MEU PAI ME ABANDONOU AOS 11 ANOS… E NO SEU ENTERRO EM 1981, O QUE UM PADRE ME DISSE MUDOU TUDO

No ano de 1981, quando fui ao funeral do meu pai, no cemitério municipal da Vitória, fui apenas para pôr um ponto final numa história que eu carregava há 12 anos. Não sentia saudade, não queria perdoá-lo, mas naquele cemitério, o padre que tinha ajudado o meu pai nos últimos anos contou-me uma coisa que fez tudo aquilo que eu acreditava sobre ele desmoronar.

E quando a minha família se foi embora e eu Fiquei sozinho diante daquele túmulo, eu vivi algo que vou levar comigo durante o resto da minha vida. O meu nome é Nelson Batista Ramos, tenho 68 anos e esta é a minha história em minutos. No dia em que soube que o meu pai tinha morrido, eu estava em casa num domingo comum, quando o telefone tocou.

Era a minha tia. A voz dela veio calma, quase cuidadosa, como quem escolhe as palavras antes de falar, sabendo que aquele assunto ainda me doía de um forma que nem eu sabia explicar bem. Ela contou que a paróquia que cuidava dele tinha entrado em contacto, avisando que o meu pai tinha falecido dias antes, sozinho nas ruas da Vitória.

Fiquei calado, ouvindo aquilo como se falassem de um estranho. Não senti aquele aperto que esperamos sentir quando perdemos um pai. Senti apenas um vazio seco, sem lágrima, sem susto, quase como se eu já esperasse aquela notícia há anos. 12 anos sem trocar uma palavra com ele. 12 anos sem saber se estava vivo ou morto, sem sequer me importar em saber.

E agora, do nada aquele nome que eu tinha aprendido a não pronunciar mais voltava paraa minha vida. Desta vez só para me avisar que já era tarde demais para qualquer coisa entre nós os dois. A minha tia perguntou se eu queria ir ao enterro. Eu disse que sim, mas não porque sentia a falta dele. Eu queria ver com os meus próprios olhos aquele caixão descer.

Eu precisava daquilo para fechar de vez uma história que já tinha durava demasiado tempo dentro de mim. Uma história que eu carregava desde criança e que só ia acabar quando visse a terra a cobrir aquele homem. No dia seguinte, fui junto com ela e com mais alguns parentes, os poucos que ainda mantinham alguma recordação daquele homem que um dia tinha sido meu pai.

No carro, ninguém falava muito durante o caminho. Cada um parecia transportar um pedaço diferente daquela história. E eu sabia bem que o meu pedaço era o mais pesado de todos. Chegamos ao cemitério municipal da Vitória num dia de sol bem forte, sem uma nuvem no céu inteiro. O calor batia a direito, mas eu quase não não sentia nada daquilo.

O meu corpo estava ali andando entre os túmulos, seguindo a minha tia de perto, mas a minha cabeça parecia flutuar noutro lugar, longe daquele calor, longe daquele chão. Fiquei ao lado da minha tia durante todo o a cerimónia, mas por dentro estava fechado, distante dali. Enquanto os outros emocionavam-se, enxugando os olhos discretamente, apenas observava como se aquilo tudo não tivesse nada a ver comigo, como se eu fosse apenas mais um convidado numa cerimónia estranha.

Além da nossa família, poucas pessoas apareceram. rostos que eu não reconhecia, gente simples de roupa batida que ficou mais afastada, quase em silêncio, respeitando aquele momento sem se misturar connosco. Depois eu vim a saber que eram pessoas ligadas ao trabalho de um padre que ajudava sem-abrigo havia muitos anos.

Gente que se devia ter cruzado com o meu pai em algum momento daquela vida que eu nunca conheci bem. Naquela hora eu apenas reparei que aquele pequeno grupo tornava tudo ainda mais triste de assistir. Um enterro de poucas presenças para um homem que a própria vida já tinha deixado sozinho muito antes daquele dia chegar.

Fiquei a pensar que talvez aquilo dissesse mais sobre ele do que qualquer palavra que alguém pudesse falar ali naquele momento. Eu não me aproximei do caixão em momento algum. Fiquei a alguns passos de distância, olhando de longe para aquela madeira simples, sem flores, sem qualquer enfeite, só o essencial para levar um corpo até ao fundo da terra.

Não foi falta de respeito da minha parte, foi que eu não conseguia aproximar-me mais do que aquilo. Cada passo que imaginava dar na direcção daquele caixão parecia pesar mais do que o habitual, como se o meu corpo já soubesse de alguma coisa que a minha cabeça ainda não tinha percebido direito, como se existisse ali um limite invisível que eu não devia ultrapassar naquele momento tão delicado da minha vida.

Fiquei a pensar que aquilo não era mesmo uma despedida. Para mim, despedida é quando existe alguma ligação que se rompe, algum laço que dói verdadeiramente ao ser cortado. E eu já tinha cortado tudo com o meu pai há 12 anos, sem carta, sem telefonema, sem qualquer tentativa de reaproximação de nenhum dos dois lados. Aquele enterro era apenas o fim formal de um capítulo que, na minha cabeça, já tinha terminado há muito tempo.

Eu só precisava de assistir a aquilo acontecer de verdade, ver com os próprios olhos que não sobrava mais nada para resolver entre nós. Nenhuma dúvida, nenhum assunto pendente entre nós. O padre iniciou a cerimónia com uma voz mansa, falando sobre o perdão, sobre a paz para os que ficam e prós que partem.

Eu ouvia as palavras, mas não entravam bem. Eu abanava a cabeça levemente, só para parecer que estava a acompanhar. Mas por dentro repetia para mim mesmo que perdão era uma palavra fácil de dizer, demasiado difícil de sentir de verdade depois de tudo o que tinha vivido. Os Os funcionários do cemitério começaram a baixar o caixão muito lentamente, com cuidado.

O som das cordas a raspar foi o único ruído que cortava o silêncio daquela manhã toda. Fixei os olhos ali sem conseguir desviar-se enquanto a madeira ia descendo centímetro a centímetro na direção da terra escura e fria. Foi nesse momento que senti o ódio subir dentro de mim com uma força que eu já não esperava sentir mais. Eu achava que tinha guardado aquele sentimento havia tempo, que ele se tinha tornado só uma recordação distante, quase apagada de tão velha.

Mas ali, vendo aquele caixão descer, o ódio voltou inteiro, como se os 12 anos não tivessem passado. Junto com aquilo, veio uma sensação esquisita, fora de lugar naquele momento tão grave e pesado. Senti um frio passar pelo meu corpo e, ao mesmo tempo o ruído ao redor pareceu abafar de repente e os poucos sons que ali existiam pareceram ficar mais baixos, mais afastados, quase apagados por completo.

Eu balancei a cabeça e tentei espantar aquilo, pensando que era só o nervoso do momento, a tensão de estar ali depois de tantos anos sem ver aquele homem de perto. Não dei mais importância na altura em que aconteceu. Achei que o meu corpo estava apenas a reagir à emoção forte, nada mais do que isso. Um estranho jeito de lidar com um dia tão difícil.

Mas foi olhando para aquele caixão a descer que uma memória antiga voltou com força total, sem que eu pedisse, sem aviso nenhum. Não era a primeira vez que eu via um caixão baixar daquela maneira devagar. A outra vez tinham sido muitos anos antes, quando eu era ainda criança, no dia em que enterrámos a minha mãe. Aquela recordação veio como uma onda, cobrindo tudo o que via na minha frente naquele instante.

Por um segundo, eu já não estava ali a assistir ao funeral do meu pai. Eu estava de volta nesse outro dia, muito mais cedo na a minha vida, revivendo um momento que me tinha tentado esquecer durante todos os aqueles anos. Tinha 6 anos quando a minha vida mudou pela primeira vez, de um modo que nunca esqueci. E até hoje, com 68 anos, ainda me lembro dessa noite com uma clareza que me assusta um pouco.

Os meus pais tinham sido convidados para uma festa nesse fim de semana e, como sempre acontecia nestas ocasiões, deixaram-me em casa da minha avó, aqui mesmo em Vitória, para dormir enquanto saíam para se divertir. Foi uma noite comum, sem nada de diferente do costume daquela família simples que a gente era. Eu brinquei com a minha avó até ficar com sono.

Jantei cedo, como fazia sempre, e fui dormir sem imaginar que aquela seria a última noite em que a minha família ainda estava inteira do forma que eu conhecia até aquele momento da minha vida. De madrugada, o telefone tocou lá na sala da minha avó. Um som alto que cortou o silêncio da casa inteira. Acordei assustado com o barulho repentino, ainda meio grogo, e vi a minha avó a correr descalça para atender aquela chamada urgente.

Fiquei parado à porta do quarto, olhando para ela, sem perceber nada do que estava acontecendo. O rosto dela mudou completamente enquanto ouvia a pessoa do outro lado da linha e as mãos dela começaram a tremer, segurando o telefone com força. Foi ali, olhando para o desespero da minha avó naquele corredor escuro, que eu soube que a minha mãe tinha morrido.

Só muito mais tarde, já adulto, e sabendo juntar as peças daquela história, eu compreenderia que o carro que o meu pai conduzia na regresso daquela festa tinha perdido o controlo na pista e batido de frente contra um poste na berma da estrada. Naquela madrugada, só sabia que a minha avó chorava sem parar e que alguma coisa muito grave tinha acontecido com os meus pais.

Nos dias seguintes, ao enterro da a minha mãe, o meu pai, que tinha 36 anos nessa altura, já não era o mesmo homem calmo que eu conhecia até ali. Ele estava ao volante nessa noite e o culpa de ter sobrevivido enquanto ela não sobreviveu, começou a consumi-lo aos poucos como um veneno que mais ninguém na família conseguia ver crescendo por dentro dele dia após dia.

Eu comecei a notar coisas estranhas a acontecer dentro da nossa casa naqueles meses seguintes ao acidente. O meu pai passou a andar pelos quartos durante a madrugada. Eu ouvia os passos dele a irem de um lado para o outro, sem parar, como se ele não conseguisse ficar parado em lugar nenhum daquela casa demasiado vazia agora.

Mas de uma vez acordei a meio da noite e ouvi-o a falar baixinho lá na sala, como se estivesse a falar com alguém presente ali dentro de casa. Eu voltava paraa cama e ficava deitado, prestando atenção com o coração acelerado, mas nunca ouvia qualquer outra voz, respondendo ele naquele quarto que eu sabia muito bem que estava vazio.

Eu era ainda criança pequena e aquilo deixava-me com muito medo. Eu não entendia bem o que estava a acontecer com o meu pai naquela altura. Só sabia que aquelas noites tinham um clima diferente, mais pesado do que o normal, que me fazia puxar o cobertor até ao pescoço e tentar dormir de qualquer maneira, fingindo para mim mesmo que não tinha ouvido nada de estranho vindo lá da sala.

Foi por essa mesma altura que as garrafas começaram a aparecer espalhadas pela casa toda em vários cantos diferentes. No início eram poucas, escondidas em locais que ele pensava que nunca ia encontrar sozinho. Depois foram ficando cada vez mais visíveis em cima da mesa da cozinha, perto da sua cama, como se ele já nem se preocupasse em esconder aquilo de mim naquela altura.

Eu percebia que ele bebia mais justamente depois daquelas noites de conversa sozinho, como se estivesse a tentar calar alguma coisa que só ele conseguia sentir ou escutar naquele silêncio pesado da casa toda. Cada garrafa vazia que encontrava parecia deixá-lo ainda mais fechado no dia seguinte, mais distante de mim e de tudo o que nos rodeia naquela época.

A nossa casa foi mudando aos poucos. tinha menos comida na mesa na hora das refeições, menos conversa entre nós durante o jantar, mais daquele silêncio pesado que parecia ocupar todos os cantos, mesmo os que antes eram cheios de vida e de riso. Eu comecei a evitar estar perto do meu pai. Tinha medo do que podia ouvir vindo do outro lado da parede fina do meu quarto.

Medo daquela voz baixa a falar com o vazio da sala ao lado. Um medo que eu não sabia nomear corretamente. Só sentia apertado dentro do peito toda a santa noite. Houve uma noite em que tudo ficou bem pior do que já tinha sido antes daquilo tudo. Acordei de repente com um grito vindo da sala, um grito de desespero.

Fiquei paralisado na cama com muito medo de sair do quarto para ver o que estava a acontecer. E no dia seguinte ninguém comentou uma palavra sequer sobre aquilo. Mas eu sabia que aquilo tinha acontecido de verdade, porque o susto que senti continuou comigo durante muitos dias, depois daquela noite tão estranha. Pouco tempo depois deste, sem qualquer aviso, a minha tia apareceu em nossa casa numa tarde qualquer de surpresa.

Eu já tinha 11 anos nessa altura e lembro-me bem dela conversando rapidamente com o meu pai na cozinha, os dois com o rosto sério, enquanto eu observava tudo pela porta, sem compreender bem o que estava a ser decidido ali dentro naquele momento. Ela arrumou as minhas roupas numa mala pequena, apressada, sem dar muita explicação sobre o que estava a acontecer comigo naquela tarde.

Meu pai ficou parado à porta de casa, olhando para mim de uma forma que eu nunca tinha visto antes nele. Um olhar que na altura não soube ler direito, mas que nunca mais me saiu da cabeça durante todos estes anos que se passaram. Eu fui-me embora nessa tarde, sem compreender bem o que estava a acontecer comigo e com a minha família inteira.

A partir desse dia, nunca mais mais vi o meu pai pessoalmente, nem tive nenhuma notícia dele durante todos os anos seguintes daquela minha vida. E foi esse mesmo ódio alimentado ano após ano sem parar de crescer, que eu ainda carregava 12 anos depois, parado diante daquele caixão, descendo lentamente no cemitério municipal da Vitória.

E assim a cerimónia foi chegando ao fim aos poucos, e as pessoas que me rodeiam começaram a despedir-se em voz baixa umas das outras, naquele silêncio pesado que ainda pairava no ar daquela manhã. Aos poucos, os poucos familiares que tinham ido comigo foram-se afastando do túmulo, seguindo em direção aos carros estacionados na parte superior do cemitério, deixando para trás aquele túmulo recém fechado que ainda cheirava a terra molhada e fresca daquela hora.

Eu continuava parado no mesmo sítio, ainda preso entre a recordação da minha mãe e o ódio, que não tinha diminuído nem um pouco desde que o caixão do meu pai baixou naquela terra escura e fria. A minha tia veio ter comigo, tocou de leve no o meu braço e disse que ia esperar no carro para me dar um tempo sozinho ali.

Foi então que me apercebi de um homem se aproximando-se lentamente, vindo na minha direção pelo caminho de pedra entre os túmulos silenciosos daquele cemitério enorme. Era o padre que tinha conduzido toda a cerimónia com uma batina simples e uma forma calma de andar entre as sepulturas. Apresentou-se com educação, dizendo o seu próprio nome e explicando que fazia um trabalho há muitos anos, com sem-abrigo ali pela cidade de Vitória inteira, ano após ano.

Contou que visitava abrigos, distribuía alimentos nas noites frias e acompanhava de perto a vida de pessoas que a sociedade preferia não ver nas ruas. gente esquecida por todos ao redor. Foi assim que me contou que tinha Conheci o meu pai precisamente através deste trabalho na cidade toda e que passou a acompanhá-lo de perto nos últimos anos da sua vida, sempre que conseguia encontrá-lo pelas ruas escuras da cidade ou nos abrigos onde às vezes aparecia para passar uma noite dormir longe do frio.

Ouvi tudo aquilo com desconfiança, sem esconder a frieza na minha voz naquele momento tão delicado para mim. Eu disse ao padre que não tinha que me contar nada daquilo, que eu não estava ali para ir buscar desculpas, nem explicações para o que o meu pai tinha feito comigo. O padre não se abalou nem um pouco com a minha resposta seca e direta naquele momento tão tenso entre nós.

Ele só abanou a cabeça devagar, com calma, e disse que não tinha vindo ter comigo para defender ninguém. Disse que só queria contar o que sabia, porque achava que aquilo era importante para mim. mesmo que eu não quisesse ouvir naquele momento tão carregado de dor e desconfiança. Ele contou então uma coisa que eu nunca tinha imaginado durante todos aqueles 12 anos de ódio guardado dentro de mim.

disse que foi o meu pai que pediu para a minha tia vir buscar-me nessa tarde e não um abandono por descuido ou falta de amor, como sempre tinha acreditado firmemente durante todo esse tempo. Fiquei parado, sem compreender bem o que aquilo significava para a minha vida inteira até àquele instante exato, ali de pé, sem reação.

O padre continuou falando, explicando que o meu pai tinha um medo real, um medo que ele carregava desde a morte da minha mãe, de que aquilo que via e ouvia durante as noites acabasse por me alcançar também, do maneira que já o tinha alcançado. Naquele instante, senti como se o chão tivesse baloiçado debaixo dos meus pés, mesmo estando ali parado, completamente imóvel diante daquele homem de batina.

A incerteza que carreguei durante tantos anos de que o meu pai me tinha abandonado pela fraqueza e pela pura cobardia começou a rachar mesmo no meio, sem que eu conseguisse impedir que aquilo de acontecer dentro de mim. O ódio que ali sentia começou a dar lugar a outra coisa bem mais pesada de transportar dentro de mim naquele instante.

Uma culpa profunda foi tomando o lugar daquele sentimento antigo, porque eu percebi naquele momento em que tinha julgado mal o meu pai durante todos aqueles 12 anos, sem nunca dar hipótese nenhuma de ouvir o outro lado da história. Fiquei a pensar em todos aqueles anos que passei, alimentando aquele rancor, construindo uma história na minha cabeça sobre um homem cobarde que só queria fugir da sua própria responsabilidade comigo.

E agora, num único instante ali no cemitério vazio, aquela história inteira estava a desmoronar-se bem na minha frente. O padre percebeu que eu precisava de um tempo sozinho para digerir aquilo tudo que tinha acabado de contar naquele momento. Colocou a mão no meu ombro por um segundo, num gesto simples de conforto, e disse que lamentava eu ter descoberto a verdade só depois que já era tarde demais.

Depois disso, despediu-se com respeito, dizendo que precisava de voltar para o trabalho dele com outras pessoas que também necessitavam de ajuda naquela grande e cheia cidade de gente esquecida. Fiquei ali parado, vendo-o afastar-se devagar entre os túmulos, enquanto o cemitério continuava esvaziando lentamente.

Olhei em volta mais uma vez com calma e vi que não não restava mais ninguém no cemitério além de mim. Só eu, o túmulo recém-fechado e aquele grande silêncio que só existe em lugares assim. Então aproximei-me devagar da sepultura pela primeira vez desde que tinha chegado ali àquela manhã. Até àquele momento, tinha manteve distância do caixão o tempo todo.

A culpa que tinha começado a crescer dentro de mim durante a conversa com o padre foi aumentando ainda mais naquele instante ali sozinho diante daquele túmulo. E junto dela voltou aquele frio fora de sítio que eu tinha sentido ao ver o caixão descer. agora muito mais forte do que antes. Era como se aquela sensação estivesse à espera do momento certo para voltar com tudo de uma só vez.

Já não era só um arrepio passageiro como anteriormente. Era um frio real que entrava pela roupa e chegava até ao pele. E juntamente com o frio veio um silêncio ainda mais completo do que o que já tinha sentido durante a cerimónia inteira mais cedo. Os barulhos da cidade que chegam sempre até aos cemitérios de longe, o som longínquo de carros, de pessoas a conversar pela rua.

Tudo aquilo pareceu desaparecer por completo, de repente e sem aviso. Foi nesse silêncio total que senti que já já não estava sozinho ali naquele lugar. Não tinha barulho de passos, não não tinha nenhum som anunciasse a chegada de ninguém por perto, mas eu sabia da maneira que sabemos quando alguém está olhando para nós que existia uma presença ali bem perto de mim naquele instante.

O meu coração começou a bater mais forte, não de medo da forma que a gente sente, perante um perigo qualquer que ameaça a vida das pessoas, mas de uma forma diferente, quase parecido com expectativa mesmo. Eu fiquei parado, sem mexer nem um pouco, à espera de ver o que ali ia acontecer, enquanto aquela sensação foi ficando cada vez mais clara, mais forte, mais impossível de ignorar por completo.

presença que eu sentia foi ficando mais forte até se tornar algo que já não conseguia chamar de impressão ou de imaginação. Era real ali à minha frente, tão real como o túmulo que tinha diante dos olhos naquele momento. E foi então que vi uma figura perto da sepultura fresca. Era o meu pai. Não da maneira que eu tinha visto pela última vez, mas de um forma que trazia dentro de si o peso de tudo aquilo que tinha vivido durante aqueles anos difíceis.

O olhar dele fixo em mim carregava anos de sofrimento, mas não tinha qualquer cobrança naquele olhar, nenhuma acusação escondida atrás dele. Fiquei paralisado, sem saber o que fazer, sentindo ao mesmo tempo um misto de espanto e de uma estranha calma que não esperava sentir perante algo assim tão fora do normal.

A culpa que já vinha crescendo dentro de mim desde a conversa com o padre chegou ao ponto mais alto naquele instante, olhando para aquela figura à minha frente, sem conseguir desviar o olhar. Eu pensei em tudo o que tinha carregado durante 12 anos inteiros, todo aquele ódio que agora parecia tão pequeno perante a verdade que eu tinha acabado de descobrir sobre ele naquele dia.

Foi então que as palavras vieram sem que eu precisasse pensar muito para as encontrar naquele momento tão importante da minha vida. Eu disse ao meu pai que sentia muito por tê-lo odiado durante tanto tempo, por ter construído uma história errada na a minha cabeça sobre um homem que só tinha tentado proteger-me do jeito que conseguia naquele momento tão difícil da vida dele inteira.

Falei também que eu perdoava-lhe pelo abandono, pelos anos de silêncio entre nós, por tudo aquilo que tinha sofrido, sem compreender o verdadeiro motivo por trás daquilo tudo que aconteceu. A minha voz saiu baixa, mas firme, cada palavra carregando o peso de 12 anos inteiros que eu finalmente estava a conseguir soltar naquele cemitério vazio e silencioso.

Enquanto falava, senti como se cada palavra fosse tirando um pouco daquele peso que carregava desde criança. Um peso que já nem sabia bem o tamanho de tanto tempo que já fazia parte de mim. Era como se aquelas palavras estivessem a libertar os dois ao mesmo tempo, eu e ele juntos. [pigarreia] Depois de tantos anos separados.

A figura do meu pai foi-se dissolvendo devagar, do mesmo modo que se tinha formado, sem pressa nenhuma, sem susto nenhum para nenhum dos dois. E, juntamente com ela, o peso que eu carregava dentro do peito também se foi embora de vez, deixando um vazio diferente daquele que tinha sentido quando cheguei ali àquela manhã.

um vazio mais leve, quase parecido com alívio a sério. O ar voltou a aquecer aos poucos e os barulhos da cidade foram regressando devagar, como se o mundo estivesse ligar novamente depois de ficar em pausa por alguns minutos ali comigo naquele lugar. Fiquei ali mais um pouco, olhando para o túmulo do meu pai, sentindo dentro de mim uma paz que nunca tinha experimentado antes em toda a minha vida adulta até àquele dia tão marcante.

Saí do cemitério municipal da Vitória em silêncio, caminhando muito devagar até ao portão de saída, sentindo o corpo mais leve do que quando tinha entrado ali naquela manhã de sol tão forte. O ódio que eu carregava tinha finalmente ido embora de vez. Depois do enterro, contei à minha tia tudo aquilo que o padre me tinha dito naquele cemitério.

Ela chorou muito ao saber o verdadeiro motivo. Disse que na altura o meu pai só tinha pedido para eu ficar com ela alguns dias, nada mais do que isso, mas que ele acabou por se perder de vez naquele caminho e foi viver para as ruas sem nunca mais conseguir voltar atrás. Hoje, com 68 anos, entendo que ele só me queria proteger daquilo que estava a acontecer consigo mesmo naquelas noites que eu nunca cheguei a perceber bem.

E aquela foi a única forma que ele encontrou de o fazer, mesmo que tenha custou-lhe a vida inteira e 12 anos de um ódio que não precisava de ter transportado dentro de mim. Você acredita que, por vezes, um pai pode tomar uma decisão que parece abandono, mas que na verdade foi uma tentativa desesperada de proteger o próprio filho? E você acredita que algumas pessoas podem voltar depois da morte para dizer que que não conseguiram dizer em vida? Se acredita, deixa aqui nos comentários.

Eu acredito. Conta-nos nos comentários se já viveu algo semelhante, um perdão que veio tarde, um sinal que só fez sentido mais tarde. Sua história pode ser exatamente o que outra pessoa precisa de ler hoje. Que Deus cuide e abençoe a vossa semana.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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