TAXISTA RELATA ENCONTRO COM PESSOAS QUE CONTINUAVAM VAGANDO MESMO APÓS A MORTE
O meu nome é Antônio. Durante mais de 30 anos, trabalhei como taxista. Hoje já estou reformado, mas Passei uma boa parte da minha vida atrás de um volante. Trabalhei de dia, de noite, de madrugada, ao fim de semana, feriado, chuva. Quando aparecia a corrida, eu ia. Conheci muita gente nesse tempo. Gente boa, gente complicada, pessoas embriagadas a sair de festas, trabalhadores que regressavam a casa, famílias que se dirigiam para a rodoviária, mulheres a entrar em trabalho de parto, pessoas a chorar no banco de trás e pessoas
que passava a viagem toda a conversar como se me conhecesse há anos. Quem trabalha como taxista durante muito tempo acaba por carregar histórias que nem sequer são suas. Mas há três histórias que são minhas. Três acontecimentos que presenciei e que até hoje não encontrei uma explicação. Conheci este canal de YouTube há algum tempo e comecei a acompanhar os relatos que vocês publicam.
Alguns fizeram-me lembrar coisas que passei muitos anos tentando deixar no passado. Resolvi então escrever porque estou a ficar velho e não quero levar estas histórias comigo sem nunca ter contado a ninguém além de algumas pessoas da família. Não estou a querer convencer ninguém de nada. Quem quiser acreditar, acredita.
Quem achar que existe alguma explicação, tudo bem. Eu próprio procurei explicações durante muito tempo. Só posso contar aquilo que vi. E vou começar por uma noite que aconteceu quando eu ainda trabalhava como taxista. Naquela época, conduzir de madrugada era normal para mim. Eu conhecia praticamente todas as ruas da cidade e também fazia corridas para bairros mais afastados e propriedades da zona rural.
Hoje as pessoas têm telemóvel, localização, mapa no ecrã. Naquele tempo não existia nada disto. A gente precisava de conhecer o caminho. Quando o passageiro dava um endereço fora da cidade, normalmente explicava utilizando algum ponto de referência. Passa à ponte e vira depois da igreja. Segue até à venda e apanha a estrada da esquerda.
Depois da porteira há uma casa com uma árvore grande à frente. E como já trabalhava havia bastante tempo, conhecia quase todos estes caminhos. Nessa noite eu tinha trabalhado muitas horas. Já passava da meia-noite quando deixei um passageiro numa região mais afastada. Depois da corrida, decidi voltar para a cidade.
O caminho de regresso passava por uma estrada de terra batida. Era um troço comprido, rodeado por propriedades rurais com poucas casas. Durante o dia não havia nada de mais. A noite, porém, era completamente diferente. Não havia iluminação. A única luz vinha dos faróis do automóvel. Eu conduzia devagar porque a estrada tinha alguns buracos e de vez em quando aparecia algum animal atravessando.
Também estava cansado. O meu plano era chegar ao ponto, esperar mais um pouco e, se não aparecesse ninguém, encerrar o serviço. Eu devia estar há uns 15 minutos naquela estrada quando vi alguma coisa adiante. Começo, pensei que fosse uma placa ou talvez algum pedaço de pano preso numa cerca. Diminui um pouco a velocidade.
À medida que o carro se aproximava, Percebi que era uma pessoa. Estava alguém parado na berma da estrada. Aquilo chamou-me imediatamente a atenção porque estávamos no meio da zona rural. Era madrugada e [música] não havia nenhuma casa próxima. Quando me aproximei mais, Percebi que era uma menina. Ela estava sozinha.
Passei devagar por ela e olhei pelo retrovisor. Não sei dizer exatamente a idade, mas parecia muito jovem, talvez uns 12 ou 13 anos. O que mais me chamou a atenção foi a forma dela. A menina parecia desnorteada. Ela não estava a pedir boleia, não levantou o braço, não tentou chamar a minha atenção, [música] simplesmente estava ali a olhar para a estrada como se não soubesse para onde deveria ir.
Continuei alguns metros, mas não consegui ir embora. Eu tinha filhos e pensei logo no que faria se fosse uma filha minha sozinha numa estrada daquela maneira, àquela hora. Parei o carro, engrenei a marcha-atrás e voltei lentamente até onde ela estava. Baixei o vidro. Menina, ela olhou para mim. Está tudo bem? Ela não respondeu imediatamente.
Eu perguntei: “O que está a fazer aqui sozinha a esta hora?” Ela ficou olhando para mim durante alguns segundos. Depois respondeu: “Vou para [música] casa”. Olhei em redor. Não havia casa nenhuma por perto. “A sua casa fica aqui?” Ela apontou na direção da cidade. “Fica para lá?”, perguntei onde estavam os [música] pais dela.
A menina baixou a cabeça e não respondeu. Nessa altura, comecei a imaginar que talvez tivesse brigado com alguém ou saído escondido de casa. Podia ter acontecido qualquer coisa, mas deixá-la ali sozinha estava fora de questão. Quer que o leve? Ela voltou a levantar os olhos. Pode? Posso. Você diz-me onde mora.
Ela abriu a porta traseira e entrou. Esperei que fechasse a porta e voltei para estar para [música] estrada. Olhei pelo retrovisor. A menina estava sentada no banco de trás com as mãos juntas sobre o colo. Como chama? Ela disse-me o nome. Eu ouvi perfeitamente naquele momento. O estranho é que por algum motivo, hoje não me consigo lembrar dele.
Posso recordar a estrada, posso recordar o local onde ela estava. Consigo lembrar-me até da forma como ela me olhou. Mas o nome desapareceu completamente da minha memória. Continuei a conduzir. “E onde é que mora?”, explicou ela. Conhecia mais ou menos a região indicada. Não ficava exatamente dentro da cidade.
Precisávamos de seguir por aquela estrada durante algum tempo e depois entrar noutro caminho. Perguntei: “A sua família sabe que está voltando?” Ela respondeu apenas: “A minha mãe está em casa”. Achei melhor não fazer muitas perguntas. Talvez estivesse assustada comigo também. Afinal, eu era um homem desconhecido, oferecendo boleia a meio da madrugada.
Continuei a conduzir. Alguns minutos depois, voltei a olhar pelo retrovisor. Ela estava a olhar pela janela. Não parecia mais perdida. Na verdade, parecia muito tranquila. Quando chegamos a uma bifurcação, perguntei: “É por aqui?” Pela esquerda. Virei. A estrada ficou ainda mais estreita. Seguimos mais alguns minutos até que ela falou: “É aquela casa?” Vi uma casa simples, um pouco afastada da estrada.
Havia um pequeno portão em frente e um caminho que conduzia até à entrada. Encostei o táxi. “Chegámos.” Ela não disse nada. Olhei rapidamente para a casa. Estava tudo escuro. Pensei que talvez a mãe estivesse a dormir. Como aquela menina era muito nova e já era de madrugada, não achei correto simplesmente deixá-la no portão e ir embora. Desliguei o carro.
Vou chamar sua mãe. Abri a porta e desci. Caminhei até ao portão, entrei e fui em direção à casa. Quando cheguei à porta, bati. Nada. Esperei alguns segundos e bati novamente. Desta vez houve movimento lá dentro. Uma luz acendeu-se. Pouco depois a porta abriu-se. Era uma senhora. Ela olhou para mim assustada. Pois não.
Eu disse: “Desculpe incomodar a senhora a esta hora. Eu sou taxista. Encontrei uma menina sozinha na estrada e ela deu-me este endereço.” A expressão daquela mulher alterou-se. Ela ficou parada a olhar para mim, depois perguntou: “Que menina?” Eu virei na direção do automóvel. Ela está ali. Apontei para o táxi e foi nesse momento que Apercebi-me que o banco traseiro estava vazio.
Durante alguns segundos, fiquei olhando para o carro sem compreender. [música] A porta traseira estava fechada, o banco vazio. Ainda dei dois passos para a frente, como se talvez ela se tivesse abaixado ou passado para o outro lado sem que eu se apercebesse, mas não havia ninguém. Olhei para Está, para a estrada.
Também não vi movimento algum. A senhora continuava na porta à espera de uma explicação. Ela estava no carro, disse eu. Eu trouxe ela até aqui. A mulher semicerrou os olhos. Como era esta menina? A pergunta me deixou desconfortável. Descrevi como pude [música] a idade aproximada, o cabelo, o jeito dela, a roupa simples. A senhora levou a mão à boca.
Na altura pensei que talvez tivesse encontrou uma filha que tinha fugido de casa. A senhora conhece? Ela não respondeu de imediato. Ficou a olhar para mim de um jeito que nunca esqueci. Depois perguntou: “Onde é que a encontrou?” Expliquei o troço da estrada. Quando terminei, a mulher pareceu perder a força nas pernas, segurou na lateral da porta e respirou fundo.
Entre um pouco, eu disse que não precisava. Queria apenas ter a certeza de que a menina estava bem, mas insistiu. Entrei. A casa era simples. Havia poucos móveis e uma luz fraca acesa na sala. A mulher pediu-me que esperasse e entrou noutro cômodo. Fiquei parado perto da porta, ainda pensando que a menina poderia ter saído do carro e entrado pelo quintal sem que eu tivesse visto.
Pouco depois, a senhora voltou segurando uma fotografia. Ah, ela estendeu a foto para mim. Era ela. Olhei. O meu corpo inteiro gelou. Era a menina, não parecida. Era ela. O mesmo rosto, o mesmo cabelo. Até a expressão na fotografia tinha qualquer coisa daquele olhar que eu tinha visto pelo retrovisor. É ela respondi.
Foi esta menina que eu trouxe. A senhora baixou a cabeça. Eu perguntei: “Ela é sua filha?” A mulher confirmou. Depois veio uma frase que demorei alguns segundos para compreender. A minha filha morreu. Eu fiquei a olhar para ela. Pensei que tivesse ouvido errado. Como assim? Ela morreu há alguns anos. Eu não respondi.
A mulher continuou a segurar a fotografia, contou que a filha tinha falecido ainda muito jovem. Eu olhava para a foto e tentava encontrar alguma explicação. Talvez tivesse confundido. Talvez fosse alguma irmã. Talvez uma parente muito semelhante. Perguntei: “A senhora não tem outra filha parecida com ela?” “Não, uma sobrinha.
” Ela abanou a cabeça. “Não. A minha primeira vontade foi sair dali. Não por medo da senhora, era porque a minha cabeça começou a passar toda a viagem. A menina a entrar no carro, [música] a porta a fechar, a voz dela, as direções, ela a dizer que a mãe estava em casa. Eu tinha conversado com aquela menina, ela tinha-me mostrado o caminho.
Não era uma sombra, não era alguma coisa que visse rapidamente na estrada. Ela entrou no o meu táxi e permaneceu no banco traseiro durante vários minutos. Perguntei à senhora onde é que a filha tinha morrido. Ela ficou em silêncio, depois apontou para a direção de onde eu tinha vindo. Naquela estrada senti um aperto no peito.
Ela explicou que a menina tinha sofrido um acidente naquela região. Não entrei em pormenores. Naquela altura já não queria saber mais nada. Apenas devolvi a fotografia. A mulher percebeu que eu estava assustado. Não é o primeiro que fala que viu minha filha por ali. Esta frase piorou tudo.
Como assim? Ela disse que ao longo dos anos algumas pessoas afirmaram ter visto uma menina próxima daquele troço. Nem sempre acontecia da mesma forma. Uns tinham parada, outros diziam que ela caminhava pela berma da estrada, mas ninguém, segundo a senhora, tinha chegado àquela casa com ela dentro de um automóvel. Eu não sabia o que responder. Olhei novamente para fora.
O meu táxi continuava parado diante da casa. De repente, não queria voltar para dentro dele. Mesmo assim, agradecia a senhora e despedi-me. Ela veio comigo até ao portão. Antes de eu sair, disse: “Obrigada por trazê-la para casa”. Aquilo atingiu-me de um modo estranho. Não respondi. Entrei no carro.
Antes de arrancar, acendi a luz interior. Olhei para o banco traseiro, passei a mão pelo estofo, não havia nada. Fechei as portas e Comecei a voltar. Durante todo o caminho, espreitei várias vezes pelo retrovisor. Eu sabia que o banco estava vazio. Mesmo assim não conseguia evitar. Quando cheguei à cidade, já não quis continuar a trabalhar.
Fui direto para casa. No dia seguinte, contei a um colega taxista. Ele riu. Disse que eu estava cansado e devia ter imaginado parte daquilo. Outro falou que talvez uma rapariga me tivesse enganado e saído do carro enquanto caminhava até à casa. Durante algum tempo, tentei aceitar esta explicação, mas havia um problema, a fotografia.
Eu tinha visto aquela fotografia e a mulher não sabia que eu ia aparecer em sua casa nessa madrugada. Também não tinha forma de saber como eu descreveria a menina [música] antes de mostrar a foto. Durante muitos anos, evitei aquela estrada durante a madrugada. Se aparecesse uma corrida naquela região, fazia durante o dia sem problema, mas à noite, sempre que podia, procurava outro caminho.
Com o tempo, tentei deixar aquela história para trás. Eu ainda precisava de trabalhar, tinha família, contas e taxista não pode parar de conduzir porque viu alguma coisa que não consegue explicar. Achei que aquela seria a experiência mais estranha que eu teria dentro de um táxi. Eu estava enganado. Anos mais tarde, já na década de 1980, aconteceu outra coisa.
Desta vez foi dentro da cidade e ao contrário da menina da estrada, este passageiro entrou no meu carro num local cheio de gente. Era uma noite de semana. Eu estava a trabalhar próximo ao hospital municipal. Naquela época era comum os taxistas ficarem perto de hospitais, estações de autocarros e bares à espera de corrida.
Já era tarde, mas ainda havia movimento à entrada do hospital. Vi algumas pessoas a sair, funcionários, [música] familiares dos doentes. Um homem aproximou-se do [música] táxi, aparentava ter uns 50 anos. Vestia roupa escura e estava sozinho. Abriu a porta [música] traseira e entrou. Boa noite, respondeu baixinho.
Perguntei para onde queria ir. Deu o [música] nome de uma rua que eu conhecia. Era um bairro residencial, não muito longe dali. Liguei o taxímetro [música] e saí. No início não achei nada estranho. O homem apenas não parecia disposto a conversar. [música] Isto era comum. Alguns passageiros falavam durante toda a corrida.
Outros entravam, [música] davam a morada e não diziam mais uma palavra. Eu respeitava. Seguimos por algumas ruas. [música] A dado momento, olhei pelo retrovisor. Ele estava a olhar pela janela. Perguntei: “O [música] senhor estava a visitar alguém no hospital?” Ele demorou um pouco a responder. Estava, apenas isso. Continuei a conduzir.
Alguns minutos [música] depois, ele falou: “Quando chegar perto da praça, vire à direita.” Eu disse: “Sei onde é”. Ele ficou quieto [música] novamente. Chegámos ao bairro. Aquela região era tranquila, principalmente [música] à noite. Poucas pessoas na rua, algumas casas ainda com luz acesa. Quando entramos [música] na rua indicado, o homem inclinou-se um pouco para a frente.
Pode parar naquela casa? Vi uma [música] residência alguns metros mais à frente. Encostei-me em frente ao portão, puxei o [música] travão de mão e olhei para o taxímetro, disse o valor da corrida. Não ouvi resposta, por isso virei-me. O banco traseiro estava vazio. Na mesma hora [música] senti aquele frio no corpo que eu conhecia muito bem.
Fiquei a olhar para o banco traseiro [música] sem conseguir reagir. O homem já não estava lá. Olhei para a porta do lado direito. Estava [música] fechada. Olhei para a outra. Também estava. A minha primeira reação foi pensar que ele [música] tivesse descido sem eu perceber. Pode parecer impossível, [a música] mas quando trabalha muitas horas condução, às vezes distrai-se por alguns segundos.

Pensei [música] que talvez enquanto eu olhava para o taxímetro ele tivesse aberto a porta e saiu [música] rapidamente. Depois olhei para por casa, não estava ninguém no portão. Olhei pelos espelhos retrovisores, procurando alguém caminhando pela [música] calçada. A rua estava vazia. Baixei o vidro. Senhor, [música] esperei. Nada. Desci do táxi.
Olhei para debaixo das árvores para os dois lados da rua e até mesmo atrás do [música] carro. Ninguém. Aquilo não fazia sentido. Eu tinha parado há poucos segundos. Mesmo que tivesse saído [música] sem pagar, devia vê-lo a correr ou entrando em algum lugar. Foi quando [música] olhei para a casa perante a qual ele tinha pedido para parar.
Pensei que talvez [a música] tivesse entrado rapidamente pelo portão. Eu também estava irritado. Até esse [música] momento ainda tentava tratar aquilo como um passageiro que tinha fugido para não pagar a corrida. Atravessei [música] a calçada e bati palmas diante do portão. O de [música] casa, uma luz acendeu-se.
Esperei. Pouco depois, apareceu uma mulher [música] à janela e perguntou quem era. Desculpa incomodar. Sou taxista. >> [música] >> Acabei de trazer um senhor para este endereço. Ela abriu a porta, mas permaneceu perto da entrada. Que senhor? Expliquei que tinha [música] pegado num passageiro em frente ao hospital e que ele próprio tinha indicado aquela casa.
A mulher pareceu [música] confusa. Aqui? Aqui mesmo. Ele pediu [música] para parar exatamente à frente. Perguntei se algum homem de aproximadamente 50 anos morava ali. Ela perguntou como ele era. Descrevi [música] o passageiro. Quanto mais eu falava, mais séria ela ficava. Quando terminei, [a música] perguntou: “Disse que o apanhou onde?” “No hospital.
” Ela ficou [música] em silêncio. Eu já conhecia aquela sensação. Era o mesmo tipo de silêncio que eu tinha enfrentado anos antes perante daquela senhora na estrada. [música] E não queria ouvir o que viria a seguir. A mulher abriu o portão. Espera um pouco. Entrou em casa? Eu pensei em ir embora. De verdade. Já tinha perdido o dinheiro da corrida e não queria descobrir mais nada.
Mas alguma coisa me fez permanecer ali. Regressou acompanhada de um homem mais jovem. Perguntou-me novamente o que tinha já acontecido. Contei tudo desde o começo. O passageiro tinha entrado no meu táxi em frente ao hospital, dado aquela rua como destino e ali chegando, apontado precisamente para aquela casa, o rapaz perguntou: “Ele disse alguma coisa durante o caminho? Quase nada.
Falou algum nome? Não tinha certeza de que queria vir para cá. Foi ele que me mostrou a casa. Os dois olharam-se. Então a mulher falou: “Pela descrição parece o meu marido.” Eu perguntei: “Ele está aí?” Ela respondeu: “O meu marido está internado. Naquele momento, senti um alívio. Pode parecer estranho, mas aquilo pareceu-me uma explicação.
Talvez tivesse recebido alta, saído do hospital e regressado a casa sem avisar a família. Talvez tivesse entrado pelo fundo enquanto eu procurava na rua.” “Então deve ser ele.” Falei. Talvez tenham [música] dado alta. A mulher abanou a cabeça. Não, ele está muito doente, não consegue sair sozinho.
O rapaz disse que era filho deles. A mulher entrou então novamente e voltou com uma fotografia. Quando vi, reconheci o homem. Era o meu passageiro. [música] Não tive dúvidas. É esse. O filho perguntou. Tem a certeza? Absoluta. Foi este homem que entrou no o meu carro. A mulher começou a ficar nervosa. Perguntei há quanto tempo estava internado.
Ela disse que já tinha passado alguns dias e que o seu estado tinha piorado. Foi aí que o filho decidiu telefonar para o hospital. Permaneci perto do portão. Não consegui ouvir bem a conversa, apenas algumas palavras. Passados alguns minutos, ele voltou. [música] O pai continuava internado, não tinha recebido alta, não tinha deixado o hospital.
Olhei para o táxi, a partir dali já não sabia mais o que pensar. Diferentemente do caso da menina, aquele homem estava vivo. Pelo menos era o que eu compreendia naquele momento. A mulher quis saber exatamente onde o tinha encontrado. Expliquei a entrada do hospital onde tinha entrado. Ela perguntou que horas eram.
Eu disse aproximadamente o horário. O filho ficou pensativo. Depois perguntou-me uma coisa que até hoje lembro-me. Ele parecia doente. Pensei antes de responder. Não, estava sério e falava pouco, mas caminhou normalmente até ao carro. Abriu a porta sozinho. Entrou e ficou sentado durante toda a viagem. Não parecia um homem incapaz de sair de uma cama. A mulher começou a chorar.
Eu arrependi-me de ter ido até aquela porta. Não queria deixar aquela família mais preocupada. Disse que me podia ter confundido. Mas nós os três sabíamos que eu estava tentando aliviar a situação. Eu tinha reconhecido [música] a fotografia. Despedi-me e voltei para o carro. Dessa vez, antes de entrar, abri a porta traseira, olhei para o banco, passei a mão pelo assento, depois entrei e fui embora.
Nessa noite continuei a trabalhar. Talvez tenha sido a minha forma de não pensar no assunto. Nos dias seguintes, evitei passar em frente ao hospital, mas aquela corrida não saía da minha cabeça. Algum tempo depois, encontrei outro taxista que costumava trabalhar naquela região. Contei o sucedido.
Ele conhecia a família. Foi por ele que soube que o homem tinha morrido pouco tempo depois. Não sei dizer exatamente quantos dias se passaram, por isso prefiro não afirmar. Só Sei que ele não voltou para aquela casa, pelo menos não da forma que todos esperavam. Durante anos, procurei comparar aquela experiência com a da menina, mas eram diferentes.
A menina estava morta há anos quando entrou no meu carro. Aquele homem ainda estava internado. Às vezes me perguntei se ele estava sonhar no hospital e de alguma forma eu participei nesse sonho. Se foi uma confusão minha, se apanhei outra pessoa extremamente parecida com ele. Só que novamente havia [música] pormenores difíceis de ignorar.
Sabia a morada, reconheceu a rua, apontou para a casa e eu reconheci o seu rosto na fotografia. Depois desse segundo caso, comecei a olhar para o meu trabalho de outra forma. Não fiquei com medo dos passageiros. Não abandonei o táxi. Continuei trabalhando normalmente, mas nunca mais tive tanta certeza de que todas as pessoas que entram num carro durante a madrugada estão simplesmente indo de um lado para o outro.
Os anos passaram, envelheci. Ouvi histórias de outros condutores, algumas muito mais assustadoras do que as minhas. Nunca soube quais eram verdadeiras e quais tinham sido aumentadas depois de tantas vezes contadas. Eu quase nunca falava das minhas. A menina da estrada ficou guardada comigo, o homem do hospital também.
Talvez eu tivesse continuado a tratar aqueles acontecimentos como duas coisas estranhas que ocorreram durante décadas de trabalho, se não fosse uma terceira experiência. Essa não aconteceu no meu táxi. Não havia passageiro desconhecido. Não aconteceu numa estrada deserta, nem perante um hospital. Aconteceu na a minha própria casa.
E talvez por isso tenha sido a única vez em que parei de procurar uma explicação, porque a pessoa que vi nessa noite era alguém que conhecia desde criança. Era o meu [música] pai. Na altura, o meu pai já era um homem de idade. Nós não vivíamos juntos, mas mantínhamos contacto. [música] Ele tinha aquele jeito antigo de homem criado no interior, que não falava muito sobre sentimento.
Nunca foi de abraçar a toda a hora ou dizer que sentia saudade. Mas eu sabia que ele gostava de mim e ele sabia que eu gostava dele. Naquele dia eu tinha trabalhado normalmente. Não tinha recebido nenhuma notícia grave sobre o meu pai, nada que me fizesse pensar que alguma coisa estava para acontecer. Cheguei a casa cansado, jantei e fiquei acordado algum tempo.
Era noite quando ouvi o portão. Não foi um barulho forte, foi aquele som comum de alguém empurrar o portão para entrar. Eu conhecia aquele barulho. Olhei na direção da frente da casa e vi meu pai a entrar. Não foi de relance, não foi uma sombra, foi ele. Reconheci o forma de andar, reconhecia o corpo e reconhecia as roupas.
O meu pai atravessou o portão e seguiu em direção ao corredor lateral da casa. Eu estranhei. Pai. Ele não respondeu. Levantei. Pai. Continuei a vê-lo caminhar. Naquele momento não estava com medo. Eu só queria saber porque é que o meu pai tinha apareceu em minha casa àquela hora e porque não respondia. Fui atrás dele.
Quando cheguei ao corredor, ainda o consegui ver seguindo adiante. Pai, espera lá. Virou a esquina do corredor. Eu fui logo atrás. Não demorou nem alguns segundos. Quando virei também não havia ninguém. Parei no meio do corredor, olhei para o frente, depois para trás. Pai, nenhuma resposta. Fui até ao fundo do corredor. Nada.
Procurei no quintal, olhei perto da porta das traseiras e voltei para Frainist para a frente da casa. O meu pai não estava em lado nenhum. A primeira coisa que pensei foi que ele tivesse saído novamente pelo portão enquanto eu dava a volta. Fui até à rua, Olhei para os dois lados, não havia ninguém. Voltei para dentro ainda tentando entender.
Eu tinha visto o meu pai, não tinha dúvida. Vi quando ele entrou pelo portão e acompanhei os seus passos até ao corredor. Era o seu modo de andar. Eram as roupas que eu conhecia. Só não entendia porque não tinha respondido. Naquela época não existia telemóvel. Se queria saber de alguém, precisava de telefonar para a casa da pessoa quando havia telefone disponível, enviar recado ou ir até lá.
Pensei em procurar o meu pai nessa mesma noite, mas já era tarde. Também comecei a duvidar de mim próprio. Talvez tivesse passado apenas para me ver e ido embora. Talvez me tivesse confundido sobre onde tinha entrado. Tentei encontrar uma explicação simples, só que uma coisa me incomodava. O meu pai não teria entrado na minha casa, ouvido-me chamar duas vezes e ido embora sem dizer uma palavra.
Aquilo não combinava com ele. A minha esposa percebeu que eu estava estranho e perguntou o que tinha acontecido. Eu vi meu pai a entrar aqui. Ela olhou-me sem entender. O seu pai? Ele entrou pelo portão agora. Expliquei que tinha ido atrás dele [música] e não o encontrara. Ela perguntou: “Tem a certeza de que era ele?” “Tenho.
” Fomos olhar novamente. Nada. >> [música] >> O portão estava fechado, a casa estava como antes. A minha esposa tentou me tranquilizar, disse que eu estava cansado, que tinha trabalhado o dia inteiro e talvez tivesse visto alguém a passar pela rua e confundiu-me. Mas eu sabia a diferença entre alguém a passar na rua [música] e o meu próprio pai a entrar pelo portão.
Ainda assim, não quis discutir. Fui dormir, ou pelo menos tentei. Demorei muito tempo para adormecer. Toda vez que fechava os olhos, lembrava-se da imagem dele a entrar. O que mais me perturbava não era o desaparecimento, era o silêncio. Eu chamava e ele continuava a andar. A determinado momento da madrugada, acabei por dormir.
Na manhã seguinte, acordei com alguém me chamando. Não me recordo exatamente quem veio trazer a notícia depois de tantos anos. Algumas coisas ficaram muito claras na minha memória e outras desapareceram, mas lembro-me das palavras. O meu pai tinha morrido. Na altura não pensei em mais nada. Perguntei quando foi quando me disseram que ele tinha falecido na noite anterior.
Eu fiquei parado. A minha cabeça [música] voltou imediatamente para o portão, para o corredor, para a roupa, para o jeito dele andar. Perguntei o horário aproximado. Quando ouvi a resposta, percebi que tinha sido nessa mesma noite, perto do período em que ouvi entrar na minha casa. Não sei dizer hoje se foi exatamente no mesmo minuto.
Seria mentira minha afirmar isso. Já passaram muitos anos. Mas foi nessa noite, a mesma noite em que vi o meu pai entrar pelo meu portão. Foi muito diferente das outras duas experiências. Com a menina da estrada, senti medo quando descobri que ela [música] tinha morrido. Com o passageiro do hospital, senti confusão porque naquele momento o homem ainda estava vivo.
Mas com o meu pai não senti medo. Senti tristeza e uma sensação que demorei muito tempo a entender. Durante o velório, olhei várias vezes para ele e lembrava-me da noite anterior. Era impossível não pensar. [música] Aquelas eram as feições do homem que eu tinha visto entrar em minha casa. Eu conhecia o meu pai desde que nasci.
Não precisava de fotografia, não precisava que alguém o confirmasse. Era ele. Durante muito tempo guardei aquilo comigo. Algumas pessoas da família souberam. Quando contava, aparecia sempre alguém a tentar explicar. Diziam que talvez estivesse preocupado com ele e o meu cérebro criou aquela imagem. Outros diziam que podia ter sido um sonho, mas eu não estava a dormir.
Levantei-me, chamei por ele, eu Caminhei atrás dele, viu o pai entrar naquele corredor e quando fui atrás, ele simplesmente já não estava lá. Com o tempo, deixei de discutir sobre o que aconteceu. Não havia motivo. Se alguém dissesse que acreditava, eu aceitava. Se alguém dissesse que era impossível, [música] eu também aceitava.
Eu estava lá e isso bastava-me. Hoje, quando penso nas três experiências, percebo como cada uma foi diferente. A menina da estrada nunca tinha visto antes. O homem do hospital [música] também era um desconhecido. O meu pai não. O meu pai eu conhecia melhor do que qualquer um daqueles passageiros. Talvez seja precisamente por isso que este último acontecimento tenha mudado a forma como passei a ver os outros dois.
Durante muitos anos, pensei que poderia ter sido enganado pela menina. Depois pensei que tivesse confundido o homem do hospital com outra pessoa. Mas como explicar o meu pai? Eu não tenho essa resposta e talvez nunca tenha. Trabalhei como taxista durante mais de 30 anos. Se eu contasse todas as coisas estranhas que ouvi dentro daquele carro, provavelmente daria para escrever um livro.
Mas ouvir uma história é diferente de viver uma. Estas três eu vivi. Ainda consigo lembrar-me daquela estrada de terra iluminada apenas pelos faróis. Da menina sentada no banco traseiro, indicando o caminho de casa da senhora abrindo a porta durante a madrugada, da fotografia nas suas mãos. Anos mais tarde, lembro-me daquele homem entrando no meu táxi diante do hospital.
da voz baixa, da morada da casa que apontou e daquele banco vazio quando virei-me para cobrar a corrida. Eis, mas entre todas estas recordações, existe uma que nunca perdeu a força. O meu pai entrando pelo portão, eu chamando pai e ele seguindo pelo corredor sem olhar para trás. Durante muito [música] tempo, pensei por ele teria ido a minha casa naquela noite.
Hoje já, velho, prefiro não procurar explicação. Gosto de pensar apenas que se realmente foi o meu pai que eu vi, talvez tenha passado por ali uma última vez. Não para me assustar, não para avisar que alguma coisa de mau iria acontecer, talvez apenas para se despedir. Foi por causa destas histórias que resolvi escrever para o canal.
Já há muito tempo que tudo isto aconteceu e sei que algumas pessoas vão acreditar e outras não. Não quero provar que os espíritos existem. Também não posso afirmar o que eram aquelas pessoas que encontrei. Só sei o que os meus olhos viram. E há uma coisa que aprendi depois de tantos anos a conduzir pelas noites, entrando em ruas desconhecidas e levando pessoas para lugares onde nunca tinha estado.
Por vezes, uma viagem parece terminar quando o passageiro chega ao destino, mas algumas viagens ficam com o motorista para o resto da vida. Estas três ficaram comigo e agora que contei ficam também convosco.