ELETRICISTA EXECUTA A ESPOSA INFIEL EM LONDRINA — CÂMERA FLAGROU TUDO ANTES DA TRAGÉDIAS

Uma câmera de portão dessas baratas compradas em loja de material de construção ficou ligada a noite toda. Ninguém tinha pensado nela para isso. Foi instalada só para ver se pegavam o cachorro do vizinho fuçando o lixo, coisa que já tinha acontecido três vezes naquele mês. Mas naquela noite ela registrou outra coisa.

E essa gravação, meses depois ia estar dentro de um processo, numerada, catalogada, apresentada como prova principal num tribunal do júri em Londrina. Antes de chegar lá, precisa entender o que aconteceu naquela casa da rua O Baldino do Amaral, no Jardim Igapó, numa quinta-feira comum. Um dia antes de uma festa que já estava paga, já estava decorada, já tinha buffet reservado.

A festa de 15 anos da filha do casal fica até o final porque tem um detalhe daquela gravação que o próprio delegado responsável pelo caso, anos depois ainda comentava com os colegas de plantão. Um detalhe que não aparece no boletim de ocorrência. Um som, só um som no meio da gravação que ninguém no fórum conseguiu explicar direito.

Guarda essa informação. Ela volta lá no final. Londrina fica no norte do Paraná, região de terra roxa, de café, de gente que trabalha cedo e dorme cedo. É cidade grande pros padrões da região, mas com jeito de cidade pequena em cada bairro, onde todo mundo conhece todo mundo pelo apelido, pelo carro, pelo horário que chega em casa.

O Jardim Igapó é bairro de gente simples. Casas geminadas, muro baixo, quintal com varal, cachorro latindo de portão em portão quando passa alguém estranho na calçada. Bairro de comércio pequeno, padaria na esquina, borracharia, um mercadinho que fecha tarde, ponto de moto táxi na praça central, onde os motoristas ficam encostados na sombra esperando corrida.

De manhã, o bairro acorda cedo ao som de portão de ferro batendo e caminhão de gás anunciando no altofalante. À tarde esvazia porque quase todo mundo trabalha fora. À noite some, luz de sala acesa atrás de cortina, televisão ligada em novela e o silêncio só quebrado pelo latido eventual de cachorro respondendo a outro cachorro, três ruas adiante.

É bairro onde uma notícia ruim se espalha antes mesmo da viatura chegar na esquina, passada de portão em portão, de varanda em varanda, quase sempre com algum detalhe trocado no caminho. Era o tono. As noites já vinham frias, daquele frio seco que arranha a garganta de quem fica muito tempo do lado de fora.

As folhas da árvore da calçada, um pé de cibipiruna, já estavam caindo, viradas, secas, fazendo barulho quando alguém pisava em cima. Era ali numa casa de dois quartos, portão de ferro pintado de azul desbotado que morava a família Campos havia 12 anos. Adilson Ferreira Campos, 47 anos, eletricista autônomo, trabalhava sozinho com a caminhonete velha carregada de escada, alicate, rolo de fio, disjuntor sobressalente.

Fazia serviço pra vizinhança inteira, trocava fiação, resolvia curto circuito, instalava chuveiro elétrico, subia em poste quando alguma empreiteira contratava ele por diária. Homem de poucas palavras, mas conhecido e respeitado. O tipo que todo mundo cumprimentava na rua e chamava de seu Adilson, mesmo sendo mais novo que muita gente do bairro.

Tinha as mãos sempre marcadas. Cicatriz pequena de queimadura, calo grosso na palma, unha quebrada de tanto mexer com ferramenta. Acordava antes das 6, tomava café em pé na cozinha e saía antes do sol esquentar. Marlene, Aparecida dos Santos Campos, 43 anos, cabeleireira. Tinha um salão dentro de casa mesmo, na garagem adaptada, com duas cadeiras reclináveis, um espelho grande e moldurado, secador pendurado na parede ao lado de um calendário de cachorro.

trabalhava o dia inteiro, atendia a cliente até domingo de manhã, fazia escova, tintura, hidratação. Tinha uma risada alta dessas que se ouvia da calçada quando alguma cliente contava fofoca enquanto esperava a tintura agir. E era esse jeito dela, alegre, solto, que trazia a cliente de volta toda semana. Casados havia 18 anos, se conheceram numa festa junina de igreja, quando ela tinha 25 e ele 29.

Casaram um ano depois numa cerimônia simples na igreja do bairro onde moravam antes de se mudar pro Jardim Igapó. Nos primeiros anos de casamento, moraram de aluguel, economizando centavo por centavo até dar entrada na casa da rua O Baldino do Amaral, comprada ainda inacabada, com reboco só na parte da frente que Adilson foi terminando aos poucos, fim de semana após fim de semana, com material que sobrava dos próprios serviços.

O salão de Marlene só virou negócio de verdade depois que Yasmin entrou na escola, quando ela resolveu investir a economia guardada numa cadeira profissional e num secador melhor. Decisão que o marido apoiou sem hesitar, ajudando a construir a estrutura de alvenaria que separava a garagem do resto do quintal. Era esse histórico de construção conjunta, tijolo por tijolo, cliente a cliente, que tornava ainda mais difícil de compreender pros que conheciam o casal como tudo tinha desmoronado tão depressa.

E tinha uma filha, Yasm, prestes a completar 15 anos. Yasm era mais novo, jeito quieto. Gostava de desenhar no caderno de capa dura que a mãe tinha comprado. Usava aparelho nos dentes e, por isso, ainda não sorria largamente nas fotos, sempre com a boca meio fechada. estudava de manhã numa escola municipal a seis quarteirões de casa e passava tarde a ajudar a mãe a organizar produto do salão ou trancada no quarto a ouvir música no telemóvel.

A festa dela já estava marcada há seis meses. Buffet de salão de bairro, o mesmo onde a família tinha festejado bodas de prata de um casal amigo. [música] Vestido comprado a prestações, já pago em oito das 10 prestações. Val ensaiada com o pai todas as quintas noites na sala, móvel encostado à parede, Adilson contando o passo em voz baixa enquanto ela ria-se da própria dificuldade.

Compadre do casal, padrinho de Yasmin desde o batizado era Rogério Nascimento, 45 anos, mecânico, proprietário de uma oficina pequena a quatro quarteirões dali, especializada em carro popular. Homem de bigode farto, daqueles fora de moda que fazia questão de manter aparado toda a semana no barbeiro.

Frequentava a casa dos campos desde sempre, desde antes de Yasmin nascer. Churrasco de domingo, aniversário, o Natal, ele sempre ali sentado na cabeceira improvisada, contando piada que já tinha contado outras vezes, mas que ainda arrancava risada. tinha chave de reserva da casa guardada há anos paraa emergência para quando Adilson viajava em trabalho para cidade vizinha e precisava alguém de confiança a olhar para o portão, regando planta, recolhendo correspondência.

Era aquele tipo de rotina que se repete em qualquer bairro do Brasil, sem grandes sobressaltos, sem motivo para desconfiar de nada. Um qualquer domingo daquele ano, ainda antes de qualquer sinal de estranheza, dava para ver bem o que era aquela família. Adilson na churrasqueira improvisada, feita a partir de um bidão de óleo cortado ao meio, virando espeto com um copo de refrigerante ao lado.

Rogério sentado numa cadeira de plástico puxada para o lado da sombra, contando pela enésima vez a história de quando furou o pneu do próprio carro de tanto rir de uma piada que ele próprio tinha inventado. Marlene a entrar e a sair da cozinha com travessa de salada, rindo à gargalhada de alguma coisa que a comadre tinha comentado.

Yasmin, ainda com 13 anos nessa altura, sentada no batente da porta com um caderno de desenho no colo, alheia à conversa dos adultos, concentrada num rabisco. Era este retrato que qualquer vizinho teria descrito se alguém nesse domingo perguntasse como era a família Campos. Adilson tinha orgulho em contar para quem perguntasse que tinha construiu a própria casa com as próprias mãos, literalmente tijolo por tijolo, nos fins de semana livres dos primeiros anos de casamento.

Contava também, sempre a rir, que só tinha conseguiu convencer Marlene a montar o salão dentro de casa depois de meses insistindo, porque ela achava que não ia dar clientela suficiente para valer o investimento. Anos mais tarde, o salão já já não tinha horário vago na agenda da semana. Até começar a mudar. Os primeiros sinais surgiram cerca de 4 meses antes da festa.

Pequenos, do tipo que ninguém repara sozinho, mas que juntos formam um padrão que só se vê depois, olhando para trás. O telemóvel de Marlene, que ficava sempre em cima da bancada do salão, amostra virado para cima, ecrã para cima, começou a desaparecer do lugar. Ela passou a levar pro bolso do avental e quando tocava atendia virando-se de costas para as clientes, indo até ao fundo do quintal.

Adilson notou uma tarde de sábado chegando mais cedo do serviço, mas não comentou. Achou que era coisa de mulher com telemóvel, cliente a marcar horário, grupo de família na aplicação de mensagens. As As sextas-feiras, que eram sempre de cliente corrida no salão até às 8 da noite, começaram a esvaziar mais cedo por volta das 6.

A Marlene dizia que ia ajudar a comadre nas compras da festa da sobrinha ou com a organização de um bazar de igreja. vinha depois por volta das das 9, cheirando a perfume diferente, um perfume mais doce, mais caro, que ela nunca tinha usado antes e que desapareceu de dentro da sua mala à mesma velocidade que apareceu.

A vizinha da esquina, a dona Terezinha, reformada, que passava as tardes na cadeira da varanda a ver o movimento da rua, comentou com outra vizinha na fila do autocarro, num tom baixo, que tinha visto a carrinha branca do Rogério parada na rua de trás mais do que uma vez, sempre no mesmo horário, sempre quando o eletricista estava a trabalhar fora.

Fofoca de bairro corre rápido, só que chega sempre por último em quem devia saber primeiro. O Adilson trabalhava fora o dia inteiro, ia de casa em casa resolver problema elétrico. Ficava suado, cansado, com as mãos pretas de gracha e fuligem de fio queimado. Comia, tomava banho, dormia cedo, acordava antes das 6.

Vida de trabalhador que não sobra tempo para desconfiar do seu próprio quintal. Ele começou a acordar de madrugada, sem motivo aparente, e notar o lado da C de Marlene vazio. Ela dizia que tinha ido na casa de banho ou beber água ou ver se A Yasmin estava a dormir direito. Ele voltava a adormecer sem questionar.

Um mês depois, faltando quase dois meses para festa, acordou de novo de madrugada e ela não estava em lado nenhum da casa. Encontrou-a sentada na escada da garagem, no escuro, com o celular na mão, à luz do ecrã iluminando o rosto dela de baixo para cima, uma forma que deixava a expressão estranha, quase reconhecível, como se fosse o rosto de outra pessoa a usar o corpo de Marlene.

Ela desligou o aparelho na altura em que viu ele parado à porta, disse que não conseguia dormir, que tinha ficado mexendo numa foto antiga. Ele voltou a cama sem dizer nada, mas aquilo ficou não como certeza, como uma pedrinha pequena dentro do sapato, incómoda, que tentou ignorar caminhando. Uma semana depois, foi Yasmin quen, sem compreender o peso do que dizia, comentou durante o jantar que tinha visto a mãe rindo muito ao telefone com o tio Rogério na tarde anterior.

Um comentário solto, inocente, do tipo que uma filha faz, sem imaginar nada. A Marlene mudou de assunto rápido, perguntou à menina sobre a prova de matemática do dia seguinte. Adilson continuou a comer em silêncio, sem levantar os olhos do prato, mas guardando aquela frase solta no mesmo local onde já guardava as outras.

O mais estranho veio um mês depois, quando Rogério deixou de aparecer nos domingos de churrasco. Justamente ele, que nunca tinha faltado em 10 anos, nem quando estava com gripe, nem quando o próprio pai morreu, que veio diretamente do velório para se sentar naquela mesa e chorar um pouco à frente do amigo. Adilson perguntou a Marlene se tinha acontecido alguma briga entre os dois casais, alguma desavença que ele não soubesse.

Ela disse que não sabia de nada, que talvez fosse trabalho na oficina, movimento de fim de mês. Mentira. A primeira mentira que ele se sentiu como mentira, sem compreender direito o porquê, só pela forma como ela desviou o olhar para o fogão enquanto respondia. Nas semanas seguintes, veio mais um pormenor, pequeno, isolado, um recibo de motel amolgado no fundo da bolsa de Marlene, que disse ser de uma cliente que se tinha esquecido ali que ela ia devol.

Ele guardou aquilo também questionar na hora. Só guardou. Um cliente do salão, sem saber que estava falando com o marido por trás da porta entreaberta enquanto aguardava o automóvel na oficina ao lado, comentou casualmente com o Rogério sobre aquela cabeleireira bonita que vinha sempre no fim de tarde na oficina. Será que ele tinha algo com ela? Rogério R disse que era só cliente.

Adilson, que por acaso estava ali perto trocando uma tomada na loja vizinha, ouviu aquilo sem que ninguém se apercebesse a sua presença atrás da divisória de madeira. O nó no estômago, que até então era só desconfiança solta, começou a apertar de verdade. Por essa mesma altura, Marlene disse uma tarde que ia até ao mercado central, no centro da cidade, comprar enfeite de última hora para a festa e esteve fora quase 3 horas para um trajeto que normalmente demorava 40 minutos de ida e volta.

Dias depois, uma cliente do salão comentou, sem imaginar o peso da informação, que tinha passado pelo Mercado Central nessa mesma tarde e não tinha visto Marlene em lado nenhum, apesar de ter ficado ali quase uma hora escolhendo o tecido. Adilson guardou também este pormenor, sem confrontar, sem perguntar, cada vez mais calado, cada vez mais distante, aos olhos de quem convivia com ele todos os dias, sem saber que por dentro já tinha praticamente montado sozinho.

o puzzle inteiro. Faltando pouco mais de três semanas para a festa, Adilson passou de moto em frente à oficina do compadre ao fim de uma tarde e viu de relance a caminhonete branca de Marlene estacionada na lateral, meio escondida atrás de uma pilha de pneu velho. Ele não parou, não entrou, apenas seguiu em frente, com as mãos a apertar o guiador mais forte do que necessitava.

Naquela noite ele quase perguntou, ficou com a pergunta na ponta da língua durante o jantar inteiro, olhando para ela cortar a comida da filha e não perguntou. Dias antes disso tinha acontecido outro episódio pequeno que só fez sentido depois de tudo vir ao de cima. O telemóvel de A Marlene tinha tocado em cima da mesa da cozinha enquanto ela estava no quintal estendendo roupa e a tela tinha acendido, mostrando o início de uma mensagem sem nome de contacto guardado, só um número, dizendo algo como: “Não consigo parar de pensar”. Adilson viu

aquilo de relance, virou o telemóvel de volta para baixo antes que ela voltasse e não comentou nada, guardando mais uma peça no mesmo canto da cabeça onde já guardava as outras. Duas semanas antes da festa, chegou o dia que mudou tudo. Adilson tinha um serviço marcado numa casa do outro lado do bairro, troca de padrão de energia inteiro, serviço de dia inteiro, com equipa da própria concessionário ajudando.

Serviço que só seria concluído a altas horas da noite e por isso ele já tinha avisado em casa que só voltaria depois das 8. Aquele que a energia da rua onde ia trabalhar caiu antes mesmo de ele chegar. Problema da concessionária, e não dele. O serviço foi cancelado, remarcado para outra data, sem qualquer hora de aviso prévio.

Regressou a casa no meio da tarde, coisa que nunca acontecia, com a carrinha de caixa aberta ainda carregada de material que nem chegou a usar. E foi aí que aconteceu a porta da garagem, aquela que dava directamente para o quartinho dos fundos, onde era guardado o material de construção antigo, cimento velho, telha sobrando, estava fechada por dentro, coisa que nunca estava fechada durante o dia, porque era aí que Marline atendia cliente.

Ouviu a voz dela baixa e outra voz de homem ainda mais baixa, uma voz que reconheceu antes mesmo de admitir para si próprio que reconhecia, a voz de Rogério. Ele ficou parado, não empurrou a porta de imediato. Ficou ali sem ar, o coração acelerando de uma forma que nunca tinha sentido, ouvindo os dois despedirem-se, ouvindo o barulho de roupa a ser ajeitada, ouvindo o silêncio que vem depois de um silêncio errado.

O o suor começou a escorrer-lhe pela nuca mesmo com o frio da tarde de Outono entrando pela brecha da porta. A mão dele apoiada na parede lateral tremia sem que ele conseguisse controlar. E o cheiro que vinha de dentro da sala, misto do perfume doce, que já tinha notado na mala da esposa, com o cheiro de massa lubrificante de motor que sempre acompanhava Rogério, ficou marcado nele desse dia em diante, a ponto de qualquer perfume parecido meses depois ainda apertar o peito dele sem aviso.

Do lado de fora, o bairro seguia normal. Uma criança passava de bicicleta a gritar para o amigo mais à frente. Um rádio distante tocava um jingle de publicidade de mercado. E ali, encostado à parede da própria casa, ouvindo a esposa despedir-se do compadre num quartinho de garagem, Adilson sentiu o chão do seu próprio quintal ficar diferente debaixo dos pés, como se ele estivesse pisando em outra casa, outra vida, que já não era a dele.

Rogério saiu primeiro pela porta lateral que dava para o fundo do terreno e correu curvado, quase agachado, saltando o muro baixo que dava para o beco de trás. Adilson viu as costas dele a passar por cima do muro rápido e reconheceu o bigode de perfil por uma fenda entre as tábuas do portão.

Marlene saiu minutos depois, ajeitando o cabelo em frente do espelho pequeno perto da porta, ajeitando o blusa, o rosto vermelho, ainda sem apercebeu-se que era observada, e encontrou o marido parado no meio do quintal, olhando para ela. Ela gelou. As suas pernas, segundo a própria contou depois no depoimento, ficaram pesadas na hora, como se se tivessem transformado em pedra.

Ele não disse nada, apenas olhou. Aquele olhar durou talvez 5 segundos, mas para ela, contou depois, foi o tempo mais longo da vida dela, um tempo em que viu passar na cabeça cada mentira que tinha contado nos últimos meses, uma atrás da outra, rápido, como se o cérebro dela quisesse apagar tudo antes que ele começasse a falar.

Virou as costas e foi-se embora de carrinha, sem bater a porta, sem gritar. Isso assustou-a mais do que qualquer grito assustaria, porque conhecia o marido há 18 anos e sabia que o seu silêncio, quando vinha depois de uma coisa grave, durava mais e pesava mais do que qualquer explosão. Conduziu sem rumo por quase 3 horas, parou o carro na berma de uma estrada de terra batida perto de um carreador de plantação de café e aí ficou com o motor desligado, os faróis apagados, olhando para o nada, ouvindo só o barulho do vento a passar entre os pés de café.

Foi aí que a sua cabeça começou a fazer o que a cabeça de gente traída faz. Regressava sem parar a cada detalhe dos últimos meses. O telemóvel escondido, o perfume novo que desaparecia da bolsa, dona Terezinha comentando da caminhonete parada na rua de trás. As cestas que esvaziavam cedo, a luz do telemóvel no rosto dela na escada de madrugada aquele rosto que parecia de outra pessoa, o recibo amarrotado no fundo da bolsa, o comentário do cliente na oficina ouvido por acaso atrás da divisória de madeira, a carrinha branca escondida atrás dos

pneus velhos. Cada peça que separada não não queria dizer nada, agora encaixava com um estalido seco, umas atrás das outras. E o pior não era a traição em si, era saber que tinha sido com Rogério, o homem que segurou a Yasmin ao colo no dia do batizado, que chorou de emoção no momento, segundo contavam até hoje na família.

O homem a quem confiava a chave da própria casa há 10 anos. O homem que sentava-se à mesa dele todos os domingos comendo da comida feita pela mesma mulher que agora sabia que partilhava com ele sem que nenhum dos dois tivesse alguma vez dado qualquer sinal à frente dele. Ele voltou para casa depois da meia-noite.

A Marlene estava acordada, sentada na sala, no escuro, esperando o rosto inchado de tanto chorar sozinha durante aquelas horas. Ele não gritou, falou baixo, quase num sussurro. perguntou há quanto tempo. Ela chorou mais. Disse que tinha começado sem querer num momento de fraqueza.

Disse que ia acabar, que já tinha tentado acabar antes e não tinha conseguido. Implorou-lhe para não contar para ninguém. implorou pensando na filha, na festa que já estava marcada, no vestido já pago quase por inteiro. Ele escutou tudo sem se mexer, sentado na poltrona em frente a ela, as mãos apoiadas nos joelhos, o fato de trabalho ainda sujo de gordura do dia e disse só uma frase baixa, sem raiva aparente na voz, que ia pensar: “Foi dormir no sofá e foi aí que começou o processo que ninguém de fora viu”.

Os dias seguintes, continuou trabalhando, como se nada tivesse acontecido aos olhos de quem via de fora. Foi em cada casa que havia serviço marcado. Trocou o disjuntor, arranjou o curto-circuito, instalou um chuveiro numa casa nova perto do Jardim Igapó, subiu em poste para puxar fiaão para uma empreiteiro que o contratava há anos.

Sorria para os clientes, cumprimentava vizinho, parava para conversar 5 minutos com a dona Terezinha na calçada do jeito que sempre fazia. Mas de noite, deitado no sofá, não dormia. Ficava a olhar o teto, repetindo a cena da garagem sem parar. A voz baixa, o barulho de roupa, as costas de Rogério saltando o muro, o rosto vermelho de Marlene a arranjar-se no espelho pequeno.

No terceiro dia depois da descoberta, quase ligou pro irmão, que vivia em Apucarana. Marcou o número, ouviu chamar duas vezes e desligou antes que o irmão atendesse, sem conseguir formar as palavras que precisava de dizer. No quinto dia, teve uma nova conversa com Marlene, desta vez mais curta, mais seca. Ela perguntou se ia pedir a separação.

Ele disse que ainda não tinha decidido nada, que precisava de pensar na filha na festa. Ela achou que aquilo era um sinal de que as coisas iam se acalmar, não era. No oitavo dia, passou a evitar até mesmo os horários das refeições juntamente com a família, inventando serviço de última hora para comer sozinho dentro da carrinha, estacionada na rua, olhando pro nada enquanto mastigava uma sanduíche comprado no caminho.

A Yasmin comentou com a mãe que achava o pai estranho, mais calado do que o habitual, e Marlene respondeu que era só cansaço do trabalho, procurando não deixar transparecer o próprio medo do que aquele silêncio podia significar. Ele emagreceu em duas semanas, de uma forma que a sua própria mãe notou numa chamada de domingo a perguntar se ele estava doente, se tinha ido ao médico.

Disse que estava tudo bem, parou de comer corretamente, comia apenas metade do prato, empurrava o resto para o lado. Começou a fumar de novo depois de 8 anos sem fumar, escondido no quintal, tarde da noite, olhando para o muro que Rogério tinha saltado. E um pensamento que no início era apenas um pensamento solto, sem forma definida, foi [a música] crescendo dia após dia, virando raiz, virando presença fixa, tornando-se a única coisa que ficava na cabeça dele quando o resto do mundo ficava quieto e ele estava sozinho

com os próprios olhos abertos no escuro. Ele pensava que não dava para continuar daquele jeito. Pensava na festa da filha, pensava em sorrir para a foto ao lado da mulher que tinha ficado com o compadre dele num quartinho de garagem. Pensava no Rogério sentado de novo naquela mesa num domingo qualquer, contando piadas, como se nada tivesse acontecido, como sempre tinha sido, ano após ano, sem que ele soubesse de nada.

Passou a evitar o quartinho da garagem, a divisão onde tudo tinha acontecido, dando a volta por fora sempre que precisava de procurar alguma ferramenta ali guardada. Uma noite, sonhou que via a cena outra vez, só que desta vez conseguia abrir a porta a tempo e acordou suado, com o coração disparado, sem saar o que era o sonho do que era recordação.

No sétimo dia após a descoberta, aconteceu o único encontro entre os dois homens desde a tarde da garagem. Foi por acaso num posto de abastecimento de combustível à saída do bairro, os dois carros parados em bombas vizinhas de frente, um para o outro. Rogério, ao ver Adilson, ficou parado, sem saber se cumprimentava, sem saber se falava alguma coisa.

Abriu a boca, chegou a levantar a mão num gesto incompleto de quem inicia um aceno e desiste a meio. Adilson não disse nada, não olhou de volta, acabou de abastecer, pagou na caixa e foi-se embora, deixando o compadre ali parado, sem saber se aquele silêncio era pior ou melhor do que qualquer grito teria sido. Nenhum dos dois contou este encontro para ninguém.

E ele só veio a público meses depois, quando o próprio frentista do posto, ouvindo falar do caso pelo noticiário local, reconheceu os dois rostos e comentou o episódio com um cliente que difundiu a informação até ela chegar informalmente aos ouvidos dos um investigador. 10 dias depois da descoberta, faltando quatro para a festa, ele passou a noite inteiro sentado na cozinha sem se deitar, fumando um cigarro atrás do outro, ouvindo o relógio da parede marcar cada hora até o sol nascer.

Foi nessa madrugada, [música] segundo contou depois, ao psicólogo do sistema prisional, que o pensamento que só existia solto à noite começou a ganhar forma de decisão. Ainda sem data marcada, ainda sem plano definido, mas presente, fixo, da forma que fica uma pedra demasiado grande para tirar do caminho sozinho.

Ele não contou para ninguém sobre o que tinha descoberto, nem ao irmão mais velho, que vivia em Apucarana e ligava toda a semana, nem para o melhor amigo de infância, que trabalhava juntamente com ele em alguns serviços maiores, nem para o próprio pai, já idoso, que vivia a perguntar quando ia ser a festa da neta.

Guardou tudo sozinho. Marlene tentou aproximar-se várias vezes nesses dias, tentou conversar, tentou foi explicar novamente. Jurou que tinha acabado com o Rogério na mesma noite em que foi apanhada. Jurou que nunca mais tinha trocado uma palavra com ele, além de um bom dia forçado quando se cruzavam na rua.

Ele respondia com frases curtas. Concordava com a boca, sem concordar interiormente. Os olhos dele, segundo ela contou mais tarde, tinham mudado, ficado mais fundos, mais parados, como se estivessem sempre olhando para alguma coisa que só ele conseguia ver. Ninguém no bairro imaginava que se estava a formar dentro daquela casa de aspecto tão normal.

As clientes continuavam a chegar ao salão. O portão azul continuava a ser pintado de novo naquele mesmo tom desbotado, porque o Adilson, num sábado, tinha resolveu dar uma geral na tinta, coisa que os vizinhos comentaram como sinal de que estava bem, a cuidar da casa, se preparando-se para a festa da filha. Ninguém sabia que aquele sábado inteiro tinha passado pintando o portão em silêncio absoluto, sem ligar o rádio que ligava sempre, repetindo mentalmente cada palavra da conversa que tinha ti descobriu tudo. A festa aproximava-se,

as compras continuavam a ser feitas. O O vestido de Yasm ficou pronto na quinta-feira anterior à data marcada e ela experimentou na sala, rodando, feliz, sem imaginar nada do que rondava a casa, pedindo à mãe para tirar uma fotografia de todos os ângulos para enviar para a prima que vivia em Curitiba.

Edilson assistiu a cena do sofá, aplaudiu juntamente com todo o mundo, disse que a filha estava linda e por dentro sentiu uma dor que ele próprio não sabia nomear bem, uma mistura de orgulho de pai e um vazio escuro que crescia cada vez mais perto do peito. Nessa mesma noite, depois de Yasmin foi dormir, ficou parado no quintal durante um bom bocado, olhando para o vestido pendurado, visível pela janela do quarto da filha.

E por um instante, segundo contou depois, o pensamento que vinha crescendo há dias pareceu recuar, como se aquela imagem simples, um vestido novo pendurado num cabide, fosse suficiente para apagar tudo o que ele tinha decidido, sem nunca ter decidido de verdade fazer. Ele quase entrou em casa nessa noite, disposto a esquecer tudo, a fingir pelo bem da filha, que a vida podia continuar da forma que era antes.

Mas bastou ouvir de dentro da cozinha o som do telemóvel de Marlene vibrando em cima da bancada e o gesto automático dela de virar o aparelho para baixo antes de olhar quem era, para que o pensamento voltasse inteiro, mais pesado do que antes. Na noite anterior à festa, à última noite, chegou a casa mais cedo do que o habitual, avisando que tinha terminado o serviço do dia mais rápido do que o previsto.

Marlene estava a terminar os últimos preparativos, embalando lembrança em saco de papel, conferindo lista de convidado numa folha de caderno, ajeitando as cadeiras que tinham sido emprestadas para receber um parente que ia dormir em casa depois da festa. Ele ficou a observá-la de longe da porta da cozinha, durante muito tempo, sem que ela aperceber, vendo-a cantarolar baixinho enquanto trabalhava, da forma que sempre fazia quando estava concentrada em alguma tarefa doméstica.

E foi nessa noite em que isso aconteceu. O que vem agora é o momento em que a câmara de portão registou a mesma câmara que tinha sido instalada só para apanhar cão de vizinho a vasculhar saco de lixo. Passava das 10 da noite. A Yasmin já tinha ido dormir, demasiado ansiosa para o dia seguinte para conseguir manter-se acordada até tarde.

Depois de repetir pela quinta vez que ia acordar cedo para arranjar o cabelo. O bairro estava quieto, só o som distante de um rádio ligado em alguma casa, a tocar uma música de sertanejo baixinho e o ladrar ocasional de algum cão respondendo a outro mais longe. Marlene foi à garagem buscar as últimas caixas com o material da festa que estavam guardadas lá, empilhadas perto da parede, junto das cadeiras da cabeleireira. Adilson foi atrás dela.

Tinha dentro do bolso do fato-macaco de trabalho uma chave de fendas grande daquelas de eletricista. ferramenta que carregava desde cedo, presa no cinto, o dia inteiro, todos os dias da vida dele, desde que tinha aprendido o ofício com o próprio tio, ainda adolescente. Não tinha planeado usar aquilo daquela maneira, pelo menos não com uma data marcada.

Mas o pensamento que crescia há 10 dias já não era só pensamento solto. Ele fechou a porta da garagem atrás dele. A câmara do portão de fora não apanhou o que aconteceu dentro daquele quarto. Flagrou só o antes e o depois. Flagrou Marlene entrando na garagem, transportando uma caixa de balões e enfeite, o rosto tranquilo, cansado, mas tranquilo, sem desconfiar de nada, sem imaginar que aquela seria a última vez que atravessaria aquele quintal com vida.

apanhou Adilson a entrar atrás minutos depois e fechando a porta com cuidado, sem bater, da forma que fazia quando não queria acordar a filha que dormia no quarto ao lado. captou 22 minutos depois, a porta abrindo-se de novo e Adilson a sair sozinho, andando devagar até ao meio do quintal, parando aí parado, com as duas mãos penduradas ao lado do corpo, olhando para o nada por quase 4 minutos inteiros, sem se mexer, enquanto a luz do sensor de movimento apagava e acendia de novo, cada vez que o vento balançava algum ramo da

Cibipiruna. O que aconteceu dentro daquele quarto nesses 22 minutos veio a público apenas depois. na reconstituição feita pela perícia, cruzando os relatórios do Instituto Médico Legal com a confissão parcial que deu na esquadra. Houve uma discussão baixa no início, quase sussurrada para não acordar Yasmin.

Ela pediu-lhe para esquecer aquilo. Pediu pensando na filha, pediu pensando na festa do dia seguinte. Disse que tudo ia ficar bem, que era só ele deixar aquilo para trás como ela já tinha deixado. Ele perguntou de novo, com mais pormenor do que tinha perguntado na primeira noite, se ela ainda havia Rogério, se os dois ainda trocavam mensagem, se o recibo do motel era desse mesmo dia da garagem ou de outro encontro que ele ainda não sabia.

Ela hesitou antes de responder a última questão, um segundo, talvez dois, tentando decidir se contava a verdade inteira ou mentia mais uma vez. E esta hesitação, segundo o próprio Adilson relatou depois na esquadra, foi o que partiu alguma coisa dentro dele de vez, de uma forma que não soube explicar nem a si próprio, nem pro investigador, nem ao juiz depois.

O golpe único foi na cabeça. Com a chave de fenda que carregava há anos no cinto de trabalho. Ela caiu na hora entre as caixas de material da festa, ao lado de um saco cheio de balões ainda não enchido, o mesmo balão que devia decorar a mesa do bolo no dia seguinte. O cômodo iluminado apenas por uma lâmpada única pendurada no teto, ficou em silêncio absoluto logo de seguida, cortado apenas pelo zumbido grave da própria lâmpada e pelo cheiro a cimento húmido que sempre pairava naquele canto da garagem, misturava-se agora um cheiro a metal que

Adilson reconheceria. Depois, como semelhante ao cheiro que ficava na própria pele depois de qualquer serviço elétrico mais bruto, ficou parado a olhar para ela no chão durante um tempo que ele mesmo depois não soube dizer quanto durou, talvez um minuto, talvez cinco, os silêncios da garagem cortados apenas pelo som distante do rádio de alguma casa vizinha.

Foi então que saiu da garagem, atravessou o quintal devagar e ficou parado ali no meio do escuro, enquanto a câmara do portão registava tudo sem que soubesse que estava a ser filmado. Não gritou, não chorou, ficou só ali parado, com o vento frio de Outono batendo levemente nas folhas secas da Cibipiruna caídas na calçada, o mesmo vento que tinha sentido na estrada de terra 3 horas seguidas na noite em que descobriu tudo.

Foi Yasmin quem encontrou a mãe na manhã seguinte, quando desceu para tomar café antes de sair para ensaiar o penteado no salão de uma amiga da escola. A menina gritou tão alto que o vizinho de dois portões abaixo escutou, largou o pequeno-almoço em cima da mesa e correu para ver o que era. O vizinho ligou para o 190.

A Polícia Militar chegou em menos de 10 minutos, seguindo-se pelo SAMU, que só poôde confirmar o óbito perante as lesões, já qualquer hipótese de reversão. A rua inteira se encheu-se de gente na calçada, de pé, de braço cruzado, olhando para a viatura, olhando para o carro do IML chegar depois, comentando baixo entre si, sem compreenderem nada do que estava a acontecer naquela casa que até ao dia anterior tinha bandeirinha de festa pendurada na varanda.

A Dona Terezinha da esquina foi uma das primeiras a chegar à calçada, ainda de touca de dormir. E foi ela quem acolheu Yasmin nos primeiros minutos, tirando a menina de perto do portão, levando-o para dentro da própria casa, tentando abafar os gritos com um abraço apertado enquanto os polícias entravam. Os vizinhos mais próximos foram sendo ouvidos ainda nessa manhã em depoimento rápido na própria calçada, enquanto a perícia isolava o quintal com fita zebrada e começava o trabalho no interior da garagem.

Adilson foi encontrado dentro de casa, sentado na cozinha, com as mãos ainda sujas, olhando para o copo de café que ele próprio tinha coado de manhã cedo e nem tinha tomado. Não tentou fugir, não tentou esconder nada. Foi detido ali mesmo, sem resistência, levado pela Polícia Militar direto para a delegacia central, enquanto Yasmin era acolhida por uma vizinha até a tia, irmã de Marlene, chegar de outro bairro.

Mas foi só três dias depois, quando a perícia recolheu o cartão de memória da câmara de portão para verificar se algum vizinho tinha filmado algo relevante em redor da casa naquela noite, que descobriram que a própria câmara da família tinha registado o momento em que saiu da garagem e esteve parado no quintal durante quase 4 minutos. Aquela gravação tornou-se peça central do inquérito, analisada quadro a quadro pelos peritos, cronometrada até ao segundo.

O delegado responsável pelo caso, num relato posterior à imprensa local, comentou que aquela imagem de um homem parado, imóvel, no escuro do próprio quintal, minutos depois de ter matado a mulher, era uma das cenas mais pesadas que já tinha visto em anos de carreira. Não pelo que mostrava, pelo que não mostrava, pela ausência total de reação visível.

No interrogatório feito na esquadra central de Londrina, numa pequena sala com mesa em fórmica e ventoinha de teto girando lentamente, Adilson respondeu a maior parte das perguntas com frases curtas, olhando para a mesa, sem se levantar os olhos ao delegado ou ao escrivão que digitava ao lado.

O investigador perguntou porque tinha levado a ferramenta para o interior da garagem naquela noite. Ele disse que carregava aquela chave de fendas no cinto desde as 7 da manhã. no serviço que tinha feito naquele dia e que só não tinha tirado do corpo até àquela hora, como fazia todos os os dias da vida.

Perguntaram se ele tinha ido à garagem com intenção de fazer o que fez. Ele ficou calado por quase um minuto inteiro, o ventilador rodando, o escrivão parado à espera antes de responder que não sabia dizer com certeza. Perguntaram há quanto tempo sabia da traição antes daquela noite. Contou, sem saltar nenhum pormenor, sobre a tarde em que regressou mais cedo do serviço cancelado, sobre a porta fechada da garagem, sobre as costas de Rogério saltando o muro.

Perguntaram-lhe porque não tinha ido embora de casa, porque não tinha simplesmente pedido a separação, uma vez que a traição, segundo o próprio relatava, já estava confirmada há duas semanas. Ele respondeu que tinha pensado nisso várias vezes durante várias noites, mas que cada vez que pensava em sair, vinha junto o pensamento de Rogério voltando para a mesa dos domingos, como se nada tivesse acontecido.

E que, segundo ele, era o que não conseguia engolir. Perguntaram-lhe também se tinha pensado em algum momento dessa noite em ligar pro 190 depois do que fez, em pedir ajuda, em tentar reverter alguma coisa. Ele disse que não, que a sua cabeça naqueles minutos parado no quintal não formava pensamento nenhum de ação, apenas um vazio que nunca tinha sentido antes e que não soube descrever direito nem naquele momento, sentado na sala de interrogatório, nem depois perante o juiz.

Perguntaram sobre a discussão sobre o que é que Marlene tinha exatamente dito antes do golpe. Ele repetiu, palavra a palavra, a frase da hesitação, a pergunta sobre o Rogério, o segundo de silêncio antes da resposta que nunca chegou. O momento que mais marcou os investigadores presentes foi quando perguntaram pela Yasmin, sobre a festa marcada para o dia seguinte, sobre o vestido pendurado no armário do quarto da menina.

Foi aí que ele, pela primeira vez, desde que tinha sido detido, baixou a cabeça e ficou em silêncio durante mais tempo ainda, os ombros a cair, as mãos apertadas uma na outra em cima da mesa de fórmica. E quando voltou a falar, a voz saiu diferente, mais baixa, quase sem força, dizendo apenas que já não sabia o que ia dizer à filha, que não tinha pensado nisso na altura, que só tinha pensado na traição, no compadre no quartinho da garagem.

Foi a única vez, segundo quem estava na sala, que ele pareceu realmente compreender o tamanho do que tinha feito. Ainda perguntaram se sentia arrependimento. Ele respondeu que sim, olhando para baixo. Quando o investigador perguntou se o arrependimento era por ter morto a esposa ou por ter estragado a festa da filha, demorou a responder e a resposta que deu, segundo o próprio delegado registou no relatório final, não deixava claro qual das duas coisas pesava mais para ele.

Perguntaram também se em algum momento das duas semanas anteriores ele tinha pensado em desistir daquele pensamento que crescia. Ele disse que sim, várias vezes, principalmente à noite, mas que o pensamento voltava sempre mais forte de manhã, quando via a carrinha branca de Rogério a passar na rua principal do bairro, indo para a oficina.

O processo seguiu o rito comum para este tipo de crime. Foi indiciado por homicídio qualificado, que é quando o justiça entende que o crime foi cometido com o motivo que agrava a pena. Nesse caso, o que os procuradores chamaram de motivo torpe, ligado à traição descoberta semanas antes e também por ter apanhado a vítima sem hipótese de reação, aquilo que em termos jurídicos se designa por recurso que impossibilitou a defesa da vítima.

A defesa feita por um advogado indicado pela família tentou argumentar durante o processo que Adilson tinha agido sob forte abalo emocional provocado pela traição, o que em direito se chama de violenta emoção, tentando reduzir o enquadramento do crime. Chegou a apresentar um psicólogo como testemunha que descreveu o quadro de sofrimento acumulado nas duas semanas anteriores ao crime.

A acusação rebateu mostrando que tinham passado quase duas semanas entre a descoberta e o crime, tempo considerado suficiente para afastar este argumento, uma vez que a lei só reconhece este abalo quando a reação acontece logo em seguida ao facto que a provocou. A procuradora destacou no discurso final, antes do júri que a chave de fendas utilizada era a mesma que Adilson carregava todos os dias havia anos e que isso não bastava sozinho para provar a premeditação, mas que a escolha de fazer aquilo precisamente na garagem, na véspera da festa, longe

de olhos que pudessem impedir, pesava contra o arguido. O caso foi a julgamento no Tribunal de Júri, que é quando um grupo de residentes da própria cidade sorteados para formar o júri popular decide ao lado do juiz se a pessoa é culpada e qual deve ser a pena. A sala do júri no fórum de Londrina estava cheio naquele dia.

Bancos ocupados por familiares dos dois lados da família, por vizinhos do Jardim Igapó que fizeram questão de acompanhar e por alguns curiosos que só souberam do caso pelo jornal local. Sete jurados foram sorteados entre os moradores da cidade, gente comum, um professor reformado, uma dona de casa, um funcionário de um banco, cada um jurando de mão na Bíblia, decidir com imparcialidade.

A gravação da câmara de portão foi apresentada como prova central juntamente com o relatório do Instituto de Medicina Legal, o depoimento da dona Terezinha sobre os meses anteriores e o depoimento de Yasmin, que teve de contar perante o júri, o que sentiu ao encontrar a mãe caída entre as caixas da própria festa dela.

Rogério foi ouvido como testemunha, não como arguido, uma vez que nenhuma lei obrigava-o a responder por aquilo que aconteceu depois de ele ter deixado a garagem nessa tarde. Ele chorou durante o depoimento, disse que nunca imaginou que a história ia terminar daquela maneira e nunca mais voltou a pisar o Jardim Igapó depois desse dia no fórum.

O julgamento durou dois dias inteiros. No primeiro dia, foram ouvidas as testemunhas e apresentadas as provas periciais. No segundo, aconteceram os debates finais entre acusação e defesa, cada lado com direito a um tempo determinado de fala, antes de o júri se recolher para decidir. O júri levou pouco mais de 3 horas para decidir entre a leitura das provas e a votação final feita em notas dobradas, da forma que se faz em toda a sessão do Tribunal do Júri, sem que os jurados tenham de justificar em voz alta o seu próprio voto.

Antes da leitura da sentença, a tia de Yasmin leu, em nome da menina, que preferiu não entrar na sala naquele momento, uma breve declaração sobre o que a perda da mãe tinha representado. Um texto curto, sem acusação direta ao pai, apenas descrevendo o tamanho do vazio que tinha ficado em casa depois daquela noite.

Dilson foi condenado a 19 anos de prisão em regime inicial fechado, decisão lida pelo juiz num tribunal cheio com parte da vizinhança do jardim Igapó a acompanhar da plateia. Muitos deles, ainda sem acreditar devidamente no que tinham ouvido meses antes. A defesa entrou com recurso, pedindo revisão da pena, alegando novamente o abalo emocional.

Mas o tribunal de segunda instância manteve a condenação nos mesmos termos. Quase dois anos depois, o pai de Adilson, já idoso, morador de Apucarana, acompanhou o julgamento inteiro, sentado na primeira fila reservada à família do réu, sem nunca conseguir entender, segundo contou a um sobrinho depois, como o próprio filho, que ele sempre descreveu como o mais calmo dos três irmãos, tinha chegado até aquele ponto.

Morreu 3 anos depois da condenação, sem voltar a ver o filho pessoalmente, trocando apenas cartas curtas nos últimos meses de vida. Yasmin foi morar com a tia, irmã de Marlene, num bairro vizinho, trocando de escola no meio do ano letivo. A festa, é claro, nunca aconteceu. O vestido ficou guardado ainda dentro do plástico da loja por quase do anos, até a própria tia decidir doar para outra menina da família que precisava e não tinha condição de comprar um novo.

Nos primeiros meses depois do crime, Yasm passou a acompanhamento com uma psicóloga do Serviço Público de Saúde, encaminhada pela própria escola nova num processo que a tia descreveu depois como lento, mas necessário. A menina levou o tempo para voltar a dormir a noite inteira sem acordar assustada e demorou ainda mais para voltar a desenhar no caderno de capa dura que tinha ganhado da mãe.

O mesmo que guardou intacto por quase um ano antes de voltar a abrir. Ela nunca mais visitou o pai na prisão. Recusou toda a tentativa de contato, incluindo as cartas que ele passou a escrever depois do primeiro ano de reclusão. Cartas que a tia guardou fechadas sem entregar, esperando que um dia a sobrinha pedisse para ler o que nunca aconteceu.

Dentro do sistema prisional, Adilson foi classificado para trabalho na oficina de manutenção elétrica do próprio presídio, função que os agentes penitenciários avaliaram como compatível com o histórico profissional dele. Cumpriu os primeiros anos sem nenhuma ocorrência disciplinar registrada e passou a maior parte do tempo livre, segundo o relato de um agente, em silêncio, evitando conversa com os outros detentos sobre o motivo da própria condenação.

A casa da rua Oaldino do Amaral ficou fechada por meses. O portão azul desbotado, sem receber mais nenhuma pintura até ser vendida para outra família que reformou o quintal inteiro e trocou a garagem antiga por um espaço de churrasqueira com piso novo. Ninguém na vizinhança nova daquela casa sabe hoje o que aconteceu ali.

Rogério, o compadre, fechou a oficina meses depois do caso ganhar repercussão local e mudou de bairro sem avisar quase ninguém. Não foi indiciado por nenhum crime, mas carregou, segundo quem ainda cruzava com ele ocasionalmente, um jeito mais curvado de andar, como se tivesse envelhecido 10 anos de uma vez. Parte da clientela antiga da oficina, mesmo sem culpar Rogério abertamente perante a lei, parou de levar carro para consertar com ele.

E o movimento do negócio, que já vinha caindo antes mesmo do fechamento definitivo, nunca mais se recuperou. Alguns amigos do grupo de churrasco de domingo também se afastaram dele naquele período, sem nunca dizer diretamente o motivo, só reduzindo aos poucos o convite até parar de convidar de vez. Dona Terezinha continua na mesma varanda, na mesma cadeira, vendo o movimento da rua todas as tardes.

E às vezes, quando alguém novo se muda pro bairro e pergunta sobre a casa do portão azul, ela só balança a cabeça e muda de assunto. O caso repercutiu na imprensa local por semanas. Primeiro nos jornais impressos da cidade, depois em programas de rádio que cobrem plantão policial e por um tempo virou assunto obrigatório na fila da padaria e na sala de espera do posto de saúde do bairro.

Algumas famílias vizinhas, segundo comentam até hoje, moradores mais antigos, passaram a evitar deixar a própria chave reserva com parente ou com padre, um hábito comum na região. Depois daquele caso, muita gente reconsiderou sem nunca admitir abertamente o motivo. E aqui está o detalhe que prometi lá no início. A gravação da câmera de portão, nos 22 minutos em que a porta da garagem ficou fechada, o áudio captado, de longe, abafado, quase inaudível por causa da distância entre a câmera e a garagem, registrou um som que a perícia tentou

identificar e nunca conseguiu com certeza absoluta. Um som curto de menos de um segundo que os peritos no laudo técnico anexado ao processo descreveram apenas como ruído metálico de origem indeterminada. A defesa alegou, sem provar que era o som de uma ferramenta caindo no chão de cimento da garagem. A acusação nunca comentou o assunto durante o julgamento, considerando o ponto irrelevante diante do restante das provas.

O delegado, anos depois ainda comentava aquele excerto da gravação com os colegas mais próximos de serviço, sem saber explicar porque é que aquele som específico de menos de um segundo era o que mais lhe ficava na cabeça entre tudo o que já tinha visto naquele caso e em tantos outros ao longo da carreira. Se chegou até aqui, sabe que histórias como esta não acontecem só em lugar distante.

Acontece num bairro como o seu, numa rua como a sua, entre pessoas que lhe cumprimenta todos os dias sem imaginar o que carrega por dentro. Se esse relato te marcou, deixa nos comentários o que mais deixou-te a pensar e inscreve-te no canal para acompanhar as próximas histórias. Há muitas outras à espera para serem contadas. M.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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