MECÂNICO M4TA A ESPOSA E O PASTOR EM RIBEIRÃO PRETO — O CARRO QUE ELE CONSERTOU A LEVOU AO MOTEL

Terça-feira, 7 da noite, Edmilson Carlos Pereira está debaixo do carro da mulher, elevado na rampa hidráulica da própria oficina, olhando para o conta-quilómetros anotado no caderninho de manutenção que ele próprio mantém há anos, mais 38 km do que devia ter, só nessa semana. A igreja fica a 9 km de casa, ida e volta 18.

Ele confere de novo com o dedo sujo de gordura passando na linha do caderno. O número não bate. Não bate há dois meses. Ele já tinha percebido isso antes, semanas atrás, mas descartou como possível erro de anotação sua mesmo, cansaço de fim de expediente. Desta vez conferiu três vezes seguidas, comparando com a semana anterior e a anterior a essa, todas marcadas nesse mesmo caderninho surrado que carregava desde que abriu a oficina sozinho.

Lá fora, o ruído do trânsito da Avenida O Presidente Vargas chega abafado pela porta de correr da oficina, misturado com o cheiro a óleo queimado, que já faz parte da sua vida há 20 anos. Edmilson fecha o caderno, ainda não sabe para onde vão aqueles 38 km. Só sabe que não é igreja. Fica até ao fim, porque tem um pormenor nesta história que a própria delegada na conferência de imprensa depois da prisão chamaria o tipo de ironia que nós não inventa nem que quisesse.

Não está no crime, está no carro. O bairro da Vila Tibério, em Ribeirão Preto, é um dos mais antigos da cidade, erguido perto da linha férrea, que um dia trouxe os imigrantes que ajudaram a construir aquele pedaço do interior de São Paulo. Casas baixas, muitas com fachada de azulejo português desbotado, ruas estreitas que ainda guardam trilho de comboio enterrado no asfalto.

De manhã cedo, o mercadão da cidade, perto dali, já se enche de gente a comprar fruta e verdura fresca. O cheiro do café coado misturado com o de peixe do dia. É bairro de gente simples que trabalha com as próprias mãos, oficina mecânica em quase toda a quadra, cada uma com o seu dono conhecido de nome.

Foi aí que Edmilson montou a oficina. herdada do próprio pai e construiu juntamente com a sua esposa Rosângela Aparecida Pereira. A vida que os dois levavam havia 18 anos de casados. Na esquina da oficina, um bar simples com mesa de fórmica servia a cerveja gelada ao fim da tarde, ponto de encontro dos mecânicos da região depois do expediente.

Do outro lado da rua, a igreja evangélica funcionava numa construção que antes tinha sido um armazém de secos e molhados, com fachada pintado de branco e um letreiro simples anunciando os horários de culto. Edmilson tinha 42 anos. Mecânico desde os 15, quando começou por ajudar o pai a mudar o óleo aos fins de semana, tinha as mãos permanentemente marcadas de gracha que nem sabão nenhum tirava direito das linhas dos dedos.

Conhecido no bairro inteiro como M, alcunha que vinha do próprio nome, tinha fama de resolver qualquer problema do carro por preço justo, sem rodeios. Andava sempre com um boné surrado da oficina do pai, que nunca trocou por outro, mesmo depois de décadas de utilização. Rosângela tinha 39 anos, costureira, trabalhava em casa mesmo, fazendo ajuste de roupa para as vizinhas e para a loja de tecidos da esquina.

tinha entrado na Igreja Evangélica do Bairro havia cerca de dois anos, período que coincidiu, segundo ela mesma contava, com uma fase difícil depois da perda da mãe. Desde então, frequentava o culto três vezes por semana, participava no grupo de oração das quintas e tinha-se aproximado bastante da liderança da congregação.

O pastor da igreja chamava-se Josué Ribamar de Almeida, 47 anos. Tinha assumido a liderança da congregação há 5 anos. Homem de voz calma, forma de falar que acalmava até os fiéis mais agitados. Casado com dois filhos adolescentes, era respeitado em todo o bairro, chamado para benzer casa nova, batizar criança, orientar casal em crise.

Josué tinha vindo de uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, chegado em Ribeirão Preto, ainda jovem para estudar teologia e construiu a reputação de conselheiro paciente ao longo de anos de trabalho comunitário, incluindo visitas regulares ao hospital e estabelecimento prisional da região.

Edmilson e Rosângela tinham-se casou aos 24 anos, criou dois filhos que já viviam fora e viviam até há pouco tempo antes uma rotina tranquila. Ele na oficina o dia inteiro, ela em casa costurando, encontrando-se os dois no almoço e ao jantar sem grande sobressalto. Edmilson tinha orgulho em contar aos clientes mais próximos que tinha pago os estudos dos dois filhos com o que ganhava só de reparação de automóveis, sem nunca precisar de pedir um empréstimo.

Rosângela, por sua vez, era conhecida no bairro por costurar de graça para a família que passava aperto, um gesto discreto que ela nunca fazia questão de comentar. Edmilson dizia brincando com os clientes. A minha esposa é da igreja, eu sou da oficina. Cada um reza do seu jeito.

Ninguém na Vila Tibério imaginava naquelas manhãs de mercadão e naquelas tardes de oficina aberta o que a proximidade entre Rosângela e o pastor Josué ainda ia custar. A rotina da casa era simples. Edmilson abria a oficina sete, encerrava seis seis dias por semana. A Rosângela costura de manhã, ia para igreja à tarde, nos dias de culto, voltava sempre a tempo de fazer o jantar.

Aos domingos, os dois iam juntos ao culto principal, sentavam-se sempre na mesma fila, cumprimentavam os mesmos conhecidos. Foi numa terça-feira comum, cerca de três meses antes da noite do caderninho, que Edmilson reparou pela primeira vez que o conta-quilómetros do carro de Rosângela não batia certo com o percurso que ela dizia fazer.

Achou estranho, mas pensou que fosse engano do próprio ou algum desvio de percurso por causa de obra na avenida. Duas semanas depois, o número voltou a não bater certo e, de novo, na semana seguinte. Reparou também que Rosângela tinha passado a levar o telemóvel para a casa de banho, coisa que nunca fazia, e que alterou a palavra-chave, alegando que tinha visto uma reportagem sobre roubo de dados e decidiu prevenir-se.

Uma cliente da oficina, esposa de um diácono da igreja, comentou com Edmilson sem malícia nenhuma, enquanto esperava o carro ficar pronto, que Rosângela andava muito próxima do pastor Josué ultimamente, ficando sempre depois do culto para aconselhamento espiritual, que se estendia mais do que o normal. Edmilson riu-se por dentro na hora.

Pastor aconselha, é função dele, fazia sentido, mas aquilo ainda não era o mais estranho. Numa manhã a ajudar Rosângela a descarregar saco do mercado, Edmilson encontrou um recibo de um motel amassado no fundo da sua mala junto com embalagem de rebuçado de menta. Perguntou de onde tinha vindo aquilo. Ela disse demasiado depressa que devia ser propaganda que alguém tinha colocado no pára-brisas do carro.

A explicação fazia sentido, só que Motel não distribui publicidade em para-brisas de estacionamento de igreja. Um mês depois, revisão do carro de Rosâela para troca de óleo de rotina, Edmilson notou o consumo de combustível também fora do padrão, os tanques vaziando mais rapidamente do que os percursos declarados justificavam.

Ele, que conhecia aquele carro peça por peça, sabia exatamente quanto ele gastava para cada tipo de percurso. As contas não fechavam. comprou numa loja de acessórios automóveis do outro lado da cidade, longe de qualquer conhecido, um pequeno localizador GPS, popular entre pais que querem vigiar filho adolescente e instalou-o escondido debaixo do banco do pendura, um trabalho de 10 minutos para quem conhecia aquele veículo por dentro e por fora.

Ninguém naquela vizinhança de casa baixa e carril de comboio enterrado imaginava o que estava para vir. Os dias seguintes viraram o exercício de acompanhar pelo aplicação do rastreador cada movimento do carro. Na maior parte do tempo, tudo batia. Casa, mercado, casa da vizinha para entrega de roupa costurada. Mas todas as quintas-feiras, depois do hora do culto, o carro fazia um desvio de 20 minutos até um motel na saída da cidade, na estrada que ia em direção a sertãozinho, e ficava lá parou durante quase 2 horas antes de voltar

para casa. No mapa do telemóvel, o ponto vermelho que marcava a posição do carro permaneceu parado, imóvel durante todo o aquele tempo. E Edmilson passou a reconhecer o formato exato do quarteirão do motel, só de olhar para o ecrã, de tanto que revisitava aquele mesmo percurso dia após dia, tentando encontrar alguma forma de duvidar do óbvio.

Edmilson comentou com um antigo amigo de oficina, tentando parecer casual, perguntando se ele achava normal uma esposa demorar tanto tempo num aconselhamento espiritual. O amigo, sem saber o peso que a pergunta tinha, respondeu: “O aonselhamento não dura duas horas, fechado num motel 1. Isto não é papo de igreja.

Ele tentou não acreditar no óbvio, não conseguiu. A confirmação de tudo veio numa quinta-feira, quando Edmilson resolveu seguir o próprio rastreador em tempo real de moto, mantendo uma distância segura até ao motel que já conhecia pelo mapa do aplicativo. Chegou 10 minutos depois do carro de Rosâela ter entrado, parou a moto na rua ao lado, atravessou a pé até a recepção e usou o nome do próprio automóvel, modelo e matrícula que ele reconheceria em qualquer lugar.

para confirmar com o assistente em que box o veículo tinha entrado, alegando que precisava de avisar a esposa de uma emergência familiar. O atendente, sem não desconfiar de nada, indicou o número do box. Edmilson ficou parado no corredor externo por um instante, ouvindo o próprio coração bater mais forte que qualquer motor que já tinha ouvido em 20 anos de oficina.

O calor da tarde de Ribeirão colava a camisola nas costas dele e o cheiro a asfalto quente misturava-se com um perfume de flor artificial que vinha do jardim mal cuidado do motel. Foi até lá, encostou o ouvido na porta lateral que dava pro quarto e ouviu vozes abafadas, risada baixa, o som inconfundível de dois corpos se movendo numa cama que rangia de leve.

Ele bateu na porta. O silêncio que veio em seguida durou o suficiente para ele já entender tudo antes mesmo de a porta abrir. Quando abriu, foi o pastor Josué quem apareceu primeiro, só de calça, o rosto perdendo a cor na hora em que reconheceu quem estava do lado de fora. Atrás dele, Rosângela sentada na cama, o lençol puxado até o peito, os olhos arregalados de um jeito que Edmilson nunca tinha visto nela em 18 anos de casamento.

O que ele viu naquele quarto ficou gravado do jeito que só certas coisas ficam, não como lembrança, mas como ferida que continua sangrando por dentro. O crucifixo pequeno que Rosâela sempre usava no pescoço, pendurado agora na cabeceira da cama, junto com a roupa dos dois jogada de qualquer jeito no chão. O cheiro de perfume barato do quarto de motel misturado ao suor.

O som de uma torneira pingando no banheiro ao lado, ritmo constante, indiferente a tudo. Ninguém falou nada por talvez 5 segundos. 5 segundos que para ele duraram muito mais. O pastor levantou as duas mãos como quem tenta pedir calma antes mesmo de encontrar qualquer palavra que fizesse sentido. Rosângela chamou o nome dele Edmilson.

A voz travada, quebrada de um jeito que não parecia mais a mesma mulher que rezava com ele todo domingo na mesma fileira de banco. Edmilson não gritou, não bateu em ninguém ali, virou e saiu andando, atravessou o estacionamento do motel e ficou parado do lado da própria moto por um tempo que não soube medir, as mãos tremendo tanto que ele precisou tentar três vezes até conseguir ligar o motor.

Ele dirigiu sem destino por quase 2 horas, entrando por estrada de terra que cortava plantação de cana ao redor da cidade, parando de vez em quando só para respirar, sem conseguir organizar um único pensamento inteiro na cabeça. Foi essa noite que algo dentro dele começou a quebrar de um jeito diferente.

Ele não dormiu. Ficou mais de 36 horas acordado, revivendo cada segundo daquele quarto de motel. O crucifixo pendurado na cabeceira, o lençol puxado até o peito dela, a voz do pastor tentando explicar o inexplicável. A cena voltava sempre na mesma ordem, sem variar, um vídeo travado que ele não conseguia desligar. No dia seguinte, voltou a trabalhar como se nada tivesse acontecido.

Atendeu três clientes, trocou pastilha de freio, alinhou direção, mas errou o torque de parafuso duas vezes num serviço que fazia de olho fechado desde adolescente. À noite, Rosângela tentou conversar, os olhos inchados de chorar o dia inteiro, tentando explicar que tinha se perdido, que o pastor entendia ela de um jeito que ninguém mais entendia.

Ele ouviu tudo sem responder, sentado na cadeira da cozinha, olhando pro celular com o aplicativo do rastreador ainda aberto na tela. Ele emagreceu visivelmente em duas semanas, o macacão de trabalho começando a folgar nos ombros. Dormia 3 horas por noite quando dormia, e o pensamento voltava sempre pro mesmo lugar, um círculo fechado que não deixava ele respirar direito.

O homem que orientava a congregação inteira sobre fidelidade e família, que tinha abençoado o próprio casamento deles anos antes, tinha usado o carro que Edmilson mesmo consertava toda a semana para levar a esposa dele até um motel de beira de estrada. Ele repetia baixinho, sozinho, limpando ferramenta no fundo da oficina.

Depois que os funcionários iam embora. Eu consertei o carro que levou ela até lá com minhas próprias mãos. Nas noites em que não dormia, ficava sentado no banco de metal da recepção da oficina, olhando pro relógio de parede que o próprio pai tinha pendurado ali décadas antes, repassando cada aconselhamento espiritual que Rosângela tinha mencionado nos últimos dois anos, contando nos dedos quantas vezes aquilo podia ter acontecido sem ele nunca suspeitar.

Um cliente antigo, quase da idade do pai dele, notou a mudança e chamou ele para conversar uma tarde tranquila, sentado nos bancos de plástico da recepção da oficina, perguntou se estava tudo bem, se algum problema financeiro estava pesando. Edmilson disse que estava tudo certo, só cansaço. O cliente insistiu, disse que já tinha visto o homem quebrar por dentro assim antes e que raramente terminava bem.

Edmilson agradeceu a preocupação e voltou pro serviço, fechando a capota do carro que estava consertando com mais força do que precisava. A decisão não chegou de uma vez, cresceu. Cresceu numa quinta-feira em que ele viu pelo aplicativo do rastreador o carro fazer o mesmo trajeto de sempre até o motel, mesmo depois de tudo, como se o flagrante da semana anterior não tivesse mudado nada.

Cresceu num domingo em que ele viu Rosâela e o pastor Josué se cumprimentando à porta da igreja, na frente de toda a congregação, com um respeitoso aperto de mão, quase solene, como se o segredo entre os dois estivesse seguro para sempre atrás daquela encenação. cresceu numa madrugada em que compreendeu sozinho, sentado no banco da própria oficina fechado, que os dois não iam parar, que continuariam a encontrar-se escondidos por detrás do discurso de fé que o bairro inteiro respeitava, usando o próprio carro dele como instrumento para tal.

Foi nessa madrugada que tomou a decisão que levaria semanas a virar ação. Começou a preparar-se sem admitir para si mesmo que estava a se preparando. guardou no porta-bagagens do carro de Rosângela uma chave de rodas pesada das que utilizava para desmontar pneu grande de uma carrinha, sob o pretexto de deixar ferramenta de reserva no carro dela.

Continuou a acompanhar o rastreador semana após semana, o mesmo trajeto a repetir-se, a mesma paragem no mesmo motel. Ninguém na oficina sabia, ninguém em casa sabia, só ele e o aplicação do rastreador aberto no telemóvel todas as quintas tarde e o cálculo frio que crescia dentro do peito havia semanas.

Numa dessas semanas de espera, chegou a conduzir até perto do motel, só para observar de longe, sem entrar, sem se aproximar, apenas confirmando que o padrão repetia-se semana após semana, sempre o mesmo horário, sempre o mesmo box, segundo a própria aplicação, indicava pela posição do carro parado. A quinta-feira em que tudo aconteceu começou como qualquer outra.

Rosâela saiu de casa depois do almoço, dizendo que ia para o culto de intercessão e depois passava em casa de uma irmã de congregação. Edmilson, que já sabia o percurso de cor, saiu da oficina mais cedo, avisando o funcionário mais antigo que ia resolver um problema de família e seguiu de carro até ao motel chegando antes dela.

Desta vez esperou no estacionamento, encostado ao próprio veículo, a chave de rodas dentro de uma bolsa de ferramentas que transportava sempre, sem levantar qualquer suspeita para quem passasse. O carro da Rosângela entrou por volta das 15 horas. Ela nem chegou a estacionar direito, viu Edmilson parado ali e travou de supetão o carro a ficar torto na vaga.

Edmilson, o que estás aqui a fazer? Ele não respondeu, caminhou até ao carro dela, esperou que ela descesse. temendo, tentando perceber o que estava a acontecer. Foi nesse momento que o carro do pastor Josué entrou no parque de estacionamento também atrasado poucos minutos, à maneira de sempre.

Conduzia um sedan prata que Edmilson reconheceu de imediato, um carro que já tinha passado pela própria oficina meses antes para revisão de rotina, sem que ele imaginasse na altura o que aquele veículo ainda ia testemunhar. Josué saiu do carro sorrindo, ainda sem se aperceber da cena, até ver Edmilson ali parado com a bolsa de ferramenta na mão e o sorriso definhar por completo.

“Edmilson, meu irmão, vamos conversar?” O pastor começou, as mãos a levantarem-se devagar, a voz tentando manter o tom calmo de sempre, o mesmo tom que acalmava fiel num momento de crise. O que aconteceu nos minutos seguintes, a perícia reconstruiria depois com uma frieza que contrastava com a violência do que descrevia. Edmilson tirou a chave de rodas da mala com um movimento rápido, treinado por décadas de trabalho manual, e avançou primeiro contra Josué, que tentou recuar em direção ao próprio carro e recebeu o primeiro golpe ali, caindo contra a

chapa, o alarme do veículo disparando com o impacto. Rosângela gritou, tentou correr em direção à receção do motel, mas escorregou na possça de óleo que vazava há dias do carro estacionado ao lado e foi ali caída no chão do estacionamento que Edmilson alcançou. Ela chamou pelo nome dele duas vezes. Na segunda vez, a voz já não saía inteira.

O alarme do carro do pastor continuava disparando, um som agudo e repetitivo que se misturava com os gritos, enquanto o cheiro a óleo do chão misturava-se outro cheiro, mais forte, mais escuro, que tomou conta do ar em segundos. O sol da tarde ainda estava alto, batendo diretamente no estacionamento, sem sombra nenhuma, e o calor do asfalto subia visível, tremendo o ar, como se o próprio ambiente se recusasse a arrefecer perante o que tinha acabado de acontecer.

Demorou pouco mais de dois minutos. Tempo suficiente para apagar duas vidas. Pouco o suficiente para ele depois dizer no interrogatório que o barulho do alarme foi a única coisa que consegui escutar direito. O resto ficou tudo embaçado. Quando parou, o estacionamento ficou naquele silêncio estranho que vem depois do caos.

Apenas o alarme do carro ainda a soar, sem parar, chamando atenção de longe. Edmilson ficou parado ali por um tempo que nunca soube precisar, olhando para a chave de rodas na própria mão como se não fosse dele. Ele não ligou para o 190, não ligou para ninguém, largou a chave de rodas no chão, entrou no próprio carro, ainda com a bolsa de ferramentas no banco do pendura e saiu a conduzir sem rumo certo.

o alarme do carro do pastor, ficando cada vez mais fraco atrás dele, conforme a distância aumentava. A resposta de emergência começou pelo próprio recepcionista do motel, que ouviu o alarme disparado há mais de 10 minutos sem parar e foi verificar, pensando que era algum cliente esquecido.

Encontrou os dois corpos no chão do parque de estacionamento e ligou para o 190 em pânico, a voz quase incompreensível de tão nervosa. A viatura da Polícia Militar chegou em 12 minutos. seguida pelo SAMU, que constatou o óbito dos dois ainda no local. O motel, que funcionava discretamente há anos naquela saída da cidade, ficou rodeado de viatura e fita amarela, atraindo o curioso da estrada que passava reduzindo a velocidade para tentar perceber o que tinha acontecido.

O gerente do motel, ainda em choque, repetia aos polícias que nunca tinha visto confusão daquele tipo em 15 anos ali trabalhando. Sempre um lugar discreto, sem histórico de brigas. ou problema com o cliente. A perícia levou a noite inteira recolhendo vestígio no estacionamento, fotografando a cena, catalogando a chave de rodas encontrada perto do corpo do pastor Josué.

Edmilson, entretanto, dirigiu a noite inteiro sem destino certo, evitando estrada principal, cortando por caminho de terra que conhecia do tempo em que ajudava o pai a fazer a entrega de uma peça para a quinta da região. Só de manhã, exausto, decidiu voltar em direção à cidade, pensando que talvez conseguisse recompor antes de decidir o que fazer.

Passou horas parado numa beira de estrada de terra batida, o carro desligado, olhando para o amanhecer, sem enxergar direito o que tinha à frente, o corpo tomado por um cansaço que não era só físico. Foi neste trajeto de regresso que caiu numa blitz policial de rotina montada à entrada da cidade para fiscalização de documentação de veículos, sem qualquer relação direta com o crime até àquele momento.

O polícia pediu para ele abrir o porta-bagagens, procedimento padrão da fiscalização. Foi ali que encontraram a bolsa de ferramenta com manchas escuras que Edmilson não tinha conseguido limpar direito, além de um pedaço de roupa ensanguentada que ali tinha atirado sem pensar bem, na pressa de sair do motel na noite anterior.

O polícia mais experiente da dupla, desconfiado com a reação de Edmilson, que ficou paralisado olhando para o porta-bagagens aberto sem dizer palavra, pediu documento e verificou o nome no sistema, ainda sem saber da ocorrência do motel. Foi só quando o O seu parceiro recebeu pelo rádio a descrição do veículo procurado, que os dois compreenderam o tamanho do que tinham acabado de encontrar por acaso.

O nome do motel já circulava há horas nos boletins internos da polícia da região. E um dos agentes da Blitz reconheceu na altura em que o veículo e a descrição batiam certo com o que tinha sido divulgado. Edmilson foi detido ali mesmo, sem resistência, os olhos encovados de quem não dormia havia mais de dois dias.

A sala de interrogatório na esquadra especializada era pequena. Mesa de metal, cadeira de cada lado, luz branca de tecto, zumbindo baixinho. A delegada responsável, mulher de meia-idade, com anos de casos de violência doméstica e passional nas costas, começou lentamente, sem pressionar. Edmilson, conta-me o que aconteceu naquele motel.

Ele ficou calado durante quase 20 minutos, olhando para o tampo da mesa. Depois começou a falar primeiro sobre a oficina, sobre o carro que conhecia peça a peça, sobre o conta-quilómetros que não batia certo e o rastreador que ele próprio tinha instalado. A delegada deixou-o falar sem interromper.

Só quando ele parou perguntou: “Foste até lá nesse dia já a pensar em magoar os dois?” Edmilson baixou a cabeça. Eu só queria confrontar, só queria ouvir dos dois na minha frente, sem mentira. E ouviu? Ele ficou a olhar para as próprias mãos em cima da mesa de metal, as mesmas mãos que a perícia já tinha fotografado e catalogado, marcadas de gracha que nem o tempo na esquadra tinha conseguido tirá-lo de vez, e disse baixinho numa frase que a delegada registaria no relatório final, quase palavra a palavra.

O pastor chamou-lhe meu irmão até ao último segundo. Isso que não esqueço. Depois disso, ele confessou os pormenores que faltavam sem que precisassem de perguntar de novo, inclusive onde tinha comprado o rastreador e há quanto tempo vinha acompanhando o percurso do carro. A delegada perguntou ainda antes de terminar a audição se ele tinha pensado nos filhos do pastor em algum momento entre pegar na chave de rodas e usá-la.

Edmilson ficou em silêncio durante quase um minuto inteiro antes de responder. Pensei nos meus primeiro. Só depois é que me lembrei que também tinha um filho. O processo legal seguiu o rito de todo o caso de duplo homicídio no Brasil. Edmilson foi acusado de homicídio duplamente qualificado, que é quando o justiça reconhece que o crime foi planeou com antecedência e atingiu duas vítimas de uma só vez, o que aumenta bastante a pena prevista na lei.

Ficou preso preventivamente, sem direito a responder em liberdade, porque o juiz entendeu que havia risco de fuga, uma vez que tinha passado a noite inteira sem se apresentar à polícia. O inquérito levou cerca de 5 meses para ser concluído, com perícia detalhada confirmando cada movimento registado pelo rastreador instalado por Edmilson, o que reforçou tanto a motivação do crime como a premeditação por trás dele.

A defesa tentou argumentar nas audições preliminares que Edmilson tinha agido sob forte emoção, provocado pela descoberta reiterada da traição, agravada pelo facto de o amante ser líder religioso de confiança da família. O juiz não aceitou esta tese na integralidade, porque as semanas de rastreamento e o transporte da chave de roda dentro da bolsa da ferramenta mostravam premeditação, não impulso do momento.

A denúncia do Ministério Público levou o caso a Júri popular quase um ano depois. O aplicativo do O rastreador instalado por Edmilson foi apresentado como prova em audiência, mostrando semana após semana o mesmo percurso repetido até ao motel. A esposa do pastor Josué, viúva agora, depois entre lágrimas, contando que a congregação inteira precisou de acompanhamento psicológico depois do escândalo e que ela própria nunca suspeitou de nada até a notícia chegar.

Ela contou ainda em depoimento reservado que, revendo pertences do marido depois da morte, encontrou notas antigas de agenda que confirmavam encontros marcados há mais de um ano, sempre disfarçados de visita pastoral ou aconselhamento reservado. O julgamento durou dois dias inteiros, com a sala de audiências do Fórum de Ribeirão Preto, ocupada por membros da congregação e moradores da Vila Tibério.

Muita gente dividida entre a pena do mecânico traído e revolta com o crime cometido contra duas pessoas. Nos corredores do fórum formavam-se rodas de conversa baixa entre os intervalos. Uns defendendo que ninguém aguenta uma traição daquele tamanho. Outros lembrando que duas famílias tinham ficado destruídas, não só uma.

Um jornal local chegou a publicar uma reportagem especial sobre o caso repercutida por semanas nos grupos de bairro. O júri, formado por sete moradores da própria cidade, pessoas comuns que decidem ao lado do juiz se alguém é culpado ou não, ouvindo as duas partes antes de votar, demorou pouco mais de 4 horas a chegar à decisão.

Condenaram Edmilson por homicídio duplamente qualificado, apenas 28 anos de prisão em regime fechado. Na hora da leitura da sentença, Edmilson ficou de pé, de cabeça baixa, as mãos ainda marcadas de gracha que nem meses de prisão preventiva tinham conseguido apagar de vez das linhas da pele. Nenhum parente próximo estava presente naquele dia.

Os dois filhos preferiram acompanhar o resultado à distância, por telefone, sem entrar na sala de audiência. Edmilson está preso desde depois numa penitenciária no interior de São Paulo. Não recorreu da sentença. A oficina da Vila Tibério fechou portas meses depois, o letreiro desbotado ainda pendurado na fachada há mais de um ano, até um sobrinho de Edmilson assumir o ponto para abrir um lava rápido no mesmo endereço.

Os clientes antigos que confiavam em 1000 há gerações. Muitos deles filhos de clientes que já tinham sido atendidos pelo pai necessitaram procurar outra oficina na região. E por um bom tempo, o nome de Edmilson tornou-se assunto obrigatório nas conversas de quem esperava carro. Ficar pronto em qualquer oficina vizinha. A igreja evangélica do bairro passou por meses difíceis depois do escândalo, com parte da congregação a afastar-se, incapaz de separar a fé que professam do nome do pastor que liderava tudo aquilo.

Um novo pastor assumiu a liderança quase um ano depois, vindo de outra cidade, sem nenhuma ligação com o caso. Os dois filhos de Edmilson e Rosâela, que já viviam fora há anos, precisaram lidar sozinhos com o luto da mãe e a prisão do pai ao mesmo tempo, algo que nenhum dos dois soube explicar bem, nem para colega mais próximo.

Deixaram de visitar a Vila Tibério com a frequência de antes e o túmulo de Rosâela, no cemitério da cidade passou a receber visitas apenas em datas marcadas, sempre rápida, sempre em silêncio. Se chegou até aqui, sabe que histórias como esta não acontecem só em bairro de filme ou manchete distante. Acontecem em rua comum, entre gente que a cidade inteira jurava conhecer e respeitar.

Na carta que Edmilson enviou ao filho mais velho meses depois de preso, tentando explicar o que tinha feito, tem uma frase que o próprio filho decidiu nunca mostrar para mais ninguém, mas que chegou a comentar uma vez com um primo próximo. O pai tinha escrito que um homem consegue perdoar quase tudo, menos descobrir que o próprio trabalho serviu para atrair ele.

Nenhuma outra frase daquela carta veio a público. O filho guardou o resto só para si. E é só isso que resta hoje, de tudo que Edmilson ainda tentou explicar depois de perder a liberdade e a família inteira numa mesma tarde de quinta-feira. Se esse relato te tocou de algum jeito, deixa o comentário contando o que mais chamou sua atenção e fica de olho, porque essa semana ainda tem outras histórias como essa esperando para serem contadas. M.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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