Em 1997, Genro de banqueiro desaparece em São Paulo, 9 anos depois, reforma traz revelação

Da genro de banqueiro desaparece misteriosamente após reunião no centro financeiro da cidade. Esta manchete estampou as primeiras páginas do estado de Iero Paulo e da Folha em Março de 1997. O Jornal Nacional abriu o noticiário com a foto de um homem elegante, de barba bem aparada e olhos claros. Roberto Alencar, de 34 anos, tornara-se o assunto mais comentado nos círculos financeiros de São Paulo da época.

A última vez que alguém viu o Roberto com vida foi numa quinta-feira, 13 de Março de 1997. Saíra de casa em Higienópolis, vestindo um fato cinzento Hugo Boss e transportando a sua pasta de couro italiano, a mesma que ganhara da sua mulher Fernanda no aniversário anterior. O ar de outono começava a arrefecer São Paulo e as árvores da Praça Buenos Aires já tinham folhas amareladas espalhadas pelo chão.

Roberto conduziu o seu BMW Prata até ao restaurante Duquot, no Jardim Paulista, onde encontraria três sócios para discutir a expansão do negócio da construtora que geria junto ao sogro, o banqueiro Otávio Prado. O restaurante frequentado pela elite paulistana tinha mesas com toalhas brancas impecáveis e um pianista que tocava bossa nova durante o jantar.

Fernanda ainda se lembra do cheiro do perfume Paulo Ralph Lauren que usou nessa noite e de como beijou o seu testa antes de sair, prometendo voltar antes da meia-noite. Ela estava grávida de três meses, facto que poucos sabiam, pois queriam esperar passar o primeiro trimestre para contar à família. Roberto tinha passado os últimos meses especialmente tenso.

Fernanda notava que chegava tarde a casa, falava menos durante o jantar e, por vezes, ela o encontrava-se na madrugada sentado na poltrona da sala, olhando pela janela e bebendo o whisky. Quando perguntava o que estava a acontecer, ele apenas dizia que eram complicações nos negócios e que em breve tudo se resolveria.

Na semana anterior ao desaparecimento, Roberto tinha recebido várias chamadas estranhas. O telefone tocava, ele atendia, ficava em silêncio durante alguns segundos e depois desligava sem dizer uma palavra. Uma dessas ligações aconteceu durante o pequeno-almoço de terça-feira. Fernanda percebeu que as mãos dele tremiam ligeiramente quando colocou o telefone no gancho.

Os sócios confirmaram que Roberto esteve no restaurante das 20 aes às 22:30. Conversaram sobre a construção de um novo empreendimento em Alfaville. O Roberto pediu risoto de camarão e bebeu apenas um copo de vinho tinto. Parecia tranquilo, até animado com os novos projetos, mas Maurício Taveira notou que Roberto olhava constantemente para o entrada do restaurante, como se esperasse alguém ou temesse que alguém aparecesse.

Durante a sobremesa, Roberto perguntou aos sócios se algum deles tinha comentado o projeto Alphaville com terceiros. A pergunta pareceu estranha na altura, mas ninguém deu muita importância. O Roberto pagou a conta com cartão de crédito às 22 Wisma 30 e disse que ia logo para casa. Foi a última vez que falou com algum dos sócios.

O BMW foi encontrado no dia seguinte, estacionado na rua Augusta, a poucos metros do conjunto nacional. As chaves estavam no contacto, o tanque estava cheio e não havia sinais de violência. A pasta de couro estava no banco do pendura. com documentos da empresa e um envelope fechado com o nome Fernanda, escrito à mão. Envelope que ela nunca chegou a abrir, pois a polícia o manteve como prova.

Quando O Roberto não chegou a casa na quinta-feira, Fernanda pensou primeiro que tinha ido direto para o escritório para resolver alguma emergência. Não era incomum nos negócios da família, mas na sexta-feira de manhã, quando o secretária ligou a perguntar onde ele estava, o coração de Fernanda disparou. Roberto nunca faltava ao trabalho sem avisar.

A notícia do desaparecimento de Roberto espalhou-se como fogo pelos corredores do Banco Prado e pelas mesas dos restaurantes de Higienópolis. Otávio Prado, um homem de 62 anos que construíra o seu império financeiro com mão de ferro, de repente viu-se no centro de uma tempestade mediática que não conseguia controlar. Nos primeiros dias, a família ainda mantinha a esperança.

Fernanda passava horas no telefone, telefonando para hospitais, esquadras e até para a Santa Casa. Na esperança de encontrar Roberto internado por algum acidente, as suas mãos ficaram calejadas de tanto marcar números e ela perdeu a voz de tanto repetir a mesma descrição. Homem de 34 anos, 1,80 de altura, barba castanha bem aparada, cicatriz pequena na sobrancelha esquerda.

Otávio contratou dois Os detetives privados da agência mais cara de São Paulo e ofereceu uma recompensa de R$ 50.000 R por informações sobre o paradeiro do genro. Os investigadores Vicente Moura e Antônio Bressan eram ex-polícias com mais de 20 anos de experiência em casos de pessoas desaparecidas. Eles começaram refazendo todo o percurso de Roberto na última semana antes do desaparecimento.

O comissário Renato Tavares do 788 distrito policial assumiu o caso. Homem experiente de cabelos grisalhos e mais de 20 anos na polícia, Tavares já tinha investigado casos de pessoas desaparecidas na região, mas nunca um que envolvesse uma família tão influente. A pressão vinha de todos os lados, dos media, da família e até de superiores na hierarquia policial, que recebiam chamadas diretas do gabinete do presidente da Câmara.

As primeiras semanas foram intensas e reveladoras. A polícia descobriu que Roberto tinha levantado R$ 15.000 em dinheiro na semana anterior ao desaparecimento, quantia considerável para a época. O gerente do banco confirmou que Roberto parecia nervoso durante a transação e perguntou especificamente sobre os levantamentos que não deixassem vestígios eletrónicos.

Os Os investigadores também descobriram que Roberto tinha comprado uma passagem aérea para o Recife no dia 10 de março, três dias antes de desaparecer. A passagem estava em nome de R. Santos e tinha sido paga em dinheiro numa agência de viagens do centro da cidade. A funcionária que vendeu o bilhete se lembrava-se dele porque achou estranho alguém tão bem vestido pagar uma viagem cara com dinheiro vivo.

Vicente Moura, o detetive privado, encontrou uma pista intrigante ao conversar com os funcionários da construtora. A secretária de Roberto, dona Carmen, revelou que nas últimas semanas ele tinha pedido para ela não transferir certas ligações directamente para a sua sala. Ele disse para dizer que estava em reunião, mesmo quando não estava”, contou Carmen aos investigadores.

Achei estranho porque o O Dr. Roberto atendia sempre todas as ligações. Durante a investigação, surgiram os primeiros rumores sobre irregularidades financeiras na construtora. Um ex-funcionário da contabilidade, Gilberto Mascarenhas, procurou discretamente os investigadores particulares e revelou que Roberto tinha descoberto discrepâncias nos contratos com a câmara municipal.

Segundo Gilberto, Roberto tinha pedido para rever todos os contratos dos últimos dois anos e ficou muito preocupado com o que encontrou. Fernanda vivia um pesadelo duplo. Além da angústia do desaparecimento do marido, precisava lidar com a gravidez sozinha. As os enjousos matinais intensificaram-se com o stress e ela perdeu quase 5 kg no primeiro mês.

A sua mãe, a dona Jurema, mudou-se temporariamente para o apartamento em Higienópolis para cuidar da filha, mas nem sequer a presença da mãe conseguia diminuir a ansiedade que corroía Fernanda por dentro. O caso ganhou dimensões nacionais quando apareceu no programa policial do Gil Gomes na rádio Eldorado. A voz grave do jornalista ecoava pelas rádios de São Paulo.

Um homem rico desaparece sem deixar vestígios. Será que o dinheiro protege ou atrai o perigo? A pergunta ficou no ar sem resposta, mas plantou uma semente de suspeita na mente dos ouvintes. Três meses após o desaparecimento, as investigações começaram a esbarrar em muros de silêncio. Os sócios da construtora mantinham versões idênticas sobre a última reunião.

Os funcionários do banco negavam qualquer conhecimento sobre problemas financeiros e até mesmo amigos próximos de Roberto pareciam ter perdido a capacidade de recordar detalhes sobre o seu comportamento nos últimos meses. O O delegado Tavares sentiu na pele a pressão política quando foi gentilmente sugeriu pelo seu superior que priorizasse outros casos mais urgentes.

A sugestão surgiu após uma reunião fechada entre o comando da polícia e figuras influentes da cidade, reunião da qual Tavares não participou, mas soube pelos comentários nos corredores da esquadra. Vicente Moura e António Bressan, os Os detetives privados, continuaram investigando por conta própria, mesmo depois de Otávio Prado ter oficialmente terminou o contrato.

Vicente havia desenvolveu uma obsessão pessoal pelo caso e sentia que estava próximo de descobrir algo importante. Ele passou a investigar nas próprias horas de folga, vasculhando arquivos públicos e conversando informalmente com pessoas que conheciam o Roberto. Foi Vicente quem descobriu a ligação mais perturbadora. Roberto tinha marcado uma reunião secreta para o dia 14 de março, um dia depois do seu desaparecimento, com Marcos Veloso, um jornalista investigativo conhecido pelas suas matérias sobre corrupção no setor público. Veloso confirmou que Roberto

tinha ligado, dizendo ter informações importantes sobre contratos fraudulentos e que tinha medo de ser silenciado. A reunião nunca aconteceu. No dia 14, Veloso esperou Roberto durante 2 horas num café na Vila Madalena, mas nunca apareceu. O jornalista achou que Roberto tinha desistido de falar e não deu mais importância ao episódio até Vicente procurá-lo meses depois.

Durante as investigações, Vicente também descobriu que Roberto havia alugado um cofre particular numa empresa de guarda volumes no Brás. O cofre foi alugado no dia 5 de março, uma semana antes do desaparecimento, em nome de Roberto Santos, o mesmo nome falso usado para comprar a passagem aérea. Quando Vicente e a polícia conseguiram autorização para abrir o cofre, encontraram apenas uma chave dourada, sem identificação, e um papel com um endereço na República.

O endereço levava a um prédio comercial antigo, onde Roberto havia alugado uma pequena sala no terceiro andar. A sala estava vazia quando encontraram, mas o porteiro se lembrava de Roberto. Ele vinha aqui de madrugada, contou o porteiro. Chegava sempre depois da meia-noite e saía antes do amanhecer. Achei esquisito, mas ele pagava certinho.

Fernanda, enquanto isso, havia dado a luz Lucas em setembro. O parto foi difícil, complicado pelo estresse emocional que ela carregava há meses. Quando segurou o filho pela primeira vez, chorou pensando que Roberto jamais conheceria aquele menino que tinha seus olhos claros. Otávio se tornou uma figura paterna para o neto, mas sempre com a sombra da pergunta não respondida.

O que realmente aconteceu com Roberto? Os meses se transformaram em anos. Vicente Moura nunca abandonou completamente o caso, mas suas investigações se tornaram esporádicas. Ele guardava uma pasta com todas as pistas em sua mesa e, às vezes, durante madrugadas, insones, revisava tudo na esperança de encontrar algo que havia passado despercebido.

A mídia perdeu o interesse. Novos casos surgiram. Outros escândalos ocuparam as manchetes e o nome Roberto Alencar foi gradualmente esquecido pelo público geral. Restaram apenas aqueles que o conheciam pessoalmente para carregar o peso da incerteza. Em 2001, Fernanda recebeu uma ligação anônima, uma voz masculina, distorcida, disse apenas.

Ele sabia demais. Pare de procurar se quiser manter sua família segura. A ligação durou menos de 10 segundos, mas foi suficiente para convencer Fernanda de que talvez fosse melhor deixar o passado onde estava. 12 anos se passaram como páginas de um calendário que ninguém tinha coragem de arrancar. São Paulo de 2009 era uma cidade diferente.

As torres de vidro haviam multiplicado no centro financeiro. O metrô tinha novas linhas cortando a cidade e até os telefones celulares haviam evoluído para pequenos computadores de bolso. Fernanda, agora com 43 anos, havia reconstruído sua vida ao lado de Eduardo, um médico cardiologista que conheceu durante um grupo de apoio para viúvas.

Lucas crescera como um garoto inteligente e curioso, sempre fazendo perguntas sobre o pai que nunca conheceu. Aos 12 anos, ele tinha a mesma intensidade no olhar que Roberto. E às vezes Fernanda se assustava com a semelhança. O menino havia criado um álbum de fotos do pai e lia compulsivamente todas as reportagens antigas que conseguia encontrar na internet.

O banco Prado passou por várias mudanças ao longo dos anos. Otávio, já com 74 anos e sofrendo os primeiros sinais de demência senil, havia se aposentado oficialmente, deixando os negócios nas mãos de executivos de confiança. Como parte de uma reestruturação patrimonial, a família decidiu reformar e vender alguns imóveis antigos que tinham no centro de São Paulo.

Um desses imóveis era um apartamento no edifício Copacabana, na região da República, um prédio arteco dos anos 1940. que o banco adquirira nos anos 80 como parte de um leilão de bens. O apartamento havia servido como escritório auxiliar até meados dos anos 90. Depois ficou fechado, acumulando poeira e sendo visitado apenas por zeladores para manutenção básica.

Vicente Moura, agora com 58 anos e trabalhando como segurança de um shopping center, soube da reforma por acaso. Um antigo colega da polícia comentou que a família Prado estava vendendo imóveis antigos e Vicente imediatamente se lembrou do endereço que encontrara no cofre de Roberto anos atrás. Era o mesmo edifício.

Clésio Nogueira, pedreiro de 51 anos e pai de três filhos, foi contratado para liderar a reforma. Ele trabalhava na construção civil há mais de 30 anos e já havia reformado dezenas de apartamentos na região central. Clésio era conhecido pela honestidade e pelo capricho. Sempre entregava as obras no prazo e sem surpresas desagradáveis.

Vicente procurou Clésio antes do início da reforma, mostrou a foto de Roberto e contou resumidamente sobre o caso. “Se você encontrar qualquer coisa estranha, por favor, me ligue”, pediu Vicente, entregando seu cartão. Clésio achou a solicitação curiosa, mas prometeu manter os olhos abertos. Na manhã de 15 de abril de 2009, Clésio e sua equipe começaram a derrubar uma parede do que seria transformado em um quarto maior.

Era uma parede que separava um closet pequeno da sala principal, nada que parecesse ter importância estrutural. O martelo pneumático fazia barulho ensurdecedor e a poeira de gesso voava por todo o ambiente, criando uma névoa branca que dificultava a visão. Foi quando o berbequim de Clésio encontrou um espaço vazio por detrás do reboco.

Ele parou a máquina, passou a mão pela parede e sentiu que havia algo de diferente ali. Lembrou-se imediatamente do pedido de Vicente. chamou Ademir, seu ajudante, e os dois começaram a remover o reboco com mais cuidado, utilizando martelo e talhadeira, como os arqueólogos a descobrir um tesouro enterrado.

O que descobriram deixou-os em silêncio absoluto. Havia um espaço atrás da parede. Não era um defeito de construção, mas sim um compartimento feito propositadamente. Era pequeno, do tamanho de um armário de casa de banho, mas perfeitamente vedado com uma porta disfarçada no reboco. Dentro do espaço oculto, embrulhados em plástico e conservados pelo tempo, como relíquias de uma era perdida, estavam objetos que pareciam ter sido guardados com extremo cuidado.

Uma pasta de couro italiana, um relógio Rolex Submariner, documentos em papel timbrado do Banco Prado, canetas Monteblan, uma agenda de couro e uma foto de casamento onde um homem de barba bem aparada sorria ao lado de uma mulher de vestido branco. Clésio reconheceu imediatamente o rosto da foto. Mesmo passados 12 anos, ele ainda se lembrava das manchetes de jornal, das reportagens na TV, dos cartazes com foto espalhados pela cidade.

Era Roberto Alencar, o genro do banqueiro que desaparecera em 1997. A ligação de Clésio chegou primeiro a Vicente Moura, conforme prometido. Vicente sentiu as pernas bambas quando ouviu a descrição dos objetos encontrados. 12 anos de incerteza, 12 anos de noites mal dormidas a pensar no caso. E de repente a resposta estava ali escondido numa parede há todo este tempo.

Vicente chegou ao apartamento mesmo antes da polícia. Quando viu os objetos espalhados pelo chão, embrulhados cuidadosamente em plástico, sentiu uma mistura de alívio e angústia. Ali estavam as evidências de que Roberto realmente se havia escondido naquele lugar, mas isso só aumentava o mistério sobre o que aconteceu depois. A nova investigação foi assumida pelo delegado Marcos Ferreira, um homem mais novo que Tavares e sem as ligações políticas que tinham limitado a investigação original.

Ferreira tratou o caso como se fosse novo, ignorando as pressões externas e seguindo cada pista com determinação meticulosa. Os objetos encontrados foram levados para a perícia forense. A pasta de couro continha documentos datados entre fevereiro e março de 1997, contratos da construtora, anotações manuscritas sobre reuniões de trabalho e um caderno com números e códigos que pareciam referências bancárias.

Havia também três chaves que ninguém sabia o que abriam e carimbos falsos que poderiam ter sido usados para falsificar documentos. O mais revelador era uma série de cartas manuscritas, todas incompletas, como se o Roberto tivesse começou a escrever várias vezes, mas nunca conseguiu terminar. Uma delas, datada de 12 de Março de 1997, começava: “Minha querida Fernanda, se está a ler isto, significa que algo terrível aconteceu comigo.

Descobri coisas que não posso ignorar, mas pessoas poderosas não vão permitir que eu fale.” A Fernanda foi chamada para reconhecer os objetos. Quando viu o relógio Rolex, aquele que ela tinha dado de presente no aniversário do Roberto, chorou como não chorava há anos. No fundo da pulseira, gravado em letras miúdas, estava escrito para o Roberto com amor, Fernanda, 152, 1996.

Era impossível falsificar aquela gravação feita numa ourivesaria específica de Higienópolis. Lucas, agora um adolescente de 12 anos, insistiu em acompanhar a mãe à esquadra. Quando viu a foto do pai entre os objetos encontrados, a mesma foto de casamento que estava na cabeceira da cama de Fernanda, perguntou: “Isso significa que o meu pai estava vivo depois de todo o mundo pensava que ele tinha morrido?” A pergunta de Lucas ecuou na mente de todos os investigadores.

As evidências forenses confirmaram que Roberto tinha estado no apartamento depois do seu desaparecimento oficial. Impressões digitais dele foram encontradas em documentos datados de abril de 1997, e fibras de tecido do seu fato cinzento, Hugo Boss, estavam preservadas numa gaveta do espaço secreto. Vicente Moura percebeu que a sua antiga suspeita estava correta quando comparou o endereço do apartamento com o papel encontrado no cofre há anos atrás.

Era exatamente o mesmo lugar. Roberto tinha planeado se esconder ali, mas algo correu mal. A investigação reaberta trouxe à personagens que haviam permanecido nas sombras durante a investigação original. Maurício Taveira, um dos sócios da construtora, mudou completamente a sua versão dos factos quando foi interrogado novamente em 2009.

Desta vez admitiu que Roberto tinha descoberto um esquema de sobrefaturação em obras públicas que envolvia pagamentos a funcionários da câmara municipal. “O Roberto queria denunciar tudo”, confessou Taveira, agora um homem de 50 anos com cabelo grisalho e olheiras profundas. Nós tentamos convencê-lo de que seria melhor resolver internamente, devolver o dinheiro e acabar com o esquema sem escândalo, mas estava obsecado com a ideia de o fazer a coisa certa, me como ele dizia.

Taveira revelou que na última reunião no restaurante do Equote, Roberto tinha dado um ultimato. Ou confessavam tudo a polícia até ao final da semana, ou faria a denúncia sozinho. Ele disse que já tinha copiado todos os documentos e que tinha provas suficientes para incriminar toda a gente. Lembrou o Taveira.

Ficamos desesperados. A descoberta mais chocante surgiu quando a perícia conseguiu recuperar dados de uma disquete encontrado entre os objetos de Roberto. A disquete continha cópias digitalizadas de contratos, recibos e até gravações de conversas telefónicas. Roberto havia documentado sistematicamente o esquema de corrupção durante meses, criando um ficheiro completo que poderia ter destruído várias carreiras e provocado um escândalo nacional.

Otávio Prado, já bastante debilitado pela idade e problemas de saúde, foi ouvido um última vez pelos investigadores. Dessa vez, acompanhado por médicos e advogados, admitiu que Roberto tinha procurado ajuda junto dele para decidir como proceder às descobertas. “Eu disse para ele ter cuidado”, murmurou Otávio com a voz trémula.

disse que estas pessoas eram perigosas e que ele deveria pensar na família antes de tomar qualquer decisão precipitada. Segundo Otávio, Roberto passara a última semana antes do desaparecimento dividido entre o medo e a consciência. Ele sabia que denunciar o esquema poderia colocar a sua vida em risco, mas não conseguia conviver com a ideia de ser cúmplice de crimes contra o património público.

A investigação nunca conseguiu esclarecer completamente o que aconteceu com Roberto Alencar após Abril de 1997. As evidências sugeriam que ele se tinha escondido no apartamento da República durante algumas semanas, possivelmente aguardando o momento certo para fazer as denúncias. ou para fugir do país.

Mas se conseguiu escapar, se foi encontrado pelos seus adversários ou se algo mais trágico aconteceu, este permaneceu um mistério. Três das chaves encontradas entre os seus objetos nunca foram identificadas. A quarta abria um cofre no Banco do Brasil, onde Roberto tinha depositado cópias adicionais de todos os documentos comprometedores.

Essas cópias foram entregues ao Ministério Público, que abriu uma investigação sobre o esquema de corrupção. Investigação que levou à detenção de dois ex-funcionários da câmara municipal e ao pagamento de coimas milionárias pelas empresas envolvidas. Fernanda guardou o relógio Rolex numa gaveta embrulhado no mesmo plástico em que foi encontrado.

Ela não conseguia usá-lo, mas também não conseguia se desfazer dele. Lucas passou a usar a agenda de couro do pai para a escola, sentindo-se mais próximo de uma figura que sempre fora apenas uma foto na parede. Vicente Moura aposentou-se do trabalho como segurança, mas continuou investigando casos de pessoas desaparecidas como voluntário.

Ele sempre disse que o caso Roberto Alencar tinha mudado a sua visão sobre quantas verdades permanecem enterradas, à espera do momento certo para emergir. O apartamento do edifício Copacabana foi vendido alguns meses depois à dona Mercedes, uma professora reformada de 68 anos. Ela não sabia da história do lugar quando comprou, mas por vezes durante noites silenciosas sentia como se as paredes ainda guardassem ecos conversas antigas e segredos que o tempo não conseguiu apagar completamente.

Em São Paulo, onde mais de 12 milhões de as pessoas vivem as suas vidas a um ritmo acelerado, a história de Roberto Alencar tornou-se mais uma lenda urbana, daquelas que fazem as pessoas olhar com mais atenção para os apartamentos antigos e se perguntarem quantas verdades ainda estão escondidas atrás das muralhas da cidade, esperando que alguém tenha coragem suficiente para descobri-las.

O mistério final permanece. Roberto conseguiu escapar e refazer a sua vida noutro lugar, ou ele tornou-se mais uma vítima silenciosa de um sistema que não tolera quem ousa desafiar os seus segredos mais obscuros. Em algum lugar de São Paulo ou talvez do mundo, esta resposta ainda espera para ser descoberta. M.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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