EX-COVEIRO RELATA O QUE ACONTECEU APÓS O ENTERRO DE UM JOVEM EM 1996

Em 1996, fiz o funeral de um jovem de 18 anos no cemitério municipal de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Em plena cerimónia, vi a mãe dele reconhecer um homem que se aproximava de longe e gritar com ele à frente de toda a gente. Eu não fazia ideia do que estava a acontecer, mas no dia seguinte, coisas que eu não sabia explicar começaram a acontecer perto daquele túmulo.

Até que uma senhora que frequentava sempre o cemitério disse-me uma coisa que mexeu comigo e acreditei que talvez pudesse ajudar. Voltei àquele túmulo sozinho e foi então que vi aquele homem novamente e o que aconteceu nesse túmulo levo comigo até hoje. Meu nome é Adelino Costa Fagundes, tenho 66 anos e esta é a minha história em minutos.

Já fazia uns anos que estava naquele serviço como coveiro. E com o tempo aprendemos a conviver com a rotina de um cemitério. Aprende a respeitar o silêncio do lugar. aprende que cada família carrega a sua própria dor à sua maneira. Eu pensava que já tinha visto de tudo naquele trabalho, mas teve um caso nesse ano que ficou marcado na a minha cabeça de uma forma que nunca consegui explicar bem, nem para mim mesmo, mesmo depois de tanto tempo pensando nisso.

Foi o do Diego Fernandes Costa, um jovem de 18 anos. Era um dia comum de trabalho, quando um colega meu passou perto de mim e comentou que ia ter um funeral à tarde. Disse que era um rapaz jovem e que a família já estava a caminho do cemitério. Não disse mais nada sobre a causa da morte e eu também não perguntei.

No nosso trabalho, cada um sabia apenas o que precisava de saber para fazer o serviço como deve ser. Fui até ao local onde ia acontecer o enterro, ajudar a deixar tudo pronto. A cova já estava preparada, só à espera da hora certa receber o caixão. O cemitério estava sossegado naquela parte da tarde, só o barulho de vez em quando de algum carro passando na rua de fora.

Eu gostava daqueles minutos antes de um enterro começar. Era um tipo de silêncio diferente do resto do dia. Um silêncio que dava tempo para pensar. antes do trabalho pesado começar a sério. Quando o cortejo chegou, reparei logo numa mulher que vinha à frente, sendo apoiada por outras duas. Não precisei perguntar quem era.

A dor dela falava por si só. tinha o rosto marcado de tanto chorar, os olhos vermelhos e fundos, e caminhava devagar, como se as pernas mal aguentassem carregar o peso daquele dia. O padre iniciou a cerimónia com a calma de quem já fez aquilo muitas vezes na vida. As pessoas foram se posicionando-se em redor do caixão, a maioria de cabeça baixa.

Alguns seguravam um lenço na mão, outros só olhavam para o chão. Eu fiquei um pouco afastado, da forma que sempre ficava, atento pro que precisasse fazer. Foi nesse momento que me apercebi um homem se aproximando-se de longe, ainda do lado de fora do grupo de gente reunida. Ele vinha andando devagar, meio hesitante, como quem não tem a certeza se deve estar ali.

Eu não fazia a mínima ideia de quem ele era. Só reparei que o jeito dele de chegar era diferente do resto dos parentes. Ele parou a uma certa distância, sem se misturar com os outros. Ficou ali parado, a olhar para o caixão com as mãos escondidas nos bolsos. Eu continuei a olhar para o serviço, mas de vez em quando os meus olhos voltavam para ele, sem conseguir explicar devidamente o porquê, como se algo nele chamasse a minha atenção.

Foi então que a mãe do rapaz virou o rosto e viu-o. E o que aconteceu depois, nunca mais me vou esquecer. Ela largou o choro contido que vinha segurando desde que chegou e começou a gritar à frente de toda a gente, sem se importar com quem estava a olhar para ela. Sai daqui, não tens esse direito. Você abandonou-nos, abandonou o meu filho e agora vem cá fingir que sente alguma coisa.

A voz dela saiu tão forte que o padre deixou de falar por um instante, sem saber bem que fazer. Alguns familiares correram na direção dela, tentando segurar, tentando acalmar aquele súbito desespero que tinha tomado conta de toda a cerimónia num instante que pareceu durar muito mais do que realmente durou.

Ela ainda gritou mais uma vez, já com a voz quase desaparecendo de tanto chorar. Vai-se embora. Ele não precisa de si. Nunca precisou. O homem não respondeu nada, não tentou se explicar, não deu um passo em frente para aproximar-se mais, apenas baixou a cabeça e ficou parado por um segundo, da maneira de quem recebe um golpe forte e aguenta calado, sem reagir.

Depois virou as costas e foi-se embora, lentamente, sem olhar para trás, sem trocar uma palavra com ninguém. desapareceu pelo caminho que levava até ao portão, deixando para trás aquele silêncio pesado que só existe depois de um grito daquele tamanho. Um silêncio que parecia ocupar mais espaço do que o barulho que tinha vindo antes dele.

Eu Fiquei ali parado por um instante, sem compreender nada do que tinha acabado de acontecer. Não sabia quem era aquele homem, nem o motivo real daquela briga toda, mas senti que aquilo tinha um peso diferente de qualquer outra coisa que eu já tinha visto naquele cemitério em todos os anos que trabalhava ali dentro.

A cerimónia continuou depois daquilo, mas o clima já não era o mesmo. As as pessoas trocavam olhares em silêncio, sem comentar nada em voz alta sobre o que tinha acontecido. Eu voltei a prestar atenção ao meu trabalho, mas por no interior carregava uma sensação estranha, como se algo ali tivesse mudado de verdade, algo que não sabia nomear direito.

Quando chegou a altura de descarregar o caixão com as cordas até dentro da cova, a mãe ajoelhou-se perto da beirada, chorando baixinho, com as outras mulheres da família ao lado, cada uma com uma mão em cima do ombro dela, tentando dar algum tipo de conforto que naquele momento parecia impossível. O padre fez a última oração com a voz calma, sem apressar nenhuma palavra.

Aos poucos, as pessoas foram-se levantando, abraçando-se entre si, preparando-se para ir embora daquele lugar. Eu comecei a fechar a cova, colocando a laje por cima, da forma que o trabalho pedia, tentando concentrar-me apenas no que as mãos precisavam de fazer. Enquanto eu trabalhava, aquela sensação estranha não foi-se embora.

Parecia que o ar ali estava diferente, mais parado do que o normal, mesmo depois de uma boa parte das pessoas já tinha ido embora. Eu tentei focar-me só no que precisava de fazer, mas não conseguia esquecer aquela cena da mãe gritando com aquele homem que ninguém explicou quem era. A família foi saindo aos poucos do cemitério.

Quando terminei o serviço, o local já estava quase vazio. Restava apenas o silêncio do fim da tarde e o vento a passar entre os túmulos. Eu já tinha visto muita família triste lá dentro, muita gente brigada por causa da herança, do rancor antigo, de mágoa que nunca se resolveu bem. Mas aquela cena da mãe a gritar com aquele homem ficou a martelar na minha cabeça de uma forma diferente, sem eu conseguir explicar o motivo, como se aquilo tinha um peso que ia para além de uma briga familiar comum.

Fui embora nesse fim de tarde, pensando na cena da mãe a gritar e no homem a ir embora de cabeça baixa, sem imaginar nem por um segundo que aquele dia era apenas o início de tudo o que ainda estava para vir. No dia seguinte ao enterro, voltei ao trabalho, como sempre fazia, cumprindo o horário, cuidando dos jazigos que necessitavam de manutenção, mas por dentro não conseguia esquecer aquela cena.

E já era meio da manhã e eu estava a fazer um serviço junto ao túmulo do jovem quando um visitante entrou no cemitério com um cão, coisa que às vezes acontecia, uma vez que muita gente ia visitar parente com o animal de estimação junto. O cão ia caminhando tranquilo, sem problema nenhum, farejando o chão de vez em quando, até chegar perto do túmulo do rapaz que tínhamos enterrado no dia anterior.

Foi aí que o animal mudou completamente de jeito. Parou de repente, as orelhas em riste, todo o corpo enrijecido e começou a rosnar baixinho, olhando fixo para a direção da sepultura. O proprietário puxou a trela com força, tentando fazê-lo seguir andando para o lado certo, mas o cão resistiu, cravando as patas no chão, recusando-se a dar mais um passo por esse caminho.

O homem ficou sem perceber nada, puxou novamente com mais força, dizendo o nome do bicho em voz alta, e o cão apenas rosnou mais alto, quase a ladrar os pelos do lombo eriçados. No final, o visitante desistiu e teve de fazer um desvio, passando por outra fileira de túmulos para conseguir seguir com o passeio.

Eu fiquei a olhar aquilo tudo de longe, sem saber o que pensar. Tentei encontrar uma explicação simples para aquilo, da forma que a as pessoas tentam sempre explicar coisa estranha com o que já conhece. Cachorro por vezes estranha cheiro, barulho, movimento que nem nos apercebemos direito. Mas por mais que tentasse me convencer disso, aquela cena ficou martelando comigo o resto da manhã.

No dia seguinte, cheguei cedo ao trabalho, como de costume, com o sol ainda baixo no horizonte. Antes mesmo de eu começar o serviço, o vigia nocturno chamou-me de lado para conversar, dizendo que precisava de contar uma coisa estranha que tinha acontecido na ronda da madrugada. Parecia incomodado, sem jeito de começar a falar sobre o assunto.

Contou que lá para as 3 da manhã tinha visto um rapaz jovem a caminhar sozinho dentro do cemitério. Disse que chamou, mas o rapaz não respondeu nada. Só seguiu andando lentamente entre as filas de sepulturas, sem pressa nenhuma. O vigia foi atrás dele, achando estranho alguém estar ali de madrugada e sozinho.

Mas quando chegou perto, não havia mais ninguém no caminho. Procurou pelos dois lados, entre as lápides, e não encontrou ninguém por perto. Dise que aquilo o deixou com um arrepio que não passava nem depois do sol já ter nascido. Eu perguntei onde exatamente ele tinha visto aquele rapaz, só para perceber melhor a história.

respondeu que o moço tinha parado mesmo na frente do jazigo do Diego Fernandes Costa, o mesmo rapaz que tínhamos enterrado dois dias antes e ali ficou parado por um tempo antes de o vigia ir atrás dele e não encontrar mais ninguém. Foi nesse instante que comecei a compreender que talvez aquilo tudo não fosse apenas um monte de coincidência separada, mas coisas ligadas ao mesmo lugar, ao mesmo túmulo.

Ouvi tudo calado, sentindo um frio subir pela nuca enquanto ele contava cada pormenor daquela madrugada. Aquilo juntou-se na minha cabeça com o que tinha sentido no dia do funeral e com a cena do cão do dia anterior, formando um conjunto que já não dava mais para ignorar como simples coincidência. Já perto do final da tarde, estava a organizar um canteiro de flores quando vi uma senhora de idade que aparecia sempre no cemitério quase todas as semanas visitando algum parente antigo ali sepultado há muitos anos.

 

Eu já se tinha cruzado com ela várias vezes ao longo do tempo. Nesse dia, ela parou perto do túmulo do rapaz. Ficou alguns segundos parada em silêncio, olhando fixo para lápide. Eu segui trabalhando por perto, sem prestar muita atenção ao início, até que ela se virou na minha direção e falou com voz calma: “Tem alguma coisa aí que ainda não descansou”.

Ela disse aquilo e seguiu o caminho dela pelo cemitério, sem esperar uma resposta minha, sem explicar mais nada sobre o que tinha querido dizer. Eu Fiquei parado, sentindo aquela frase pesar de uma forma diferente de tudo o que já tinha ouvido até àquele momento. Não era um comentário de quem sabia de facto alguma coisa concreta, nem parecia aviso de quem percebia de assunto espiritual ou coisa do género.

Era só uma frase dita por uma senhora comum que frequentava o local há anos. Mas foi precisamente por isso que aquilo pesou tanto em mim, como se fosse mais verdadeiro por não vir carregado de explicação nenhuma. Fiquei ali parado durante um bom bocado, olhando para o túmulo, juntando na cabeça tudo o que tinha acontecido naqueles dois dias.

O cão que se recusou a passar por perto, o vigia que já não encontrava ninguém depois de seguir aquele rapaz pela madrugada. E agora aquela frase solta da senhora. Foi então que senti uma vontade estranha a crescer dentro de mim, uma sensação de que talvez eu conseguisse ajudar aquela alma a encontrar algum tipo de descanso.

Não sabia explicar de onde vinha aquilo, nem porque precisamente eu deveria fazer alguma coisa a respeito de um rapaz que nem sabia bem quem tinha sido em vida. Larguei a enchada encostada à parede mais próxima e fiquei imóvel, olhando para o fim de tarde, que já estava caindo sobre o cemitério, pintando tudo de uma cor mais amarelada.

Decidi que não ia esperar mais nenhum dia para fazer alguma coisa. ia até àquele túmulo agora mesmo tentar rezar por aquela alma, mesmo sem saber bem o que estava a fazer. Comecei a caminhar na direção da sepultura, com o sol já baixo entre as árvores do lado de fora do muro, deixando cair uma luz mais fraca sobre as fileiras de túmulos.

O cemitério estava quase vazio àquela hora do dia e o silêncio parecia mais denso do que o habitual, como se o lugar inteiro estivesse à espera de alguma coisa acontecer ali, algo que ainda não sabia nomear. Não tinha mais ninguém por perto àquela hora, só eu e o silêncio que parecia mais pesado do que o normal.

Um silêncio que já conhecia de outros fins de expediente, mas que nesse dia soava diferente de todos os outros que já tinha vivido ali dentro. Parei bem em frente da sepultura, olhando para lápide, e fiquei imóvel por um instante, sem saber bem como começar aquilo. Nunca tinha feito nada parecido, rezar sozinho pelo descanso de alguém que nem conhecia em vida.

Mas alguma coisa dentro de mim dizia que eu precisava de tentar mesmo assim. Me ajoelhei-me ali mesmo no chão de terra batida batida, sentindo a humidade do fim de tarde já a subir do chão, e comecei a rezar baixinho, pedindo em pensamento que aquela alma encontrasse a paz que parecia estar ali em falta. Não usei palavra difícil nenhuma.

Só falei do forma mais simples que sabia, da forma que a minha própria mãe me tinha ensinado a rezar quando eu ainda era menino lá na roça. Logo no início daquela oração, Senti uma ligeira angústia no peito, um aperto que não tinha vindo de lugar nenhum, do nada mesmo sem explicação. Não dei grande importância no primeiro momento, pensando que poderia ser o próprio nervoso de estar a fazer aquilo pela primeira vez ali sozinho.

Mas conforme ia rezando, aquela sensação foi crescendo gradualmente, sem pressas, do maneira que a maré sobe lentamente na beira do mar, sem que nos apercebamos bem. O aperto no peito foi ficando mais forte a cada minuto e o ar em redor pareceu ficar mais pesado, como se tivesse menos espaço para respirar direito ali dentro daquele pedaço de cemitério onde eu estava ajoelhado.

Eu continuei mesmo assim, insistindo na oração, como se alguma coisa dentro de mim soubesse que precisava de terminar aquilo até ao fim, custasse o que custasse. Não sei explicar de onde vinha aquela vontade de continuar, uma vez que o corpo inteiro parecia estar a pedir-me para me levantar e ir embora dali o mais rapidamente possível, longe daquele lugar que já não parecia mais tão familiar.

A angústia foi chegando num ponto que nunca tinha sentido antes. Era um peso quase sufocante, uma sensação de estar rodeado por alguma coisa que eu não conseguia ver, mas que parecia estar muito perto de mim, à espera de alguma coisa. acontecer naquele instante. As minhas mãos ficaram geladas de repente. Percebi que a minha respiração também tinha mudado, ficando mais curta, mais rápida, sem eu ter decidido respirar daquela maneira.

Mas eu continuei mesmo com aquilo tudo a acontecer, repetindo as mesmas palavras baixinho, tentando não deixar o medo tomar conta de mim naquele momento. Foi nesse preciso momento, no ponto mais forte daquela angústia toda, que eu ouvi passos aproximando-se por trás de mim, vindoos de algum lugar entre as fileiras de túmulos.

O som era claro, passos de gente mesmo pisando devagar a terra seca do caminho que passava ali perto, cada vez mais perto de onde eu estava ajoelhado. Virei-me rápido, o coração já disparado dentro do peito, sem saber direito o que esperar depois de tudo o que tinha sentido naqueles últimos minutos ali sozinho.

Por um segundo cheguei a pensar que era mais um daqueles sinais que não conseguia explicar, algo sem forma nenhuma, mas o que vi era bem real. Era gente de carne e osso parada ali. E foi aí que reconheci o homem parado a poucos passos de mim, o mesmo que eu tinha visto no dia do funeral, aquele que a mãe do rapaz tinha mandado embora à frente de todos, sem que ele revidasse uma só palavra.

Não esperava encontrá-lo ali, muito menos naquele preciso momento. Logo depois de tudo o que tinha acabado de sentir, Fiquei parado, ainda ajoelhado, sem saber bem como reagira àquela presença inesperada ali mesmo na minha frente. Foi ele quem quebrou o silêncio primeiro, perguntando com a voz baixa o que eu estava ali a fazer aquela hora do dia, ajoelhado mesmo em frente daquele túmulo.

Respirei fundo antes de responder, tentando organizar na cabeça tudo o que precisava de lhe contar. E disse que desde o dia do funeral coisas estranhas vinham acontecendo perto daquele túmulo. Coisas que eu próprio não conseguia explicar bem, mas que tinham-me deixado sem sossego naqueles últimos dois dias de trabalho, sem sono direito, sem conseguir pensar noutra coisa.

Contei sobre o cão que se recusou-se a passar por ali, resistindo com todo o corpo, sobre o relato do vigia, que jurava ter visto um rapaz a caminhar de madrugada e depois não encontrou mais ninguém pela frente. E sobre a frase que uma senhora me tinha dito nesse mesmo fim de tarde, algo sobre uma alma que ainda não tinha descansado direito naquele lugar.

Disse também que tinha vindo até ali por conta própria, sem ninguém mandar nem pedir, porque sentia que talvez pudesse ajudar aquela alma a encontrar a paz, mesmo sem compreender direito de onde vinha aquela vontade tão forte. Disse tudo isto olhando para o chão, meio atabalhoado, esperando que ele não achasse que eu estava a inventar ou exagerando as coisas.

O homem ficou em silêncio durante um bom tempo, depois de eu Acabei de falar, olhando fixamente para o túmulo, com os olhos já marejados de lágrimas contidas. Alguma coisa dentro dele parecia estar a quebrar aos poucos, como se as minhas palavras tivessem tocado num lugar que vinha segurando fechado há muitos anos, sem nunca ter contado a ninguém.

Ele passou a mão pelo rosto, respirou fundo umas duas vezes e ficou a olhar para o chão por mais um instante, como se estivesse a juntar coragem para dizer alguma coisa que vinha guardando há muito tempo, talvez desde antes mesmo daquele enterro. Esperei calado, sem pressionar, sentindo que aquele silêncio dele também fazia parte do que precisava acontecer ali.

Foi então que ele respirou fundo mais uma vez, limpou o rosto com as costas da mão e começou a contar. A voz dele tremia um pouco, mas parecia enfim decidido a colocar aquilo tudo para fora. Ele ficou parado durante mais um instante, respirando lentamente, como quem está a juntar as últimas forças para contar alguma coisa difícil de dizer em voz alta depois de tanto tempo calado.

Depois olhou para mim direto nos olhos e diz que era o pai do Diogo. contou que era muito jovem quando o filho nasceu, sem qualquer estrutura para criar uma criança, sem juízo, sem a responsabilidade que um homem adulto de verdade precisa de ter na vida. disse que nessa altura desapareceu, deixando a mãe do Diego sozinha com o menino ainda pequeno e que aquele era um peso que ele carregava consigo desde então, sem nunca conseguir livrar-se direito.

anos depois, já mais maduro, com a vida mais organizada e um trabalho estável, ele contou que o próprio Diego, já com 17 anos, foi atrás dele por conta própria, sem que a mãe soubesse de nada no início daquilo tudo. Os dois chegaram a encontrar algumas vezes escondidos, tentando reconstruir alguma coisa que tinha ficado para trás lá na infância do menino.

contou-lhe que a mãe descobriu estes encontros escondidos e, com medo de que repetisse o mesmo abandono de antes, foi atrás da justiça e conseguiu uma decisão que interrompeu aqueles encontros enquanto o rapaz ainda era menor de idade, sem o poder ver mais até completar 18 anos. Pouco tempo depois, o O Diego completou 18 anos.

O homem fez questão de dizer, com a voz embargada, que não guardava qualquer mágoa da mãe por causa daquilo tudo. Falou que compreendia perfeitamente o motivo daquele medo, porque a culpa real de tudo era dele próprio, por ter partido anos antes e deixado uma ferida que nunca chegou a cicatrizar devidamente na vida dos dois.

contou que foi precisamente durante aquela reaproximação escondida que comprou um carrinho de brincar pequeno, pensando em dar de presente ao filho assim que tivesse a oportunidade certa, uma forma de tentar recuperar um pouco do tempo que já tinha perdido, mas a decisão da justiça cortou o contacto antes que ele conseguisse entregar aquele presente ao Diego.

Falou também que numa das últimas conversas que tiveram antes do afastamento forçado, o Diego disse-lhe que assim que completasse 18 anos ia procurá-lo de novo por conta própria, sem ter de esconder de mais ninguém aquilo, nem da mãe, nem de mais ninguém da família, e que ele, o pai, tinha ficado à espera aquele dia chegar sem poder fazer mais nada, para além de esperar em silêncio.

Foi um primo da família da ex-mulher que avisou-o sobre a morte do rapaz. Disse que esse primo tinha ficado sabendo por outros familiares e fez questão de procurar o pai pessoalmente para contar a notícia mesmo depois de tudo. O homem contou, com a voz cada vez mais baixa, que o Diego tinha morrido num acidente de moto pouco tempo depois de completar 18 anos, precisamente no momento em que finalmente estaria livre.

para decidir sozinho se queria voltar a aproximar do pai, sem depender mais de ninguém para que isso aconteça de verdade. Disse que foi ao funeral, mesmo sabendo que não seria bem recebido por ninguém ali, carregando o arrependimento de anos que nunca tinha conseguido resolver verdadeiramente, nem com o tempo, nem com a distância.

Disse que precisava estar presente, nem que fosse só para ficar de longe, a olhar para o próprio filho, ser sepultado sem se poder aproximar da família. Enquanto contava tudo isto, com a voz cada vez mais fraca, enfiou a mão no bolso das calças e tirou um carrinho de brincar pequeno, meio batido pelo tempo que já tinha passado.

Disse que era aquele mesmo carrinho, o que tinha comprado há anos, guardado desde então, esperando uma oportunidade que nunca chegou a acontecer verdadeiramente. falou que tinha vindo até ali precisamente para deixar aquele carrinho no túmulo do filho, uma vez que nunca teve a oportunidade de entregar em vida, nem a hipótese do reencontro que o próprio Diego tinha prometido fazer, logo que completasse a maioridade e pudesse decidir sozinho, sem necessitar da permissão de mais ninguém. Baixou-se devagar, com

cuidado, e colocou o carrinho em cima do sepultura, ajeitando com a mão, quase como se estivesse a arranjar um presente de aniversário demasiado atrasado, um presente que já não chegava a tempo de nada. Fiquei ali parado, sem dizer nada, só observando aquele simples gesto carregado de tanto tempo perdido entre os dois.

Quando levantou a cabeça de novo, depois de ajeitar o carrinho com cuidado, percebi que alguma coisa tinha alterado no rosto dele. O olhar ficou fixo num ponto vazio entre as lápides vizinhas, um lugar onde não conseguia ver absolutamente nada, só terra e mato baixo entre os túmulos em redor daquele lugar.

Ele esticou a mão lentamente na direção desse ponto vazio, como se estivesse a tentar tocar em alguém que estivesse parado mesmo ali à frente dele, a poucos passos de distância. Eu olhei para o mesmo lugar, tentando perceber o que ele via naquele momento, mas para mim não tinha absolutamente nada naquele espaço vazio do cemitério.

Em poucos segundos, caiu de joelhos no chão duro, a chorar alto, com o corpo todo tremendo daquela maneira, de quem não consegue mais segurar-se depois de tanto tempo guardando aquilo por dentro. Ficou repetindo baixinho, quase sem voz, a mesma frase várias vezes seguidas. Ele perdoou-me. Ele perdoou-me sem explicar mais nada para além disso para mim.

Eu fiquei parado, sem saber bem o que fazer, só testemunhando aquele momento que eu não sabia explicar de todo. Não não vi absolutamente nada além do homem chorando sozinho em frente do túmulo, mas a sua certeza parecia verdadeira demais para ser apenas coisa da imaginação de alguém tão abalado. Aos poucos, ele foi acalmando, ainda ajoelhado no chão, limpando o rosto molhado com as duas mãos, respirando com mais calma a cada instante que passava.

E foi exatamente nesse momento que senti aquele peso que carregava comigo desde o dia do funeral começar a desaparecer de dentro de mim devagar, como se alguma coisa importante tivesse finalmente se resolvido ali. Nos dias que vieram depois desse fim de tarde, reparei que os estranhos sinais que vinham a acontecer perto daquele túmulo pararam por completo, como se tivessem simplesmente se apagado.

Nenhum cão mais estranhou aquele lugar. Nenhum vigia relatou mais nada fora do normal nas rondas. E eu próprio não senti aquela sensação pesada de novo em nenhum outro dia de trabalho. Hoje, muitos anos depois desse dia, ainda penso bastante no que ali vivia dentro do cemitério, principalmente quando o assunto da o perdão aparece em alguma conversa.

Até hoje não sei dizer com certeza se aquele homem viu realmente o filho ali parado à minha frente ou se foi outra coisa que aconteceu dentro dele naquele instante tão forte. O que eu sei é que o perdão que procurava chegou-lhe de alguma forma, mesmo depois de tanto tempo, mesmo depois de tantos anos de afastamento e arrependimento guardado dentro do peito, sem ninguém para dividir aquele fardo.

E isso ensinou-me que nunca é tarde para alguém encontrar a paz, mesmo quando já parece que já não tem jeito nenhum de consertar as coisas. Se acredita que existe perdão até depois da morte, que uma dor guardada durante anos pode encontrar a paz mesmo quando parece tarde demais, deixa aqui nos comentários: “Eu acredito”. E deixo aqui um pedido.

Se tem alguém de quem se afastou, um filho, um pai, um irmão, por orgulho, por mágoa, por medo de dar o primeiro passo, não espera que o tempo passe demasiado. Que Deus o abençoe a si e à sua família. E que ninguém tenha de esperar a hora que já não dá volta para pedir perdão.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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