ali.
Contou aquilo com a voz meio embargada, tentando ainda perceber o que tinha acontecido com os próprios olhos dele minutos antes, sem saber bem o que pensar sobre aquilo. Eu ainda tentei troçar um pouco e perguntei-lhe meio de brincadeira em frente de qual túmulo ele tinha visto a rapariga parada naquele fim de tarde. Ele respondeu sem pensar muito que era o túmulo da rapariga que tinha enterrado no dia anterior.

Ao ouvir aquilo, senti a perna tremer de um jeito que nunca tinha sentido antes. Foi ali, naquele instante, parado perto da sala dos funcionários, que pela primeira vez senti que alguma coisa de verdade estava a acontecer comigo e que aquilo não era imaginação de ninguém. No dia seguinte, voltei ao trabalho normal, fazendo os serviços que precisavam de ser feitos no cemitério, mas notei que sem nem perceber bem, estava a evitar passar perto da campa da Cristiane, dando uma volta maior sempre que precisava de ir de um lado para o outro,
daquela zona do cemitério. manhã passou tranquila, sem nada fora do comum acontecer, e quase consegui esquecer um pouco do que tinha vivido no dia anterior. Só que perto do final da tarde, recebi um serviço que precisava de ser feito precisamente naquela zona, um reparo simples numa lápide que tinha rachado, coisa comum naquele tipo de solo húmido.
Não havia maneira de fugir daquilo, era parte do meu trabalho e precisava de ir até lá. resolver. No caminho, fui tentando convencer-me de que tudo aquilo que eu tinha sentido era só coisa da a minha cabeça, imaginação depois de ouvir tanta história esquisita naquele cemitério. Quanto mais me aproximava daquela zona, mais sentia o ar ficando mais pesado à minha volta, sem nenhuma explicação que justificasse aquilo que eu sentia naquele momento.
Não fazia demasiado calor naquele fim de tarde, nem sequer tinha uma nuvem carregada no céu. Mas ainda assim o ar parecia diferente ali perto, difícil até de respirar direito naquele troço do cemitério, coisa que nunca tinha acontecido antes. Cheguei perto da campa da Cristiane e Reparei que as flores ali deixadas no dia do funeral já estavam quase todas mortas, murchas por completo, mesmo fazendo apenas dois dias.
desde que tinham sido colocadas naquele local. Achei estranho porque flor daquele tipo costumava durar muito mais tempo. Tentei não dar tanta importância àquele pormenor e concentrar-me no trabalho que tinha ido fazer ali. Peguei nas minhas ferramentas e comecei a trabalhar, tentando ignorar qualquer sensação estranha.
O barulho do martelo a bater na pedra ajudava um pouco a distrair a cabeça, mas mesmo assim era como se uma parte de mim continuasse alerta, esperando alguma coisa acontecer a qualquer momento ali perto de mim. Foi então que senti como se alguém estivesse bem perto de mim, observando cada movimento que eu fazia. Não era um arrepio, nem um frio como antes.
Era mais como um peso vindo de algum lugar que não conseguia identificar corretamente, uma presença que eu não sabia explicar de todo. Aquela sensação foi ficando mais forte à medida que os minutos passavam, como se fosse chegando cada vez mais perto. Eu tentei continuar, mas a minha concentração já não era a mesma de antes daquela tudo começar a acontecer.
Parei o que estava a fazer e olhei em redor com cuidado, tentando encontrar alguém que pudesse estar ali perto, algum visitante ou outro funcionário do cemitério a trabalhar naquela área. Mas não tinha ninguém a essa hora do dia. O lugar estava completamente vazio à minha volta. Só eu e aqueles túmulos em silêncio total, sem qualquer ruído ao longe.
Mesmo confirmando que estava sozinho, a sensação de estar a ser observado não passava de maneira nenhuma. continuava ali colada a mim, mesmo depois de eu olhar em todas as direções possíveis, várias vezes seguidas naquele lugar vazio. Voltei a tentar trabalhar, mas as minhas mãos começavam a tremer. Fiquei ali parado, respirando fundo, tentando compreender de onde podia vir aquilo que eu estava a sentir tão de perto e tão forte.
Não havia barulho de bicho nenhum por perto, nem folha a cair, nada que explicasse aquele peso que eu sentia colado a mim naquele fim de tarde, tão quieto e tão vazio de gente, sem ninguém por perto para partilhar aquilo. De repente, um vento forte e repentino passou mesmo por cima do túmulo da Cristiana. Larguei logo a ferramenta, sem sequer pensar direito no que estava fazendo, e saí a andar depressa para longe daquele lugar, sem conseguir esconder o susto que tinha apanhado com aquilo tudo que me tinha acontecido.
O meu coração estava disparado e eu só conseguia pensar em sair dali o mais depressa possível. Cheguei até onde estava um colega que trabalhava comigo naquele dia, ainda com a respiração alterada e as pernas meio bambas. Ele perguntou o que me tinha acontecido e eu não consegui negar, nem inventar desculpa nenhuma para disfarçar o que tinha sentido.
Trouxe-me um copo de água e ficou à espera que eu me acalmasse um pouco antes de continuar a perguntar. Eu levei alguns minutos até conseguir juntar as palavras direito para contar tudo o que tinha passado naquela zona do cemitério minutos antes disso. Contei-lhe tudo o que tinha acontecido. Ele escutou com atenção, sem se rir nem duvidar de nada do que eu estava a falar naquele momento, o que já era bem diferente do forma como eu próprio costumava tratar este tipo de assunto com os colegas de trabalho ao longo dos anos.
Foi ali contando aquilo ao meu colega que pela primeira vez admiti em voz alta que talvez os outros tivessem sempre razão sobre aquelas histórias de que eu tanto troçava ao longo dos anos naquele cemitério. Alguma coisa estava a acontecer de verdade ali e eu já não conseguia mais fingir para mim próprio que não estava a sentir nada.
E antes de tentar explicar qualquer coisa, ele comentou com calma que eu nunca tinha acreditado nessas histórias, porque nunca me tinha preocupado verdadeiramente com nenhuma delas antes. Disse que era fácil rir de uma coisa que a gente nunca sentiu na sua própria pele e que agora talvez eu compreendesse melhor o que os outros sempre me tentaram explicar.
Aquilo apanhou-me de um jeito diferente, porque era verdade. Eu sempre tive ouvido aquelas histórias de longe, sem nunca ter passado por nada parecido antes. Fiquei quieto, deixando-o continuar a explicação sem interromper. E com calma explicou que na visão dele, algumas pessoas não conseguem descansar depois de morrerem, porque ficam presas a alguma coisa que aconteceu, uma injustiça, uma culpa, algo que nunca foi resolvido enquanto estavam vivas.
Falou aquilo com a tranquilidade de quem já tinha pensado bastante sobre o assunto ao longo de tantos anos de trabalho ali dentro. Continuou dizendo que este tipo de coisas não acontece. com toda a gente que morre, só em casos específicos, quando sobra algo pendente que a pessoa não conseguiu resolver antes de partir dessa vida para outra.
Disse que quando isso acontece, às vezes estas pessoas aparecem de algum jeito para tentar consolar quem ficou ou deixar algum tipo de recado pendente, nunca para fazer mal a ninguém que estivesse por perto delas. falou aquilo olhando-me sério, como se quisesse deixar bem claro que não era motivo para medo, e sim para o respeito da verdade e cuidado.
Fiquei a pensar naquelas palavras durante algum tempo, tentando entender direito o que ele estava a querer dizer com tudo aquilo que tinha falado. Perguntei ainda meio inseguro se ele pensava que era isso mesmo que estava a acontecer comigo, se era isso que eu vinha sentindo desde o enterro daquela jovem.
A minha voz saiu meio fraca ao fazer aquela pergunta, porque parte de mim ainda tinha medo da resposta que ele podia dar. Então ele respondeu que não não tinha a certeza absoluta de nada, mas que os sinais que estava a descrever pareciam bastante parecidos com este tipo de situação que já tinha visto acontecer outras vezes naquele cemitério.
O colega completou, dizendo que não são todas as pessoas que conseguem sentir este tipo de coisas, mesmo trabalhando num local como aquele, disse que talvez eu tivesse sido escolhido de alguma forma que ele próprio não sabia explicar bem, talvez para ter mais respeito e passar a acreditar de verdade naquilo tudo de que sempre debochei.
Aquelas palavras dele ficaram ecoando na minha cabeça depois de ele acabou de falar comigo. Fiquei quieto, sem saber bem o que responder, processando tudo aquilo que tinha acabado de me contar sobre almas presas e sinais pendentes que ficam neste mundo depois da morte. Por dentro, sentia que aquilo fazia sentido com tudo o que eu tinha vivido nos últimos dias, mesmo sem conseguir explicar bem o porquê daquela sensação forte de que as coisas estavam a encaixar aos poucos, uma por uma.
Levantei-me lentamente da cadeira e agradeci a conversa. Saí dali ainda um pouco abalado e fui fazer a ronda antes de ir embora, verificando se ainda tinha algum visitante atrasado antes de fechar os portões do cemitério pro público visitante daquele final de tarde. Percebi que havia alguém parado bem perto do túmulo de Cristiane.
Me aproximei-me lentamente e foi então que reconheci a mulher ali parada à frente da lápide. Era a mãe dela, a mesma senhora que eu tinha visto no dia do enterro. Estava parada, quieta, olhando para lápide. Aproximei-me com respeito e tendo o cuidado de não invadir aquele momento, caminhando devagar e fazendo barulho de propósito para ela aperceber-se da minha presença, sem se assustar de repente com aquilo.
Quando ela finalmente reparou que eu estava ali, dei os pêames e disse-lhes que fui eu quem tratou do enterro da filha dela naquele dia tão difícil para a família. Ela olhou para mim com atenção, como se estivesse tentando lembrar-me do meu rosto. Então – perguntei com cuidado, tentando não parecer intrometido sobre o que tinha acontecido com a jovem.
A mãe ficou em silêncio por um instante, como se estivesse a decidir se me ia contar ou não aquela história para um estranho. Então, ela contou que o corpo de Cristiane tinha sido encontrado no rio que cortava a cidade e que até àquele momento o culpado ainda não tinha sido encontrado pela polícia local encarregada do caso.
falou aquilo com a voz embargada, mas firme, como quem já tinha repetido aquela informação várias vezes a outras pessoas antes de mim. Fiquei calado a ouvir aquilo, tentando imaginar o tamanho da dor de perder uma filha daquele jeito tão brusco e cruel, sem sequer ter uma resposta certa sobre o que realmente lhe tinha acontecido.
Ela continuou a olhar para lápide enquanto falava, como se estivesse conversando também com a própria filha ali presente. comentei sem pensar direito antes de falar que devia ter sido um acidente bastante forte, tentando de alguma forma de a consolar com aquela explicação mais simples e direta possível naquele momento.
A mãe abanou a cabeça lentamente, com uma expressão séria no rosto, e disse firme, olhando fundo nos meus olhos: “Não acredito que foi um acidente.” Fiquei em silêncio depois daquela frase, sem saber bem o que responder, e ela continuou a falar, agora com mais pormenores, sobre o que ela própria desconfiava daquela morte estranha e mal explicada.
contou que sempre desconfiou do marido da filha, um rapaz que era muito ciumento com a Cristiane desde o início do namoro deles dois, anos antes daquilo tudo. Disse que os dois tinham brigado feio dias antes da morte, uma briga tão grave que a filha chegou a passar uns dias em casa da mãe, mas depois acabou por voltar para morar com o esposo de novo.
A voz dela tremia um pouco ao contar aquela parte da história para mim, naquele momento difícil. Ela parou de falar por um instante, respirando fundo, como se aquela lembrança ainda do tanto como no dia em que soube da morte da filha desta para sempre e sem retorno. Fiquei quieto, esperando que ela retome o assunto no próprio tempo dela, sem pressionar nada com perguntas fora de horas naquele momento.
Revelou que a polícia estava investigando o esposo desde o início daquele caso complicado, mas até àquele momento não tinha conseguido encontrar provas concretas que mostrassem que foi ele o responsável pela morte da filha. Mesmo sem qualquer prova, ela disse que tinha a certeza absoluta de que aquele rapaz sabia alguma coisa sobre tudo o que tinha acontecido.
Fiquei escutando tudo aquilo em silêncio, sentindo o peso de cada palavra encaixar direitinho com tudo o que tinha vivido nos últimos dias naquele cemitério. Lembrei-me também do que o meu colega me tinha explicado sobre almas presas por injustiça. Sem saber explicar bem porque estava fazendo aquilo, contei-lhe com cuidado que eu próprio tinha sentido algo diferente perto daquele túmulo desde o dia do funeral da sua filha em diante, sem parar.
A mãe olhou para mim com uma expressão que misturava surpresa e algum tipo de entendimento silencioso e calmo naquele instante. Ela não pareceu assustada, nem duvidou de nada do que eu tinha acabado de contar. Pelo contrário, parecia até aliviada por ouvir aquilo, como se já esperasse alguma coisa parecida.
Ela ficou em silêncio durante um instante depois de ouvir o que tinha contado, olhando para mim como se estivesse a pesar cada palavra que eu tinha falado com ela naquele momento tão sério e importante. Depois, sem dizer mais nada, baixou-se devagar e se ajoelhou-se diante da lápide da filha com todo o cuidado, e ficou ali a rezar baixinho durante algum tempo, com as mãos juntas e a cabeça baixa, num silêncio que respeitei sem interromper qualquer segundo daquele momento tão íntimo entre ela e a filha.
Quando terminou, se levantou-se lentamente, agradeceu por eu ter parou para conversar e despediu-se, indo embora lentamente dali. Fiquei parado ali sozinho, olhando-a afastar-se pelo caminho principal do cemitério, ainda processando tudo o que tinha acabado de acontecer naquela conversa demasiado forte para mim.
O sol já estava baixando no horizonte, pintando o céu de laranja. Depois desse dia, nunca mais mais duvidei de nenhuma história contada pelos meus colegas de trabalho ou de qualquer pessoa sobre o sobrenatural. Passei a rezar pela alma de Cristiane sempre que passava perto do túmulo dela, pedindo-lhe que encontrasse a paz e que a justiça finalmente aparecesse para o caso dela algum dia.
Hoje, com 69 anos de idade, acredito que o mundo espiritual existe. Aprendi que não se pode duvidar de tudo o que não entendemos, só respeitar aquilo que está para além da nossa compreensão humana. Se também já duvidou de histórias assim, mas hoje sente que talvez exista algo que nós não consegue explicar, deixe um eu acredito aqui nos comentários.
E se você já viveu alguma experiência que nunca conseguiu perceber, conta aqui em baixo. Quero muito ler a sua história. Que Deus vos abençoe e proteja a todos. Que as pessoas que ainda esperam por justiça encontrem a paz. E que a gente nunca se esqueça de respeitar aquilo que não consegue compreender.