Prefeito de cidade goiana desaparece em 1998 18 anos depois, caixa d’água desativada traz a verdade
A cidade bebe do que não vê. Esta frase sussurrada em tom de piada por décadas nos botecos de São Domingos de Goiás ganharia significado sinistro 18 anos depois. Mas em março de 1998, quando o ex-prefeito Horácio Tavares desapareceu, ninguém ainda compreendia completamente o que aquelas palavras carregariam.
São Domingos de Goiás era e continua sendo uma dessas cidades que aparecem no mapa mais por obrigação cartográfica do que por relevância. 11.000 1 habitantes, economia baseada em agricultura de subsistência e comércio local, uma praça central com coreto descascado e uma igreja matriz cujos sinos tocavam pontualmente às 6 da manhã e às 6 da tarde.
Ali todo mundo conhecia todo mundo. Segredos duravam no máximo uma semana e poder político se concentrava em três ou quatro famílias que se alternavam na prefeitura desde os anos 70. Horácio Tavares governara a cidade entre 1993 e 1996. Homem de 52 anos, advogado formado em Goiânia, casado com Celina Tavares e pai de dois filhos já adultos.
durante seu mandato, prometera modernização, asfalto para ruas principais, reforma da escola municipal, construção de um novo reservatório de água para acabar com os racionamentos que atormentavam a população todo verão. As obras começaram com pompa em 1995, fotografadas para jornais regionais, mas terminaram as pressas meses antes do fim do mandato numa correria que gerou comentários.
Março de 1998, Horácio não era mais prefeito. Havia perdido a reeleição em 1996 para o rival político Valdeci Cunha, mas mantinha a influência local. advogava para pequenos produtores rurais e circulava pela cidade como quem ainda pertencia ao poder, cumprimentando todos, parando para café nos bares da praça.
Na manhã do dia 12, quinta-feira, ele saiu de casa por volta das 10 horas, dirigindo o seu Chevrolet Monza Cinza, placa de final oito, usando camisa social azul e calça jeans. Disse à esposa Celina que ia até o campo de obras do novo reservatório. Precisava ver algo sobre a documentação final da construção. Volto pro almoço. Foram suas últimas palavras.
Celina ainda viu o carro descer à rua de terra, levantar poeira vermelha característica daquela região, dobrar na esquina e desaparecer. Meio-dia chegou, depois 1 da tarde, duas, três. Celina ligou para conhecidos, para o escritório de advocacia, para a prefeitura. Ninguém havia visto o Horácio desde amanhã. Às 6 da tarde, com o sol já baixo no horizonte, Celina registrou o boletim de ocorrência.
O delegado Cloves Mendes, homem de 60 anos que conhecia Horácio desde a infância, não demonstrou grande preocupação. Deve ter ido resolver alguma coisa em Goiânia e esqueceu de avisar. Amanhã aparece, mas Horácio não apareceu no dia seguinte, nem no outro, nem na semana seguinte. Buscas foram organizadas. O Monza cinza foi encontrado três dias depois, abandonado numa estrada vicinal a 8 km da cidade, portas abertas, chave na ignição, tanque pela metade.
Dentro do porta-luvas, apenas documentos do veículo e um maço de cigarros Derby, marca que Horácio fumava. Nenhum sinal de violência, nenhuma pista óbvia. A investigação que se seguiu foi, para dizer pouco, superficial. Delegado Cloves ouviu meia dúzia de pessoas, fez anotações em caderno surrado, concluiu após duas semanas. Desaparecimento voluntário.
Sujeito deve ter querido fugir de alguma coisa. Quando, pressionado por Celina sobre o que exatamente Horácio estaria fugindo, o delegado deu de ombros. Coisa de político, dona Celina. A senhora sabe como é, mas São Domingos sabia, ou achava que sabia mais do que o delegado admitia.
Os boatos começaram a circular como erva daninha. Horácio teria desviado verbas da obra do reservatório e fugido com dinheiro. Horácio estaria envolvido em esquema com políticos de Brasília e precisar assumir antes de virar testemunha. Horácio teria sido ameaçado por fazendeiros e escolhera desaparecer. Cada versão tinha seus defensores, seus detalhes acrescentados, suas certezas proclamadas em voz baixa.
Os anos seguintes ao desaparecimento de Horácio Tavares foram marcados pelo silêncio progressivo. Celina continuou morando na mesma casa, mas envelheceu 10 anos em dois. Os filhos, já estabelecidos em Goiânia e Brasília, tentaram convencê-la a vender tudo e mudar-se com um deles, mas ela recusava. E se ele voltar, precisa ter alguém aqui esperando. Mas Horácio nunca voltou.
São Domingos seguiu sua rotina de cidade pequena. Festas do padroeiro, feiras aos sábados, política municipal que alternava entre os mesmos nomes de sempre. Valdeci Cunha, o prefeito que sucedera Horácio, governou até 2000 e depois foi substituído por outro político local. A caixa de água construída durante a gestão de Horácio funcionava perfeitamente, abastecendo a cidade sem falhas.
Poucos se lembravam das circunstâncias apressadas do fim da obra. Marina Campos, filha de comerciantes locais, cresceu ouvindo a história do prefeito desaparecido. Tinha 11 anos em 1998 e lembrava-se vagamente de Horácio, homem alto, voz grave, que comprava balas na loja dos pais e sempre perguntava sobre a escola.
Anos depois, formada em jornalismo em Goiânia, trabalhou para jornais regionais cobrindo política, economia e casos policiais, mas nunca esqueceu completamente o mistério que assombrara sua cidade natal. Março de 2016. 18 anos haviam passado. A velha caixa de água municipal começou a apresentar rachaduras estruturais, fissuras nas paredes de concreto, infiltrações que comprometiam a qualidade da água.
Engenheiros contratados pela prefeitura analisaram e deram o veredo. Demolição necessária. Seria construído novo reservatório no mesmo local, maior e mais moderno. A demolição começou numa segunda-feira de manhã. Operários da construtora Rocha em Filho, vencedora da licitação, posicionaram retroescavadeira e começaram a derrubar as paredes externas.
Toneladas de concreto caíam, levantando nuvens de poeira que cobriam tudo num raio de 50 m. Foi assim, entre os escombros do terceiro dia de trabalho que Josué Almeida, operário de 28 anos, encontrou algo estranho. “Chefe, tem uma coisa aqui”, gritou ele, desligando a máquina. No meio do entulho, parcialmente exposto pela queda de uma parede interna, havia objeto metálico incrustado no concreto.
Parecia cofre pequeno, coberto de ferrugem alaranjada e camadas de material aderido. O engenheiro responsável, Tadeu Brandão, aproximou-se para examinar. Isso tava dentro da estrutura. Alguém lacrou isso quando construíram. decidiram extrair o cofre cuidadosamente. Levou três horas de trabalho com ferramentas manuais para libertá-lo completamente do concreto.
O objeto media cerca de 40 cm de largura por 30 de altura, pesava aproximadamente 15 kg e estava fechado com cadeado enferrujado que cedeu facilmente a uma pancada de marreta. Dentro do cofre, protegidos por saco plástico que sobrevivera 18 anos, havia documentos da prefeitura datados de 1997, uma fita cassete com etiqueta manuscrita dizendo HT, março 98 e uma carta de duas páginas escrita em papel timbrado da prefeitura municipal.
A assinatura ao final, tremida mais legível. Horácio Tavares. Tadeu, que conhecia a história do ex-prefeito desaparecido, sentiu arrepio percorrer a espinha. “Preciso levar isso paraa polícia”, murmurou. Mas antes fotografou tudo com o celular, instinto jornalístico amador de quem vive em cidade pequena, onde qualquer novidade vira manchete.

A notícia do cofre encontrado na caixa de água se espalhou por São Domingos com velocidade de fogo em capim seco. Tadeu Brandão entregou o material à delegacia, mas antes já circulavam pelo WhatsApp, grupos de família, de comércio, de igreja. Em 48 horas, a história chegou a Goiânia, onde Marina Campos trabalhava como repórter freelancer para Portal de Notícias Regional.
Marina viu a foto da carta enquanto tomava café numa manhã de quinta-feira. Reconheceu imediatamente a assinatura. Havia visto documentos antigos de Horácio em arquivos que os pais guardavam. sentiu o estômago revirar, ligou para a mãe em São Domingos, confirmou a autenticidade do achado e, duas horas depois estava na estrada dirigindo os 200 km que separavam Goiânia de sua cidade natal.
Chegou ao entardecer, foi direto à delegacia. O delegado atual, Marcelo Rezende, homem de 40 e poucos anos que assumira o posto recentemente, recebeu-a com mistura de cautela e curiosidade. Não posso deixar você ver os documentos originais são evidência, mas posso confirmar. É carta de Horácio Tavares. Datada de 11 de março de 1998, um dia antes do desaparecimento.
Marina negociou. Prometeu fazer matéria responsável, sem sensacionalismo, desde que pudesse ouvir pelo menos trechos da fita Kassete. Rezende hesitou, mas acabou concordando. Afinal, caso estava arquivado há 18 anos, nova atenção poderia trazer pistas. Levaram Marina para a sala reservada, colocaram fita num gravador emprestado de rádio local e apertaram play estática primeiro.
Depois voz masculina reconhecível por quem conhecera Horácio, mas diferente, trêmula, carregada de medo. Hoje é 11 de março de 1998, 10 da noite. Estou gravando isto porque porque preciso deixar registro. Se algo me acontecer, alguém precisa saber. Descobri coisas sobre a obra do reservatório, coisas que vão além de desvio de verba.
A pessoas envolvidas, nomes grandes, gente de Brasília. Eles sabem que eu sei. Recebi ameaças ontem, ligação anônima dizendo para esquecer o que vi ou minha família pagaria. Não posso ir pra polícia. Não sei em quem confiar aqui. Vou tentar contato com o Ministério Público Federal amanhã. Se algo der errado, procurem no reservatório.
O que guardamos para proteger acabou nos afundando. A gravação continuava com ruído de água correndo ao fundo, como se Horácio estivesse próximo à torneira aberta ou chuva caindo. Depois, quase sussurrado, a cidade bebe do que não vê. E então, silêncio. Marina sentiu arrepio. Perguntou sobre a carta. Rezende permitiu que lesse cópia digitalizada.
O texto manuscrito em letra apressada dizia: “Se alguém encontrar isto, saiba que tentei fazer o certo.” Durante a construção do reservatório, descobri que parte do material usado era impróprio, cimento adulterado, ferragens fora do padrão. A empresa construtora tinha conexões políticas fortes. Quando questionei, fui ameaçado.
Mas pior que isso, descobri que o desvio financiava campanha de deputado federal. Tenho documentos provando. Guardei cópias em local seguro, mas agora sei que me vigiam. Se desaparecer, não foi acidente, foi silenciamento. Horácio Tavares. Marina passou os dias seguintes mergulhada em investigação. Entrevistou ex-funcionários da prefeitura, ex-vereadores, moradores antigos.
Um nome se repetia. Geraldo Peixoto, engenheiro responsável pela obra do reservatório, encontrou-o numa chácara nos arredores da cidade, homem de 70 anos aposentado, que inicialmente negou-se a falar, mas Marina insistiu, apelou para a memória de Horácio, prometeu descrição. Geraldo finalmente cedeu.
Sentados na varanda de sua casa, ele acendeu cigarro com mãos trêmulas e começou a falar. A obra foi um inferno, pressão política de todo lado. A construtora vencedora da licitação tinha ligações com gente poderosa em Goiânia e Brasília. No meio da construção, descobrimos que o cimento fornecido não correspondia às especificações. Horácio quis interromper tudo.
Denunciar foi impedido. Disseram que se ele abrisse a boca perderia tudo. Cargo, reputação, talvez mais. E o que aconteceu? Pressionou Marina. Geraldo tragou fundo. Na madrugada de 12 de março, recebi ligação mandando ir ao canteiro de obras às pressas. Quando cheguei, havia movimento estranho. Caminhões, homens que não conhecia mandaram eu voltar para casa e esquecer o que vi.
No dia seguinte, Horácio sumiu e nunca mais falei sobre isso. Até hoje, o depoimento de Geraldo Peixoto abriu com porta que Marina sabia ser perigosa. Se realmente houvera movimentação suspeita naquela madrugada de 12 de março de 1998, e se Horácio desaparecera horas depois, a conexão era impossível de ignorar.
Mas provar algo 18 anos depois, com testemunhas envelhecidas e memórias fragmentadas, era como tentar reconstruir espelho quebrado. As peças existiam, mas jamais se encaixariam perfeitamente. Marina publicou primeira matéria no portal para o qual trabalhava. Cofre encontrado em caixa de água traz carta de ex-prefeito desaparecido há 18 anos.
A repercussão foi imediata. compartilhamentos, comentários, teorias conspiratórias. Emissoras de TV de Goiânia enviaram equipes para São Domingos. O caso que a cidade enterrara sob rotina e esquecimento ressurgia como fantasma inconveniente. O Ministério Público Estadual decidiu reabrir investigação. Promotor Fábio Augusto, jovem de 36 anos recém designado para a comarca, assumiu o caso com seriedade que delegado Cloves jamais demonstrara em 1998.
requisitou documentos antigos, analisou o fita cassete, solicitou perícia forense no cofre e nos papéis encontrados. A perícia confirmou: “O cofre fora embutido na estrutura da caixa de água durante a construção ou imediatamente após. Análise da ferrugem e do concreto aderido indicava que estivera ali por pelo menos 15 anos, compatível com 1998.
A carta era autêntica, escrita por Horácio Tavares. A fita cassete, embora deteriorada, foi restaurada digitalmente, revelando trechos antes inaudíveis. Num desses trechos, após menção ao deputado federal, Horácio citava nome Ricardo Viana. Ele é o elo. Coordenou o desvio. Usou dinheiro para a campanha de 1998.
Tenho recibos falsos. Notas fiscais adulteradas, tudo guardado. Marina pesquisou Ricardo Viana fora deputado federal entre 1995 e 2003, caçado posteriormente por quebra de decoro parlamentar em caso não relacionado. Morrera em 2009, vítima de infarto, mas havia outros nomes nos documentos encontrados no cofre.
Contratos assinados por empresa de construção que não existia mais. Construtora alvorada Lida, com sede registrada em Goiânia, mas sem funcionamento atual. Marina rastreou ex-sócios através de registros da Junta Comercial. Um deles, Antônio Borges, ainda vivia em Aparecida de Goiânia. Conseguiu contato telefônico. Antônio, inicialmente reticente, concordou em encontro reservado.
Sentaram-se num café às margens da BR153, longe de olhos curiosos. Antônio tinha 68 anos, aparência cansada de quem carrega segredos pesados. “Eu saí da alvorada em 1997”, começou ele, mexendo café que não bebia. Percebi que havia coisas erradas. Cimento que comprávamos não era o que entregávamos nas obras.
Notas fiscais que eu nunca assinei apareciam nos livros contábeis. Quando questionei, me ofereceram dinheiro para calar a boca. Recusei. Saí da sociedade. E Horácio Tavares? Perguntou Marina. Antônio suspirou. Horácio era honesto demais para a política. Quando descobriu o esquema, quis denunciar, mas mexeu com gente grande.
Ricardo Viana tinha conexões em Brasília, proteção em Goiânia. Naquela época, denunciar político poderoso em cidade pequena era sentença. Horácio devia saber disso, mas foi em frente mesmo assim. Marina pressionou. Você acha que ele foi morto? Antônio olhou diretamente nos olhos dela. Eu não acho. Eu sei. Ninguém desaparece daquele jeito, deixando o carro na estrada sem levar nada.
Foi eliminado e a cidade toda fingiu não ver porque era mais fácil acreditar que ele fugiu. A reportagem de Marina ganhou dimensão nacional. Portal G1 republicou. Programas de rádio comentaram. até documentarista de São Paulo, entrou em contato oferecendo produzir episódio especial. Mas o que realmente mudou o rumo da investigação foi testemunho inesperado que surgiu três semanas após a primeira matéria.
O testemunho chegou numa manhã de abril, três semanas após Marina publicar a série de reportagens sobre Horácio Tavares. Era mensagem anônima enviada através do formulário de contato do portal de notícias. Eu sei o que aconteceu naquela madrugada de março de 1998. Preciso falar pessoalmente, mas não posso me identificar ainda.
Estou com medo. Marina marcou o encontro em local neutro, praça, em Goiânia, longe de São Domingos. Quem apareceu foi homem de 50 e poucos anos, magro, olhar nervoso. Identificou-se apenas como Roberto, disse ter sido funcionário da construtora alvorada em 1998. operário de obras. “Eu estava lá naquela noite”, começou ele, acendendo cigarro com mãos tremendo.
Recebi ligação às 2as da manhã, mandando ir até o canteiro de obras do reservatório. Quando cheguei, tinha movimento de gente importante, carros sem placa, e vi quando trouxeram o corpo. Marina sentiu o sangue gelar. Corpo de quem? do prefeito Horácio Tavares. Estava morto. Disseram que ele teve acidente, que caiu dentro da estrutura em construção, mas eu vi marcas no pescoço, sangue.
Aquilo não era acidente. Mandaram a gente concretar tudo naquela mesma madrugada, sem perguntas. Pagaram extra, ameaçaram quem falasse. Fiquei calado 18 anos, mas depois de ver sua reportagem, não consigo mais dormir. O depoimento de Roberto foi encaminhado ao Ministério Público. Nova perícia foi ordenada. Desta vez, no local onde a antiga caixa de água estava sendo substituída, escavações cuidadosas começaram e em 28 de abril de 2016, às 16:30 encontraram restos mortais humanos enterrados sobreto, exatamente onde ficava a base estrutural
do antigo reservatório. Análise de DNA confirmou: “E restos de Horácio Tavares. Aldo pericial identificou fraturas no crânio compatíveis com traumatismo, vértebras cervicais deslocadas, sugerindo estrangulamento. A causa da morte foi classificada como homicídio. 18 anos depois, finalmente havia corpo, havia prova, havia crime.
Mas identificar assassinos 18 anos depois é exercício de justiça imperfeita. Ricardo Viana estava morto. A construtora alvorada não existia mais. Muitos dos envolvidos já haviam falecido ou desaparecido. Apenas três pessoas foram formalmente indiciadas, dois ex-seguranças da construtora, agora idosos, e um ex-vereador, que teria participado do acobertamento.
Os julgamentos se arrastaram por anos, resultando em condenações parciais e penas brandas devido ao tempo decorrido. Tavares, viúva de Horácio, finalmente pode enterrar o marido num túmulo de verdade no cemitério municipal de São Domingos. A cerimônia reuniu centenas de pessoas, muitas que na época do desaparecimento preferiram silenciar, agora chorando culpa e remorço.
“A cidade sempre soube”, disse dona Cida, da venda em entrevista para documentário que Marina produziu posteriormente. Mas saber e falar são coisas diferentes. Aqui a gente aprendeu a engolir verdades com água. O novo reservatório foi construído no mesmo local. Ironia que não passou despercebida pelos moradores.
Durante meses após a descoberta, ninguém quis beber água da cidade, preferindo comprar galões. Mas a memória é curta e a rotina volta. Hoje, São Domingos, consome água do novo sistema, sem questionar, como sempre fez. Marina Campos ganhou prêmio de jornalismo investigativo regional pela cobertura do caso, mas diz que o reconhecimento importa do que finalmente ter dado voz a Horácio.
Ele tentou fazer o certo e foi silenciado. 18 anos depois, conseguimos ao menos fazer com que sua história fosse ouvida. A caixa de água antiga foi demolida completamente, seus escombros levados para aterro industrial. Mas moradores mais velhos, aqueles que lembram, dizem que nas madrugadas muito silenciosas ainda se ouve som estranho vindo da direção do novo reservatório, como água correndo em lugar que não deveria, ou passos ecuando em estrutura oca.
Superstição, dizem uns, culpa coletiva, dizem outros. Na lápide de Horácio, Celina mandou gravar frase que ele costumava repetir em vida. A verdade, mesmo enterrada, sempre encontra caminho para a superfície. e embaixo acrescentou, a cidade bebeu do que não viu, mas agora finalmente sabe