Família desaparece em férias no litoral 12 anos depois, algo surge embaixo da piscina da casa
O cheiro a carne assada misturava-se com a brisa salgada que vinha da praia de Porto de Galinhas nessa tarde quente de 15 de Fevereiro de 2003. Anselmo Duarte ajustava os espetinhos na churrasqueira improvisada no quintal da casa de veraneio enquanto observava o filho Gustavo, de 16 anos, ensinara a irmã Beatriz de apenas 8 anos a fazer bomba na piscina.
O riso cristalino da menina ecoava pelas paredes brancas da propriedade, contrastando com o azul intenso do céu pernambucano. Márcia Santos, mulher de Anselmo, há 18 anos, organizava a mesa de plástico branco sob a sombra da mangueira. Tinha acabado de chegar da padaria da aldeia com pães frescos e refrigerantes gelados. A família do Recife vinha para aquela mesma casa há sete verões consecutivos, sempre na mesma altura, logo após o carnaval, quando as praias estavam mais vazias e os preços mais acessíveis.
“Pai, a água está uma delícia! Anda cá!”, gritou Gustavo, expirando água pela boca como uma fonte humana, fazendo com que Beatriz gargalhar descontroladamente. Anselmo, contabilista de 45 anos, que trabalhava num escritório no centro do Recife, sorriu enquanto virava as enchidos na grelha. Aqueles eram os momentos que mais valorizava, longe dos números, folhas de cálculo e da correria da cidade grande.
Ali, na simplicidade daquela casa alugada por uma semana, ele conseguia ser apenas pai e marido. “Gustavo, não te esqueças que amanhã nós vai visitar os recifes”, disse Márcia, secando as mãos no avental floral. “E tu, Beatriz, vais ter de usar o colete nadadores-salvadores, combinado?” A menina fez uma careta, mas acenou que sim.
Ela tinha aprendido a nadar no verão passado, mas a Márcia ainda ficava apreensiva com o mar aberto. Era uma mãe cuidadosa, professora de educação infantil, que colocava sempre a segurança dos filhos em primeiro lugar. O sol começava a pôr-se quando terminaram de jantar. Anselmo foi até ao carro buscar o violão que levava sempre nas viagens.
Gustavo herdara o gosto musical do pai e, nos últimos meses, vinha aprendendo alguns acordes. A família reuniu-se na varanda e, entre uma música e outra, planearam os próximos dias de férias. Amanhã, depois dos recifes, podemos ir naquela lojinha de artesanato que a Beatriz gostou”, sugeriu Márcia, acariciando os cabelos encaracolados da filha que já dormitava no seu colo.
“E depois vamos ver o pôr do sol na praia”, acrescentou Anselmo, dedilhando suavemente as cordas. A noite chegou tranquila. Às 22:30, todos já estavam recolhidos. Anselmo trancou as portas, verificou as janelas e apagou as luzes. Era um ritual que fazia questão de manter mesmo em férias. Do quarto ainda conseguia ouvir o barulho suave das ondas a rebentarem na praia, a poucos metros da casa.
Na manhã seguinte, 16 de fevereiro, o vizinho Cláudio Vasques estranharia o silêncio absoluto proveniente da propriedade ao lado. Não havia movimento, não se ouviam vozes, nem sequer o barulho do chuveiro ou do televisão. As cadeiras da varanda permaneciam exatamente na mesma posição da noite anterior, e a churrasqueira ainda tinha cinzas frias do churrasco da véspera.
Quando o sol já estava alto, O Cláudio decidiu bater à porta. Nenhuma resposta. Rodeou a casa, chamando pelos nomes da família. O carro estava na garagem, as janelas fechadas, mas havia algo de estranho no ar. Um silêncio pesado, diferente do silêncio natural de uma casa onde as pessoas ainda dormem. Foi só às 14 ré da tarde, quando percebeu que a situação não era normal, que Cláudio decidiu chamar a polícia.
A A delegacia de Porto de Galinhas registou oficialmente o desaparecimento da família Duarte Santos em 17 de Fevereiro de 2003, um dia após o alerta de Cláudio Vasques. O comissário Edmundo Carreiro, homem de 52 anos com três décadas de experiência policial, nunca tinha lidado com algo semelhante, uma família inteira que simplesmente se desvaneceu durante a madrugada, sem deixar rasto.
O primeiro mistério estava dentro da própria casa. Todas as roupas da família permaneciam nas malas e nos roupeiros, incluindo os documentos pessoais, carteiras com dinheiro e até mesmo o telemóvel de Anselmo em cima da mesa da sala. As camas estavam desarrumadas, indicando que todos tinham dormido ali na noite anterior.
Na cozinha restava uma panela com restos de leite achocolatado. Mar se habituava-se a preparar para Beatriz antes de dormir. É como se tivessem saído para dar uma volta e simplesmente nunca voltaram”, comentou o investigador Marcos Ribeiro enquanto examinava os cômodos. As primeiras 48 horas foram cruciais. Policiais militares pentiram toda a costa desde Porto de Galinhas até Ipojuca.
Questionaram os pescadores, comerciantes locais e outros turistas. Ninguém tinha visto a família na manhã do dia 16. O último relato confirmado era de Marcelo, funcionário da padaria, que se lembrava de Márcia comprar pães cerca das 17 do dia anterior. Cláudio Vasques tornou-se a principal testemunha. Morador fixo da região há 15 anos.
Conhecia bem os hábitos da família durante as férias. Eles nunca saíam de madrugada. Repetia para qualquer pessoa que quisesse ouvir. O Anselmo era muito cauteloso. Sempre trancava tudo antes de dormir. Sempre deixava uma luz acesa na varanda. Naquela manhã, a casa estava completamente escura. A comunidade local se mobilizou.
Pescadores ofereceram os seus barcos para vasculhar a costa marítima. Comerciantes espalharam fotos da família nos seus estabelecimentos. O caso ganhou repercussão na comunicação social pernambucana quando a TV Jornal do Comércio fez uma reportagem especial sobre o desaparecimento misterioso. Surgiram teorias de todos os tipos. Alguns acreditavam no sequestro.
Anselmo, como contabilista, poderia ter acesso a informações financeiras valiosas. Outros especulavam sobre dívidas ou envolvimento com pessoas perigosas. Tavia ainda quem mencionasse a possibilidade de a família ter fugido voluntariamente, embora nada nas suas vidas no Recife indicasse motivos para tal drástica decisão.
A investigação revelou pormenores sobre a vida normal da família. Anselmo trabalhava no mesmo escritório há 12 anos, tinha uma reputação impecável e nunca se envolvera em negócios suspeitos. A Márcia era acarinhada na escola onde lecionava e os seus colegas a descreviam como uma mulher dedicada e transparente. O Gustavo era um adolescente comum, bom aluno, sem problemas disciplinares.
Beatriz, ainda criança, vivia a rotina típica da sua idade entre os escola e os jogos. Conforme os dias transformaram-se em semanas, a procura perdeu intensidade. A polícia seguiu algumas pistas falsas, relatos de avistamentos em cidades vizinhas que se mostraram-se equivocados, chamadas anónimas que não levavam a lado nenhum.
O caso começou a arrefecer. A casa de veraneio permaneceu selada por ordem judicial durante seis meses. Quando finalmente foi libertada, os familiares de Anselmo e Márcia, os seus pais, já idosos, e alguns irmãos, decidiram mantê-la fechada. Ninguém tinha coragem de voltar àquele lugar que um dia fora sinónimo de alegria e carregava agora o peso de uma ausência inexplicável.
Cláudio Vasques mudou-se dois anos depois. Não conseguia mais viver ali ao lado, confessou anos mais tarde. E todas as noites, quando passava em frente daquela casa vazia, sentia um aperto no peito. Era como se ainda estivessem ali à espera de alguém encontrá-los. O tempo passou, mas a ferida permaneceu aberta.
A cada ano, sobretudo no mês de fevereiro, os jornais locais recordavam o caso. Programas de televisão sobre mistérios não solucionados eventualmente mencionavam à família que desapareceu em Porto de Galinhas. Mas com o passar dos anos, outras tragédias ocuparam as manchetes. Outras dores tomaram o lugar da comoção pública.
Em 2008, 5 anos após o desaparecimento, o caso foi oficialmente arquivado por falta de novas evidências. A família Duarte Santos tornara-se mais uma estatística nos registos policiais de pessoas desaparecidas. Quatro nomes em uma pasta empoeirada guardada num arquivo que mais ninguém consultava. A casa de veraneio, com a sua piscina azul agora coberta por uma lona sururrada e o seu jardim tomado pelo mato, tornou-se um marco silencioso na paisagem do Porto de Galinhas.
Os mais antigos da região ainda se lembravam da tragédia, mas para os novos residentes e turistas era apenas mais uma propriedade abandonada, uma entre muitas, ao longo da costa pernambucana. Março de 2015, 12 anos depois do desaparecimento, a velha casa de veraneio seria finalmente reformada. Os herdeiros da família, um tio de Anselmo, que vivia em São Paulo, decidiram vender a propriedade.
Durante uma década, ela permanecera como um fantasma arquitetónico na paisagem de Porto de Galinhas. Janelas seladas com madeira, tinta descascada pelas chuvas e pelo sol, jardim transformado em pequena selva urbana. Raimundo Pessanha, pedreiro de 58 anos, nascido e criado na região, foi contratado para liderar a reforma.
Homem de poucas palavras e muito trabalho, conhecia bem a história da casa. Todos em Porto de As galinhas conheciam, mas Raimundo não era supersticioso. Casa é casa, dizia sempre, é tijolo, cimento e telha. O resto é história que as pessoas inventam. O primeiro desafio era a piscina. A água tinha evaporado completamente ao longo dos anos, deixando no fundo apenas folhas secas, ramos e uma camada espessa de lodo escuro.
A estrutura de azulejos estava danificada, com fissuras que se estendiam até à base de betão. “Vamos ter de partir tudo e fazer nova”, disse Raimundo ao cliente durante a primeira visita. “Não há maneira de aproveitar. Esta piscina tá comprometida. No dia 18 de março, foi realizada uma quarta-feira soalheira, Raimundo e dois ajudantes iniciaram a demolição, usaram marteletes pneumáticos para quebrar os azulejos e depois partiram para a base de betão. O trabalho era árduo.
12 anos de abandono tinham transformado aquela piscina numa estrutura quase sólida de detritos e sedimentos. Por volta das 14 ass, quando já tinham removido quase metade do betão da parte mais funda, Raimundo parou o martelo. Algo lhe chamara a atenção. Uma mancha escura na terra, diferente do padrão natural do solo.

Era pequena, do tamanho de uma mão aberta, mas tinha uma coloração e textura que não combinavam com o restante. “Ó, Severino, chamou um dos ajudantes. Vem cá dar uma vista de olhos nisso.” Severino aproximou-se e ficou observando durante alguns segundos. Tinha 23 anos de experiência em construção civil e nunca tinha visto algo parecido naquele tipo de terreno.
A mancha parecia diferente, mais compacta, como se algo tivesse sido ali enterrado e com o tempo houvesse alterado a composição da terra. Raimundo pegou numa pá mais pequena e começou a cavar cuidadosamente em redor da mancha. Alguns centímetros de profundidade, a lâmina da pá bateu em algo que não era pedra nem raiz. Era algo mais consistente, mas que cedia ligeiramente a pressão.
“Parem tudo”, disse Raimundo, suando frio. Tinha um pressentimento ruim. Continuaram a escavar com as mãos, removendo a terra com cuidado. Primeiro apareceu um pedaço de tecido escuro, depois algo que parecia couro. Era uma bolsa. Uma bolsa de senhora em couro castanho do tipo que se usava no início dos anos 2000. O coração de Raimundo disparou.
Ele lembrou-se imediatamente da história da família desaparecida. Severino, mais novo, não fez a ligação inicialmente, mas apercebeu-se da tensão no rosto do chefe. “O que é que fazemos?”, perguntou Severino em voz baixa. “A as pessoas param de mexer e chamam a polícia”, respondeu Raimundo, ainda a olhar fixamente para a bolsa semi-enterrada.
A bolsa estava surpreendentemente bem preservada. O couro tinha escurecido e endurecido, mas a estrutura permanecia intacta. Não estava completamente fechada. A humidade e o tempo tinham deformado o fecho, deixando uma pequena abertura pela qual se podiam ver pedaços de tecido e outros objetos no interior. Raimundo conhecia Porto de Galinhas como a palma da mão.
Sabia que aquela casa tinha pertencido à família que desapareceu em 2003. Sabia também que a polícia tinha vasculhado cada centímetro da propriedade na época, incluindo o quintal e a zona da piscina. Como essa bolsa tinha parado ali porque ninguém a encontrou antes? Enquanto esperavam pela chegada da polícia, Raimundo não conseguia parar de pensar.
A piscina estava a funcionar normalmente quando a família desapareceu. Ele lembrava-se de ter visto as crianças a brincar nela durante as férias anteriores. Se a bolsa estava enterrada por baixo da estrutura de concreto, isso significava que, “Severino”, disse Raimundo, quebrando o silêncio pesado que se instalara no quintal.
“Acha que essa bolsa estava aqui há muito tempo?” “Não sei, patrão, mas pelo jeito que a terra estava comprimida, parece que sim. A sirene da viatura policial ecuou pela rua às 16:20. O cabo Martinês, da mesma esquadra que tinha investigado o desaparecimento em 2003, foi o primeiro a chegar. Ele estava na corporação há apenas 5 anos, mas conhecia bem o caso.
Era uma das histórias que os veteranos sempre contavam aos novatos. Quando Martinez viu a bolsa semi-enterrada no local exato onde antes existia a piscina da família desaparecida, sentiu um arrepio percorrer a espinha. 12 anos depois, Porto de Galinhas estava prestes a reviver o seu maior mistério. A bolsa foi cuidadosamente removida pela perícia técnica na manhã do dia 19 de março de 2015.
O comissário Edmundo Carreiro, agora com 64 anos e próximo da reforma, foi chamado de volta ao caso que o tinha assombrado durante toda a sua carreira. Quando recebeu o telefonema a informar sobre a descoberta, sentiu uma mistura de ansiedade e alívio. Talvez finalmente pudesse fechar aquele capítulo. A análise inicial revelou que a bolsa pertencia a Márcia Santos.
Dentro dela, milagrosamente preservados pela combinação do couro resistente e do ambiente semi-seco debaixo da piscina, estavam documentos pessoais, algumas fotografias da família e um pequeno caderno de apontamentos que Márcia costumava levar em viagens. Mas foi nas últimas páginas desse caderno que a investigação encontrou a primeira pista real em 12 anos.
A letra de Márcia, sempre cuidada e organizada, mostrava sinais de pressa e nervosismo nas últimas anotações. A data da última entrada era 15 de fevereiro de 2003, o dia anterior ao desaparecimento. Anselmo está preocupado. Aquele homem apareceu de novo hoje na praia, o mesmo que vimos ontem. Ele fica a olhar para as crianças. Ah, disse que eu estou paranóica, mas uma mãe sabe quando algo não está bem.
Vamos trancar tudo esta noite. A entrada seguinte, com letra ainda mais apressada, 11 da noite. Alguém bateu na porta. Ah, foi ver. Disse que não tinha ninguém, mas vi uma sombra na janela do quarto das crianças. Estou com medo. O delegado Carreiro imediatamente ordenou uma nova investigação. A descoberta da bolsa por baixo da piscina sugeria que alguém tinha enterrado evidências no local, possivelmente na própria noite do desaparecimento.
Mas quem teria acesso à propriedade e por a bolsa estava exatamente ali? A resposta veio através de Cláudio Vasques, o antigo vizinho que agora vivia em Recife. Quando a polícia o procurou para um novo depoimento, revelou um pormenor que nunca havia mencionado antes por vergonha e medo de ser mau interpretado.
“Eu não contei na altura porque, bem, porque vocês iam desconfiar de mim”, disse Cláudio, visivelmente desconfortável na esquadra. Mas na noite do dia 15 para o dia 16, ouvi barulho de obra vindo da casa deles, tipo martelete, percebe? Achei estranho, mas pensei que fosse o Anselmo arranjando alguma coisa. A que horas? Perguntou o Carreiro.
Devia ser umas 2, 3 da manhã. Durou pouco, cerca de 20 minutos. Depois ficou tudo quieto. A nova informação mudou completamente o rumo da investigação. Se alguém estava a usar ferramentas de construção na madrugada do desaparecimento e se a bolsa de Márcia foi encontrada enterrada debaixo da piscina, isso sugeria um plano deliberado para ocultar provas.
O delegado Carreiro ordenou uma escavação completa da área da piscina. Utilizando equipamentos de georadar, a perícia mapeou anomalias no subsolo em redor de onde a bolsa foi encontrada. O que descobriram na semana seguinte chocou mesmo os investigadores mais experientes. Enterrados em diferentes pontos por baixo do que um dia foi à piscina da família, estavam os pertences pessoais de todos os membros, a guitarra de Anselmo, os óculos de leitura de Márcia, a mochila escolar do Gustavo com alguns cadernos e a boneca preferida de
Beatriz, uma pequena sereia de plástico que ela levava para todo o lado. Cada objeto tinha sido cuidadosamente enterrado em local separado, como se alguém quisesse dispersar as provas, tornando impossível encontrá-las por acaso. A operação exigira tempo, planeamento e conhecimento da rotina da família.
Foi então que o nome de José Mendonça surgiu na investigação. José era um homem de 41 anos que trabalhava esporadicamente como caseiro e segurança noturna em propriedades de veraneio na região. Em 2003, prestava serviços para várias casas da mesma rua, incluindo algumas próximas da família Duarte Santos. Tinha acesso a ferramentas de construção e conhecia bem os horários e os hábitos dos veraneantes.
Quando a polícia o localizou, em março de 2015, José estava a viver numa favela, nos arredores do Recife, trabalhando como mecânico. 12 anos tinham mudado muito a sua aparência, mas os vizinhos antigos de Porto de Galinhas o reconheceram quando a polícia mostrou fotos. Durante o interrogatório, José inicialmente negou qualquer envolvimento, mas quando, confrontado com as provas, a bolsa enterrada, os objetos dispersos, o testemunho de Cláudio sobre os ruídos noturnos, ele finalmente cedeu. A confissão de José
Mendonça veio em fragmentos ao longo de três dias de interrogatório. Não foi um relato linear, mas sim pedaços de memória que tinha tentado suprimir durante 12 anos. Na noite de 15 de Fevereiro de 2003, José tinha bebido mais do que o habitual. Estava desempregado há duas semanas e passava por dificuldades financeiras.
viu a família na casa de veraneio. Sabia que eram turistas com dinheiro. A princípio, a ideia era apenas um simples roubo, esperar que todos durmam, entrar na casa, pegar em alguns objetos de valor e sair. Mas algo correu mal. Anselmo acordou quando José tentava forçar a janela da cozinha. Houve confronto.
A Márcia acordou com o barulho, as crianças também. Em pânico, José não conseguiu explicar exatamente o que aconteceu nos minutos seguintes. Disse apenas que tudo saiu de controlo muito rápido e que nunca foi minha intenção magoar ninguém. Após o ocorrido, José entrou em desespero. Sabia que seria o principal suspeito. Era conhecido na região.
Tinha antecedentes por pequenos furtos. em estado de choque, tomou uma decisão que o assombraria para o resto da vida, fazer a família desaparecer completamente. Utilizou o seu conhecimento da região para transportar os corpos para um local que nunca revelou, nem mesmo sob pressão policial.
Depois voltou à casa e passou horas a enterrar os pertences pessoais por baixo da estrutura da piscina, utilizando um martelete que tinha emprestado de uma obra próxima. Eu achei que se não tivesse corpo não teria crime”, disse José entre lágrimas durante o último dia de interrogatório. “Pensei que vocês iam procurar um tempo e depois esqueceriam.
Nunca imaginei que aquela mala fosse aparecer. José nunca revelou a localização exata dos corpos, mesmo após ser condenado a quatro prisões perpétuas. Disse apenas que escolheu um lugar onde pudessem estar em paz. Longe de tudo. Em setembro de 2015, se meses após a descoberta da bolsa, José Mendonça foi encontrado morto na sua cela na penitenciária de Itaquita, suicídio. Segundo o relatório oficial.
Deixou uma carta a pedir perdão às famílias das vítimas, mas nenhuma pista adicional sobre o paradeiro final de Anselmo, Márcia, Gustavo e Beatriz. A casa de veraneio nunca foi renovada. Os herdeiros desistiram da venda após a repercussão do caso. Hoje, em 2025, ela continua abandonada, um lembrete silencioso de que algumas verdades levam décadas a emergir e que outras permanecem enterradas para sempre.
Os moradores mais antigos do Porto de As galinhas ainda se lembram da família que desapareceu numa noite de fevereiro. E quando passam em frente àquela casa vazio, onde a piscina nunca mais foi reconstruída, muitos fazem uma oração silenciosa por quatro pessoas que apenas queriam passar férias tranquilas na praia.
A justiça foi parcialmente feita, mas o Anselmo, a Márcia, o Gustavo e a Beatriz continuam desaparecidos. Não mais um mistério, mas uma ausência que ecoa pela eternidade nas ondas que quebram em porto de galinhas.