Soldado Sumiu na Guerrilha em 1972 — Décadas Depois, Militares Encontram Algo Chocante
20 de outubro de 1972, 05 a 30 da manhã. Base militar improvisada no sul do Pará. O cheiro de café requentado misturava-se ao odor úmido da floresta amazônica quando o soldado Marcos Ribeiro da Cunha ajustou pela última vez a correia de sua mochila militar. Aos 19 anos, o rapaz de Goiânia carregava nos olhos castanhos uma expressão que seus companheiros de pelotão haviam começado a notar, uma mistura de determinação e algo que parecia dúvida.
Ribeiro, você vai na ponta com o sargento Lima”, ordenou o tenente Carvalho, apontando para a densa vegetação que se estendia além do perímetro da base. Era a terceira patrulha daquela semana em busca dos guerrilheiros comunistas, que, segundo os relatórios, operavam na região conhecida como bico do papagaio. Marcos acenou afirmativamente, mas o soldado Antônio, seu companheiro de barraca, percebeu que ele demorou mais tempo que o normal para verificar seu equipamento.
Nos últimos dias, Marcos havia se tornado mais silencioso, passando horas escrevendo em um pequeno caderno que guardava no bolso da camisa. “O que você tanto escreve aí, Marcos?”, perguntara Antônio na noite anterior. Cartas para minha mãe respondera ele, fechando rapidamente o caderno. Ela se preocupa muito.
A patrulha partiu às 06 em formação de combate, com seis homens avançando pela trilha que serpenteava entre árvores centenárias e se pós espesos. O calor já começava a subir da terra vermelha e o barulho dos insetos formava uma sinfonia ensurdecedora. Marcos seguia em segundo lugar. carregando o rádio de comunicação, uma responsabilidade que lhe havia sido confiada apenas três semanas antes.
Durante as primeiras 2 horas, a patrulha manteve contato regular com a base, reportando posições e movimentações suspeitas. Às 08:15, o sargento Lima comunicou que haviam encontrado rastros recentes, pegadas descalças e restos de uma fogueira ainda morna. A tensão aumentou. À 08:45, Marcos transmitiu sua última mensagem.
Base aqui, patrulha 7. Avistamos construção abandonada a 200 m da trilha principal. Vamos investigar. Câmbio. Depois disso, apenas silêncio. Quando a patrulha não retornou no horário previsto, uma segunda equipe foi enviada para localizá-los. encontraram os cinco soldados restantes duas horas depois, escondidos atrás de um tronco caído, visivelmente abalados.
O sargento Lima, veterano de três campanhas militares, tremia quando explicou o que havia acontecido. Chegamos perto da casa. Era mesmo abandonada, mas tinha sinais de que alguém esteve lá recentemente, relatou ele com a voz embargada. Marcos foi verificar os fundos. Ouvimos vozes baixas. Pensamos que fossem guerrilheiros.
Quando olhamos de novo, Marcos tinha sumido. Procuramos por toda parte, mas nada, como se a floresta tivesse engolido ele. O tenente Carvalho organizou imediatamente uma busca que durou três dias consecutivos. Mais de 40 homens vasculharam cada metro quadrado da região, usando cães farejadores emprestados da Polícia Civil de Marabá.
encontraram apenas uma bota militar, que poderia ou não ser de marcos, e algumas marcas no chão que não levavam a lugar algum. No quarto dia de buscas, o relatório oficial foi elaborado. Soldado Marcos Ribeiro da Cunha, matrícula 1847, considerado desertor em ação, possível fuga para território inimigo. O documento, assinado pelo coronel Moreira determinava o encerramento das buscas e a abertura de inquérito por abandono de posto, mas algo não fazia sentido.
Marcos nunca havia demonstrado qualquer intenção de desertar. Pelo contrário, era conhecido por sua disciplina e dedicação. Em suas cartas para casa, sempre mencionava o orgulho de servir ao país. Sua mãe, dona Conceição, guardava cada uma dessas cartas como um tesouro. Meu filho não era desertor. Ela repetiria por décadas, sempre que alguém mencionasse o caso. Ele amava o Brasil.
Alguma coisa aconteceu com ele naquela floresta. Alguma coisa que não querem contar. O soldado Antônio, transferido para Brasília logo após o incidente, nunca esqueceu o último olhar que trocou com Marcos antes da patrulha partir. Havia algo naqueles olhos que ele não conseguia decifrar, como se Marcos soubesse que não voltaria.
Goiânia, dezembro de 1972. O telegrama chegou numa terça-feira chuvosa, entregue por um rapaz de bicicleta, que evitou olhar diretamente para dona Conceição quando ela abriu a porta. As palavras oficiais eram secas, burocráticas. Soldado desaparecido em ação, investigação em andamento, aguardar informações.
Conceição, Ribeiro da Cunha, viúva aos 42 anos, sentiu o mundo desabar pela segunda vez na vida. Primeiro havia perdido o marido, João, num acidente na construção de Brasília em 1968. Agora, seu único filho sumi compreendia. “Meu filho não abandona nada no meio”, disse ela ao padre Joaquim da igreja de São José, quando foi pedir orações especiais.
Se ele não voltou, é porque não pode voltar. Durante os meses seguintes, Conceição escreveu cartas para todos os órgãos militares que conseguiu identificar: Secretaria de Guerra, Comandos Regionais, Delegacias Militares. Sua letra miúda e caprichada preenchia folhas e mais folhas de papel ao maço, sempre com a mesma pergunta: “Onde está meu filho?” As respostas quando chegavam eram sempre idênticas.
O caso está sendo investigado. Aguardar novas informações. Em março de 1973, o soldado Antônio visitou Conceição durante uma licença. Havia conseguido seu endereço através de um amigo comum e sentia que devia satisfações à mãe de Marcos. Sentados na pequena sala da casa simples no setor Campinas, ele contou tudo o que sabia.
Dona Conceição, seu Marcos era um rapaz especial. Nos últimos dias antes do desaparecimento, ele falava muito sobre os camponeses da região. Dizia que eles eram pessoas simples, que só queriam viver em paz, relatou Antônio, mexendo nervosamente em seu boné militar. Uma vez ele me disse, Antônio, às vezes eu me pergunto se estamos lutando contra as pessoas certas.
Conceição ficou em silêncio por um longo tempo, processando aquelas palavras. finalmente perguntou: “Você acha que ele tentou ajudar alguém?” “Eu acho que seu filho tinha um coração muito grande para uma guerra”, respondeu Antônio. Mas talvez tenha descoberto coisas que não deveria. Durante os anos seguintes, Conceição desenvolveu uma rotina obsessiva.
Todas as manhãs, depois da missa das 7, passava na agência dos Correios para verificar se havia chegado alguma correspondência militar. O funcionário, seu Mário, já sabia do caso e sempre balançava a cabeça negativamente antes mesmo de ela perguntar. Em 1975, uma carta diferente chegou. Era de um homem que se identificava apenas como José, dizendo ser um ex-morador da região do Araguaia.
A caligrafia era irregular de alguém claramente pouco acostumado a escrever: “Senhora mãe do soldado Marcos? Eu conheci seu filho. Ele era diferente dos outros. Ajudava as famílias quando podia. Não sei o que aconteceu com ele, mas sei que não era um homem mau. Um dia, quando essa guerra acabar, eu conto mais.
Por enquanto, é perigoso falar. Que Deus a console. Conceição guardou aquela carta como se fosse uma relíquia sagrada. Era a primeira vez em três anos que alguém confirmava que seu filho havia sido visto com vida na região, mas quando tentou responder através dos Correios, utilizando o endereço remetente, a carta voltou com o carimbo, destinatário desconhecido.
Em 1978, após a primeira lei de anistia, Conceição decidiu viajar para Brasília e procurar pessoalmente os arquivos militares. com suas economias de costureira, pagou a passagem de ônibus e se hospedou na casa de uma prima. Durante uma semana, percorreu corredores de ministérios e quartéis, sempre com uma pasta contendo as cartas de Marcos e uma foto dele de uniforme.
“Minha senhora, esses arquivos são confidenciais”, explicou-lhe um oficial na Secretaria de Guerra. “Mas posso lhe garantir que se houver qualquer novidade sobre seu filho, a senhora será a primeira a saber”. Era sempre a mesma resposta, sempre a mesma promessa vazia. De volta à Goiânia, Conceição encontrou consolo em um grupo de mães que se reunia mensalmente na igreja de São José.
Eram mulheres que haviam perdido filhos durante os anos de chumbo. Algumas sabiam onde estavam enterrados. Outras apenas guardavam a esperança de um dia receber notícias. A pior coisa não é a morte, dizia a dona Aparecida, que perdera o filho em São Paulo durante uma manifestação estudantil. A pior coisa é não saber, é acordar todos os dias pensando que talvez hoje seja o dia em que ele volta.
Conceição compreendia perfeitamente aquela dor. Durante quase 10 anos, continuou escrevendo cartas, fazendo novenas e mantendo o quarto de Marcos exatamente como ele havia deixado, com seus livros de história, suas roupas dobradas e na cabeceira da cama, a foto dele recebendo o certificado de conclusão do serviço militar, uma cerimônia que nunca aconteceu.
Em 1981, aos 51 anos, Conceição começou a sentir os primeiros sintomas de uma doença que os médicos não conseguiam diagnosticar com precisão. Fraqueza nas pernas, dores de cabeça constantes, uma fadiga que parecia vir da alma. Ela sabia, com a intuição das mães, que estava adoecendo de saudade.

“Meu corpo está cansado de esperar”, disse ao padre Joaquim numa dessas conversas que se tornaram mais frequentes, mas meu coração não consegue desistir. Região de Marabá, Pará. 15 de agosto de 2010. O cabo Roberto Silva nunca imaginou que aquela missão de rotina mudaria sua visão sobre os mistérios da guerrilha do Araguaia. Aos 28 anos, integrava uma equipe militar especializada em buscas de desaparecidos políticos, trabalho que se intensificara após a criação da Comissão Nacional da Verdade e a pressão crescente de familiares por respostas. Temos
coordenadas de três pontos, onde, segundo ex-guerrilheiros, podem haver ossadas ou pertences”, explicara o major Ferreira durante o briefing matinal. É trabalho de formiga, mas cada objeto encontrado pode significar o fim da angústia de uma família. A equipe de oito homens partiu numa manhã sem nuvens, carregando equipamentos de escavação, detectores de metal e GPS militar.
O primeiro ponto de busca ficava a 6 km da antiga base militar, numa região que os mapas de 1972 identificavam como zona de operações especiais. Durante três dias escavaram meticulosamente o terreno indicado pelos informantes. Encontraram apenas fragmentos de metal enferrujado e algumas munições vazias, vestígios comuns em áreas de conflito, mas nada que pudesse identificar pessoas específicas.
O segundo ponto revelou-se mais promissor, localizado numa pequena clareira cercada por árvores antigas, mostrava sinais de que havia sido usado como acampamento temporário décadas antes. Um detector de metal acusou presenças metálicas enterradas a cerca de meio de profundidade. “Aqui tem alguma coisa”, anunciou o soldado Pereira, marcando o local com uma estaca colorida. O sinal é forte e consistente.
A escavação começou com cuidado extremo. A cada camada de terra removida, os homens interrompiam o trabalho para fotografar e catalogar o que encontravam. Aos poucos, uma história enterrada começou a emergir. Primeiro apareceu um pedaço de metal circular, um relógio de pulso militar com a correia de couro completamente deteriorada.
O mostrador estava rachado, mas ainda era possível ler os números e ver que os ponteiros haviam parado às 2:15. No verso gravado em letras pequenas estava um nome M R Cunha. Samajor, o senhor precisa ver isso chamou Roberto, limpando cuidadosamente o relógio com um pincel. Temos um nome. Ferreira aproximou-se e examinou o objeto com atenção.
Imediatamente pediu que consultassem a lista de militares desaparecidos durante a guerrilha do Araguaia. O nome Marcos Ribeiro da Cunha aparecia na página 17 do documento oficial com a observação Desertor presumido. Desaparecido em outubro de 1972. A escavação continuou com ainda mais cuidado. 20 cm abaixo do relógio encontraram fragmentos de tecido verde oliva, restos de um uniforme militar que o tempo e a humidade haviam reduzido a pequenos pedaços junto aos fragmentos.
Algumas peças metálicas que pareciam ser botões e um distintivo militar corroído, mas ainda identificável. O achado mais intrigante, porém, estava no fundo da pequena cova improvisada. Um caderno encapado com plástico grosso, do tipo usado para proteger documentos importantes. O plástico havia resistido parcialmente à ação do tempo, preservando algumas páginas do interior.
“Isso aqui foi enterrado de propósito”, observou o Major Ferreira, examinando a forma como os objetos estavam dispostos. Não é acúmulo casual. Alguém fez questão de preservar essas coisas. De volta ao acampamento base, a equipe abriu cuidadosamente o caderno sob uma lona estendida para protegê-lo da umidade.
As primeiras páginas estavam completamente deterioradas, transformadas numa massa escura e ilegível, mas a partir da página 20, algumas anotações podiam ser decifradas. A caligrafia era juvenil, mas firme. Datadas de setembro e outubro de 1972, as anotações começavam como um diário militar comum.
Horários de patrulha, descrições do terreno, observações sobre o clima e a vegetação. Gradualmente, porém, o tom mudava. 15 de setembro, família de camponeses pediu ajuda para encontrar uma cabra perdida. Ajudamos durante a folga. São pessoas simples que só querem viver em paz. Por que estamos lutando contra eles? 22 de setembro.
Sargento Lima disse que os comunistas são inimigos do Brasil, mas conversei com o velho Manuel na beira do rio. Ele mal sabe ler. Como pode ser inimigo de alguém? 2 de outubro. Tenho dúvidas sobre tudo isso. Minha mãe sempre disse que soldado defende os fracos. Mas quem são os fracos aqui? Os guerrilheiros que lutam por terra ou os camponeses que só querem plantar.
As últimas entradas legíveis eram mais perturbadoras. 10 de outubro. Descobri algo que não devia. Conversa entre oficiais sobre limpeza da área. Não sei o que significa, mas não gostei do tom. 18 de outubro. Vou tentar ajudar algumas famílias a sair da região antes que seja tarde. Se algo acontecer comigo, que alguém conte a verdade para minha mãe.
A última entrada era apenas um desenho, um mapa rudimentar mostrando uma trilha que levava a uma construção marcada com um X. Embaixo uma única palavra, segredo. O Major Ferreira fotografou cada página preservada e enviou imediatamente um relatório para Brasília. Pela primeira vez em quase quatro décadas, havia evidências concretas sobre o destino do soldado Marcos Ribeiro da Cunha.
E essas evidências sugeriam uma história muito diferente da versão oficial. “Esse rapaz não era desertor”, murmurou Roberto, guardando cuidadosamente o caderno numa caixa lacrada. Ele era alguém que descobriu algo que não deveria descobrir. Brasília, 22 de setembro de 2010. O coronel reformado Antônio Moreira, aos 78 anos, não esperava ser convocado novamente a falar sobre a guerrilha do Araguaia.
Havia passado os últimos 10 anos de aposentadoria cuidando de seu sítio em Planaltina, tentando esquecer os fantasmas de uma guerra que nunca deveria ter acontecido. Quando recebeu a ligação do Major Ferreira, comunicando sobre o achado dos pertences de Marcos Ribeiro da Cunha, Moreira permaneceu em silêncio por longos segundos.
Depois, com a voz cansada, disse: “Venham aqui em casa, é hora de vocês saberem a verdade.” A reunião aconteceu na varanda do sítio, com vista para o cerrado, que se estendia até o horizonte. Presentes estavam o major Ferreira, o cabo Roberto e um representante da Comissão Nacional da Verdade. Moreira serviu café e, antes de começar a falar, mostrou uma pasta amarelada que guardava há quase 40 anos.
Marcos Ribeiro da Cunha não era desertor”, começou ele, a voz firme, apesar da idade. Era um menino corajoso que descobriu algo que poderia ter mudado o rumo daquela operação. E eu fui o responsável por silenciar a verdade. A pasta continha documentos que nunca haviam sido incluídos nos relatórios oficiais, cartas interceptadas, depoimentos de camponeses e, principalmente, um relatório detalhado sobre as últimas semanas de Marcos na região.
Três dias antes do desaparecimento, Marcos procurou o sargento Lima com uma denúncia grave, continuou Moreira, folando os papéis com cuidado. Ele havia descoberto que alguns oficiais estavam executando camponeses suspeitos de colaborar com os guerrilheiros, mesmo sem provas concretas. Famílias inteiras estavam sendo eliminadas e seus corpos jogados em covas clandestinas.
O major Ferreira interrompeu: “E por que isso não foi investigado na época? Moreira respirou fundo antes de responder: “Porque eu recebi ordens diretas de Brasília para encerrar qualquer investigação sobre o caso. A versão oficial deveria ser deserção, ponto final.” Marcos havia se tornado um problema para a operação. Os documentos revelavam uma história completamente diferente da que constava nos arquivos militares.
Nas semanas anteriores ao desaparecimento, Marcos havia se tornado uma espécie de elo entre os militares e as comunidades locais. Falava com os camponeses, ganhava sua confiança e, gradualmente descobria informações que colocavam em cheque a condução da operação militar. Ele era ingênuo, admitiu Moreira. Acreditava que poderia mudar as coisas de dentro para fora.
Não entendia que numa guerra a verdade é sempre a primeira vítima. Uma carta encontrada na pasta, nunca enviada, era dirigida à Conceição Ribeiro da Cunha, datada de 25 de outubro de 1972, cco dias após o desaparecimento de Marcos, tinha a assinatura de Moreira, senhora Conceição, é com profundo pesar que informo sobre o destino de seu filho. O soldado Marcos não desertou.
Ele foi eliminado por tentar proteger famílias inocentes de ações irregulares cometidas por alguns membros de nossa tropa. Infelizmente, não posso tornar essa informação pública sem comprometer toda a operação militar na região. Peço perdão por essa covardia, mas espero que um dia a senhora compreenda as circunstâncias que me obrigam ao silêncio. A carta nunca foi enviada.
Moreira aguardou durante quase quatro décadas, carregando o peso da culpa e da omissão. “Ai, por que o senhor está contando isso agora?”, perguntou Roberto. “Porque estou velho e cansado de carregar segredos,”, respondeu Moreira. E porque a mãe daquele menino merece saber que criou um herói, não um desertor.
Os documentos revelaram também o que havia acontecido nos dias seguintes ao desaparecimento. Marcos havia sido morto por dois soldados que agiam sob ordens de um oficial corrupto envolvido em execuções sumárias de camponeses. Seu corpo foi enterrado em local desconhecido e seus pertences pessoais foram escondidos pelo sargento Lima, que tentou preservar alguma evidência do que realmente acontecera.
Lima era um homem honrado”, explicou Moreira. Ele enterrou aqueles objetos esperando que num dia alguém pudesse contar a verdade. Morreu em 1985, levando o segredo sobre a localização exata do corpo de Marcos. A investigação que se seguiu confirmou as informações de Moreira. Depoimentos de ex-militares, muitos já idosos, corroboraram a versão de que Marcos havia sido eliminado por tentar denunciar crimes de guerra.
Três ex-soldados admitiram ter conhecimento dos fatos, mas afirmaram que temiam represálias caso falassem na época. Em dezembro de 2010, a Comissão Nacional da Verdade emitiu um relatório oficial reconhecendo Marcos Ribeiro da Cunha como vítima da repressão militar e não como desertor. Seu nome foi incluído na lista de mortos e desaparecidos políticos, garantindo à família o direito à indenização e reparação histórica.
Conceição Ribeiro da Cunha havia falecido em 1998 aos 68 anos, sem nunca saber a verdade sobre o destino do filho. Mas sua sobrinha, Maria Conceição, esteve presente na cerimônia oficial de retratação em Brasília. Minha tia sempre dizia que Marcos não era covarde”, declarou ela aos jornalistas presentes. “Ela sabia, com o coração de mãe, que ele havia morrido defendendo alguma coisa importante.
Agora sabemos que ela estava certa. O relógio encontrado na mata com os ponteiros parados às 2:15 foi entregue à família. Maria Conceição decidiu doá-lo ao Museu da Memória da Resistência em São Paulo, onde permanece exposto junto com a história de tantos outros jovens que morreram tentando fazer a diferença em tempos sombrios.
A última anotação no caderno de Marcos. A palavra segredo embaixo do mapa rudimentar permanece um mistério. Apesar de várias expedições posteriores à região indicada no desenho, nada mais foi encontrado. Talvez o segredo que Marcos tentou preservar tenha-se perdido para sempre nas profundezas da floresta amazônica.
ou talvez ainda esteja lá enterrado esperando que alguém tenha a coragem de desenterrá-lo. O coronel Moreira morreu em 2013, 3 anos após revelar a verdade sobre Marcos. Em seu testamento, deixou uma cópia de todos os documentos relacionados ao caso para o Arquivo Nacional, garantindo que a história nunca mais pudesse ser silenciada.
“Há muitos outros marcos enterrados na nossa história”, escreveu ele numa carta póstuma. Jovens que morreram não por covardia, mas por excesso de coragem. É nossa obrigação garantir que suas histórias sejam contadas para que as próximas gerações compreendam o verdadeiro preço da liberdade. Na pequena cidade de Goiânia, a casa onde Conceição esperou por décadas o retorno do filho foi transformada em um centro de memória.
A parede da sala, uma placa de bronze traz os dizeres em memória do soldado Marcos Ribeiro da Cunha, 1953, que morreu defendendo os indefesos e foi postumamente reconhecido como herói nacional. Sua mãe, Conceição, esperou por 26 anos para saber a verdade, que sua espera não tenha sido em vão. A história de Marcos tornou-se um símbolo das feridas ainda abertas, deixadas pelos anos de chumbo no Brasil.
Uma lembrança de que, por trás dos números e estatísticas oficiais existiam pessoas reais, jovens com sonhos, famílias com esperanças e verdades que permaneceram enterradas por décadas. Mas também é a prova de que a verdade, por mais profundamente enterrada que esteja, sempre encontra uma forma de vir à superfície.
E quando isso acontece, ela tem o poder de transformar desertores em heróis e segredos em memória histórica. M.