Em 1987, Fazendeiro desaparece após vender gado no Mato Grosso 18 anos depois, Caseiro revela
A Valdomiro sempre contava o dinheiro três vezes antes de guardar na carteira”, murmurava Benedita enquanto mexia o café no fogão a lenha, os olhos perdidos na fumaça que subia pela chaminé. Era assim que ela se lembrava do marido naquela manhã de março de 1987, quando ele partiu para o que seria sua última transação comercial.
A fazenda Santa Rita ficava a 40 km de Cácceres, no coração do Pantanal Matogrossense. Valdomiro Pereira da Silva, de 52 anos, havia transformado aquelas terras áridas em um próspero negócio de gado de corte ao longo de 15 anos de trabalho duro. Suas mãos calejadas conheciam cada palmo daquelas pastagens que se estendiam até onde a vista alcançava, interrompidas apenas pelos buritis e pelas águas do rio Paraguai. ao longe.
Naquela terça-feira, 17 de março, o calor já castigava às 7 da manhã. O termômetro marcava 32º e o céu alaranjado prometia mais um dia escaldante do verão pantaneiro. Valdomiro tomou seu café preto, como sempre, acompanhado de pão doce que Benedita fazia toda segunda-feira. vestiu a camisa xadrez azul e branca, a mesma que usava em todos os negócios importantes, e calçou as botas de couro que havia comprado em Cuiabá no ano anterior.
“Vou até a cidade resolver aquela venda do gado para o frigorífico de Vársia Grande”, disse ele, beijando a testa da esposa. “Se tudo der certo, voltamos a conversar sobre reformar a casa.” Benedita sorriu. Fazia meses que ela insistia para ampliar a cozinha e construir um banheiro maior. Com o dinheiro da venda de 200 cabeças de gado, finalmente poderiam realizar esses sonhos modestos.
Valdomiro subiu na cabine da Chevrolet D60 azul, modelo 1985, que havia comprado com muito sacrifício do anos antes. O motor diesel ronronava com aquele barulho grave e constante que ecoava pelas manhãs na fazenda. acenou pela janela e seguiu pela estrada de terra batida, levantando uma nuvem de poeira vermelha que demorou longos minutos para assentar.
Raimundo, o caseiro da fazenda, observou o patrão partir do alpendre da casa dos empregados. Aos 63 anos, ele conhecia Valdomiro desde que chegara à região, fugindo da seca do Ceará em busca de trabalho. Naquele dia, algo no jeito apressado do fazendeiro o inquietou, mas Raimundo era homem de poucas palavras e muitas observações.
Guardou aquela sensação para si mesmo. O combinado era simples. Valdomiro se encontraria com Jarbas Miranda, representante do frigorífico São Lucas, no bar do Zé Pereira, no centro de Cáceres, às 10 horas da manhã. 200 cabeças de gado nelore, pesando em média 450 kg cada, por um preço que garantiria a família Pereira da Silva um ano tranquilo.
Mas Valdomiro nunca chegou ao bar. Às 11 da manhã, Jarbas Miranda ligou para a fazenda. Benedita atendeu o telefone, um aparelho antigo de disco que funcionava precariamente na região. Dona Benedita, aqui é o Jarbas do frigorífico. O seu Valdomiro não apareceu aqui. Aconteceu alguma coisa? O coração de Benedita gelou.
Valdomiro era pontual como um relógio suíço. Em 15 anos de casamento, ela nunca o havia visto atrasar para um compromisso comercial. Ele saiu daqui às 7:30. Seu Jarbas disse que ia direto para o bar. Pois não chegou aqui não, dona. Vou dar mais uma volta pela cidade. Às vezes ele parou em algum lugar. Benedita desligou o telefone com as mãos trêmulas, correu até a casa de Raimundo e contou sobre a ligação.
O caseiro coçou a cabeça grisalha e olhou para o horizonte, onde as nuvens escuras começavam a se formar. Dona Benedita, vou pegar a moto e dar uma volta na estrada. Às vezes o caminhão quebrou ou ele teve algum problema. Raimundo montou na Honda CG 125 vermelha e seguiu o mesmo caminho que Valdomiro havia feito horas antes.
A estrada de 40 km cortava uma região de serrado baixo, com poucos vizinhos e nenhum posto de gasolina. Era uma via solitária, usada principalmente pelos fazendeiros da região para ir e vir da cidade. Ele percorreu cada metro daqueles 40 km. Não encontrou nem sinal da Chevrolet D60 azul, nem qualquer marca de acidente ou problema mecânico.
Era como se Valdomiro Pereira da Silva tivesse simplesmente evaporado no caminho entre a fazenda e a cidade. Quando Raimundo voltou, já eram 4 horas da tarde e as primeiras gotas da chuva de verão começavam a cair sobre o teto de zinco da casa principal. Benedita o esperava na varanda, os olhos vermelhos de preocupação. Nada, dona Benedita.
nem rastro do patrão. Naquela noite, pela primeira vez em 15 anos, Valdomiro não voltou para casa. A cama permaneceu intacta, o café da manhã não foi tomado e o silêncio da fazenda ganhou um peso diferente, o peso da ausência inexplicável. A delegacia de Cácceres funcionava num prédio antigo da rua Barão de Melgassaço, com paredes descascadas e ventiladores de teto, que mais empurravam o ar quente do que refrescavam o ambiente.
A Benedita chegou lá na manhã seguinte, acompanhada de Raimundo e do seu cunhado, Sebastião, que tinha conduzido a noite toda desde Campo Grande, ao saber do desaparecimento. O delegado Mário Augusto da Costa, um homem de meia idade, com bigode espesso e jeito cansado, recebeu o caso com a displicência típica de quem já tinha visto muitas histórias semelhantes.
Senhora, o seu marido pode ter tido qualquer problema. Às vezes os homens saem para fazer um negócio e acabam parando em algum lugar, bebendo com os amigos, de visita. Bem, a senhora me entende? Benedita sentiu o sangue subir à cabeça. O meu marido não bebe, delegado, e não tem por hábito desaparecer.
Ele ia vender gado para o frigorífico. Era um negócio combinado. Está bom. Está bom. Vamos registar o boletim de ocorrência. Mas a senhora precisa de compreender que a gente não pode mobilizar a polícia toda para procurar um homem adulto que desapareceu há um dia só. O boletim de ocorrência número 087 foi registado às 10:15 do dia 18 de março.
Valdomiro Pereira da Silva, 52 anos, casado, agricultor, desaparecido no percurso entre a sua propriedade rural e a cidade de Cáceres. Visto pela última vez, 17 de março de 1987, às 7:30 da manhã. Mais o papel arquivado numa gaveta não trouxe o Valdomiro de volta. Sebastião organizou as buscas por conta própria.
Reuniu 12 homens da região, outros fazendeiros, peões, comerciantes da cidade e dividiu a área em setores. Durante uma semana, vasculharam cada metro da estrada principal, as trilhos secundários que cortavam as propriedades vizinhas, as margens dos rios e ribeiros, os capões de mato, onde alguém poderia esconder um corpo ou um veículo.
Encontraram apenas pegadas de capivara à beira de água, cascos de tatu no cerrado e o silêncio opressivo do pantanal. A chevrolette D60 azul parecia ter desaparecido da face da Terra juntamente com o seu dono. As semanas se transformaram-se em meses e os meses trouxeram mudanças subtis, mas profundas na vida da quinta de Santa Rita.
Benedita, uma mulher forte habituada ao trabalho rural, assumiu sozinha a administração da propriedade. Raimundo tornou-se seu braço direito, cuidando do gado e das decisões do dia a dia, mas as noites eram o momento mais difícil. Benedita se deitava-se na cama de casal, olhando para o lado vazio onde Valdomiro costumava dormir e tentava perceber o que havia acontecido.
As suas teorias mudavam conforme as estações do ano. Talvez bandidos o tivessem sequestrado na estrada. Talvez tivesse sofrido um infarte e despencado em alguma lagoa. Talvez tivesse decidido começar uma vida nova noutro lugar. Embora esta possibilidade lhe parecesse absurda. A comunidade rural tem memória longa, mas tem também a tendência de deixar as feridas cicatrizarem com o tempo.
Após se meses, as conversas sobre o desaparecimento de Valdomiro tornaram-se mais raras. Após um ano, eram apenas sussurros ocasionais na feira de Cácceres ou nas rodas de conversa após as missas de domingo. Raimundo foi o único que nunca deixou de pensar no que havia acontecido. Ele conhecia os hábitos de Valdomiro como poucos.
Sabia que o patrão verificava sempre o nível de óleo do camião antes de viagens longas. Sabia que transportava uma quantia extra de dinheiro numa carteira separada, escondida debaixo do banco do condutor para emergências. Sabia que Valdomiro tinha medo de assaltantes e evitava sempre parar em locais desertos e sabia de uma coisa que nunca tinha contado a ninguém.
Na manhã do desaparecimento, quando Valdomiro estava saindo da quinta, Raimundo tinha visto um outro veículo na estrada, um corcel branco com placas que não conseguiu ler, que parecia seguir na mesma direção do Chevrolete azul, mas Raimundo era apenas um caseiro analfabeto do interior do Mato Grosso.
Quem acreditaria na palavra dele? Contra a versão oficial de que Valdomiro tinha simplesmente desaparecido sem deixar rasto. Em 1989, dois anos após o desaparecimento, A Benedita tomou uma decisão difícil. Vendeu metade do gado e uma parte das terras para saldar as dívidas da quinta. O dinheiro que Valdomiro deveria ter recebido pela venda dos 200 cabeças nunca chegou e a propriedade começava a definhar sem os investimentos necessários.
Em 1992, 5 anos depois, casou com António Cardoso, um viúvo da região que se ofereceu-se para ajudá-la a tocar a quinta. Não foi um casamento por amor, mas por necessidade prática. Benedita precisava de ajuda e o António precisava de um lar. Raimundo continuou como caseiro, observando as mudanças com os seus olhos cansados de homem que já tinha visto muita coisa na vida.
Ele gostava de António. Era um homem trabalhador e honesto, mas ainda se lembrava da forma que Valdomiro assobiava enquanto verificava as vedações, do cheiro do signo Derby que fumava no alpendre após o jantar, dos planos que fazia para expandir a criação de gado, e, principalmente, se lembrava daquele corcel branco que tinha visto na manhã de 17 de março de 1987.

Anos se passaram. A quinta prosperou novamente sob a administração de António. As crianças da região cresceram ouvindo a história do lavrador que tinha desaparecido no ar. A estrada foi asfaltada em 1998. Chegaram os telemóveis, a televisão via satélite, internet escada. O mundo mudou, mas o mistério do desaparecimento de Valdomiro permaneceu intacto, guardado na memória de poucos e no coração silencioso de um caseiro que sabia mais do que dizia. Março de 2005.
18 anos haviam decorrido desde o desaparecimento de Valdomiro Pereira da Silva e a quinta de Santa Rita viviam os seus melhores dias sob a administração de António Cardoso e Benedita. O casal tinha modernizado as instalações, aumentado o rebanho para 400 cabeças e construído uma casa nova no lugar da antiga moradia de madeira.
Raimundo, agora com 81 anos, continuava como caseiro. Embora as suas funções fossem mais supervisórias do que braçais. Seus cabelos haviam embranquecido completamente. As suas costas se curvaram com o peso dos anos, mas os seus olhos continuavam alertas, observando cada pormenor da propriedade com a mesma atenção de sempre.
A seca desse ano foi particularmente grave. Os Os meteorologistas falavam em fenómeno climático atípico. As chuvas de verão, que deveriam ter começado em novembro, só apareceram em fevereiro e mesmo assim de forma irregular. Em março, quando normalmente os açudes estariam transbordando, a água mal cobria o fundo dos reservatórios.
O açude da quinta Santa Rita, construído por Valdomiro nos anos 80, para garantir água ao gado durante as secas, estava com o nível mais baixo já registado. A lâmina de água, que normalmente se estendia por 2 hear haares, tinha encolhido para uma pequena poça no centro da barragem. Foi na manhã de 23 de Março que Raimundo fez a descoberta.
Ele tinha descido até ao açude para verificar se seria necessário perfurar um poço artesiano quando algo brilhou no sol matinal, meio soterrado na lama seca que antes estava submersa. Inicialmente pensou que fosse um pedaço de metal deitado fora, lata velha, pedaço de vedação, algum detrito que as águas haviam carregado.
Mas quando se aproximou-se, o coração do velho caseiro quase parou. Era uma carteira de couro castanho, ressecado pelo tempo e pela lama, mas ainda assim reconhecível. E dentro dela, protegidos por um plástico milagrosamente intacto, estavam documentos que Raimundo conhecia bem. A Carta Nacional de Habilitação de Valdomiro Pereira da Silva, emitida em 1985, e o seu bilhete de identidade, com a foto do rosto sério e bigode bem aparado, que lembrava-se perfeitamente.
As mãos de Raimundo tremeram quando abriu completamente a carteira. Além dos documentos, existiam algumas cédulas de dinheiro, notas de 100 e 5000 cruzados, moeda que já não circulava há mais de uma década, e havia também um papel dobrado com a letra de Valdomiro, Jarbas Miranda, frigorífico São Lucas, 200 cabeças, 45.
000 Hila, o lembrete do negócio que Valdomiro pretendia fechar no dia do desaparecimento. Raimundo olhou em redor como se esperasse encontrar mais pistas na lama ressequida, mas a carteira estava sozinha, abandonada no fundo do açude durante 18 anos, esperando que uma seca excepcional a trouxesse de volta à superfície. Como a carteira de Valdomiro tinha parado no fundo daquele açude, o lavrador nunca pescava ali.
Dizia que a água era muito barrenta. Além disso, o açude ficava a 3 km da estrada principal, numa zona isolada da propriedade. Não fazia sentido Valdomiro ter passado por ali na manhã em que desapareceu, a não ser que alguém tivesse lá posto a carteira de propósito. Raimundo guardou a descoberta no bolso da camisa e voltou lentamente para a casa da sede da quinta.
Durante o caminho de regresso, as memórias daquele dia de Março de 1987 voltaram com uma nitidez que o surpreendeu. O Corcel branco na estrada, a pressa de Valdomiro, o jeito nervoso como se despedira de Benedita, e, principalmente, uma recordação que tinha tentado esquecer durante todos os esses anos.
Na tarde do desaparecimento, quando regressava da busca infrutífera pela estrada principal, tinha visto rastos de pneus frescos na trilha que conduzia ao açude. Na altura, pensou que fosse de algum vizinho que tivesse passado para pescar ou buscar água, mas agora, com a carteira de Valdomiro nas mãos, aqueles vestígios ganhavam um significado completamente diferente.
Quando chegou à sede da quinta, Benedita estava no quintal a estender roupas no estendal. Aos 68 anos, tinha envelhecido com dignidade, mas o desaparecimento do primeiro marido tinha deixado marcas profundas no seu rosto, linhas de expressão que falavam de noites mal dormidas e perguntas sem resposta. “Dona Benedita”, disse Raimundo, a voz embargada, “a senhora precisa de se sentar.
” Ela olhou-o com curiosidade. Em tantos anos de convivência, raramente havia visto o caseiro tão alterado. “O que foi, o senhor Raimundo?” Aconteceu alguma coisa com o gado? Não é o gado, não, dona. É sobre o patrão Valdomiro. Benedita deixou cair a bacia da roupa no chão. As mãos foram instintivamente ao peito, como se quisessem segurar o coração que tinha disparado.
Você achou alguma coisa? Raimundo tirou a carteira do bolso e estendeu-lha. Benedita reconheceu imediatamente o objeto que tinha dado de presente de aniversário ao marido em 1986. As pernas fraquejaram e ela apoiou-se na parede da casa para não cair. Onde? Onde o encontrou? No açude, dona. A seca baixou a água e ela apareceu na lama.
Benedita abriu a carteira com os dedos trémulos e viu os documentos do marido preservados depois de quase duas décadas. Por alguns minutos, ficaram os dois em silêncio, processando o significado daquela descoberta. O senhor Raimundo, disse ela finalmente. Nós precisamos de chamar a polícia. Sim, dona, mas antes preciso contar uma coisa que nunca contei a ninguém.
E pela primeira vez em 18 anos, Raimundo decidiu falar sobre o Corcel branco que tinha visto na manhã do desaparecimento, sobre os vestígios de pneus no trilho do açude e sobre uma suspeita que carregava ao peito há quase duas décadas. O novo delegado de Cácceres, Dr. Fernando Machado, era muito diferente do seu antecessor. Licenciado em direito pela Universidade Federal de Mato Grosso, tinha assumiu o cargo em 2003 com a determinação de modernizar a investigação criminal na região.
Quando Benedita e Raimundo chegaram à esquadra com a carteira de Valdomiro, este entendeu imediatamente que aquele não era um caso comum. A Senora Benedita, essa descoberta muda completamente o cenário do desaparecimento”, disse examinando os documentos com uma lupa. “Uma carteira não chega sozinha ao fundo de um açude a 3 km da estrada principal.
O Dr. Fernando reabriu oficialmente o caso e designou o investigador João Carlos Santos para conduzir as diligências. João Carlos, um homem meticuloso de 45 anos, tinha trabalhado em São Paulo antes de se mudar para o Mato Grosso e trouxe consigo técnicas investigativas mais modernas.
“Seu Raimundo”, disse o investigador durante o primeiro depoimento formal. “O senhor mencionou que viu um Corcel branco na manhã do desaparecimento. Consegue lembrar-se de mais algum pormenor?” O velho caseiro coçou a cabeça grisalha e fechou os olhos, forçando a memória a voltar àquela manhã de Março de 1987. Era um Corsus 2, branco, modelo mais novo na época.
Tinha uma pessoa só dentro, homem, pelo que pude ver. E tinha uma coisa estranha. estranha como o carro seguia a chevrolet do patrão, mas mantendo a distância, como se não quisesse ser notado. João Carlos anotou tudo no seu caderno. Nos dias seguintes, ele e o Dr. Fernando começaram a rever os arquivos antigos do caso, procurando pistas que pudessem ter sido negligenciadas na investigação original.
Foi então que encontraram uma informação intrigante. Em 1987, apenas três pessoas na região possuíam Corcel Segundo brancos registados no Detran. Uma era Iracema Santos, professora aposentada que raramente dirigia. Outra era o comerciante António Freitas, que tinha vendido o carro em 1986. E a terceira era Jair Pedrosa, proprietário de uma quinta vizinha à de Valdomiro. Jair Pedrosa! murmurou o Dr.
Fernando ao ler o nome. Esse nome me faz lembrar alguma coisa. O investigador João Carlos fez uma pesquisa nos arquivos e descobriu que Jair Pedrosa se tinha mudou-se para Goiás em 1988, um ano após o desaparecimento de Valdomiro. Vendera as suas terras rapidamente por um preço abaixo do mercado e nunca mais voltar à região.
Isto é no mínimo suspeito”, disse o Dr. no Fernando. “Vamos localizar este homem. Encontrar Jair Pedrosa não foi difícil. Vivia em Anápolis, Goiás, onde havia montou uma pequena empresa de transporte de carga. Aos 73 anos, continuava a trabalhar, mas os seus melhores dias tinham ficado para trás. Quando os polícias de Mato Grosso entraram em contacto com a Polícia Civil de Goiás, solicitando cooperação para interrogar Pedrosa, ele inicialmente aceitou prestar depoimento voluntariamente, mas na véspera da data
marcada contratou um advogado e se recusou-se a falar. Isso só aumenta as nossas suspeitas”, disse João Carlos. “Vamos aprofundar a investigação sobre a vida dele em 1987. O que descobriram nas semanas seguintes pintou um quadro revelador. Jair Pedrosa tinha enfrentado sérias dificuldades financeiras em 1987.
Os seus registos bancários mostravam empréstimos em atraso, ameaças de execução judicial e dívidas com fornecedores. Além disso, os vizinhos da época se lembravam de que ele tinha demonstraram interesse em comprar gado de Valdomiro nos meses anteriores ao desaparecimento, mas nunca conseguira fechar negócio porque não tinha dinheiro.
A peça final do Puzzle veio de uma fonte inesperada, a dona Aparecida, uma senhora de 87 anos que tinha trabalhado como doméstica na casa de Jair Pedrosa em 1987. “Lembro-me bem daquele dia”, disse ela durante o depoimento. A voz fraca, mas a memória surpreendentemente nítida. O patrão chegou a casa muito nervoso no meio da manhã, disse que tinha tido um problema na estrada e mandou-me lavar a roupa dele com urgência.
Que tipo de roupa, dona Aparecida? A camisola estava toda suja de lama e tinha umas manchas estranhas. Parecia sangue. Mas quando eu perguntei, ele disse que era barro vermelho mesmo. A velha doméstica também se lembrava de outro pormenor crucial. No final da tarde desse mesmo dia, Jair Pedrosa tinha saído novamente com o Corcel branco e voltado apenas depois da meia-noite com o carro sujo de lama.
Com estas informações, o Dr. Fernando obteve um mandado de busca e apreensão para a casa de Jair Pedrosa em Anápolis. Durante a busca, encontraram um baú antigo no sótam, dentro do qual havia documentos e objetos pessoais dos tempos em que vivia no Mato Grosso. E no meio destes objetos, embrulhados num pano velho, estavam as chaves da Chevrolet D60 de Valdomiro Pereira da Silva.
Confrontado com esta evidência, Jair Pedrosa finalmente desmoronou. Depois de 18 anos a carregar o peso da culpa, pediu para falar a sós com o delegado e confessou o crime. “Eu não queria matá-lo”, disse Pedrosa, as mãos a tremer enquanto falava. Era só para ser um assalto. Eu estava desesperado. Devia dinheiro para todo o mundo.
Sabia que o Valdomiro ia vender gado e ia estar com muito dinheiro. A confissão revelou os pormenores do crime. Jair seguira Valdomiro na estrada, forçado-o a parar utilizando o Corcel para bloquear o caminho e exigir o dinheiro da venda do gado. Valdomiro reagiu, tentou pegar numa espingarda que carregava na cabine do camião e durante a luta acabou por ser ferido fatalmente com um golpe de martelo que Jair transportava como ferramenta.
Desesperado com o que tinha feito, Pedrosa escondeu o corpo de Valdomiro numa cova improvisada na sua própria quinta, dirigiu a Chevrolé até uma lagoa distante e afundou-a e atirou a carteira da vítima no açude da quinta Santa Rita para despistar as investigações. E pensei que ninguém ia encontrar nunca, disse ele chorando.
Pensei que com o tempo toda a gente ia esquecer, mas não contava com a persistência da seca de 2005, nem com a memória fiel de um caseiro octogenário que guardara durante 18 anos a imagem de um Corcel branco numa manhã de Março. Em Setembro de 2005, Jair Pedrosa foi condenado a 22 anos de prisão por latrocínio.
Ele revelou a localização do corpo de Valdomiro, que foi finalmente encontrado e sepultado no cemitério de Cácceres, ao lado dos seus pais. Benedita, agora com 68 anos, pode finalmente fazer o luto que tinha ficado suspenso por quase duas décadas. Pelo menos agora já sei o que aconteceu”, disse ela no dia do funeral. “Ai, posso descansar em paz.
Raimundo, o caseiro que nunca esqueceu, morreu três anos depois, aos 84 anos, levando consigo a satisfação de ter ajudado a revelar a verdade. No velório, muitos recordaram que dizia sempre: “Os mortos merecem descanso e os vivos merecem saber a verdade”. A quinta de Santa Rita continua funcionando até hoje, administrada pelos filhos de Benedita e António.
Mas os mais velhos da região ainda se lembram da história do lavrador que desapareceu após vender gado, e de como uma seca excepcional e a memória de um homem simples conseguiram 18 anos depois trazer justiça a uma família que nunca desistiu de procurar respostas. O açude foi aterrado em 2006 e transformado em pastagem.
Mas os os habitantes locais dizem que em dias de calor intenso ainda é possível ver as marcas da antiga barragem na terra seca como uma cicatriz que lembra que alguns segredos, por mais enterrados que estejam, encontram sempre uma forma de voltar à superfície. M.