DIA DOS PAIS, RECEBI UMA MENSAGEM SOBRE MEU FILHO QUE HAVIA FALECIDO… E NUNCA ESQUECI
No dia do pai, muitas famílias celebram estes momentos e agradecem pela oportunidade de estarem juntas. Mas para alguns pais, esta data também desperta recordações profundas, memórias de um tempo que não volta mais e de pessoas cuja ausência nunca deixou de ser sentida. Quando terminei de rezar e abrir os olhos, uma senhora que nunca tinha visto na vida estava parada mesmo à minha frente.
Depois ela olhou para mim e, para a minha surpresa, disse o meu nome. Naquele momento, não fazia ideia de quem era aquela mulher, muito menos de como ela sabia quem eu era. Mas o que ela me revelou logo a seguir mudou a minha vida para sempre. O Fernando era um miúdo muito dedicado. Desde pequeno que sempre levou os estudos a sério.
Fazia as tarefas, prestava atenção nas aulas e dificilmente precisava que alguém ficasse a cobrar as suas obrigações. Eu adorava ir às reuniões da escola. Era um daqueles momentos que me enchiam de orgulho. Quando chegava a minha vez de conversar com a professora, quase sempre ouvia coisas boas sobre ele. Ela dizia que Fernando era estudioso, educado e responsável.
Contava que ele sabia respeitar os professores e tratava bem os outros colegas. Não era um miúdo de procurar confusão. Sabia conversar, ouvir e compreender quando precisava de ficar quieto. Para um pai, ouvir aquelas palavras era uma felicidade difícil de explicar. Eu regressava a casa com o coração cheio de orgulho, pensando que estava a ver o meu filho crescer e tornar-se um bom rapaz.
Naquele tempo, a nossa vida era simples, mas era boa. A nossa família era muito unida. Dentro de casa havia aquela rotina comum de qualquer família. Cada um tinha as suas responsabilidades, os seus horários e os seus pequenos problemas. Mas estávamos sempre juntos. Conversávamos, fazíamos as refeições em família e procurámos acompanhar de perto a vida uns dos outros.
Fernando fazia parte de tudo aquilo. A escola ocupava uma boa parte dos seus dias. De manhã havia a correria para se arrumar, verificar o material e sair no horário. Depois ficava esperando a hora em que ele regressaria. Era uma rotina tão comum que nem imaginava viver de outra forma. Naquele dia também foi assim.
Fernando tinha ido para a escola [música] e eu estava em casa à espera que ele chegasse. Conhecia mais ou menos o horário em que ele costumava voltar. Então, continuei a fazer as minhas coisas enquanto aguardava. A dado momento, ouvi um veículo chegando. Durante alguns segundos, não dei Muita importância, mas quando olhei, percebi que não era Fernando, era um carro da polícia.
Ela parou diante da minha casa. Fiquei olhando, tentando compreender por uma viatura estaria ali. Então, [música] vi um polícia abrir a porta e descer. Foi nesse instante que o meu coração apertou. Eu ainda não sabia o que ele tinha vindo dizer-me. Ele não havia falado uma única palavra, mas bastou olhar para o rosto daquele policial.
A expressão dele era séria. Não parecia alguém que estava ali para fazer uma pergunta simples ou resolver alguma coisa comum. Fiquei parado, olhando para ele se aproximar. Fernando ainda não tinha chegado da escola e pela forma como aquele polícia caminhava em direção à minha casa, já sabia que as notícias não seriam boas.
O polícia aproximou-se de mim e, com um jeito sério, perguntou se eu era o pai de Fernando. Quando confirmei, disse que eu precisava de acompanhá-los até à esquadra, porque o meu filho tinha sofrido um acidente. Naquele momento, parecia que tinha parado de entender as coisas direito. Eu ouvia o polícia a falar, mas demorava alguns segundos a conseguir compreender cada palavra.
Depois começou a explicar-me o que tinham informado. O Fernando regressava da escola com alguns amigos. Segundo as informações que tinham recebido, estavam no comboio e a determinado momento, Fernando estava entre um vagão e outro. já estavam próximos da estação onde ele iria descer quando aconteceu o acidente.
Fernando desequilibrou-se e caiu entre os vagões. Quando ouvi aquilo, senti as pernas ficarem fracas. A minha primeira reação foi perguntar onde o meu filho estava. Eu queria saber para onde tinham levado Fernando. Queria ir ter com ele imediatamente. Foi então que o agente policial me informou que tinha sido socorrido e levado para o hospital.
O seu estado era gravíssimo. Aquela palavra ficou-me na cabeça. Gravíssimo. Até poucos minutos antes, estava dentro da minha casa à espera do meu filho regressar da escola. Era para ser apenas mais um dia comum. Eu esperava ouvir Fernando a chegar, entrando em casa e seguindo a rotina que fazia parte dos os nossos dias.
Agora estava uma viatura parada na minha porta e um polícia a dizer-me que o meu filho estava num hospital a lutar pela vida. Eu precisava de chamar a minha esposa. Entrei em casa e contei-lhe o que o polícia acabara de me dizer. Não havia muito a explicar. Porque eu próprio ainda tentava compreender tudo aquilo.
Saímos com os polícias e fomos até ao esquadra. Precisávamos de registar a ocorrência e prestar as informações necessárias sobre Fernando e sobre o que tinha acontecido. A minha cabeça, porém, não estava ali. Enquanto falavam comigo, só conseguia pensar no meu filho. Pensava no hospital, [música] na gravidade dos ferimentos e na vontade de sair dali o mais depressa possível para chegar até ele.
Eu e a minha esposa estávamos assustados. Tudo tinha acontecido demasiado depressa. Umas horas antes, Fernando simplesmente tinha saído para estudar. Agora estávamos dentro de uma esquadra tentando registar um acidente envolvendo o nosso próprio filho. O registo da ocorrência ainda nem sequer havia terminado quando chegou outra viatura.
Eu olhei para os polícias. Um deles veio até nós. Pela expressão no seu rosto, percebi novamente aquela mesma seriedade que tinha visto quando esta primeira viatura chegou a minha casa. Depois vieram as palavras que nenhum pai está preparado para ouvir. O seu filho não resistiu aos ferimentos. Fiquei sem reação.
Durante alguns segundos não consegui falar nada. Parecia que aquelas palavras não entravam na minha cabeça. Meu filho, o Fernando, que nessa manhã tinha saído de casa para ir para a escola, o mesmo miúdo que eu estava à espera voltar. Olhei para a minha mulher e não sabia o que dizer. Também não existia nada que alguém pudesse dizer naquele momento.
Fernando não voltaria para casa. Tudo aquilo que poucas horas antes fazia parte de uma vida comum tinha desaparecido. De repente, tinha ido àquela esquadra, acreditando que o meu filho estava gravemente ferido num hospital. Antes mesmo de terminar de registar a ocorrência, recebi a notícia de que ele havia morrido.
Foi nesse momento que a a minha vida virou de pernas para o ar. Não vou contar como foi o enterro do Fernando, porque como devem imaginar, foi um sofrimento terrível para toda a sua nossa família. Não existem muitas palavras para explicar o que é um pai despedir-se de um filho. Por isso, prefiro não entrar nos pormenores daqueles dias.
Depois disso, as semanas começaram a passar. A casa continuava a ser a mesma. Os móveis estavam nos mesmos locais. A nossa rotina precisava de continuar de alguma forma, mas para mim tudo parecia diferente. Depois vieram os meses. O tempo passava, mas a dor parecia não acompanhar o tempo. Acordava de manhã e por alguns instantes ainda precisava de colocar os pensamentos no lugar.
Durante o dia tentava fazer as minhas obrigações, falar com as pessoas e continuar a viver. Mas Fernando estava sempre presente nos meus pensamentos. Qualquer coisa simples podia fazer-me lembrar-se dele. Por vezes era algum objeto dentro de casa. Outras vezes, uma recordação da escola, uma conversa que tivemos ou simplesmente o silêncio em algum momento do dia.
Sentia muita falta do meu filho. A minha esposa também estava a sofrer. Eu sabia disso. Era mãe do Fernando e tinha perdido o filho da mesma forma que eu, mas ela demonstrava uma força que naquele momento não conseguia ter. Muitas vezes era ela quem me tentava levantar. Ela já conhecia o meu jeito e não precisava que eu explicasse o que estava acontecendo.
Bastava encontrar-me sentado, quieto, com a cabeça baixa, para saber exatamente onde estavam os meus pensamentos. Ela aproximava-se, sentava-se perto de mim e tentava consolar-me. Umas vezes conversava comigo, outras vezes apenas permanecia ao meu lado. Nem sempre tinha vontade de falar. Havia momentos em que simplesmente permanecia em silêncio, olhando para o chão e a pensar no Fernando.
A minha esposa percebia, não precisava perguntar. Está pensando nele? Ela já sabia. Nós os dois estávamos passando pela mesma perda. Mas cada um lidava com aquela dor de uma maneira diferente. Ela parecia conseguir encontrar forças para continuar a cuidar da casa, conversando comigo e tentando manter nossa família de pé.
Eu tinha mais dificuldade. Havia dias em que conseguia conversar normalmente e fazer o que tinha de ser feito. Noutros, a tristeza simplesmente tomava [a música] conta de mim. Quando a minha esposa percebia que eu estava assim, ela vinha para perto e mesmo [música] carregando a sua própria dor, tentava aliviar um pouco da minha.
Os meses continuavam a passar, mas dentro de mim havia uma sensação difícil de explicar. O calendário dizia que o tempo estava seguindo em frente. Para mim, porém, a falta que Fernando fazia continuava enorme. Lembro-me daquele dia como se fosse hoje. Era o dia do pai, o primeiro dia dos pais depois de ter perdido o Fernando.
Desde que acordei, o meu coração estava apertado. Era impossível não pensar nele. Noutros anos, aquela data tinha um significado completamente diferente para mim. Ser pai [música] era uma das coisas que mais me davam orgulho e o Fernando fazia parte desse dia, mas nesse ano era diferente. Eu estava muito triste.
Minha esposa conhecia-me bem e sabia perceber quando eu não [música] estava bem, mesmo quando tentava esconder. Eu também sabia que ela estava a sofrer e não queria passar aquele dia inteiro dentro de casa, mostrando-lhe toda a a dor que estava a sentir. Assim, decidi sair um pouco. Não tinha nenhum lugar específico para ir.
Eu só queria caminhar. Saí de casa e comecei a andar pelas ruas sem grande pressa. Passei por locais movimentados, depois por ruas mais tranquilas. via pessoas a seguir as suas vidas, famílias juntas, pais acompanhados pelos filhos. Eu procurava não prestar muita atenção. Continuei a andar. Andei tanto que perdi a noção do tempo.
Não estava preocupado com a distância, nem com o caminho. Naquele momento, caminhar era uma forma de ocupar a cabeça. Passadas algumas horas, as minhas pernas já estavam cansadas. Foi quando passei por uma praça e decidi parar. Encontrei um banco e me sentei-me. A praça tinha aquele movimento normal de um dia comum.
Algumas pessoas passavam, outras ficavam sentadas por alguns minutos. Eu permanecia ali quieto, observando sem realmente prestar atenção a nada. A minha cabeça estava longe. Eu pensava no Fernando. Pensava em como Gostava que aquele dia do pai fosse diferente. Fiquei ali por alguns minutos até que se apercebe de uma senhora a chegar.
Ela sentou-se num banco que ficava à minha frente. No início, não dei muita atenção. Era apenas mais uma pessoa naquela praça. Depois percebi que ela tinha baixou a cabeça. A senhora começou a rezar. Fiquei a olhar durante alguns segundos e aquilo deu-me vontade de fazer o mesmo. Eu precisava conversar com Deus.

Então baixei a cabeça, fechei os olhos e comecei a rezar em silêncio. Não fiz uma oração bonita, nem procurei palavras difíceis. Nesse momento falei com Deus da forma que consegui, com a tristeza de um pai que ainda sentia profundamente a falta do filho. Fiquei algum tempo assim, de olhos fechados, esqueci até que estava sentado naquela praça.
Quando terminei a minha oração, respirei fundo e abri os olhos. Apanhei um susto. Aquela senhora já não estava sentada no banco da frente. Agora ela estava de pé, bem diante de mim. Levantei o rosto e olhei para ela, sem compreender o que estava acontecendo. Ela encarou-me por alguns segundos. Então perguntou: “O senhor chama-se António?” Nesse momento tentei puxar pela memória.
Olhei bem para o rosto daquela senhora, tentando lembrar-me se já a tinha visto em algum lugar. Talvez fosse alguém do bairro, alguma conhecida distante da família ou uma pessoa que eu tivesse encontrado anos atrás, mas não me consegui lembrar dela. Mesmo assim, respondi: “Sim, sou o António.
A senhora deu-me conhece?” Ela respondeu imediatamente: “Não, nunca tinha visto o senhor antes de hoje. Quando ela disse aquilo, Fiquei um pouco apreensivo. Se nunca me tinha visto, como sabia o meu nome?” Olhei para ela com alguma desconfiança, tentando perceber o que aquela mulher queria comigo. Ela percebeu a minha reação e disse: “Eu vou explicar”.
Continuei sentado, atento. Então, ela começou a contar. Quando estava a caminhar em direção à praça, encontrei um miúdo. Ele pediu que eu viesse aqui falar com o senhor. Na mesma altura, comecei a pensar em quem poderia ser aquele miúdo. Talvez algum sobrinho meu, talvez o filho de algum conhecido que me tivesse visto ali sentado e soubesse quem eu era.
Eu procurava uma explicação simples para aquilo. Mas antes que eu perguntasse qualquer coisa, ela continuou. Eu sei que o senhor vai ficar desconfiado do que tenho para falar. Ela fez uma pequena pausa, depois olhou para mim e disse: “Mas quem é que me pediu para vir falar com o senhor foi o seu filho, Fernando”.
Quando ouvi o nome do meu filho, o meu reação foi de desconfiança. Na mesma hora, pensei que aquela mulher poderia ser [música] algum tipo de charlatona. Talvez soubesse de alguma forma o que lhe tinha acontecido com Fernando. Talvez tivesse ouvido a minha história por alguém e agora estivesse a se aproveitando-se de um pai fragilizado.
Eu já comecei a imaginar que depois daquela conversa ela pediria algum dinheiro. Não disse [música] nada, apenas fiquei olhando para ela. Foi então que a senhora continuou. O senhor recorda-se de uma vez em que a sua esposa estava internada no hospital? Meu olhar mudou. Ela prosseguiu. Naquele dia estavam apenas o senhor e Fernando no hospital.
Fernando disse que a sua mulher teria alta nesse mesmo dia, mas o senhor falou que duvidava. Então vocês fizeram uma aposta. Nesse instante comecei a prestar ainda mais atenção. Ela continuou. O Fernando [música] acertou. Sua esposa teve alta nesse dia e no caminho, para pagar a aposta que tinha perdido, o senhor comprou um gelado de morango para ele.
Eu fiquei a olhar para aquela senhora sem conseguir dizer uma palavra. Ela ainda completou. Vocês ficaram muito felizes nesse dia. Para Fernando, aquele foi um dos dias mais felizes da vida dele. O meu corpo inteiro ficou arrepiado. Aquela recordação existia. Eu conseguia lembrar-me daquele dia. A minha esposa [música] estava internada e O Fernando estava comigo no hospital.
A determinado momento, disse com aquela confiança de miúdo que a mãe teria alta nesse mesmo dia. Eu duvidei. Nós fizemos aquela pequena aposta entre pai e filho. O Fernando acertou e eu realmente comprei um gelado de morango para ele no caminho. Era uma coisa tão simples, um daqueles pequenos momentos entre pai e filho que ninguém considera suficientemente importante para sair contando a outras pessoas, mas para nós os dois tinha sido especial.
O que mais me deixou sem explicação foi precisamente isso. A minha própria esposa não sabia daquela aposta. Aquilo tinha acontecido apenas entre mim e o Fernando. Eu nunca tinha contado para ninguém. Olhei novamente para aquela senhora. Até esse momento, estava convencido de que ela poderia estar a tentar se aproveitar da minha dor.
Mas agora havia uma pergunta que não consegui responder. Como uma mulher que dizia nunca me ter visto antes poderia saber de uma conversa particular que teve lugar anos atrás entre mim e o meu filho? Não era uma informação publicada em algum lugar. Não era algo que a nossa família costumava contar. [música] Nem a mãe do Fernando sabia.
Só duas pessoas conheciam aquela história, eu e o meu filho. Foi então que ela continuou. António, desde pequena que tenho essa bênção. Consigo conversar com algumas almas. Permaneci em silêncio, olhando para ela. Depois de tudo o que aquela senhora tinha acabado de me contar sobre o hospital e o gelado de morango, [música] já não conseguia simplesmente ignorar as suas palavras.
Ela continuou. Não consigo falar com todos. Também não sei explicar porque acontece comigo. Não é algo que eu escolha, simplesmente acontece. Desde muito nova, vejo e sinto algumas coisas que as outras pessoas não conseguem perceber. E quando este acontece, procuro ajudar da forma que posso.
Eu ainda tentava perceber tudo aquilo. Ela percebeu que eu estava confuso e falou com calma. Hoje, enquanto caminhava em direção a esta praça, o Fernando viu-me e eu consegui vê-lo. Quando ela disse aquilo, senti novamente um arrepio. Perguntei como é que ela tinha visto o meu filho. Ela respondeu: “Eu não vi o Fernando como estou a ver o senhor agora. Não era uma imagem nítida.
Era como uma névoa branca, muito clara, muito pura. Mas eu sabia que era ele e consegui perceber o que ele me queria dizer. Eu não conseguia tirar os olhos daquela mulher. Então ela começou a transmitir a mensagem que, segundo ela, Fernando tinha pedido que me entregasse. O seu filho sabe que o Senhor está a ter muita dificuldade em recuperar desde o desencarne dele.
Ele sabe da tristeza que o Senhor carrega e sabe o quanto tem sido difícil continuar viver com essa ausência. Ouvir aquilo precisamente naquele dia dos pais mexeu profundamente comigo. Ela continuou. Por isso veio falar comigo hoje. Ele queria que eu encontrasse o Senhor e entregasse uma mensagem. Respirei fundo e continuei a ouvir.
Fernando pediu ao Senhor para pensar que ele está num lugar melhor. Ele não quer que o Senhor passe os seus dias sofrendo dessa forma. Ele precisa que o Senhor procure viver melhor. Meus olhos começaram a encher-se de lágrimas. A senhora falava devagar, como se quisesse ter a certeza de que eu compreendesse cada palavra.
Ele não está a pedir para o Senhor esquecer-se dele. Muito pelo contrário. O Fernando sabe que um pai nunca esquece um filho. Ele só não quer que as memórias que construíram juntos sejam motivo apenas de sofrimento. Eu baixei a cabeça por alguns segundos. Ela continuou. Ele disse que um dia ainda se encontrar novamente.
Mas até esse dia chegar, o Senhor precisa de viver. precisa de tentar encontrar a felicidade novamente, mesmo que agora isso pareça muito difícil, já não conseguia esconder a minha emoção. Aquela mulher que poucos minutos antes, era uma completa desconhecida, estava diante de mim a falar sobre o meu filho e sobre coisas que eu guardava dentro do coração.
Depois ela terminou a mensagem. O Fernando também pediu que eu dissesse uma coisa muito importante. Olhei para ela. A senhora sorriu de forma tranquila e disse: “Ele ama muito o senhor e hoje, neste dia do pai, tudo o que ele mais queria era que o senhor soubesse disso. Ele quer ver o pai feliz.” Nesse momento, as lágrimas que eu estava a tentar segurar começaram a cair.
Eu não [música] disse nada. Apenas fiquei sentado naquele banco, olhando para aquela senhora e tentando compreender tudo o que tinha acabado de ouvir. [música] Depois de ter terminado de falar, aquela senhora ficou alguns segundos em silêncio diante de mim. Eu ainda estava a tentar compreender tudo o que tinha acabado de ouvir.
Então ela simplesmente se virou e antes de se ir embora disse: “Fique em paz com Deus, António”. Não pediu o meu telefone, não perguntou onde eu vivia, não falou sobre dinheiro, não pediu absolutamente nada em troca, apenas começou a caminhar lentamente para longe de mim. Fiquei sentado naquele banco, acompanhando aquela senhora com os olhos enquanto ela se afastava pela praça.
Foi naquele momento que a minha desconfiança diminuiu ainda mais. Desde o início, uma parte de mim procurava alguma explicação para aquilo. Cheguei a pensar que ela poderia estar aproveitando-se da minha fraqueza, que no final daquela conversa pediria dinheiro ou tentaria convencer-me de alguma coisa. Mas não aconteceu [música] nada disso.
Ela apenas transmitiu aquela mensagem, desejou que eu ficasse em paz com Deus e foi-se embora. Eu permaneci sentado. Olhei em redor por alguns instantes e depois baixei novamente a cabeça. Fechei os olhos e comecei a rezar. Desta vez a minha oração era diferente daquela que eu tinha feito poucos minutos antes.
Comecei por agradecer a Deus. Agradeci pela minha vida, pela minha esposa, pela minha família e, principalmente, agradeci pelos anos que pude viver ao lado do Fernando. Enquanto eu rezava, as palavras daquela senhora começaram a voltar à minha cabeça. Ele não quer que o Senhor se esqueça dele. Ele quer que o Senhor viva. Ele ama muito o Senhor.
Não sei explicar exatamente o que aconteceu comigo naquele momento. Só sei que comecei a chorar. As lágrimas desciam-me pelo rosto enquanto eu continuava de olhos fechados. Mas havia qualquer coisa de diferente. Eu conhecia muito bem as lágrimas que vinha derramando nos últimos meses. Eram lágrimas de saudade, de tristeza, de um pai que daria tudo para ter o filho novamente dentro de casa.
Naquele momento, porém, não sentia a mesma coisa. Eu estava a chorar, mas aquelas lágrimas não pareciam ser apenas de sofrimento. O meu corpo inteiro se arrepiou. Respirei fundo e aos poucos senti surgir dentro de mim uma alegria que já não sentia há muito tempo. Não sei explicar de onde veio, de não sei explicar porque aconteceu precisamente naquele momento.
Eu apenas senti. Continuei a rezar e a agradecer a Deus. Pela primeira vez depois de tantos meses, quando pensei no Fernando, não pensei apenas no acidente, não pensei somente no hospital, não pensei apenas no dia em que recebi aquela notícia na esquadra. Comecei a lembrar-me do meu filho como ele realmente tinha sido durante todos os aqueles anos.
Lembrei-me do miúdo estudioso que me enchia de orgulho nas reuniões da escola. Lembrei-me das nossas conversas. Lembrei-me das coisas simples que fazíamos juntos e lembrei-me daquele gelado de morango, aquela pequena aposta no hospital, que até então parecia apenas uma recordação nossa. Nesse momento ganhou um enorme significado para mim.
Continuei chorando durante alguns minutos. Depois abri os olhos, passei as mãos pelo rosto e enxuguei as lágrimas. Olhei para o céu e falei baixinho. Obrigado, Fernando. Respirei fundo e continuei. Eu prometo que a partir de hoje vou tentar não sofrer mais como eu estava a sofrer. Não vou esquecer-te, meu filho, nunca, mas vou guardar principalmente os momentos bons que vivemos juntos.
Fiquei alguns segundos em silêncio, então terminei. Vou lembrar-me do teu sorriso, das nossas conversas, das nossas brincadeiras e de tudo de bom que deixaste na minha vida até ao dia em que nos encontrar novamente. Enxuguei mais uma vez os olhos. Amo-te, meu querido filho. Passado algum tempo, levantei-me daquele banco e decidi voltar para casa.
Fiz o caminho de volta a pensar em tudo o que tinha acontecido naquela praça. As palavras daquela senhora ainda estavam na minha cabeça, mas havia qualquer coisa de diferente dentro de mim. A saudade continuava ali. Fernando continuava a fazer falta. Nada poderia mudar isso, mas aquela tristeza pesada que eu carregava todos os dias parecia ter dado espaço para outro sentimento.
Quando cheguei a casa, a minha esposa estava a me esperando. Ela estava ansiosa. Eu tinha saído muito triste e ficado fora durante horas. Como me conhecia bem, provavelmente imaginava que voltaria ainda mais abatido. Assim que entrei, ela olhou para mim tentando perceber como estava. Eu não não disse nada de imediato.
Caminhei até ela e simplesmente abracei-a. Apertei a minha [música] esposa nos meus braços e assim fiquei por alguns segundos. Ela estranhou, afastou um pouco o rosto, olhou para mim e perguntou: “O que aconteceu?” Ela esperava encontrar aquele mesmo homem de cabeça baixa que tinha saído de casa horas antes, mas algo em mim tinha mudado.
Pedi-lhe então que se sentasse comigo e contei tudo. Contei que tinha caminhado durante horas até decidir descansar naquela praça. Contei sobre a senhora que se sentou no banco à minha frente e começou a rezar. Contei que também fechei os olhos a fazer a minha oração e que quando abri, aquela mulher estava diante de mim e sabia o meu nome.
Depois contei o que mais tinha-me impressionado. Falei sobre o hospital, sobre aquela aposta que eu e o Fernando tínhamos feito e sobre o gelado de morango. Quando mencionei aquilo, a minha mulher ficou surpreendida. expliquei que aquela era uma história que nunca tinha contado, nem mesmo para ela. Depois contei toda a mensagem que aquela senhora disse ter recebido de Fernando.
A minha esposa ficou a ouvir-me até ao fim. Eu disse-lhe que o Fernando não queria que eu esquecesse. Queria apenas que eu deixasse de transformar todas as memórias dele em sofrimento. Contei que, segundo aquela senhora, o nosso filho queria que eu voltasse a viver. Quando terminei, a minha esposa ficou alguns segundos em silêncio.
Então, ela sorriu para mim. Era um sorriso que já não via daquela maneira há muito tempo. Ela segurou as minhas mãos e falou: “Então, vamos voltar a ser felizes a partir de agora”. Aquelas palavras ficaram guardadas [música] comigo. E foi assim que aquele dia do pai, que começou por ser um dos dias mais difíceis desde que perdi Fernando, acabou [a música] por mudar a forma como eu carregava dos a ausência do meu filho.
Não deixei de sentir saudade. Também não esqueci o Fernando e nunca irei esquecer. O que mudou foi a forma de recordar dele. Durante muito tempo, quando pensava no meu filho, a minha cabeça voltava imediatamente para o pior [música] dia da minha vida. Depois daquele dia do pai, comecei a esforçar-me para me lembrar de toda [música] a vida que existiu antes daquele dia, das reuniões da escola, do orgulho que sentia quando os os professores falavam dele, das conversas dentro de casa, dos momentos em família, das pequenas brincadeiras e, claro,
daquele gelado de morango que só ambos sabíamos o verdadeiro significado. Hoje sou um homem feliz. Tenho a minha mulher ao meu lado e aprendi que voltar a sorrir não significa esquecer o meu filho. Fernando continua fazendo parte de mim. A diferença é que hoje, quando penso nele, procuro agradecer os momentos que tivemos juntos, em vez de sofrer apenas pelos momentos que não pudemos viver.
Não sei quanto tempo ainda tenho pela frente. Pode demorar muitos anos, mas carrego dentro de mim a mesma [música] esperança que nasceu nesse dia do pai, a esperança de que um dia encontrarei Fernando novamente. E quando esse dia chegar, há uma coisa que eu gostaria muito de fazer. dar um grande abraço àquele miúdo que tantas vezes [a música] encheu-me de orgulho, meu filho, meu querido Fernando.
Quero agradecer de coração a todos vós que permaneceram comigo até aqui e ouviram a minha história até ao fim. >> [música] >> Talvez algumas pessoas que estejam assistindo a este vídeo também já tenham perderam alguém muito querido e saibam como é difícil viver com a saudade. Cada pessoa encontra a sua própria maneira de seguir em frente.
Mas aprendi que o amor e as boas As memórias continuam guardados dentro de nós. Por isso, se também acredita que um dia estaremos novamente juntos daqueles que amamos e que já partiram, escreva nos comentários: “Eu acredito. Vou ficar muito feliz por saber que existem outras pessoas a transportar essa mesma esperança no coração.
E antes de terminar, [música] desejo que Deus abençoe cada um de vós, que ele cuide da sua casa, da sua família e dos pessoas que ama. Aproveite cada momento ao lado delas, dê aquele abraço que muitas vezes deixamos para mais tarde e valorize as coisas simples enquanto podemos vivê-las. Obrigado por ter ficado comigo até aqui.
Que todos vós e os vossos familiares fiquem com Deus. Um grande abraço e até ao próximo vídeo.