Em 1992, mecânico escava terreno encontra o avião Piper do coronel que sumiu cruzando o sertão
O sol de março batia forte no terreno baldio quando Sebastião Ferreira cravou a pá na Terra Vermelha pela primeira vez naquela manhã. Era 1992 e o mecânico de 43 anos tinha comprado aquele lote na periferia de Anápolis para construir uma oficina maior. O que não esperava era que aos 2 m de profundidade a lâmina da pá produzisse um som metálico que ecoou de forma diferente na terra seca.
Sebastião parou, limpou o suor da testa com as costas da mão e se abaixou. Com as mãos, começou a retirar a terra avermelhada, até que os seus dedos tocaram em algo frio e liso, metal, mas não era cano, não era entulho, era uma superfície curva pintada. “Que raio?”, murmurou, chamando o filho adolescente que o ajudava.
“Joãozinho, anda cá ver isto aqui.” O rapaz de 16 anos se aproximou-se, curiosos juntos. Pai e filho começaram a escavar à volta do objeto metálico. A cada punhado de terra removida, mais detalhes surgiam. Uma asa. Depois parte de uma fuzelagem. Em uma hora de trabalho cuidadoso, estava claro. Havia um avião enterrado naquele terreno.
Sebastião sentou-se à beira da cova improvisada, o coração acelerado. Conhecia aviões o suficiente para saber que aquilo não era um brinquedo. Era um Piper Cherokei, um pequeno monomotor, mas robusto, e pelo estado de conservação e pela espessura da camada de terra, estava ali há anos. “Pai, a pessoas chamam a polícia?”, perguntou o João.
A voz trémula de excitação e nervosismo. Sebastião olhou para o céu azul de Goiás, depois para o avião parcialmente exposto. Tinha vivido tempo suficiente saber que algumas descobertas mudavam tudo. Vamos chamar filho, mas antes vamos ver se há alguma coisa que diga-nos de onde veio essa aeronave. Com cuidado, Sebastião desceu para a cova e começou a examinar o que conseguia ver da cabine.
O vidro frontal estava rachado, mas não completamente destruído. Através dele, conseguiu vislumbrar o interior, dois lugares, painel de instrumentos ainda intacto e algo que lhe fez revirar o estômago. Havia ossos no assento do piloto. A Polícia Civil de Anápolis chegou duas horas depois, seguida pelo Corpo de Bombeiros e, eventualmente por representantes dos Aeronáutica.
O terreno de Sebastião se transformou-se numa área de investigação oficial, com fitas amarelas a delimitar o perímetro e técnicos a fotografar cada ângulo da descoberta. O delegado Vanderlei Macedo, um homem experiente de 52 anos, assumiu pessoalmente o caso. Enquanto os peritos trabalhavam na esumação cuidadosa da aeronave, ele se concentrou-se num detalhe que chamou a sua atenção, as marcas na lateral direita do fuselagem.
“Doutor, pode vir ver isto aqui?”, chamou o perito criminal Romeu Santos, apontando para uma série de riscos e amolgadelas na parte traseira do avião. Vanderley baixou-se e observou atentamente. As marcas não eram aleatórias. Havia um padrão, riscos profundos que se estendiam da asa direita até próximo da cauda, como se algo tivesse raspado contra a aeronave com força considerável.
Parece que ele bateu em alguma coisa antes de cair”, observou Romeu, limpando cuidadosamente a terra que ainda cobria parte dos danos. “Olhe aqui, delegado, tem tinta verde nestes riscos.” Vanderlei se aproximou mais. De facto, havia resquícios de tinta verde escura incrustada nos sucos do metal. Uma cor que reconhecia bem, verde militar.
Romeu, preciso que cataloguem cada marca, cada risco, e quero análise desta tinta verde. O delegado fez uma pausa pensativo e preciso saber a numeração desta aeronave o mais rapidamente possível. O perito dirigiu-se até à asa esquerda, onde geralmente era pintada a matrícula da aeronave. Com uma escova mole, começou a remover décadas de terra acumulada.
Lentamente, os números e letras emergiram. PTBHK. Encontrei a matrícula, delegado! Gritou Romeu. PTBHK. Vanderley anotou cuidadosamente no bloco. Algo sobre aquela sequência soava-lhe familiar, mas não conseguia localizar a memória. Decidiu que a primeira medida seria consultar os registos da ANAC para descobrir quem era o proprietário registado daquela aeronave.
Enquanto isso, a equipa médica trabalhava na remoção cuidadosa dos restos mortais encontrados na cabine. Dr. Zenrique Monteiro, médico legista experiente, coordenava o processo com a minúcia de quem já tinha visto de tudo. “Delegado, posso adiantar algumas coisas?”, disse o médico, removendo as luvas cirúrgicas após examinar preliminarmente os ossos.
Temos um indivíduo do sexo masculino, provavelmente entre os 45 e os 55 anos no momento da morte. usava uniforme militar a botões e insígnias conservados junto aos restos. Uniforme militar? Vanderley sentiu um frio na espinha. Sim, e pelos fragmentos de tecido que consegui preservar, parece ser da Força Aérea.
Posto elevado pelas insígnias que encontrei. O delegado olhou novamente para as marcas de tinta verde na fuzelagem, depois para o uniforme militar descrito pelo médico legista. As peças de um puzzle antigo começavam a encaixar na sua mente. Três dias depois da descoberta, Vanderley estava no Arquivo Morto da Esquadra, remexendo pilhas de processos antigos quando encontrou o que procurava.
Uma pasta amarelada com a etiqueta. Caso 1278. Desaparecimento, aeronave militar. Suas mãos tremeram ligeiramente ao abrir o ficheiro. Lembrava-se agora, 14 anos atrás, ainda como investigador principiante, havia participado nas buscas por uma aeronave militar que desaparecera durante um voo de rotina entre Brasília e a base aérea de Anápolis.
A primeira página do dossier confirmou as suas suspeitas. Coronel Augusto Henrique Castilho, 51 anos, piloto experiente com mais de 3.000 horas de voo, desapareceu a 15 de Setembro de 1978 durante o voo em aeronave Piper Cherokei, PT BHK. Vanderlei sentou-se pesadamente na cadeira e continuou a ler. O coronel Castilho transportava documentos sigilosos entre as duas bases, quando perdeu o contacto com a torre de controlo cerca das 15:30, numa tarde de céu limpo e visibilidade perfeita.
As buscas concentraram-se na rota oficial, uma linha quase reta entre Brasília e Anápolis. Mas havia algo no relatório que lhe chamou a atenção, uma anotação manuscrita nas margens do documento feita pelo então delegado responsável pelo caso. Coronel relatou via rádio possível problema mecânico às 15:25. Mencionou interceção não autorizada antes do sinal ser perdido definitivamente.
Interceptação não autorizada. Vanderley releu a frase várias vezes. Na altura, ninguém havia dado muito peso àquela informação, assumindo que se tratava de algum problema de comunicação ou mal entendido. Mas agora, olhando para as marcas de tinta verde na fuzelagem do Piper encontrado, a frase ganhava um significado completamente diferente.

O delegado foliou o resto do ficheiro. As buscas oficiais duraram duas semanas, cobrindo uma área de 200 km² ao longo da rota planeada. Helicópteros, equipas terrestres, até cães farejadores foram empregados. Nenhum rasto da aeronave ou do coronel foi encontrado. O caso foi oficialmente arquivado em Dezembro de 1978, três meses após o desaparecimento, com a conclusão de acidente aéreo em área não determinada, possivelmente devido à avaria mecânica.
Mas masley sabia agora que o avião não tinha caído na rota oficial. tinha sido encontrado a quase 40 quilómetros de distância em terreno privado, enterrado como se alguém tivesse tentado esconder deliberadamente os destroços. Ele pegou no telefone e marcou para a base aérea de Anápolis. Coronel Mendes é o comissário Vanderlei Macedo.
Preciso de falar com o senhor sobre um caso antigo, muito antigo. O encontro aconteceu no hangar da base aérea de Anápolis numa tarde abafada de Março. Coronel Roberto Mendes, comandante da base, tinha concordado em receber Vanderlei após ouvir sobre a descoberta da aeronave, mas a sua postura rígida e o modo como evitava o contacto visual direto deixaram claro que a conversa não seria fácil.
Delegado, preciso que compreenda uma coisa”, começou o coronel caminhando entre as aeronaves estacionadas. O caso do coronel Castilho foi oficialmente encerrado há 14 anos. Não há nada mais a investigar. “Com todo o respeito, coronel, agora há”, respondeu Vanderley, mostrando as fotografias dos destroços. Encontrámos a aeronave dele e as evidências sugerem que houve mais do que uma simples avaria mecânica.
Mendes parou perante um caça F5 e ficou em silêncio por um longo momento. Quando finalmente falou, a sua voz estava mais baixa, quase confidencial. O que te vou contar não pode sair desta conversa oficial, delegado. Entende? Vanderley assentiu, tirando o bloco de notas do bolso. Em 1978, houve tensões políticas que vocês civis nem imaginavam.
Não era só a ditadura que estava a acabar. Havia facções militares com ideias diferentes sobre como o país deveria avançar. O coronel virou-se para enfrentar Vanderlei diretamente pela primeira vez. Augusto Castilho era um homem íntegro, mas também era teimoso. Acreditava que certos documentos e informações deveriam ser preservados para a história, não destruídos como alguns desejavam.
Naquela tarde de setembro, estava transportando ficheiros que alguns grupos preferiam que desaparecessem para sempre. Que tipo de ficheiros? Registros de operações durante os anos mais duros da ditadura. Nomes, datas, métodos, coisas que poderiam comprometer muita gente importante. Mesmo décadas depois. Vanderley sentiu o estômago apertar.
E acham que alguém tentou impedir que estes documentos chegassem ao destino? Mendes olhou em redor, verificando se estavam sozinhos. Não acho eu, delegado. Eu sei. Duas aeronaves militares descolaram não oficialmente da base de Goiânia nessa tarde, supostamente para exercícios de rotina, mas o timing foi muito conveniente.
E porque é que isso nunca foi investigado oficialmente? Porque os responsáveis pela investigação eram as mesmas pessoas que tinham interesse em manter certos segredos enterrados. O coronel fez uma pausa significativa, literalmente enterrados, pelo que parece, as peças finais do puzzle encaixaram na mente de Vanderley.
As interceções não autorizada mencionada pelo coronel Castilho na sua última transmissão, as marcas de tinta verde militar na fuselagem do Piper, o facto de a aeronave ter sido encontrada enterrada longe da percurso oficial, como se alguém tivesse tentado esconder os destroços. Coronel, preciso de uma confirmação oficial. Houve ou não uma ordem para interceptar o voo do coronel Castilho? Mendes ficou em silêncio por um longo momento, observando os caças estacionados ao redor.
Oficialmente, nunca houve tal ordem. Fez uma pausa deliberada. Não oficialmente. Bem, algumas ordens nunca foram documentadas nessa altura e algumas pessoas que poderiam confirmar ou negar já morreram de causas naturais ao longo destes anos. Era a confirmação que Vanderley necessitava, mesmo que indireta. O coronel Castilho tinha sido deliberadamente abatido para impedir que documentos sensíveis chegassem ao seu destino.
E depois alguém tinha enterrado cuidadosamente os destroços para que a verdade nunca viesse ao de cima. Com as informações fornecidas pelo coronel Mendes, Vanderley conseguiu reconstruir os últimos momentos do voo do Coronel Castilho. Através de registos meteorológicos, relatórios de radar da época e depoimentos de controladores de voo aposentados, montou um quadro pormenorizado daquela tarde fatal de setembro de 1978.
Às 14:45, o coronel Castilho levantou voo da base aérea de Brasília, pilotando o Piper Cherokee PT BHK. O voo deveria durar aproximadamente 1 hora, seguindo uma rota direta até Anápolis. O tempo estava perfeito. Céu limpo, vento calmo, excelente visibilidade. Às 15:15, Castilho fez a sua última comunicação de rotina com a torre de controlo de Anápolis, informando que se encontrava a 20 minutos do destino e voando normalmente.
Às 15:25, uma transmissão fragmentada foi captada. Torre aqui, PT BHK. Tenho duas aeronaves não identificadas se aproximando-se pela minha direita. Solicito confirmação se há exercício militar na área. A resposta da torre foi imediata. Pthk. Não existem exercícios programados no seu rota. Mantenha o rumo e a altitude.
Do minutos depois, a voz tensa do coronel voltou ao rádio. Torre. As aeronaves estão muito próximas. Não respondem às chamadas de rádio. Parecem estar intercetando o meu voo. Foi a última transmissão oficial do coronel Augusto Henrique Castilho. Mas Vanderley descobriu algo que não constava nos relatórios oficiais.
Um operador de rádio amador em Anápolis tinha captado fragmentos de uma última transmissão às 15:28. A gravação preservada por acaso numa cassete esquecida, foi recuperada após semanas de investigação. A voz do coronel, claramente sobensão extrema, podia ser ouvida, dizendo: “Estão a obrigar-me a aterrar. Não vou permitir que destruam estes documentos.
Se me acontecer alguma coisa, procurem em A transmissão foi interrompida abruptamente. Baseado na análise dos destroços e na posição onde foram encontrados, os peritos da Força Aérea reconstruíram o que provavelmente aconteceu nos minutos finais. O Piper tinha sido obrigado a fazer um pouso de emergência numa estrada de terra batida isolada.
As marcas de tinta verde na fuzelagem indicavam que uma das aeronaves militares tinham feito contacto físico com o avião do coronel, provavelmente tentando forçá-lo a baixo. A aterragem foi violenta, mas não fatal. O coronel sobreviveu ao impacto inicial. O que aconteceu depois foi revelado pela análise balística dos restos mortais.
Um único tiro na nuca executado à queima roupa. Os documentos que Castilho transportava desapareceram. O seu corpo foi deixado na cabine e toda a aeronave foi cuidadosamente enterrada no terreno baldio, longe de qualquer percurso de busca provável. Durante 14 anos, o segredo permaneceu enterrado juntamente com os destroços, até que Sebastião Ferreira decidiu construir uma oficina nova e começou a escavar.
O caso do coronel Augusto Henrique Castilho foi oficialmente reaberto em Abril de 1992. A investigação de Vanderlei gerou um relatório de 400 páginas que foi enviado para a Procuradoria-Geral da República, documentando evidências de execução sumária e ocultação de cadáver. Sebastião Ferreira nunca chegou a construir a sua oficina naquele terreno.
Vendeu o lote à câmara municipal de Anápolis, que transformou o local num pequeno memorial ao coronel. Uma placa simples marca o local onde a aeronave foi encontrada. Em memória do coronel Augusto Henrique Castilho, 1927-1978. morreu a defender a verdade. A família do coronel, que durante 14 anos viveu sem saber o destino do pai e marido, pôde finalmente sepultá-lo com dignidade.
Dona Marlene Castilho, viúva do coronel, faleceu em 1995 aos 68 anos, 3 anos após ter descoberto a verdade sobre o desaparecimento do marido. Os documentos que o coronel transportava nunca foram recuperados. oficialmente nunca existiram. Das aeronaves militares responsáveis pela interceção, nenhuma foi oficialmente identificada. Os Os pilotos, se ainda vivos, nunca foram localizados.
Os superiores que deram as ordens, segundo o coronel Mendes, morreram de causas naturais ao longo dos anos. Vanderlei reformou-se em 2001, mas manteve o processo do caso na sua secretária até ao último dia de trabalho. Em entrevista, anos mais tarde, declarou: “Rezolvemos o mistério do desaparecimento, mas a justiça essa ficou enterrada juntamente com outros segredos daquela época.
O terreno onde O Sebastião encontrou o avião hoje é um pequeno parque público. Crianças brincam ali todas as tardes a correr sobre a terra vermelha, onde durante 14 anos repousaram os destroços de um dos últimos crimes da ditadura militar brasileira. Por vezes, segundo os habitantes locais, quando o vento está certo e a luz da tarde bate na placa do memorial de um modo especial, é possível quase ouvir o som longínquo de motores de aeronaves ecoando pelo cerrado, mas provavelmente são apenas os voos comerciais que passam no alto a
caminho do aeroporto de Anápolis, provavelmente. Gente,