Sumiram Na Chapada Dos Guimarães — 3 Anos Depois, Mesa Posta Para Três Pessoas

Em agosto de 2018, numa quinta-feira de sol forte e céu quase branco de calor sobre o Planalto do Mato Grosso, Rosilene das Graças Ferreira e a irmã Valdirene Ferreira Machado saíram de Cuiabá num gol branco com a lataria manchada de barro vermelho. Era cedo, 6:40 da manhã. A cidade ainda acordava com o barulho dos primeiros ônibus dobrando as esquinas da Avenida Mato Grosso e o cheiro de pão quente saindo das padarias do bairro.

As duas irmãs fecharam o carro, ajustaram os cintos e pegaram a estrada sem demora. Rosilene tinha 32 anos. Trabalhava como caixa numa farmácia do Jardim Petrópolis. morava num apartamento alugado a três quarteirões da casa da mãe e tinha o costume de ligar para ela toda manhã antes de entrar no turno. Valdirene tinha 38, era casada com um homem chamado Adilson Machado e dava aulas de reforço de matemática para crianças do bairro num quartinho dos fundos da casa.

As duas eram filhas de Benedita das Graças Ferreira, que todo mundo no Dom Aquino chamava de dona Bené, uma viúva de 61 anos que morava no mesmo sobrado desde que as filhas eram pequenas, com jardim de cimento na frente da casa e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, cravada numa pedra entre as plantas. A viagem até a Chapada dos Guimarães levava menos de 2 horas pela MT251.

Rosilene mandou mensagem para a mãe às 7:43 da manhã. Dizia que estavam entrando na estrada e que o dia estava bonito demais. Dona Bené respondeu com um emoji de coração e dois pontos de exclamação. Aquela foi a última mensagem recebida. O Gol branco foi encontrado quatro dias depois, parado no acostamento da MT 251, a 11 km da entrada do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães.

Motor frio, vidros fechados. Dentro do carro, a bolsa de Rosilene com a carteira e o dinheiro intactos. O remédio para a pressão de Valdirenes, sem abrir na caixa, um saco plástico com biscoito de polvilho que nenhuma das duas tinha tocado, e as chaves do apartamento de Rosilene no portaobjetos do painel. A fivela do cinto do banco do passageiro estava travada por dentro.

O interior do carro não mostrava pressa, nem briga, nem o menor sinal de que alguém havia saído correndo. Parecia o carro de duas mulheres que pararam no acostamento para olhar a paisagem e simplesmente não voltaram. Rosilene das Graças Ferreira e Valdirene Ferreira Machado ficaram desaparecidas por 3 anos, 2 meses e 17 dias.

Quando foram encontradas em outubro de 2021, estavam vivas. Estavam num casebre de madeira, no alto de uma serra, dentro da chapada dos Guimarães, a 42 km da estrada asfaltada, num trecho sem nome em nenhum mapa oficial do IBAMA. estavam de pé na soleira da porta, com o cabelo comprido até a cintura e roupas desgastadas pelo uso prolongado.

E dentro da cabana havia uma mesa de madeira velha posta com três pratos, três copos com água e três conjuntos de talheres enferrujados, duas cadeiras com casacos dobrados em cima e uma terceira cadeira vazia, virada de frente para a janela que dava para o mato fechado da serra. O que aconteceu entre aquele acostamento de terra vermelha e aquela mesa posta? Quem deveria sentar naquele terceiro lugar? E por quando as irmãs foram levadas ao hospital de Cuiabá, ficaram quase 2 horas em silêncio antes de pronunciar qualquer palavra. Isso é o

que esta história tenta reconstituir. Tem algumas coisas que você precisa saber antes de continuar. A busca oficial pelas irmãs Ferreira durou nos primeiros meses com a intensidade que um desaparecimento desse tipo deveria ter. O Corpo de Bombeiros de Cuiabá fez duas varreduras nas trilhas do parque. A polícia civil abriu inquérito e registrou o boletim de ocorrência, mas com o tempo, como acontece com muitos casos no interior do Brasil, as buscas foram sendo encerradas.

Uma por uma, o processo ficou parado numa instante. Os nomes das irmãs entraram no Sinalid, o sistema nacional de pessoas desaparecidas e ficaram lá. O que o delegado disse no segundo mês de investigação vai aparecer mais adiante nesta história e quando você ouvir vai entender por dona Bené passou do anos sem dormir de corrido.

Uma moradora de um sítio próximo ao ponto onde o carro foi encontrado, disse à polícia que na madrugada antes do achado havia visto uma luz de lanterna se movendo pela vegetação na beira da estrada. Deu para ver que eram pelo menos duas pessoas, talvez três. Um funcionário de um posto de gasolina perto da entrada do parque disse que uma das mulheres havia parado para abastecer na manhã do desaparecimento e disse que havia um homem no banco de trás do carro.

Esse homem foi registrado nos autos como passageiro não identificado e nunca mais foi mencionado na investigação. Dentro do Gol Branco, na janela do lado do motorista, havia uma marca feita com o dedo em cima de uma camada fina de poeira. Três círculos sobrepostos do tamanho de uma moeda cada um. A perita que fez o levantamento disse que a marca parecia intencional.

Aquele detalhe nunca foi investigado. Você ficou aqui porque sabe que essa história não fecha com o que parece óbvio e o que vem agora vai mostrar porquê. Segmento um, o último telefonema antes da estrada. A semana antes da viagem foi uma semana comum na vida das irmãs Ferreira. Rosilene trabalhou os quatro dias de turno na farmácia, teve folga na quarta-feira e lavou o apartamento de ponta a ponta, como fazia toda semana.

As janelas do apartamento davam para uma rua estreita com mangueiras nas calçadas. Ela lavava o piso com água e álcool e deixava a porta aberta para secar, o que era um costume que a mãe tinha ensinado desde pequena. Valdirene passou a semana dando reforço de matemática para dois alunos do bairro.

Foi ao mercado na terça-feira com a lista que ela sempre fazia a mão num caderninho de capa preta e preparou frango com quiabo para o marido Adilson na quinta-feira. Como era costume desde que casaram. Adilson comia frango com quiabo toda a quinta e dizia que era o prato que a mãe dele fazia antes de a mãe dele morrer.

Na segunda-feira antes da viagem, Rosilene ligou para Valdirene por volta das 8 da noite. A ligação durou 27 minutos. Valdirene contou isso depois, ao prestar depoimento na delegacia. disse que conversaram sobre a viagem, sobre o que levar, sobre se valia a pena contratar um guia local ou ir pelas trilhas marcadas sozinhas. Rosilene queria ver a cachoeira vel de noiva.

Valdirene queria chegar até a cidade de pedra, aquela formação de arenito cor de tijolo queimado, que parece uma cidade construída por milhões de anos de vento e chuva sobre o platô matogrossense, onde as pedras vermelhas criam formas que nenhum canteiro humano projetou. Decidiram ir sozinhas, não levaram guia. Aquela ligação de segunda-feira foi o último registro de conversa entre as duas irmãs, do qual existe algum dado verificável.

A partir dali, o que se sabe vem da memória dos outros. Colegas de trabalho, vizinhos, familiares. Detalhe a detalhe, como se monta um quebra-cabeça onde algumas peças nunca apareceram. A farmácia, onde Rosilene trabalhava ficava numa avenida movimentada do Jardim Petrópolis, com fachada de vidro e uma placa azul que se via de longe.

Jucélia Ramos, colega de balcão, contou que na quarta-feira de folga, Rosilene havia passado pela farmácia para pegar um frasco de protetor solar que tinha esquecido no armário. Tomou um café rápido com Jusélia no balcão, falou da viagem, disse que ia tirar foto das pedras para mandar para o grupo de família no celular.

Estava animada. Estava sorrindo”, disse Jucélia, “do jeito dela, que era um sorriso com a boca toda. Aquela foi a última vez que Jucélia viu Rosilene. Nos altos do inquérito há uma referência a um homem que teria conversado com Rosilene nos dias anteriores à viagem. O nome dessa pessoa não foi incluído no depoimento de forma completa.

Consta apenas como um conhecido de bairro. A polícia não aprofundou essa linha. Na noite de quarta-feira, véspera da viagem, as duas irmãs jantaram na casa de dona Bené. Valdirene trouxe um bolo de laranja feito em casa, ainda morno, embrulhado num papel de alumínio. Comeram arroz com feijão e carne moída temperada, que era a comida de sempre quando as três estavam reunidas.

Assistiram ao Jornal Nacional na Sala. No volume que dona Bené sempre colocava alto demais, porque dizia que ficava surda de tanto barulho de ônibus na rua. Depois das 9, as filhas foram embora. Rosilene desceu à escada do sobrado, ajeitando os óculos. Valdirene abraçou a mãe de forma mais demorada do que de costume.

Dona Bené notou aquele abraço mais longo, mas não perguntou nada. Achou que era coisa do momento. Quando alguém perguntou depois à dona Bené como ela havia notado que aquele abraço era diferente, ela respondeu com a voz tranquila de quem aprendeu a segurar o que sente. A gente sabe, minha filha, a gente que é mãe sabe. E aquilo ficou parado no ar, sem resposta possível.

Segmento dois. A quinta-feira que não terminou. A Chapada dos Guimarães existe como formação geológica há muito mais tempo do que qualquer nome que os mapas deram a ela. O planalto de Arenito Vermelho ergue-se a 700 m acima da planície do Mato Grosso. Uma ilha de pedra e cerrado suspensa sobre o verde amarelo da Baixada.

A vegetação no alto é de troncos retorcidos e escurecidos pelo sol. Capim alto que seca no inverno e vira a cor da palha velha. Pedras, cor de tijolo queimado, aflorando entre a terra vermelha, como ossos de um bicho antigo. Nas ravinas e nos canons, o musgo cresce em placas sobre as rochas e o som das cachoeiras chega antes que você as aviste.

Um barulho constante de água sobre pedra que a mata bafa e ao mesmo tempo amplifica. Em 2018, a sinalização interna do parque era precária. Placas velhas comidas pelo sol, algumas tombadas, outras engolidas pelo mato. A cobertura de telefonia desaparecia a menos de 10 minutos de carro da entrada principal. Quem seguia pelas trilhas secundárias entrava num silêncio de pássaro e vento.

Um silêncio que às vezes parece acolhedor e às vezes parece outra coisa completamente. Valdirene passou de carro pela porta de Rosilene às 6:15 da manhã de quinta-feira. Rosilene já estava na calçada, mochila nas costas e um saco de lanche na mão. Entraram na estrada a MT 250 e um sobe da cidade baixa de Cuiabá para o Planalto, por uma serra com curvas fechadas e mata cada vez mais densa, conforme a altitude sobe.

As margens da estrada mudam. Primeiro casas de bairro, depois fazendas com porteiras de ferro, depois apenas o cerrado com suas árvores baixas e tortas, que crescem de um jeito que parece resistência. Em 2018 não havia câmera de vigilância nesse trecho. Nenhum posto de combustível além do que ficava perto da cidadezinha de Chapada dos Guimarães, que tem mercado, igrejas antigas e ruas de paralelepípedo que ressoam diferente do asfalto.

Às 7:43, Rosilene mandou a mensagem para a mãe, a última mensagem. O que aconteceu depois disso é uma lacuna de horas que a investigação nunca preencheu. Adilson Machado começou a ligar para o celular de Valdirene às 18 horas da tarde daquela quinta-feira. O sinal chamava, mas não atendia. Tentou mais três vezes entre 18 e 19 horas, cada tentativa caindo num silêncio longo antes de ir para a caixa postal.

concluiu que o celular havia ficado sem bateria, que era comum quando Valdirene saía para a trilha sem levar o carregador. Esperou mais. Às 21 horas, ligou para dona Bené. Ela não tinha notícia das filhas. Ligou para Rosilene, caixa postal, para Valdirene, caixa postal. Tentou de novo às 21:30. mesmo resultado.

Foi naquele momento que dona Bené sentiu alguma coisa virar por dentro. Ela descreveu assim mais tarde para quem perguntou, como se uma torneira tivesse sido fechada bem fundo no peito, coisa que não tinha explicação racional, mas que estava lá. Às 22 horas, Adilson foi à delegacia mais próxima para registrar um boletim de ocorrência.

O atendente de plantão disse que precisava esperar 48 horas, que era protocolo, Adilson insistiu. O atendente repetiu as mesmas palavras, sem alterar a voz. Adilson voltou para casa sem o boletim. Aquela foi a primeira perda de tempo de uma série que a família só foi conseguir enumerar muito depois, quando o processo já estava encerrado e já era tarde para qualquer coisa ser diferente.

Você já passou pela experiência de ligar para alguém que ama e o telefone chamar no vazio enquanto a noite vai avançando e as horas não passam? Pode ser uma coisa banal no começo, mas quando o relógio passa de meia-noite e você continua ouvindo aquele som, o vazio deixa de ser banal. Dona Bené não dormiu naquela quinta-feira.

ficou sentada na cadeira da cozinha com o terço na mão e o telefone em cima da mesa, ligando de uma em uma hora para as filhas até o sol raiar pelo basculante da janela sobre o jardim do Dom Aquino. O sol raiu, ninguém atendeu. Segmento três, o Gol branco no acostamento da MT 251. Na manhã de sexta-feira, antes de o dia clarear completamente, Adilson voltou à delegacia.

Desta vez havia um delegado diferente no plantão. Esse ouviu a história, anotou os dados das duas mulheres, as características do carro, a placa, o destino declarado. Disse que ia acionar viatura para fazer uma Honda na MT251 quando houvesse disponibilidade de efetivo. viatura saiu naquela tarde. Percorreu o trecho mais movimentado da rodovia, próximo à entrada principal do parque, onde os turistas costumam parar para fotografar a paisagem e comprar queijo artesanal nas barraquinhas de beira de estrada.

não chegou ao trecho mais isolado da rodovia a 11 km da entrada, onde o Gol Branco estava encostado na beira da estrada com a borracha dos pneus aquecida ao sol de Mato Grosso. O carro foi encontrado na madrugada de segunda-feira, quatro dias depois da viagem, por um caminhoneiro que levava carga de soja para Cuiabá.

O homem é citado nos altos apenas como Claudinho do frete. Parou o caminhão no acostamento, desceu, bateu no vidro do gol. Ninguém dentro. Caminhou ao redor da lataria com a lanterna do celular. Nenhum amassado, nenhuma vidraça quebrada, nenhum sinal de batida ou de saída emergência. Anotou a placa num pedaço de papel que guardou no bolso da camisa.

e ligou para a polícia rodoviária assim que chegou a uma área com sinal de celular que era alguns quilômetros adiante. A polícia rodoviária chegou 3 horas depois do chamado, arrombou o carro com a ferramenta padrão e encontrou o que já foi descrito. Bolsa de Rosilene com a carteira, o dinheiro intacto, o batom que ela usava todo dia, o remédio de Valdirene sem abrir, os biscoitos sem tocar, as chaves do apartamento no portaobjetos.

O delegado Silvério Ribas, que assumiu o caso dois dias depois, disse que a cena não indicava crime. Disse que o carro parecia ter sido deixado ali por pessoas que foram embora de outra forma. usou essa expressão exata. De outra forma, não explicou o que queria dizer com aquilo, mas havia algo no interior do carro que o laudo de perícia registrou e que ficou sem explicação até o fim da investigação.

Na janela do lado do motorista, do lado de dentro do vidro, havia uma marca feita com o dedo sobre uma camada fina de poeira. A forma eram três círculos sobrepostos do tamanho de uma moeda cada um. A perita Andrea Ochoa, responsável pelo levantamento, disse que a marca parecia intencional, feita com indicador, com pressão cuidadosa e uniforme.

Disse que não sabia o que significava. Aquele detalhe dos três círculos nunca apareceu em nenhum laudo subsequente, nunca foi investigado de forma aprofundada. A foto está nos altos, na página 83 do inquérito. Uma imagem mal iluminada tirada com o celular de serviço, mostrando três anéis de poeira no vidro do Gol branco, estacionado num acostamento de terra vermelha no Mato Grosso.

O que você faria se o carro de alguém da sua família fosse encontrado assim? Com a carteira dentro, com o remédio sem abrir, com a chave de casa no portaobjetos. Você conseguiria aceitar que elas foram embora de outra forma? Dona Bené foi ao depósito onde o carro estava guardado. Ficou parada na frente do gol branco por um bom tempo, as mãos juntas na frente do corpo, sem falar.

A bolsa de Rosilene estava em cima do capô, embalada num saco plástico com o selo da polícia. Ela pediu para pegar a bolsa. O funcionário disse que precisava de autorização. Ela esperou no banco de cimento do lado de fora do depósito, enquanto alguém ligava para alguém para perguntar se podia. Voltou para casa sem a bolsa. A autorização chegou três dias depois e o caso entrou formalmente no sistema como desaparecimento sem indício de crime.

Seguimento quatro. A delegacia e o que eles chamaram de passageiro. A investigação formal das irmãs Ferreira foi conduzida nos primeiros três meses pela delegacia especializada [música] em crimes contra a mulher de Cuiabá. Depois, por razões administrativas que ninguém da família conseguiu entender direito, o caso foi transferido para a delegacia de Chapada dos Guimarães.

Sácia, uma transferência que parecia técnica, mas que na prática aumentou a distância entre a família e o processo. A delegacia de Chapada dos Guimarães ficava quase 2 horas de carro do bairro Dom Aquino, onde dona Bené morava e onde a maioria das testemunhas relevantes estava. O delegado Silvério Ribas recebeu o processo, folheou os autos, fez algumas anotações, agendou as primeiras diligências para duas semanas depois.

Diligências que consistiram em voltar ao trecho da MT 250 e um com a gente e caminhar um pouco pelo mato na beira da estrada, próximo ao ponto onde o carro havia sido encontrado. O Corpo de Bombeiros de Cuiabá fez duas varreduras nas trilhas acessíveis do parque. Cães farejadores, dois dias em cada varredura.

Encontraram uma garrafa d’água velha de plástico, roupas que não pertenciam às irmãs, um tênis sem par jogado num arbusto. Nada relacionado ao caso. Na segunda varredura, a equipe avançou mais fundo na vegetação, mas não conseguiu alcançar as áreas mais isoladas da serra, porque choveu forte no segundo dia, e o terreno de terra vermelha da chapada ficou lamaçal, impraticável para quem carregava equipamento de busca.

E então veio a informação que Adilson Machado ficou meses tentando entender. Num depoimento colhido pelo delegado Silvério, um funcionário de um posto de gasolina próximo à entrada do parque disse que na manhã da quinta-feira, por volta das 8:30, um carro branco havia parado para abastecer, duas mulheres dentro e também um homem sentado no banco de trás.

A testemunha disse assim: “Tinha um homem no banco de trás”. O delegado registrou aquilo no depoimento e classificou o homem como passageiro não identificado. Não abriu diligência específica para identificar quem era esse homem. não solicitou a testemunha descrição física detalhada, nem perguntou se ele havia falado alguma coisa, nem para onde o grupo havia dito que ia.

O advogado que a família contratou no oitavo mês, Orivaldo Freitas, encontrou esse depoimento nos autos e pediu acesso à testemunha para aprofundar as perguntas. O delegado demorou dois meses para autorizar. Quando Orivaldo finalmente conversou com o funcionário do posto, a lembrança havia ficado vaga depois de quase um ano.

O homem conseguiu dizer apenas que o passageiro do banco de trás parecia mais velho do que as duas mulheres e que ficou o tempo todo olhando pela janela do carro sem falar. Este homem nunca foi identificado, nunca foi chamado a depor. E a possibilidade de que houvesse uma terceira pessoa naquele carro no dia do desaparecimento ficou registrada nos autos numa única linha em letra miúda, entre outros dados.

Havia outra coisa que Orivaldo descobriu ao analisar o processo com cuidado. Várias páginas referenciavam diligências que nunca tinham sido executadas. Ordens de verificação de câmeras de rodovias assinadas, mas sem resposta documentada. um pedido de levantamento de torre de celular da área que nunca foi processado pela operadora porque o ofício tinha sido enviado para o endereço errado.

Você consegue imaginar o que é chegar a essa conclusão depois de meses esperando que o Estado resolva? Descobrir que as páginas existem, mais as ações que elas descrevem nunca aconteceram? Orivaldo disse numa conversa registrada pela família que o processo tinha todos os problemas clássicos de um caso que não recebeu urgência desde o início.

Quando uma investigação começa devagar, ele disse raramente acelera sozinha. A investigação estava viva no papel. Na prática estava parada há meses. Segimento cinco. Dona Bené e as velas que ela não apagou. No Dom Aquino, as casas são coladas umas nas outras. As calçadas têm rachaduras por onde brota capim no meio da chuva.

Os vizinhos ainda têm o hábito de saber o que acontece na casa do lado, não por intromissão, mas pela proximidade física de uma vida que se vive para fora. As janelas abertas, as vozes que chegam pela parede, o cheiro da comida que passa do quintal para a rua. Dona Lourdes, que morava de frente há mais de 20 anos, ficou sabendo do desaparecimento das filhas no dia seguinte.

Chegou à porta de dona Bené com um prato fundo de cuscuz coberto com papel filme ainda quente e um abraço que durou mais tempo do que os abraços de consolação costumam durar. Nos primeiros dias a casa ficou cheia de gente. Parentes de Cuiabá, de Rondonópolis, de alta floresta que veio de ônibus durante a madrugada. Comida de vizinho enchendo a geladeira e o fogão, o telefone da casa tocando sem parar, ligações de gente querendo saber se tinha novidade, se as moças tinham aparecido, se a polícia tinha feito alguma coisa.

Perguntas que não tinham resposta respondidas com as palavras que dona Bené repetia quando não sabia mais o que dizer. Deus sabe onde elas estão. Ela acendeu duas velas na imagem de Nossa Senhora Aparecida do Quarto, num suporte de madeira que o marido falecido tinha feito com as próprias mãos anos antes, com a madeira de uma caixaria velha, uma vela para Rosilene, uma para Valdirene.

Quando uma acabava, ela punha outra, assim por 3 anos. A imagem de Nossa Senhora ficava num nicho escuro do quarto e as velas projetavam uma luz fraca que oscilava toda vez que a porta do cômodo era aberta. A rotina que ela criou nesse tempo era uma rotina de espera organizada, como se organizar a espera fosse uma forma de controlá-la.

Acordava cedo, tomava o café devagar, rezava o terço sentada na cadeira da cozinha. as contas passando entre os dedos num ritmo que ela conhecia de cor desde a infância. Depois ia para a sala e ficava com o telefone no colo. Às vezes ligava para a delegacia, às vezes ligava para o advogado Orivaldo, às vezes ficava parada olhando pela janela para a imagem de Nossa Senhora no jardim lá fora, a mão fechada em torno do aparelho, como se o peso do celular fosse alguma coisa concreta para segurar.

Nos primeiros meses, o bairro inteiro acompanhava, mas o tempo passa e a vida vai tomando conta das pessoas. As visitas foram espaçando. A comida de vizinho parou de chegar e dona Bené foi ficando com um silêncio, cada vez mais habitado, mais organizado, mais difícil de alcançar para quem estava de fora.

Adilson, o marido de Valdirene, foi deixando de aparecer depois do primeiro ano. disse que tinha que trabalhar, que a vida tinha que continuar, que ficar parado olhando para o vazio não trazia Valdirene de volta. Dona Bené não brigou, não disse nada que alguém tenha registrado, mas depois que ele parou de aparecer, ela nunca mais mencionou o nome dele em conversa com dona Lourdes.

Havia uma coisa que dona Bené fazia com regularidade desde o segundo mês. Ia toda semana à delegacia de Cuiabá perguntar sobre o caso. Toda semana sem falta. O mesmo funcionário da recepção começou a reconhecê-la, a senhora de lenço no cabelo com a bolsa preta na dobra do braço. Às vezes a deixava esperar numa cadeira plástica por 2 horas antes de dizer que não havia novidade.

Às vezes dizia isso logo na entrada, sem pedir para ela sentar. Ela agradecia, atravessava a rua, esperava o ônibus na parada e voltava para casa. Esse tipo de espera é uma espera que você reconhece se conheceu alguém que já viveu situação assim. A espera que mistura fé com desgaste, que mantém a pessoa funcional por fora e vai comendo por dentro devagar, semana a semana, sem que apareça na pele nem nos olhos de quem não sabe de onde vem aquele cansaço.

Ela disse uma vez para dona Lourdes que o pior não era não saber onde estavam. disse que o pior era não saber se estavam. E dona Lourdes ficou em silêncio, porque não havia o que responder a isso. As duas velas continuaram acesas no quarto por 3 anos e 2 meses, e cada par de velas consumidas era mais um período de tempo que tinha passado sem que ninguém encontrasse as filhas.

Segmento seis. Os dois anos em que o estado parou de olhar. No primeiro aniversário do desaparecimento, agosto de 2019, o caso das irmãs Ferreira ainda constava formalmente como investigação em andamento na delegacia de Chapada dos Guimarães. Mas o que existia na prática era um processo parado numa estante, encostado atrás de outras pastas, em cima de outros casos que também estavam esperando alguém olhar para eles.

O delegado Silvério Ribas havia sido transferido para Vársia Grande em março daquele ano. O caso foi repassado para uma delegada substituta que ficou dois meses antes de pedir remoção. Depois passou para outro funcionário que acumulava três delegacias por falta de efetivo na região. Esse funcionário nunca visitou a MT 251, nunca ligou para a família, nunca pediu para o advogado Orivaldo, um relatório do que havia sido levantado até então.

O nome de Rosilene das Graças Ferreira e de Valdirene Ferreira Machado estava no sinal. O sistema nacional de identificação de pessoas desaparecidas. O sistema existe exatamente para que qualquer policial do país que cruzasse com as duas e fizesse a verificação tivesse acesso imediato aos dados. Mas o sinalid só funciona se alguém tem motivo para perguntar.

E numa cabana no alto de uma serra da Chapada dos Guimarães, a 42 km de qualquer estrada, sem luz elétrica, sem telefone e sem rota de patrulhamento, ninguém perguntaria nada. A família soube, pelo advogado Orivaldo, que as buscas do Corpo de Bombeiros haviam sido formalmente encerradas em novembro de 2018, 3 meses e meio após o desaparecimento.

A justificativa técnica era a extensão da área de busca e ausência de indícios concretos que indicassem uma direção prioritária para concentrar os esforços. Orivaldo entrou com pedido de retomada das buscas no Ministério Público Estadual. O processo levou quase um ano para ser respondido.

A resposta foi que não havia elementos novos suficientes que justificassem a reabertura da etapa de busca ativa. No segundo aniversário do desaparecimento, agosto de 2020, dona Bené sentou na mesa da cozinha com dona Lourdes e com o advogado Orivaldo. O ventilador de teto girava devagar no calor de Cuiabá.

Os três conversaram por longo tempo sobre o que ainda era possível fazer quando o estado havia parado de olhar. Orivaldo disse que ia tentar levar o caso à imprensa. Disse que às vezes a cobertura jornalística trazia testemunhas que a polícia não havia encontrado. Uma rádio de Cuiabá fez uma reportagem pequena em outubro de 2020. Algumas ligações chegaram.

Uma mulher de Chapada dos Guimarães disse ter visto duas pessoas parecidas com as irmãs no mercadinho local, uns seis meses depois do desaparecimento, mas não sabia precisar quando exatamente e não tinha como comprovar. Um homem ligou, dizendo que havia visto um carro branco deixar duas mulheres numa estrada de terra próxima à reserva.

A polícia verificou o relato, não confirmou. Em 2020, o Brasil inteiro parou por causa da pandemia. Os cartórios funcionaram em regime de emergência. Os fóruns fecharam por meses. O processo das irmãs Ferreira ficou sem nenhuma movimentação, registrada por 7 meses seguidos, e o caso foi ficando cada vez mais longe do radar de quem tinha obrigação de cuidar dele.

O que ainda faltava descobrir? A família foi descobrir com os próprios pés. Segmento 7. A busca que a família fez com os próprios pés foi G Machado, cunhado de Valdirene, quem teve a ideia. No começo de 2021, quando as restrições da pandemia começaram a frouxar e a circulação voltou a ser possível, Giovan apareceu na casa de dona Bené com uma proposta: Montar uma equipe com familiares e amigos e percorrer a chapada dos Guimarães por conta própria, indo até os trechos que o Corpo de Bombeiros não havia alcançado nas varreduras oficiais.

Dona Bené aceitou sem hesitar. Reuniram 11 pessoas, primos que moravam em Cuiabá e que já tinham participado de buscas voluntárias em outros casos da região. Dois vizinhos do Dom Aquino que se ofereceram sem que ninguém pedisse. Um amigo de Giovani, que conhecia trilha de cerrado, sabia usar bússola e tinha equipamento de camping guardado na garagem de casa.

e um homem chamado Neivaldo Coutinho, que chegaram até ele por indicação de um funcionário da Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso. Neivaldo era mateiro. Conhecia a Chapada dos Guimarães há 30 anos, desde antes da área ser demarcada como Parque Nacional. sabia os caminhos que não têm nome nos mapas, as grotas onde a água aparece no seco e as maneiras de se orientar pela posição do sol e pelo som das corredeiras, quando a bússola não é suficiente.

Fizeram três expedições entre março e setembro de 2021. A primeira durou quatro dias e cobriu um raio de 20 km ao redor do ponto onde o carro havia sido encontrado na MT251. Seguiram trilhas secundárias marcadas por pisada de bicho e pisada humana antiga. Entraram em mata fechada de serradão, subiram escarpas de arenito vermelho com ajuda de corda amarrada nos troncos.

Encontraram vestígios de acampamentos antigos, fogueiras apagadas cobertas de mato novo, latas velhas enferrujadas, nada que dissesse respeitos às irmãs. A segunda expedição em junho foi mais fundo para o norte da serra. Neivaldo conduziu o grupo por um caminho que ele chamava de caminho do gado, uma trilha que os criadores da região usavam para mover animais de uma pastagem para outra e que não aparecia em nenhum mapa turístico, nem no levantamento do Ibama.

Foram cinco dias, chuva forte no terceiro. A terra vermelha da Chapada virou Lamaçal e o grupo teve que voltar antes de alcançar o ponto que Neivaldo havia planejado. A terceira expedição em setembro de 2021 partiu com uma informação nova. Numa conversa com um criador de gado que pastoreava boi no entorno do parque há décadas, Neivaldo ouviu sobre uma cabana antiga num trecho alto da serra.

O criador disse que o lugar era conhecido entre os pecuaristas locais como a cabana do seu Antônio, construída décadas atrás por um morador que viveu isolado por muitos anos antes de morrer. Não havia caminho marcado até lá. O terreno ficava dentro da zona de amortecimento do parque, em situação jurídica indefinida, porque nunca havia sido regularizado.

O criador disse que havia passado perto do local uns se meses antes e visto fumaça saindo da chaminé da cabana. Na época não deu importância. Achou que era algum aventureiro usando Casebre como abrigo temporário. Neivaldo levou essa informação ao grupo e no 11º de setembro de 2021 partiram. O caminho até a cabana durou dois dias de marcha.

Escarpas de pedra vermelha com as mãos como apoio. Um riacho atravessado duas vezes. Uma noite ao relento, com o barulho constante do vento, na mata de cerrado ao redor, os grilos e o coaxar de rã num barreiro próximo. Na manhã do segundo dia, Neivaldo parou o grupo numa crista de arenito vermelho e apontou para baixo.

No vale estreito abaixo da crista, entre árvores retorcidas de pé e aeira com casca grossa como couro velho, havia uma construção pequena de madeira escurecida pelo tempo, telhado de zinco que o sol havia oxidado até quase desaparecer na cor da mata ao redor. Uma janela voltada para o leste. Da chaminé de pedra saía um fio fino de fumaça branca. Ninguém disse nada por um tempo.

E o grupo começou a descer. Segmento oito. O homem que ninguém soube nomear. O grupo desceu à encosta de pedra vermelha com cuidado. Neivaldo na frente, como sempre, testando o terreno antes de pisar. O silêncio era o tipo de silêncio que acontece quando se está chegando num lugar que vai mudar alguma coisa, um silêncio diferente do silêncio normal da mata.

A uns 20 m da cabana, Neivaldo parou e chamou, com voz clara, sem gritar, do jeito que se anuncia a chegada num sítio onde tem morador. Tem alguém aí? Bom dia. Precisamos de ajuda. Um momento de silêncio. Depois a porta de madeira velha e escura da cabana abriu e uma mulher apareceu na soleira alta, de cabelo escuro e comprido até a cintura, usando uma saia comprida de tecido grosso e uma blusa de manga longa, mesmo com o calor da tarde.

Ficou olhando para o grupo por um tempo que pareceu mais longo do que era. Os olhos eram os olhos de quem leva um susto, mas tenta não deixar aparecer. E então, atrás dela apareceu outra mulher mais baixa, cabelo preso com um pedaço de borracha, a pele mais queimada e marcada pelo sol do que se esperaria.

Rosilene e Valdirene Ferreira estavam vivas na porta da cabana há tr anos, meses e 17 dias de distância da última mensagem enviada a uma mãe num bairro de Cuiabá. O que aconteceu nos primeiros minutos depois dessa cena foi descrito de forma diferente por cada membro do grupo que esteve lá naquele dia.

Uns disseram que as irmãs ficaram paradas por um tempo longo sem falar. Outros disseram que Rosilene começou a chorar logo, um choro quieto e sem convulsão. O que todos concordaram ao contar depois foi que no rosto das duas não havia a expressão que se esperaria de pessoas encontradas depois de trs anos desaparecidas. Havia mais pausa do que alívio, mais avaliação do que desespero, como se precisassem de um momento para decidir o que estava acontecendo.

Mas a coisa que o grupo inteiro registrou, a coisa que todos os presentes naquele dia mencionaram ao contar, foi outra. Quando Rosilene e Valdirene saíram da cabana e começaram a descer os degraus de tronco que serviam de escada, Rosilene virou a cabeça para trás, olhou para o interior escuro da cabana por uns três ou 4 segundos e então seguiu em frente. Ninguém mais saiu da cabana.

O grupo entrou para verificar. Era um cômodo único de madeira escura, com uma rede pendurada num canto, um catre de ferro enferrujado encostado na parede, prateleiras de tábua com mantimentos, uma lareira de pedra no canto oposto e uma mesa de madeira velha no centro do espaço. sobre a mesa, três pratos postos, três copos com água, três conjuntos de talheres enferrujados, duas cadeiras com casacos dobrados cuidadosamente em cima, e uma terceira cadeira vazia, girada de frente para a janela que dava para a mata fechada da

serra. Naquele dia, quando Giovan perguntou às irmãs quem mais morava ali com elas, Rosilene respondeu em voz baixa que a pessoa havia saído cedo, que devia estar na mata. Gilvane perguntou: “Quem é essa pessoa?” Rosilenehou para Valdirene. Valdirene olhou para o chão de terra batida da cabana.

Nenhuma das duas respondeu naquele momento. O grupo esperou quase uma hora na cabana e ao redor dela, olhando para a linha onde a mata começava, esperando ver alguém aparecer entre as árvores de cerrado. Ninguém apareceu. Às 14 horas, Neivaldo decidiu que precisavam começar a descida antes de escurecer.

Fazer aquele caminho de noite era perigoso demais. As irmãs foram sem resistência, pediram apenas que esperassem um momento. Valdirene entrou na cabana, ficou lá dentro uns dois minutos e saiu com um embrulho de pano fechado sob o braço. O embrulho foi guardado dentro da mochila. O conteúdo nunca foi descrito publicamente. Nos autos da polícia consta apenas como pertences pessoais das resgatadas.

O grupo começou a descida. As árvores de P e Aroeira foram fechando o campo de visão à medida que o grupo se afastava. Rosilene olhou para trás uma última vez antes de a cabana desaparecer completamente atrás da vegetação. Este olhar ela não explicou para ninguém. Segmento nove. A cabana de madeira no alto da serra.

Dois dias depois do resgate, uma equipe da Polícia Civil de Cuiabá subiu até a cabana acompanhada de Neivaldo e de dois agentes do IBAMA. O percurso levou o dobro do tempo porque os policiais não estavam preparados para aquele terreno. Um deles torceu o tornozelo na encosta de pedra vermelha e teve que ser apoiado pelo colega no trecho final da subida.

Quando chegaram, a porta da cabana estava aberta. A cena dentro era quase idêntica ao que o grupo de busca havia encontrado dois dias antes. A mesa continuava posta para três: os pratos, os copos com água, os talheres enferrujados. A diferença era que um dos casacos que estavam dobrado sobre as cadeiras havia sido dobrado de forma diferente do que Gilvan havia descrito ou talvez movido e recolocado.

A perita que fez o levantamento anotou essa diferença, mas concluiu que a alteração era pequena demais para ser usada como evidência de que alguém havia estado lá no intervalo de dois dias entre o resgate e a chegada da equipe policial. Na prateleira de madeira havia arroz num pote de barro vedado com um pano amarrado, feijão carioca num saco plástico, sal grosso numa latinha de sardinha vazia, fubá numa lata de biscoito velha com a tampa amassada, uma garrafa de vinagre quase cheia, dois querosenes em lata para alimentar a lamparina que ficava

pendurada num prego na viga central do teto. um isqueiro, uma caixa de fósforos. Aqueles mantimentos eram suficientes para alimentar duas ou três pessoas por várias semanas. Na lareira havia cinzas com carvão, que ainda guardava calor residual no centro, conforme o laudo pericial. O fogo havia sido usado na noite ou na manhã que antecedeu a chegada da equipe policial.

Alguém havia estado lá depois que as irmãs partiram com o grupo de busca. O levantamento de digitais não foi conclusivo. O ambiente úmido e a madeira porosa, envelhecida das superfícies, dificultaram a coleta de impressões aproveitáveis. Foram identificadas digitais de Rosilene e Valdirene em várias superfícies da cabana.

Foram encontradas outras impressões digitais. que não correspondiam às das irmãs e que não foram cruzadas com nenhum banco de dados de forma suficientemente conclusiva para gerar uma identidade verificável. Os agentes do IBAMA verificaram a situação fundiária da área. A cabana estava dentro de uma zona de amortecimento do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, em terreno sem proprietário formal, registrado há décadas.

O morador original, citado nos registros como Antônio Veríssimo Dias, havia construído o Casebre de madeira nos anos 90 e morrido em 2004. sem herdeiros legalmente reconhecidos. Depois disso, o lugar havia ficado em limbo jurídico, sem uso oficial registrado. A Polícia Civil solicitou imagens de satélite da área correspondente ao período de 2018 a 2021.

Quando as imagens chegaram semanas depois, mostravam a cabana e o entorno de mata sem alterações visíveis ao longo dos três anos. Uma trilha muito fina, quase imperceptível, levando-a até a crista de pedra acima da construção. Nenhum veículo, nenhuma estrutura adicional. A cabana aparecia nas imagens como um ponto escuro entre a vegetação do ccerrado, indistinguível para quem não soubesse exatamente onde olhar.

Irmãs haviam vivido ali por 3 anos, 2 meses e 17 dias, sem energia elétrica, sem água encanada, caçando e colhendo o que o serrado oferecia, usando a lareira para cozinhar, dormindo na rede e no catre de ferro enferrujado. Como chegaram até aquela cabana? Quem as levou? Como souberam que ela existia? Essas perguntas existem.

As respostas até onde qualquer investigação pública chegou estão incompletas. O que a polícia encontrou naquele casebre de madeira no alto de uma serra sem nome respondia apenas a uma coisa. O lugar havia sido habitado por mais do que duas pessoas. Você se lembra do que foi dito no início? A resposta está mais perto do que parece. Segmento 10.

A mesa posta para três. Rosilene e Valdirene ficaram cinco dias internadas no Hospital Geral de Cuiabá para avaliação clínica completa. Os médicos encontraram desnutrição leve, anemia por deficiência de ferro, infecções cutâneas superficiais nos pés e nas pernas, decorrentes de caminhar descalças ou com calçados inadequados por terreno a irregular e perda de peso considerável em relação às fotos do registro policial de 2018.

Os olhos das duas estavam sadios, os dentes preservados, os exames de sangue não mostraram traços de nenhuma substância química fora do esperado. Nas primeiras 48 horas, as irmãs recusaram visita de qualquer pessoa que não fosse dona Bené e a equipe médica do hospital. Dona Bené ficou no quarto de Valdirene na noite do primeiro dia e no quarto de Rosilene na noite do segundo.

Dormiu na poltrona de acompanhante com o terço no bolso, como havia dormido naquela mesma poltrona tantas vezes quando as filhas eram pequenas e tinham febre alta. O que as três conversaram naquelas noites, dona Bené não repetiu para ninguém. disse apenas para dona Lourdes, que chegou visitar no terceiro dia com um potinho de doce de leite, que sabia que Rosilene gostava desde criança, que as filhas estavam mais quietas do que ela esperava, mas que estavam bem.

A psicóloga do hospital fez duas sessões com cada uma das irmãs ainda durante a internação. O conteúdo dessas sessões é protegido por sigilo profissional e não compõe nenhum documento público acessível. Quando a polícia foi ao hospital tomar depoimento, na manhã do terceiro dia, as irmãs pediram que o advogado Orivaldo Freitas estivesse presente antes de falar qualquer coisa.

Orivaldo chegou em meia hora e foi com ele ao lado, que as duas conversaram com o delegado pela primeira vez desde o resgate. O que disseram está registrado no inquérito policial. Partes foram divulgadas pela defesa com autorização das próprias clientes. Rosilene disse que foram a Chapada dos Guimarães naquela quinta-feira de agosto de 2018 para encontrar uma pessoa específica, que essa pessoa havia se comunicado com ela semanas antes, por meio de um amigo em comum, cuja identidade ela não revelou, que a pessoa havia convidado as

duas para conhecer um lugar na serra. disse que chegaram até lá, que gostaram do lugar e que ficaram. O delegado perguntou se foram por vontade própria. Rosilene disse que sim. O delegado perguntou sobre a terceira pessoa da cabana. Rosilene disse que era alguém que elas conheceram na chapada, uma pessoa que sabia viver na serra e que as havia ensinado a fazer o mesmo ao longo do tempo.

E disse que essa pessoa havia saído antes do grupo de busca chegar porque não queria ser encontrada. O delegado perguntou o nome dessa pessoa. Rosilene disse que não sabia o nome verdadeiro, que ela usava um nome que parecia apelido, que todos na cabana usavam. disse esse apelido em voz baixa. O nome que chegou ao registro escrito era um nome comum no interior do Brasil que não permitia identificação.

O delegado perguntou por que não tentaram voltar, por que não deram sinal de vida à família durante 3 anos? Valdirene, que havia ficado em silêncio até então com as mãos juntas no colo, respondeu: “Disse que no começo não quiseram, que depois passou tempo demais, que ficou difícil de explicar, que não sabiam como aquilo seria recebido.

” O delegado registrou as declarações, escreveu suas conclusões e classificou o caso como ausência voluntária das duas mulheres adultas. sem indício de crime. A investigação foi formalmente encerrada em março de 2022. Rosilene disse em conversa posterior com dona Bené que a mãe relatou a dona Lourdes de maneira resumida que a terceira cadeira ficava sempre posta porque a pessoa saía cedo de manhã e voltava para almoçar, que era um costume da cabana, uma coisa que havia se estabelecido com o tempo.

A mesa ficava preparada esperando. Mas naquele dia de setembro de 2021, a pessoa não voltou, nunca mais foi vista, nunca foi identificada. Dona Bené voltou pro sobrado do Dom Aquino com as duas filhas uma semana depois da Alta Hospitalar. O bairro estava igual, as calçadas com as mesmas rachaduras, a imagem de Nossa Senhora Aparecida no jardim, com a pedra ao redor coberta de musgo na beira de baixo.

As três estavam na cozinha juntas pela primeira vez em mais de 3 anos. O arroz com feijão estava no fogo. O Jornal Nacional passava na sala. Dona Lourdes disse que viu a luz da casa acender naquela noite e ficou parada na janela por um tempo olhando. Disse que foi a coisa mais simples e mais bonita que ela tinha visto em muito tempo. Uma janela acesa com três silhuetas dentro.

O caso das irmãs Ferreira não virou notícia grande nos veículos nacionais. apareceu em portais de Cuiabá e em alguns sites do interior do Mato Grosso. A história ficou onde ficam muitas histórias assim: no conhecimento das pessoas que a viveram, na memória dos vizinhos que acompanharam cada etapa, nos autos de um inquérito encerrado, sem resposta para as perguntas que nunca pararam de existir.

terceira pessoa da cabana continua sem identificação pública. O embrulho de pano que Valdirene trouxe da cabana nunca foi descrito publicamente. A marca dos três círculos na janela do Gol Branco continua na foto da página 83 do inquérito, sem explicação numa imagem mal iluminada que ninguém pediu para esclarecer.

Rosilene voltou a trabalhar em outro estabelecimento. Valdirene separou-se de Adilson em 2022, sem declaração pública de nenhum dos dois sobre o motivo. As duas continuam morando em Cuiabá, próximas de dona Bené. E o que aconteceu nesses 3 anos, 2 meses e 17 dias dentro de uma cabana de madeira, no alto de uma serra sem nome na Chapada dos Guimarães? É uma história que só as duas irmãs e a pessoa que saiu cedo naquela pessoa naquela manhã de setembro de 2020 e um conhecem por inteiro.

Há famílias brasileiras que carregam histórias assim sem que ninguém pergunte. Histórias que não fecham, que ficam com pontas soltas, que vivem guardadas dentro das pessoas que as viveram, sem nunca serem contadas completas, porque completas elas nunca foram. famílias que esperaram com os meios que tinham, que buscaram com os pés quando o estado parou de olhar, que continuaram vivendo ao lado

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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