Guia Turístico Desapareceu Na Serra Do Cipó — Achado 4 Anos Depois Repetindo Uma Única Frase

Em 23 de outubro de 2015, às 6:40 da manhã, Maurício Duarte Rezende saiu de casa em Santana do Riacho, no interior de Minas Gerais, com a marmita que a mulher tinha preparado na véspera, um cantil de 2 L cheio de água filtrada e as chaves da Saveiro Azul estacionada na frente da casa. disse a Cleid que estava indo verificar uma nova trilha antes do grupo de turistas chegar no sábado.

Disse que voltava para o almoço. Ela aqueceu o feijão e esperou. A marmita ficou no banco do passageiro. O cantil voltou fechado. Maurício não voltou. A Saveiro ficou parada no acostamento da rodovia MG010, a 2 km da entrada do Parque Nacional da Serra do Cipó, com o vidro do lado do motorista entreaberto e um guia de trilhas aberto sobre o painel.

Quatro dias depois, um grupo de ciclistas parou para verificar o veículo abandonado. Ligaram para o número colado num adesivo no para-choque traseiro. Guia Maurício, Serra do Cipó, excursões e trilhas. Quem atendeu foi Clead e então começou uma das buscas mais longas que o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais registrou naquela região nas últimas duas décadas.

Maurício tinha 38 anos, era guia licenciado há 12 anos. Conhecia cada trilha, cada pedra, cada mirante da serra. Era o homem que levava os turistas, não o turista que se perde. O que aconteceu entre o momento em que ele deixou o carro e os 4 anos que se seguiram? É o que esta narração vai percorrer. Não há resposta fechada.

Há fatos, há datas. ao que os médicos registraram quando ele foi encontrado. E há a frase que ele repetia em voz baixa, sentado no chão de uma caverna a 12 km do ponto onde o carro parou. Uma frase que a filha mais velha, Bruna, ouvia no corredor do hospital e não conseguia decifrar. Você vai entender porquê. Quando os bombeiros chegaram a Saveiro, o estofado do banco do motorista ainda tinha a forma de um corpo.

A marmita estava intacta. O cantil fechado. O celular de Maurício nunca foi encontrado no interior do veículo, mas a operadora de telefonia confirmou ao inquérito que o sinal do aparelho havia sumido às 7:1 da manhã daquele dia. Menos de 40 minutos depois de ele sair de casa, o aparelho nunca mais emitiu sinal, nunca foi localizado.

Nenhum guia, nenhum caminhante, nenhum morador da região registrou ter visto Maurício Duarte Rezende naquela manhã de quinta-feira. Os bombeiros fizeram quatro dias de busca intensiva, helicóptero, cães farejadores, equipes a pé pela vegetação de cerrado fechada. encontraram a pegada de uma bota número 42, o número de Maurício, a 300 m da entrada de um caminho que não constava em nenhuma planta turística ou mapa oficial da região.

Depois, a pegada sumiu, como se o chão tivesse absorvido o homem junto com os passos. Quatro anos depois, um fazendeiro que procurava um bezerro perdido ouviu uma voz dentro de uma gruta na vertente leste da serra. Entrou e encontrou Maurício Duarte Rezende, sentado com as costas contra a parede de pedra úmida, os joelhos dobrados no peito, os olhos fixos num ponto da rocha sem saída.

Ele estava vivo, respirava e repetia, sem parar, com um ritmo baixo e regular. Ele disse que eu voltaria. Você está aqui porque sabe que essa história não termina onde parece terminar. O que vem agora vai mostrar porquê. Maurício era pai de dois filhos. Era o tipo de homem que carregava esparadrapo na mochila porque sabia que todo turista estreia a bota na trilha e aparece com bolha.

Era exatamente o tipo de homem que as pessoas descrevem com dificuldade quando ele some, porque não havia tensão visível de onde começar a puxar o fio. E nos 4 anos em que ficou desaparecido, o que a família foi aprendendo é que o estado tem protocolos para tudo, menos para o silêncio que vem depois do protocolo.

O rádio de comunicação que Maurício tinha dito que ia levar nunca foi encontrado. Nenhum sinal dele foi registrado pelas redes de telefonia nos dias seguintes ao desaparecimento. As fileiras de pedras pequenas organizadas no chão da câmara, onde ele foi encontrado 4 anos depois, não foram explicadas por nenhum dos relatórios periciais.

E a frase que ele repetia: “Os médicos do hospital João X de Belo Horizonte não conseguiram associar a nenhum diagnóstico conhecido com a clareza que a família precisava. Se você ficou até aqui, é porque algo nessa história te tocou de um jeito que ainda não tem nome.” E a resposta está mais perto do que parece. Maurício Duarte Rezende tinha crescido em Lagoa Santa, uma cidade de casas baixas e terra vermelha, a 60 km de Belo Horizonte, onde as crianças brincavam nos barrancos depois da chuva e os adultos trabalhavam no calcário ou na

pequena lavoura. Desde menino, ele tinha o hábito de entrar na capoeira do fundo do quintal e sumir por horas. Volta com as roupas rasgadas e um monte de pedra diferente no bolso”, dizia dona Neusa, “a mãe”. quando alguém perguntava e sempre sabia de onde tinha vindo. Nunca se perdeu, uma vez que fosse.

Aos 26 anos, depois de 18 meses, num emprego de administrativo numa construtora de Belo Horizonte, que ele descreveu para os amigos como uma sala fechada, sem janela, com ar- condicionado fraco, Maurício foi trabalhar com guias de ecoturismo em Lapinha da Serra. uma comunidade de casas de adobe e pedra encostada na borda da serra do Cipó.

fez o curso de capacitação para guias pelo Sebrai. Tirou a licença, comprou uma bússola e um mapa topográfico desdobrável da região e começou a levar grupos de fim de semana pelas trilhas na margem do rio Cipó, aquela água fria e transparente que escorre sobre lajes de quarcito polido e branco. Com o tempo, montou seu próprio cadastro de clientes.

Aos 32 anos tinha agenda preenchida de outubro a março sem precisar anunciar. A Serra do Cipó tem esse efeito em algumas pessoas. O relevo de pedra quartzítica bruta, as cascatas que caem sobre rocha lisa, a vegetação rasteira dos campos rupestres, pontilhada de sempre vivas de caule seco que resistem a qualquer coisa.

as bromélias agarradas nas fendas de pedra com a força dos dedos a quem entre ali uma vez e não consiga se afastar. Maurício era desse tipo, mas de forma metódica e profissional. Conhecia cada variação de temperatura da serra, cada ponto de risco de enchente em época de chuva, cada trilha que fechava no inverno pela vegetação. Entendia o terreno como um carteiro, entende ruas do bairro onde trabalha há anos, sem precisar pensar, sem precisar consultar.

Cle Aparecida conheceu Maurício numa excursão de escola em 2005, quando ela ainda dava aula em Coronel Fabriciano e ele levava grupos de professores pela cachoeira da farofa e pelo canhon das bandeirinhas. Ela tinha 26 anos e ele 28. Casaram dois anos depois em Lagoa Santa, com festa simples na casa de dona Neusa, frango assado no fogão à lenha e bolo de fubá feito pela tia mais velha.

Foram morar em Santana do Riacho, no meio da rodovia MG010, a estrada que corta a serra de norte a sul. A casa tinha três quartos, quintal com chão batido, mangueira no fundo e janelas de madeira que cheiavam no vento frio da madrugada de julho. Tiveram Bruna em 2008 e Samuel em 2011. Os dois cresceram vendo o pai preparar a mochila na sala da frente antes de sair.

Pinóculo, altímetro, bloco de anotação de capa dura, caneta pendurada no pescoço, faca de bainha no cinto, capa de chuva dobrada no bolso lateral. Maurício dizia sempre a mesma coisa para os clientes novos. Quem estreia a bota na trilha sempre aparece com bolha. Ele carregava esparadrapo por isso. Levava Bruna para pescar no rio Cipó nas manhãs de domingo, quando não tinha excursão.

Não devia dinheiro, não brigava com vizinhos, não bebia além de uma cerveja num churrasco. Era exatamente o tipo de homem que as pessoas descrevem com dificuldade quando ele some, porque não há uma tensão visível de onde começar a puxar o fio. Os clientes que tinham feito excursão com Maurício nos anos anteriores diziam coisas parecidas uns com os outros quando foram procurados pela família depois do desaparecimento.

Diziam que ele era calmo na trilha, que parava quando precisava parar, sem pressa de chegar, que sabia o nome das plantas do sererrado, sem precisar consultar nada, chamava cada bromelia e cada sempre viva pelo nome, como quem apresenta uma pessoa velha conhecida. Uma cliente de Belo Horizonte, que tinha feito quatro excursões com ele ao longo de trs anos, disse para Cleid numa mensagem que a coisa que mais lembrava de Maurício era a forma como ele ouvia a serra.

Parava no meio do caminho, levantava a mão fechada, pedindo silêncio, e ficava escutando. Ela nunca soube ao certo que ele estava ouvindo, mas ele sempre sabia. Naquela semana de outubro de 2015, ele tinha três grupos agendados, um na sexta-feira à tarde, um no sábado de manhã e um no domingo. A trilha que foi verificar sozinho na quinta-feira era nova, um desvio de um percurso que ele estudava há meses, passando por uma formação de pedras que nenhum outro guia usava.

e chegando a uma queda d’água pequena, sem nome oficial, que ele tinha descoberto por acaso numa exploração solitária meses antes, um caminho que não constava em nenhum mapa. Era este o caminho. Na véspera, quarta-feira à noite, tinham jantado arroz com feijão, linguiça frita e salada de tomate com cebola na mesa pequena da cozinha amarela.

Bruna, que tinha 7 anos, pediu para ele trazer uma pedra bonita da trilha. Ele prometeu que trazia. Samuel, de 4 anos, tinha adormecido antes do jantar com o rosto amassado na almofada do sofá. Clevou a louça enquanto Maurício separava o equipamento na sala. binóculo, altímetro, bloco, caneta, faca, capa de chuva, esparadrapo. Ela perguntou se ia levar o rádio de comunicação. Ele disse que ia e levou.

O rádio nunca foi encontrado, nunca foi localizado. Às 6:40 da manhã de quinta-feira, 23 de outubro de 2015, Maurício pegou a marmita da bancada da cozinha, disse um tchau de rotina sem olhar para trás e saiu. Cleade ouviu a Saveiro dar a partida na frente da casa. ficou mais um tempo dobrando a roupa lavada na mesa.

Às 8:30 ligou para o celular dele só para saber como estava o tempo na parte alta da serra. Chamou, ninguém atendeu. Ela pensou que era o sinal fraco. A MG010 tem trechos assim, onde as pedras fazem a onda de telefone ricochetear como seixo jogado na superfície do rio Cipó. esperou. Na parte da tarde, ligou mais três vezes.

As três chamadas foram direto para a caixa postal. A operadora de telefonia confirmou mais tarde, no documento técnico entregue à Delegacia de Santana do Riacho, que o celular de Maurício havia registrado a última conexão com a rede às 7:18 daquela manhã, menos de 40 minutos depois de ele sair de casa. O sinal sumiu.

Nenhuma tentativa de reconexão com a rede foi registrada nos dias seguintes. O aparelho não foi encontrado. O chip nunca mais emitiu sinal. Às 7 da noite, quando Maurício ainda não tinha chegado e o telefone continuava no silêncio do voemail, Cleade ligou para Evando Tadeu Carvalho, o outro guia com quem o marido trabalhava há mais de 10 anos.

Evandro disse que não tinha notícia. Disse que ia dar uma passada na rodovia para verificar. Encontrou a Saveiro no acostamento às 7:40. Estacionou o próprio carro atrás desceu, bateu no vidro, chamou o nome, ninguém. A porta estava trancada. O guia de trilha sobre o painel estava aberto numa página com um trecho de canhão marcado a lápis grafite.

Evandro ligou para Cleid, depois ligou para o corpo de bombeiros. O que você faria nessa hora? Se o carro do seu marido estivesse parado num acostamento da serra à noite com o mapa aberto no painel e o telefone no silêncio? Você acharia que tinha uma explicação simples? Ou você sentiria no estômago antes mesmo de pensar que alguma coisa tinha ido muito errado.

Cle diz até hoje que devia ter ligado mais cedo, que na segunda chamada, sem resposta, já no meio da tarde, devia ter acionado alguém. Essa culpa não saiu dela. Ela mesma sabe que é uma culpa injusta. Mas a culpa injusta é a que fica mais tempo. O Corpo de Bombeiros de Santana do Riacho chegou ao acostamento às 21 horas da noite de quinta-feira com dois veículos.

Verificaram a Saveiro por fora, fotografaram o interior através da janela entreaberta, anotaram as registraram as coordenadas do local e registraram o boletim de ocorrência como desaparecimento de adulto. Com o frio de 11º que tinha chegado depois das 8 da noite e a visibilidade na mata próxima a zero, não havia como iniciar a busca.

Deixaram um agente no local e esperaram o amanhecer. Na sexta-feira de manhã, com o sol ainda baixo sobre os campos rupestres, cor de ferrugem seca, a equipe entrou pela primeira trilha mapeada próxima ao carro. 6 km de ida, subindo pela margem do rio Cipó, passando pela cachoeira da farofa, chegando a um mirante de Quartzito, com vista aberta para o vale.

Não encontraram Maurício, não encontraram rastros atribuíveis a ele. O segundo dia, sábado, chegou o reforço de Belo Horizonte, uma equipe de busca e salvamento com dois cães farejadores, um drone dejamento e um helicóptero do grupamento aéreo dos bombeiros. O helicóptero sobrevo a área por 3 horas. O drone imejou um raio de 4 km em torno da Saveiro.

Os cães tomaram a direção de um caminho sem sinalização, que partia do acostamento a 300 m do carro. Este caminho não estava em nenhum mapa. Não tinha placa, não tinha marca de tinta em tronco de árvore. Era uma abertura na vegetação, a largura de um corpo de ombros abertos que sumia dentro do campo, sujo em direção a uma formação de pedras, cor de ferrugem no horizonte.

Os cães andaram 200 m dentro daquele caminho e pararam. O guia dos animais registrou no relatório que o rastro havia acessado naquele ponto sem continuar em nenhuma direção. O chão era barrento de uma chuva que tinha caído dois dias antes. Havia a impressão de uma sola de bota número 42. Depois o barro estava limpo, como se ninguém tivesse passado por ali.

O helicóptero passou duas vezes sobre aquela área. As câmeras registraram vegetação fechada de cerrado, grotas de quartcito enrugado, um afluente do rio Cipó correndo numa fenda estreita entre as pedras. Não registraram figura humana, mochila, equipamento, nada. No quarto dia, segunda-feira, a busca foi formalmente encerrada.

O caso foi comunicado ao Sinalid, o Sistema Nacional de Localização e Identificação de Desaparecidos. A família recebeu um número de protocolo impresso numa folha de papel timbrado. Dona Neusa, a mãe de Maurício, tinha chegado de Lagoa Santa na sexta-feira com uma sacola de roupas e ficou na casa de Cleid por três semanas.

Ela disse a quem perguntasse: “O meu filho conhece essa serra melhor do que qualquer bombeiro que veio buscar. Alguma coisa aconteceu com ele e não foi ele que causou. A investigação policial não encontrou evidências de crime. Não havia sangue, não havia pertences perdidos no caminho, não havia testemunha. Havia um carro parado, uma pegada que parou no barro e o silêncio do cerrado ao redor, e ainda havia a pergunta que levaria 4 anos para ter qualquer tipo de resposta.

mesmo que incompleta. O que aconteceu nas horas entre o momento em que o sinal do celular desapareceu e o momento em que os cães pararam no barro molhado. Cleade Aparecida Rezende tinha 36 anos quando o marido desapareceu. dois filhos, uma hipoteca de 20 anos, uma conta de luz em atraso e um contrato de professora substituta que podia não ser renovado em qualquer semestre sem aviso prévio.

A renda de Maurício com as excursões era parte estável da família. Sem ela, as contas começaram a pesar diferente já no primeiro mês. Nos primeiros três meses, ela não voltou a dar aula. A diretora da escola deu um afastamento informal, sem papel, baseado no entendimento de que uma mulher com dois filhos pequenos e o marido desaparecido não tinha condições de estar em sala de aula.

Dona Neusa ficou na casa durante seis semanas. Depois voltou para Lagoa Santa porque tinha o marido doente para cuidar, mas ligava todos os dias às 8 da noite sem falta. Às vezes as duas ficavam no telefone por um minuto inteiro, sem conseguir terminar a conversa e sem conseguir desligar. Essa era a forma que elas tinham de continuar juntas sem precisar dizer o que as duas sabiam e nenhuma queria nomear.

Bruna, que tinha 7 anos, parou de perguntar pelo pai depois de dois meses. Com aquela leitura de criança pequena que não precisa de palavras para funcionar, ela entendeu que a pergunta fechava a mãe. Samuel, de 4 anos, ainda não processava o que era um desaparecimento. Continuava perguntando se o pai estava na trilha e quando voltava para o churrasco.

A vizinhança de Santana do Riacho fez o que as vizinhanças de cidade pequena de Minas Gerais fazem. Nos primeiros dias, as mulheres da rua apareceram na porta de Cleid com panelas, com feijão pronto, com arroz feito, com bolo de fubá embrulhado em papel filme. Dona Perpétua da casa do lado ficava com as crianças quando Cleva à delegacia.

Dona Ignácia, da casa da frente leva Samuel para brincar na sua varanda. Essas mulheres não perguntavam demais. Sabiam que não havia o que perguntar, ficavam. E isso Cle dizia depois era o que fazia diferença. Não a comida, não as palavras, mas o simples fato de que tinha gente que ficava. Depois de um mês, as panelas foram rareando.

Depois de três, cada uma voltou para a própria rotina. Como tem que ser, a vida de cidade pequena não para. E Cade foi aprendendo a fazer as coisas sozinha de um jeito que não era o mesmo de antes, porque antes havia alguém para dividir. Em novembro de 2015, Cleid abriu um perfil nas redes sociais com o nome Onde está Maurício Rezende, Santana do Riacho.

Publicou uma foto de Maurício com a mochila, as botas de trilha, o binóculo no pescoço, a capa de chuva verde dobrada no ombro. publicou as características físicas 1,78, 108 kg na época do desaparecimento, cabelo preto, barba curta, cicatriz no cotovelo esquerdo de uma queda numa trilha em 2012. Pediu que qualquer pessoa que tivesse visto qualquer coisa naquela quinta-feira de outubro entrasse em contato.

500 compartilhamentos na primeira semana. Depois o alcance foi caindo. Como caiu de tudo que não tem novidade. Algumas pessoas ligaram com teorias. Um homem de Lagoa Santa disse que havia visto alguém parecido com a foto pedindo carona na BR16 em direção a Montes Claros. A polícia verificou não havia correspondência. Um senhor de Diamantina mandou mensagem dizendo que tinha visto um homem parecido dormindo numa praça do centro.

A polícia verificou também não. Em março de 2016, 5 meses após o desaparecimento, a delegacia comunicou formalmente que o inquérito estava sendo suspenso por falta de indícios. Não havia evidências de crime, não havia suspeitos, não havia pista ativa. Cle delegacia naquele dia com os dois filhos.

Esperou duas horas num banco de madeira no corredor com Bruna do lado e Samuel no colo. O delegado a recebeu por 15 minutos. Disse que entendia. disse que o protocolo no Sinalide permanecia ativo. Disse que qualquer novo elemento seria investigado. Ela saiu sem chorar, ajeitou a mochilinha de Samuel nas costas e foi esperar o ônibus na paragem frente à delegacia no calor pesado de março de Minas Gerais, com as crianças com fome e o número de protocolo dobrado dentro da bolsa.

Você conseguiria continuar a rotina sabendo [música] que alguém da sua família ainda não apareceu, sabendo que a polícia fechou a pasta, sabendo que o número do Sinalid é um número que ninguém vai consultar por conta própria. Lade voltou a dar aula em fevereiro de 2016 porque tinha contas para pagar, porque as crianças tinham que comer, porque parar não ia trazer Maurício de volta.

Evandro Tadeu Carvalho tinha 42 anos quando o amigo desapareceu. Era solteiro. Morava num sítio herdado do pai em Cardial Mota, a 14 km de Santana do Riacho, com um cachorro velho e uma horta no terreiro dos fundos. Não tinha filhos, tinha mais tempo do que Cleid para procurar. e passou a usar esse tempo de forma metódica, como Maurício usava o tempo para aprender a serra, palmo a palmo, anotação por anotação.

Nos fins de semana de novembro, dezembro e janeiro, quando não tinha excursão marcada, Evandro entrava na trilha próxima ao carro de Maurício e caminhava em direção à formação de pedras vermelhas que os bombeiros tinham imejado do helicóptero. Levava um caderno de capa dura e anotava cada detalhe que encontrava. Galhos quebrados em altura que um adulto podia ter dobrado ao passar, marcas de pisada em barro endurecido pela seca, tufos de vegetação amassados, pedaços de material que poderiam ter sido rasgados por uma roupa de trilha.

Levava uma câmera fotográfica barata e fotografava tudo. Voltava para casa e comparava com as fotos do registro anterior. Em janeiro de 2016, 2 meses e meio após o desaparecimento, Evandro encontrou algo que os bombeiros não tinham registrado. uma cavidade na base de uma formação de quartcito a 700 m além do ponto onde os cães tinham parado.

A abertura era pequena, pouco mais de 1 m de altura, coberta por uma cortina de vegetação de cerrado ralo que crescia encostada direto na pedra. Dava para entrar curvado. Evandro entrou. A cavidade abria num corredor natural de pedra de uns 4 m, de largura e teto de 3 m, que dobrava à direita depois de uns 8 m. O chão era terra batida e barro seco.

O ar tinha cheiro de pedra úmida e musgo antigo. Evandro iluminou com a lanterna e seguiu até a curva. Do outro lado, um segundo espaço menor, com umidade escorrendo pelas paredes de quartzito cordiocre envelhecido. No chão desse segundo espaço havia marcas que ele não soube interpretar com certeza, mas que pareciam recentes.

Evandro voltou para casa e ligou para a delegacia. descreveu tudo, a localização aproximada, a cavidade, as marcas no chão. O delegado mandou um agente verificar dois dias depois. O agente entrou, registrou no boletim que havia uma gruta natural sem sinais evidentes de ocupação humana recente e o relatório foi arquivado junto com o inquérito suspenso.

Nos anos seguintes, Evandro continuou. Em junho de 2016, quando voltou aquela cavidade, a vegetação tinha crescido e fechado a entrada. Precisou limpar com um facão antes de entrar. O interior estava igual. Em 2017 voltou. Em 2008 voltou, sempre igual. Mas ele continuou, não porque acreditava com certeza que ia encontrar Maurício vivo, mas porque era impossível parar.

Há pessoas que fazem assim. Não conseguem cruzar os braços quando alguém que conhecem ainda está num arquivo sem resolução. Você conhece alguém assim? Uma pessoa que continua procurando quando todo mundo já parou de perguntar. Em 2018, 3 anos após o desaparecimento, Evandro mandou uma carta manuscrita ao Ministério Público Estadual de Minas Gerais, pedindo a reabertura do caso.

A carta tinha seis páginas, incluía cópias das fotos, as anotações dos cadernos de campo desde 2015 e um mapa desenhado à mão com cada ponto que ele tinha visitado. O Ministério Público acusou o recebimento. Não houve resposta substantiva. O caso permaneceu arquivado. Santana do Riacho é um município de pouco mais de 3.

000 habitantes encravado dentro do perímetro do Parque Nacional da Serra do Cipó, uma rua principal de asfalto gretado, uma praça com uma igrejinha de cal branca e uma imagem de Nossa Senhora na entrada. Um mercadinho de esquina, uma farmácia, dois bares, uma pousada. De outubro a março, a população se efetiva, dobra com turistas de Belo Horizonte e de São Paulo.

De abril a setembro, a cidade volta ao silêncio do inverno mineiro. Noites de frio seco, vento com cheiro de capim seco e terra vermelha, ruas quietas depois das 8 da noite. Cleady Rezende continuou morando na casa com as crianças, continuou dando aula, continuou acordando às 5:30, aquecendo o leite no fogão a gás, preparando as mochilas dos filhos.

Bruna cresceu, Samuel cresceu. A casa foi ficando silenciosa de um jeito diferente do silêncio natural das casas de cidade pequena. Era um silêncio com borda, como uma cicatriz que fecha por fora, mas que a pessoa sente quando aperta. Dona Neusa ligava toda a noite às 8. Às vezes as duas ficavam no telefone por um ou dois minutos, sem conseguir terminar a conversa, sem conseguir desligar.

Essa era a forma que elas tinham de continuar juntas, sem precisar dizer o que as duas sabiam e nenhuma queria nomear em voz alta. Em 2017, 2 anos após o desaparecimento, Cleid entrou com o pedido de declaração judicial de ausência na Defensoria Pública. Era o caminho legal para regularizar a situação dos filhos da casa, dos documentos do FGTS.

A Defensoria processou. Levou um ano e 4 meses para sair o decreto. Quando saiu, Cleid ficou olhando para o papel por um tempo na sala da Defensoria e depois dobrou, colocou dentro da bolsa e foi esperar o ônibus na paragem. A declaração de ausência ocupa um meio termo legal. reconhece que a pessoa não está sem declarar que morreu.

Para a família é um limbo com papel timbrado. Para o estado é uma caixa fechada num arquivo com prazo de revisão que ninguém agenda. Bruna, que tinha 11 anos em 2019, foi fazendo perguntas diferentes das de quando tinha sete. Perguntava o que tinha acontecido. Perguntava se alguém ainda estava procurando ativamente.

Perguntava se havia alguma possibilidade de o pai estar vivo depois de tanto tempo. Cade respondia com o que sabia, que não havia certeza, que a polícia não tinha investigação ativa, que Evandro ainda às vezes entrava na serra. Samuel, com 8 anos, foi ao velório de um coleguinha de escola naquele ano e voltou perguntando se quando uma pessoa morre precisa de velório.

Cleid disse que sim. Ele disse que então o pai não tinha morrido porque não tinha velório. Ela ficou olhando para o filho por um tempo. Depois disse que era tarde, que era hora de dormir. Todo dia 23 de outubro, desde 2015, Cleid acendia uma vela na mesa da cozinha antes de sair para a escola.

Não era um ritual planejado. Aconteceu no primeiro aniversário do desaparecimento e depois continuou, porque parar pareceu pior do que continuar. A vela ficava acesa enquanto ela estava na escola. Quando voltava já tinha apagado. Ela nunca explicou isso para os filhos e os filhos nunca perguntaram. Bruna viu o gesto pela primeira vez quando tinha 8 anos.

e reconheceu o que era sem que a mãe precisasse falar. No terceiro aniversário, em outubro de 2018, Evandro passou na casa de Cleady com uma garrafa de cachaça artesanal de Conceição do Mato Dentro. Os dois sentaram na varanda depois que as crianças dormiram. Ficaram um tempo sem falar. Depois, Evandro disse que ia continuar procurando enquanto tivesse força. Cleia.

E ficaram em silêncio outra vez, olhando para a rua de asfalto da cidade pequena, com o frio seco de outubro de Minas Gerais, passando devagar. Nas cidades pequenas de Minas Gerais, as pessoas que conheciam Maurício foram mudando o verbo de posição sem perceber. No primeiro ano, falavam no presente: “O Maurício é assim. O Maurício faz daquele jeito.

” No segundo e no terceiro, o presente foi cedendo o lugar ao passado, sem que ninguém marcasse a transição. O Maurício era assim, ele fazia daquele jeito. O verbo no passado é um luto silencioso que a comunidade faz por conta própria, sem pedir licença à família. E ainda faltava saber o que estava dentro da gruta que o agente da delegacia tinha visitado em 2016 e dado como sem interesse.

Era uma terça-feira de fevereiro de 2019. Benedito Antônio da Cruz, conhecido por todos na região como seu Bené, tinha 61 anos e criava gado numa propriedade de 30 alqueires, encostada no limite leste do na Parque Nacional, numa área que os próprios moradores de Santana do Riacho chamavam de Boca do Câ. Era uma parte da serra que os turistas não acessavam, sem trilha marcada, sem sinalização, pedras soltas de quarcito que fazem o tornozelo virar, vegetação fechada de cerrado e capimha que rasga tecido e corta pele. Seu Bené conhecia aquela

terra desde os 12 anos, quando o pai ainda usava o mesmo pasto para o mesmo gado. Era um homem calado, de poucas palavras, que preferia caminhar a falar. Tinha um bezerro que tinha fugido do curral dois dias antes e não tinha voltado. Saiu de manhã cedo com o cachorro velho da fazenda, um vira lata amarelo chamado trovão, para Depois de duas horas caminhando pelo campo aberto, Trovão parou numa elevação de pedras quartzíticas marrons enrugadas e sobrepostas como camadas de pele velha.

O cachorro ficou com um focinho rente ao chão, farejando uma direção específica, sem avançar e sem recuar. Rosnava baixo, com o pelo levantado na nuca. Havia ali uma abertura na base da rocha. Seu Bené a conhecia. Tinha entrado uma vez anos atrás e não tinha achado nada. Era uma gruta rasa, pensava ele.

Mas Trovão continuava rosnando sem se mover. Seu Bené tirou a lanterna do cinto e entrou curvado. O corredor de pedra cheirava a barro molhado e musgo velho. O ar era mais frio do que o ar da manhã de fevereiro lá fora. Depois de uns 8 m, o corredor dobrava à direita. Seu Bené dobrou também e viu no fundo de uma câmara de pedra de uns 5 m de diâmetro, com o teto baixo e as paredes gotejantes de umidade, havia um homem sentado com as costas encostadas na parede de quartzito, os joelhos dobrados contra o peito, as mãos espalmadas sobre as coxas. Estava muito

magro, com os ossos do rosto e dos pulsos visíveis mesmo na penumbra da câmara, descalço. Usava o que restava de uma calça de trilha cor de caqui e uma camiseta de manga longa, convertida em tiras pelo tempo e pela humidade. Barba longa emaranhada, o cabelo crescido e encostado na pedra atrás da cabeça. O homem estava olhando para a parede à sua frente, olhando para um ponto específico da rocha, como quem olha uma coisa que existe, mas que só ele consegue ver.

Seu Bené disse o nome de Deus em voz alta por instinto. O homem não se virou, não piscou, não reagiu ao som, continuava olhando para a parede e repetia, com um ritmo constante e muito baixo, quase uma reza. Ele disse que eu voltaria. Ele disse que eu voltaria. Seu Bené saiu da gruta, subiu o morro até o ponto onde o celular pegava sinal e ligou para o corpo de bombeiros.

A equipe chegou ao Boca do Cânion às 14 horas daquela terça-feira, com dois veículos de resgate, equipamento médico de emergência e uma maca dobrável. Da estrada de terra mais próxima até a entrada da gruta, foram 40 minutos de caminhada a pé, subindo pela elevação de pedras soltas, com o sol de fevereiro pesando em cima e o capim navalha nas laterais do caminho.

Primeiro bombeiro a entrar na Câmara registrou no relatório homem adulto consciente, sem reação a estímulos verbais, em estado de desnutrição severa, com umidade generalizada na pele e lesões superficiais cicatrizadas nos pés e nas pernas. Fala repetitiva contínua. O bombeiro tentou estabelecer contato verbal, disse que estava ali para ajudar, disse que o homem estava em segurança.

O homem não respondeu, não se moveu, não variou a expressão. Continuava olhando para a parede e repetindo a frase com o mesmo ritmo de antes. Quando o paramédico chegou e pousou a mão no ombro do homem para avaliar os sinais vitais, o homem parou por um momento, virou a cabeça na direção da mão, olhou para o paramédico por dois ou três segundos e voltou a olhar para a parede, recomeçando a frase de onde tinha parado.

O bombeiro fotografou o homem e a câmara antes de mover qualquer coisa. As fotografias que entraram no processo judicial, ano depois mostram detalhes que o relatório escrito não capturava por inteiro. O chão da câmara tem uma área de terra batida que parece ter servido de superfície de deitar por um longo período.

Uma depressão rasa moldada pelo peso de um corpo repetido. Há fragmentos de osso de animal pequeno perto de uma das paredes, possivelmente de roedores, e ao longo de uma das paredes laterais, uma fila de pedras pequenas dispostas em fileiras paralelas, com uma regularidade que não é da natureza da formação rochosa, organizadas com um padrão.

Nenhum dos relatórios periciais soube explicar aquela organização. O homem pesava 43 kg quando foi colocado na maca. Maurício Rezende pesava 108 kg quando desapareceu. No processo de transferir o corpo para Maca, o homem não resistiu e não colaborou. Ficou no mesmo estado de não reação enquanto era movido. Seu Bené estava na entrada da gruta quando a maca passou carregada.

disse mais tarde que o homem não piscou ao receber a luz intensa do sol de fevereiro no rosto. Ficou com os olhos abertos, olhando para o céu azul de Minas Gerais, com a mesma expressão que tinha na câmara escura. No veículo de resgate, durante todo o percurso para o hospital, o homem repetiu a frase sem parar.

A enfermeira que estava no veículo, uma mulher de 52 anos, com 20 anos de serviço de emergência, disse dias depois a uma colega no corredor do hospital que naquela terça-feira ela tinha sentido pela primeira vez em toda a carreira que estava transportando alguém que não estava completamente no lugar onde estava.

disse que parecia distância, como se o corpo estivesse presente no veículo, mas a pessoa ainda estivesse em outro lugar. A identificação de Maurício Duarte Rezende foi feita às 16:40 daquela terça-feira no Hospital Municipal de Santana do Riacho, por cruzamento de impressão digital com o registro do sinal. A fotografia do prontuário de 2015 foi comparada com o rosto do homem encontrado.

Com a barba longa, o emagrecimento extremo e a textura alterada da pele, o rosto era difícil de reconhecer à primeira vista. Mas a estrutura óssea, a cicatriz no cotovelo esquerdo e a impressão digital coincidiam sem margem de dúvida. A delegacia ligou para Cle às 17:15. Cleade estava em sala de aula quando o telefone vibrou no bolso.

O número era da delegacia de Santana do Riacho. Ela saiu da sala, foi ao corredor, atendeu. O escrivão disse que tinham encontrado um homem com as características de Maurício Rezende e que ele estava vivo no hospital municipal. Ela diz que ficou encostada na parede do corredor por dois ou três minutos sem conseguir se mover.

Depois foi buscar Bruna na sala, mandou mensagem para a vizinha pegar Samuel na escola e foi a pé para o hospital, que ficava a 800 m da escola, em linha reta pela rua de asfalto quente de fevereiro. Quando entrou no quarto, Maurício estava deitado na maca hospitalar com um soro no braço e um médico verificando a pressão. estava olhando para o teto.

Cle ficou parada na porta por um momento. Disse o nome dele. Ele não reagiu. Ela chegou mais perto, ficou a 1 metro, disse o nome de novo. Ele não virou a cabeça. Bruna, que tinha entrado junto com a mãe e ficado atrás dela, disse uma coisa só. Pai, uma sílaba seca. Maurício parou, não virou a cabeça, mas parou de repetir a frase por alguns segundos.

O quarto ficou em silêncio. Depois ele recomeçou. Ele disse que eu voltaria. Na manhã seguinte, Maurício foi transferido para o hospital João X em Belo Horizonte, referência estadual em trauma e casos complexos. O prontuário de transferência descrevia: “Dnutrição severa, desidratação crônica, lesões cutâneas compatíveis com exposição prolongada a superfícies frias e úmidas.

Estado dissociativo persistente com fala repetitiva. No João X foi submetido nos primeiros dias a uma bateria de exames: ressonância magnética de encéfalo, tomografia computadorizada de crânio e coluna, painel toxicológico completo, avaliação neurológica e psiquiátrica. A equipe médica divulgou uma nota uma semana depois, quando o caso chegou à imprensa de Belo Horizonte.

Não havia lesão cerebral estrutural identificável, não havia substância tóxica detectada nos exames de sangue e urina. Não havia diagnóstico de doença neurológica conhecida capaz de explicar o quadro de forma isolada. Havia um homem que tinha ficado desaparecido por 3 anos. 11 meses e 26 dias, que tinha sobrevivido a esse período em condições que os médicos não conseguiram reconstituir, com certeza a partir do exame físico, que ao ser encontrado repetia a mesma frase em lup e que ao longo das semanas seguintes foi saindo lentamente daquele estado, sem

que nenhuma intervenção específica explicasse o mecanismo da melhora, o que os exames físicos encontraram foi documentado com detalhe. O que não encontraram é o que pesou mais. Não havia parasitas intestinais compatíveis com ingestão de água não tratada em quantidade que explicasse a sobrevivência.

Não havia marcas de queimadura solar significativas, o que era compatível com permanência em ambientes sem exposição direta à luz, mas incompatível com qualquer hipótese de movimentação pelo terreno externo durante 4 anos. Os ossos apresentavam grau de desmineralização compatível com privação prolongada, mas a musculatura, apesar da atrofia severa, não apresentava as rupturas de fibra que seriam esperadas em alguém que tivesse passado anos acamados sem qualquer movimento.

Como Maurício se moveu ou se moveu durante aquele período, ficou sem resposta. O neologista que assinou o laudo de alta escreveu que o quadro permanecia sem etiologia definida e recomendou acompanhamento por tempo indeterminado. Se fosse com alguém da sua família, você acreditaria só no que o prontuário dizia? Ou você sentiria que havia algo naquela história que o papel médico não era capaz de conter? Ao longo das seis semanas de internação no Hospital João X, Maurício foi saindo gradualmente do estado dissociativo.

Os médicos descreveram o processo como progressivo e irregular. Havia dias em que respondia a perguntas simples com palavras monossilábicas. Havia dias em que voltava ao silêncio ou à repetição da frase. Cleas de Santana do Riacho a Belo Horizonte, no ônibus, das 6 da manhã, passava o dia no hospital e voltava no ônibus das 18 horas.

Dona Neusa ficou na casa com as crianças durante aquelas seis semanas. Na terceira semana, Maurício disse pela primeira vez uma frase que não era a frase. Disse: “Estou com fome, seco, sem inflexão, olhando para o teto.” A primeira expressão original, desde que foi encontrado. A enfermeira do quarto saiu para chamar a equipe médica. Na quarta semana, reconheceu Clay.

disse o nome dela devagar, como quem testa uma palavra em voz alta pela primeira vez. Ficou olhando para ela por um momento e depois virou a cabeça. Não disse mais nada naquele dia, mas tinha reconhecido. Na sexta semana recebeu alta. Caminhava com dificuldade pela atrofia muscular, mantinha uma conversa básica e havia iniciado o ganho de peso com alimentação controlada.

A equipe de psiquiatria recomendou acompanhamento ambulatorial continuado e desaconselhou formalmente entrevistas externas ou qualquer pressão para obter relato do período de desaparecimento. Mas os fragmentos foram aparecendo em momentos diferentes, nos meses seguintes, para Cleid e para o psiquiatra que o acompanhava em Sete Lagoas, Maurício disse algumas coisas.

Disse que tinha entrado na gruta porque tinha escutado algo. Não conseguia descrever o que era. Disse que parecia uma voz, disse que parecia o som de uma pedra. disse que parecia as duas coisas ao mesmo tempo e que eram impossíveis de separar. Disse que dentro da gruta havia outra passagem além do corredor que os bombeiros conheciam, que ele tinha seguido mais fundo e que depois disso não havia memória contínua.

Havia fragmentos. o frio, a textura da pedra úmida na palma da mão, a sensação de que algo se movia na escuridão sem que ele conseguisse ver o que era. E uma presença, não conseguia descrever essa presença com clareza. Disse apenas que havia alguém ali e que esse alguém tinha dito que ele voltaria.

Era isso que a frase era. Para ele, um relato. O psiquiatra registrou as falas no prontuário. Não emitiu diagnóstico definitivo. Descreveu o quadro como estado dissociativo prolongado de etiologia indeterminada, sem precedentes documentados na literatura consultada que correspondessem ao período de duração e à condições físicas do paciente.

Os bombeiros voltaram à gruta em março de 2019, um mês após o resgate. Levaram equipamento especializado de espelhologia. Encontraram o corredor, a câmara onde Maurício estava, a fileira de pedras organizadas junto à parede. Depois seguiram o corredor além daquele ponto. O corredor continuava por mais 42 m e terminava num afunilamento de rocha sem passagem.

Não havia outra saída, não havia câmara adicional, não havia nada que explicasse como um homem de 108 kg, experiente treinado, tinha sobrevivido quase 4 anos naquele espaço com o que a natureza da gruta poderia oferecer. A investigação policial foi reaberta em 2019, foi arquivada novamente em 2021 por falta de elementos que indicassem crime ou terceiros envolvidos.

Maurício Rezende mora hoje em Santana do Riacho. Trabalha num depósito de materiais de construção na beira da estrada. nos primeiros meses depois da alta, não saía de casa sozinho. Cle acompanhava em tudo, na consulta médica, na padaria, no mercadinho. Não por ela, por pedido dele. Ele dizia que preferia ter alguém do lado. Não explicava porquê.

Com o tempo, foi recuperando autonomia. começou a fazer pequenos percursos sozinho, da casa até o mercadinho, da casa até a farmácia. O depósito de materiais onde trabalha fica a uns 400 m de casa pela rua principal. Ele vai a pé todo dia de manhã e volta na hora do almoço. O dono do depósito, um senhor de Santana do Riacho, que conhecia Maurício de antes, não perguntou sobre o desaparecimento quando contratou.

Só disse que havia trabalho se ele quisesse. E Maurício quis. Ele não voltou a nenhuma trilha da serra, não demonstrou vontade, ninguém forçou. Evandro Tadeu Carvalho continua como guia. Evandro Tadeu Carvalho continua como guia. Bruna tem 17 anos. Samuel tem 14. Dona Neusa faleceu em 2022.

Ela não soube o que aconteceu dentro da gruta. A frase Ele disse que eu voltaria. Maurício não a repete desde que saiu do hospital, mas quando alguém pergunta sobre ela, ele para. Fica um momento em silêncio e diz que não tem mais o que falar sobre isso. A Serra do Cipó ainda está lá. continua recebendo grupos de turistas de Belo Horizonte e de São Paulo nos fins de semana, de outubro a março.

As cascatas caem sobre a pedra lisa. O rio Cipó corre frio e claro sobre o quartcito branco. Os guias levam as pessoas pelos mirantes e pelas bordas das quedas d’água e falam sobre o cerrado, os campos rupestres, a sempre viva que não murcha depois de cortada. A gruta onde Maurício Duarte Rezende ficou por quase 4 anos não tem sinalização.

Não está em nenhum mapa turístico. A vegetação de serrado cobre a entrada dependendo da estação. Quem passa por ali não sabe o que há dentro. E a fileira de pedras pequenas organizadas junto à parede da câmara interna, a que nenhum relatório pericial soube explicar, continua lá. Os bombeiros não a removeram.

Não havia razão legal para remover. Acasos assim no Brasil. Não muitos com esse tempo de duração e com esse desfecho. Mas há famílias que passaram anos com um número de protocolo numa folha de [música] papel e um perfil de rede social com fotografia e 500 compartilhamentos que foram caindo um por um. Há mães que ligavam todo dia às 8 da noite sem ter nada novo para dizer e sem conseguir desligar.

Há filhos que aprenderam o que era um desaparecimento antes de aprender o que era a morte. Há vizinhos que mudaram o verbo para o passado sem perceber. E há um fazendeiro chamado Benedito Antônio da Cruz, que saiu para procurar um bezerro e voltou com um homem vivo, que repetia a mesma frase. Seu Bené não faz questão de explicar o que encontrou.

Diz que foi o que foi. Diz que o rio Cipó corre do jeito que corre, para onde corre, sem pedir permissão para ninguém. Cle Rezende continua dando aula em Santana do Riacho. Continua morando na mesma casa com as janelas de madeira que chivam no vento frio da madrugada. Vive com um homem que voltou e que às vezes ainda olha para a parede por tempo demais, sem que ninguém saiba o que ele está vendo.

O que a Gruta fez com Maurício Rezende não está nos altos do processo, nem no prontuário do João 23. M.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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