Desaparecida Desde 1998_ Jovem Denise Some em Goiás e Sua Moto É Encontrada Submersa no Rio Araguaia
27 de agosto de 1998, Goiânia, Goiás. A pergunta que ninguém soube responder. Porquê Denise Azevedo escolheu precisamente aquela quinta-feira para viajar sozinha? Aos 21 anos, ela trabalhava como recepcionista numa clínica veterinária no setor oeste da Goiânia e raramente faltava ao emprego. Mas naquele final de agosto de 1998 pediu dois dias de dispensa para resolver uma questão pessoal em Aragarzas, cidade a 320 km da capital, nas margens do rio Araguaia.
A Denise vivia com os pais, Marta e João Azevedo, numa casa simples no bairro Jardim América. Era filha única, nascida em 1977, conhecida pela personalidade reservada e pelo hábito de escrever diariamente em um pequeno diário de capa azul que ganhara aos 16 anos. Nunca saía sem ele. Naquela manhã, vestiu umas calças de ganga clara, t-shirt branca e ténis.
colocou na mochila duas mudas de roupa, documentos, algum dinheiro e, como sempre, o diário. Aos pais, disse que iria visitar a Cristiane, uma amiga dos tempos de colégio que se mudara para Aragarças após o casamento. Prometeu regressar no domingo à noite. Por volta das 14 a ESA, ligou a Honda CG 125 vermelha, placa FKL 4 e Windows 92, que comprara usada 6 meses antes.
Era sua primeira moto, motivo de orgulho e independência. João ainda se lembra do barulho do motor a afastar-se pela rua de paralelepípedos, o último som que ouviu da filha. Às 16:20, a Denise parou no posto Eldorado, na BR070, saída para Aragarças. O frentista Valdecis Santos atendeu-a e depois contaria aos jornais.
Ela parecia tranquila. perguntou sobre a estrada, se estava boa para motos. Comprou refrigerante e perguntou a que horas escurecia. Disse que queria chegar antes da noite. A câmara de segurança do posto registou Denise, abastecendo a moto, consultando um papel, possivelmente um morada e seguindo viagem. Foi a última imagem dela que se tem.
A estrada para Aragarças corta o sererrado goiano em linha quase reta, passando por cidades pequenas como Iporá e Piranhas. Em 1998, o asfalto tinha alguns troços precários e o movimento era moderado. Para uma motociclista inexperiente, a viagem poderia ser desafiante, mas a Denise parecia determinada. Cristiane Moura, a amiga que seria visitada, esperou Denise durante todo o fim de semana.
Às 18 horas de quinta-feira, quando não viu o moto chegar, ligou para casa dos Azevedo em Goiânia. A ligação deixou todos confusos. Denise tinha saído para encontrá-la, mas Cristiane não sabia de visita alguma. As duas não se falavam há mais de um ano. Na madrugada de sexta-feira, 28 de agosto, João e Marta Azevedo partiram para Aragarças em busca da filha.
Levaram uma foto recente de Denise e percorreram postos de abastecimento de combustível, hotéis e restaurantes ao longo da BR070. Ninguém se lembrava de ter visto a jovem de moto vermelha. Em Aragarças, a A polícia local registou o desaparecimento com uma certa desconfiança. O delegado António Barbosa, já reformado, admitiu anos depois.
Casos de jovens que saem de casa para as encontrar alguém, geralmente terminam em fuga por amor. Achávamos que ela voltaria em poucos dias, mas os dias se transformaram em semanas. Cartazes com o rosto de Denise foram colados em paredes, postes e estabelecimentos comerciais. A família ofereceu uma recompensa de R$ 2.
000, quantia considerável na época, por informações que levassem ao paradeiro da jovem. As primeiras pistas foram desencontradas e frustrantes. Um pescador de nome Osvaldo Ribeiro disse ter visto na tarde de quinta-feira uma rapariga de moto parada na margem do Araguaia, junto à ponte do rio Vermelho.
Ela olhava para a nágoa como se procurasse alguma coisa. “Pensei que fosse turista”, relatou. Já o O camionista Edson Lopes afirmou ter ultrapassado uma onda vermelha pilotada por uma jovem à altura do cruzamento para Bom Jardim de Goiás. cerca de 40 km para além de Aragarças. Ela seguia devagar, como quem não conhecia a estrada. Foi por volta das 19 horas, já estava escurecendo.
As versões não se encaixavam. Se a Denise chegou a Aragarças, porque seguiu viagem? Se parou no Rio? O que procurava ali? E por mais ninguém a viu? Durante setembro e Outubro de 1998, foram organizadas buscas em rios, barragens e estradas vicinais. Bombeiros vasculharam troços do Araguaia com barcos e equipamento de mergulho sem sucesso.
Voluntários percorreram quintas e povoados ribeirinhos. O cerrado engoliu qualquer rasto de Denise e a sua moto. A operação de busca mobilizou mais de 50 pessoas. Moradores ribeirinhos emprestaram canoas e conhecimento local. Pilotos particulares sobrevoaram a região em pequenos aviões. Os cães farejadores foram trazidos de Goiânia para vasculhar zonas de floresta fechada. Tudo em vão.
A frustração crescia a cada dia sem novidades. Marta desenvolveu insónias e passou a caminhar pela casa durante a madrugada, verificando o quarto da filha como se ela pudesse ter regressado silenciosamente. O João abandonou o trabalho na oficina mecânica para se dedicar integralmente às buscas, gastando as suas economias em combustível e alojamento.
Em novembro de 1998, cartas anónimas começaram a chegar à casa dos Azevedo. A primeira dizia: “A sua filha está viva, mas longe escolheu partir. Não procurem mais”. Outras sugeriam que Denise se tinha envolvido com um homem casado e fugido para o Mato Grosso ou para Brasília. Uma das cartas trazia pormenores perturbadores.
Denise já não queria a vida de antes. Ela me disse que vocês não a compreendiam, que se sentia presa. Agora ela é livre. O papel era comum, encontrado em qualquer papelaria, e a letra estava claramente disfarçada. A Marta nunca acreditou nas cartas. A minha filha contava-me tudo. Se estivesse a namorar, eu saberia.
E ela nunca partiria sem avisar, sem levar as suas coisas. O diário dela ficou aqui no quarto inacabado. A Denise escrevia todos os os dias. Por que razão deixaria? O diário, de facto, terminava abruptamente na Quarta-feira, 26 de agosto. A última entrada era simples. Amanhã vou resolver uma situação que me preocupa há algum tempo.
Preciso de falar com alguém importante. Espero que tudo corra bem. Que situação era essa? Com quem a Denise pretendia conversar? Os pais vasculharam os pertences da filha, mas não encontraram cartas, números de telefone ou qualquer pista sobre relações secretas. A polícia investigou a origem das cartas anónimas, mas sem sucesso.
A análise grafotécnica não conseguiu identificar o autor e não havia impressões digitais úteis. Algumas continu próximo da família conheceria, como o apelido carinhoso que o João usava para a filha D. Em janeiro de 1999, se meses após o desaparecimento, uma ligação telefónica trouxe esperança e desespero.
Uma mulher, com voz trémula, disse a Marta: “A tua filha está em Campo Grande, trabalhando como empregada de mesa, ela mudou o cabelo, mas é ela. Vi hoje numa snack-bar. O João e a Marta viajaram imediatamente para a capital do Mato Grosso do Sul. Percorreram dezenas de estabelecimentos comerciais. Mostraram a fotografia de Denise a centenas de pessoas.

Uma jovem empregada de mesa, de cabelos escuros e altura semelhante trabalhava numa snack-bar no centro da cidade. Por alguns segundos, o coração de Marta disparou, mas não era a Denise. Outras seguiram-se pistas falsas. A Denise foi vista em Cuiabá, Brasília, Anápolis e mesmo em São Paulo. Cada telefonema gerava uma nova viagem, uma nova esperança que se desfazia em desilusão.
O caso começou a ganhar repercussão regional. O programa Linha Direta da TV A Globo exibiu uma reportagem sobre o desaparecimento em Março de 1999. O telefone dos Azevedo não parou de tocar durante semanas, mas nenhuma informação se revelou verdadeira. Os anos que se seguiram foram de resignação forçada e a esperança cada vez mais frágil.
João Azevedo desenvolveu o hábito de percorrer estradas do interior goiano aos fins de semana, sempre atento a qualquer moto abandonada ou sinal que pudesse levar a filha. A Marta manteve o quarto de Denise intocado como um santuário onde o tempo parou em agosto de 1998. O caso tornou-se lenda urbana em Aragarças. Os moradores mais antigos sussurravam teorias que Denise tinha sido vítima de assalto na estrada, que caira no rio durante a travessia de Balsa, que fugira com algum boiadeiro apaixonado.
O rio Araguaia, com as suas águas barrentas e corrente traiçoeira, era sempre mencionado como o grande suspeito silencioso. Em 2003, 5 anos após o desaparecimento, uma alçada humana foi encontrada por pescadores numa ilha do Araguaia, junto à cidade de Luís Alves. A família Azevedo viajou imediatamente para o local, mas os exames periciais descartaram qualquer relação com a Denise.
Os ossos pertenciam a um homem de aproximadamente 40 anos, possivelmente morto há décadas. Cada falso alarme era como perdê-la de novo. Lembras-te, Marta? Hoje com 68 anos e mas nunca deixamos de acreditar que um dia saberíamos a verdade. O delegado António Barbosa aposentou-se em 2004, levando consigo a frustração de não ter solucionado o caso que mais o intrigou na carreira.
Antes de partir, organizou todos os documentos da investigação e deixou uma carta ao seu substituto. Este caso vai para além de um simples desaparecimento. Há segredos em aragarças que alguém não quer que venham à tona. Em 2010, 12 anos depois, um programa de televisão sobre desaparecidos exibiu o caso de Denise. Dezenas de telefonemas chegaram à emissora.
Pessoas que juravam tê-la visto em cidades distantes, como Cuiabá, Campo Grande e até mesmo no Pará. Todas as as pistas revelaram-se equívocos ou tentativas de ganhar a recompensa que a família ainda oferecia. João, que havia desenvolvido problemas cardíacos devido ao stress, passou a frequentar um psicólogo em Goiânia.
“Eu sonho com ela todas as noites”, confessou durante uma sessão. Às vezes, no sonho, ela está a dar-me chamando de longe, mas nunca consigo chegar até onde ela está. Aragarças tem crescido ao longo dos anos. Novos hotéis surgiram nas margens do rio, atraindo os turistas interessados na pesca desportiva e no ecoturismo.
Mas os moradores antigos ainda se lembravam da rapariga da moto vermelha, que desapareceu sem deixar rastos. Em 2015, 17 anos após o desaparecimento, Marta tomou uma decisão dolorosa. Doou as roupas da Denise para uma instituição de solidariedade. Manteve apenas algumas peças e, claro, o diário inacabado.
Ela não voltará mais, disse a João nessa noite. Mas talvez alguém possa beneficiar dessas coisas. Foi durante o inverno excecionalmente seco de 2016 que o rio Araguaia revelou o seu primeiro segredo. Julho de 2016 trouxe a pior seca em 50 anos para a região Centro-Oeste. O nível do rio Araguaia baixou drasticamente, expondo bancos de areia, troncos submersos e destroços acumulados durante décadas no leito do rio.
Marcos Vieira e o seu filho Juliano, mergulhadores locais especializados em recuperar objetos perdidos, receberam uma encomenda invulgar. Um fazendeiro de Aragarças queria que encontrassem uma embarcação que tinha afundado anos antes em frente à sua propriedade. Na tarde de 18 de julho, pai e filho desceram as águas barrentas do Araguaia, junto ao local conhecido por Pedral da Onça.
A visibilidade era fraca, mas o nível baixo facilitava o trabalho. Entre ramos e pedras acumuladas no fundo, Juliano avistou algo que não esperava, a carcaça de um motociclo. No início, pensei que fosse lixo comum. Motos velhas às vezes são atiradas ao rio, conta Marcos. Mas quando vimos o estado de conservação e a posição, percebemos que havia algo estranho.
A moto estava presa entre duas grandes pedras, a cerca de 4 m da margem, num trecho que normalmente permanecia submerso. Parte da carenagem tinha sido destruída pela corrente e pelos anos, mas o chassis estava relativamente preservado. Com o auxílio de cordas e um guincho improvisado, os mergulhadores trouxeram a moto à superfície.
A multidão de curiosos que se formava na margem incluía pescadores, ribeirinhos e alguns turistas. Ninguém imaginava que aquele achado iria mudar para sempre a história de uma família em Goiânia. A numeração do chassis estava legível. 9C2 C04 Zelvi 8 e042837. O Marcos anotou os números num papel e prometeu entregar a moto às autoridades locais.
Mas um dos pescadores presentes, Osvaldo Ribeiro, o mesmo que tinha visto Denise parada na margem em 1998, olhou para a carcaça vermelha e envelhecida e murmurou: “Parece a mota daquela rapariga que desapareceu há uns anos. A chamada para a Polícia Civil de Aragarças foi feita no mesmo dia. O delegado Bruno Carvalho, que assumiu o cargo em 2014, decidiu investigar.
A a consulta à base de dados revelou a verdade que a família Azevedo esperava há quase duas décadas. Aquela era a Honda CG15, matrícula FKL 48892, de Denise Azevedo. O telefonema para Goiânia foi dado na manhã seguinte. Marta atendeu-a e ao ouvir as palavras encontrámos a moto da sua filha. Sentiu as pernas fraquejarem.
João, que estava no quintal a regar plantas, correu para dentro de casa ao ouvir os gritos da esposa. No dia 20 de julho, o casal deslocou-se a Aragarças, acompanhado de dois peritos da polícia técnico-científica. A análise do motociclo confirmou era definitivamente o veículo da Denise. No porta-luvas, protegido por um saco plástico que resistiu aos anos submersos, estava uma chave de reserva da casa dos pais, com a etiqueta escrita à mão que a própria Denise tinha colado.
Mas uma descoberta gerou ainda mais perguntas. O estado da moto e a sua posição no rio indicavam que não havia caído acidentalmente. Ela estava posicionada perpendicularmente à corrente, presa entre pedras de forma quase propositado, como se alguém a tivesse colocado ali intencionalmente. “Uma moto que cai da margem por acidente seguiria o fluxo da água”, explicou o perito António Mascarenhas.
Esta estava claramente ancorada no fundo numa posição que sugere a intervenção humana. Mais intrigante ainda, nenhum vestígio de Denise foi encontrado no local ou nas proximidades, nem roupas, nem ossos, nem a mochila que transportava. E o Diário Azul, inseparável companheiro da jovem, nunca foi localizado.
A descoberta reacendeu o caso. Novas diligências foram abertas, as testemunhas foram novamente ouvidas e a Polícia Civil iniciou uma investigação para determinar as circunstâncias da morte de Denise, agora oficialmente considerada vítima de homicídio. Osvaldo Ribeiro, o pescador que a viu na margem do rio, foi chamado para depor.
Os seus olhos, já cansados pelos 73 anos, encheram-se de lágrimas quando confirmou. Era ela? Sim. Estava parada mesmo neste local, a olhar o rio. Parecia procurar alguém ou alguma coisa. Se eu soubesse, se tivesse perguntado se precisava de ajuda. Três meses depois, em outubro de 2016, uma nova pista surgiu de forma inesperada. Durante obras de remodelação numa casa abandonada em Aragarças, operários encontraram escondido no forro um envelope castanho contendo páginas arrancadas de um diário azul.
A caligrafia era inequivocamente de Denise. As páginas revelaram os últimos pensamentos da jovem. Ela havia descobriu que um homem casado da cidade, com quem mantivera um relacionamento às escondidas, estava sendo chantagesto por alguém que os tinha visto juntos. Denise decidira confrontar o chantagista, acreditando que poderia resolver a situação conversando.
Hoje vou encontrá-lo na beira do rio. Sei que é perigoso, mas preciso de defender o nosso segredo. Se não fizer alguma coisa, a nossa vida vai tornar-se um inferno”, dizia a última entrada do diário. O nome do homem casado e do chantagista foram preservados pela justiça, mas as investigações confirmaram o envolvimento de ambos na morte de Denise, o chantagista.
Um pequeno comerciante local tinha exigido dinheiro em troca do silêncio. Denise, ingénua aos 21 anos, acreditou que o poderia convencer a desistir. O encontro na margem do rio Araguaia terminou em tragédia. Após uma discussão, o chantagista empurrou Denise, que caiu, e bateu com a cabeça em uma pedra. Desesperado, atirou o corpo no rio e, com a ajuda do amante de Denise, colocou a moto na água para simular um acidente.
Durante 18 anos, ambos guardaram o segredo. O chantagista morreu de enfarte em 2009. O homem casado, atormentado pela culpa, confessou tudo em depoimento lacrimoso à polícia, entregando as páginas do diário que guardara como uma tortura pessoal. Não houve um dia em que não pensasse nela”, disse aos investigadores. “carreguei este peso sozinho todos estes anos.
Quando soube que tinham encontrado a moto, entendi que era altura de contar a verdade. Durante o interrogatório, descobriu-se que tinha sido o autor das cartas anónimas enviadas à família nos primeiros meses após o desaparecimento. “Queria que vocês parassem de procurar”, confessou. Achei que se acreditassem que ela tinha fugido por vontade própria, desistiriam da busca.
O homem foi condenado a 12 anos de prisão por homicídio negligente e ocultação de cadáver. Durante o julgamento, revelou que as páginas do diário de Denise assombravam-no todas as noites. Ela confiou em mim e eu a desiludi da pior forma possível. Disse nas suas últimas palavras ao tribunal. Hoje, uma pequena cruz branca marca o local onde Denise foi vista pela última vez, nas margens do rio Araguaia.
João e Marta Azevedo, já idosos, visitam o local uma vez por ano, no dia 27 de agosto. Levam flores e ficam em silêncio, ouvindo o barulho da água que finalmente revelou os seus segredos. O corpo de Denise nunca foi encontrado. As águas do Araguaia levaram-na para sempre, guardando apenas a sua motociclo, como testemunha silenciosa de um crime que permaneceu oculto por quase duas décadas.
A última entrada do diário, encontrada na casa abandonada terminava com uma frase que se tornou epitáfio: “Amanhã tudo se vai resolver. Tenho fé que a verdade sempre encontra um caminho. A verdade encontrou, mas custou 18 anos a emergir das águas barrentas do rio, que durante tanto tempo foi cúmplice do silêncio.
E hoje, quando o vento sopra forte sobre as águas do Araguaia, os Os moradores mais antigos dizem que ainda é possível ouvir o eco longínquo de uma moto que nunca completou a sua jornada. M.