Casal desapareceu no dia dos namorados de 1994 em Goiás corpos surgiram anos depois dentro do poço
12 de junho de 1994, Pirenópolis, Goiás. Enquanto a cidade festejava o dia dos namorados, o jovem casal Márcio Quintana, de 24 anos, e Denise Castro, de 22 anos, foi visto pela última vez caminhando de mãos dadas em direção a uma quinta nos arredores. Na manhã seguinte, o carro deles apareceu estacionado na estrada de terra batida, mas nenhum dos dois foi encontrado.
O cheiro de pequi e mandioca assada ainda pairava no ar da praça central quando Lívia Amaral viu os amigos pela última vez. Eram cerca das 9 da noite e as ruas de pedra brilhavam sob a luz amarelada dos candeeiros coloniais. O Márcio usava uma camisa xadrez azul que Denise tinha dado de presente no seu aniversário três meses antes.
Ela estava radiante no seu vestido florido, o cabelo castanho solto abanando enquanto ria de alguma piada que só os dois entendiam. “Vamos dar uma volta na quinta do tio Osvaldo”, disse Márcio para Lívia, apontando para que estrada de terra batida que cortava os campos de arroz para além da igreja do Rosário. “A lua está linda hoje”.
E a Denise nunca viu as estrelas lá de cima. A quinta encontrava-se a cerca de 5 km do centro, uma propriedade simples com casa de tijolo aparentes e um terreno que se estendia até uma pequena colina coberta de serrado. Tio Osvaldo, irmão mais velho do pai do Márcio, tinha construído o lugar nos anos 70 como refúgio de fim de semana.
Poucas pessoas conheciam os caminhos que lá conduziam. Apenas a família e alguns amigos mais próximos. Márcio conduzia um Carocha Branco, de 1987, herança do avô, que todos na cidade reconheciam pelo barulho característico do motor e pela pequena mossa no pára-choques traseiro. O casal costumava usar o carro para passear pelas quintas vizinhas aos fins de semana, sempre regressando antes da meia-noite para não preocupar as famílias.
Naquela noite, entretanto, algo mudou. Dona Olga Castro, mãe da Denise, esperou acordada até às 2as da madrugada. Preparou café três vezes, caminhou até à janela da sala dezenas de vezes e chegou a ligar para casa dos Quintana por duas vezes. Do outro lado da cidade, Sebastião Quintana, pai de O Márcio, também não conseguia dormir.
Conhecia o filho, pontual, responsável, jamais desapareceria sem avisar. Quando o sol nasceu sobre os montes de Pirenópolis na manhã do dia 13 de junho, o O Carocha Branco estava estacionado no berma da estrada de Terra, a exatamente 2,3 km da entrada da quinta do tio Osvaldo. As portas estavam fechadas, as chaves tinham desaparecido e não havia sinais de luta ou violência.
Dentro do carro, a mala de Denise estava intacta, com dinheiro e documentos. No banco traseiro, uma manta aos quadrados estava dobrada com cuidado, a mesma que eles levavam sempre para se sentar no campo e observar as estrelas. Mas o Márcio e Denise tinham desaparecido como se nunca tivessem existido. A notícia do desaparecimento alastrou por Pirenópolis, como o vento seco do cerrado.
Numa cidade onde todos se conheciam desde criança, onde os segredos duravam apenas o tempo de uma conversa na padaria, a ausência de Márcio e Denise criou um vazio que ninguém conseguia explicar. Sebastião Quintana era respeitado na cidade. Trabalhava há 15 anos como gerente da cooperativa de arroz e conhecia cada lavrador da região.
Na segunda-feira seguinte, ao desaparecimento, ele organizou a primeira pesquisa. 30 homens a cavalo percorreram cada trilho, cada grota, cada ribeiro num raio de 10 km. Encontraram rastos de boi, fezes de capivara, ninhos de bente via abandonados, mas nenhum sinal dos jovens. A Dona Olga Castro já não saía de casa, sentava-se na cadeira de baloiço da varanda, bordando toalhas que nunca termina, esperando ver a filha dobrar a esquina com aquele sorriso rasgado que iluminava qualquer ambiente.
Vizinhas traziam sopa de mandioca e biscoito de polvilho. Sentavam-se ao seu lado em silêncio, porque não havia palavras para aquela dor. Fugiram juntos, sussurravam alguns na feira franca de sábado. devem estar em Goiânia ou até mesmo em São Paulo. Jovem apaixonado faz dessas coisas. Mas quem conhecia o Márcio e a Denise sabia que isso era impossível.
Tinha acabado de ser promovido no banco onde trabalhava e falava em comprar um terreno para construir uma casa. Ela frequentava o último ano de magistério na escola estatal e sonhava em dar aulas a crianças. Era um casal com os pés assentes na terra. Planeavam o futuro juntos na cidade onde nasceram. A A polícia de Anápolis enviou dois investigadores.
Passaram três dias em Pirenópolis. Ouviram os mesmos depoimentos, fotografaram o Carocha abandonado, mediram a distância entre o carro e a quinta. No relatório final, constava apenas: desaparecimento voluntário não pode ser descartado, caso arquivado provisoriamente devido à ausência de indícios de crime. Tio Osvaldo permitiu que revirassem cada canto da sua quinta.
Os investigadores encontraram pegadas recentes junto à casa. Algumas coincidiam com o tamanho dos sapatos do Márcio, mas os trilhos se perdiam no terreno pedregoso que levava ao serrado. Havia um poço antigo nos fundos da propriedade, tapado com pedras pesadas desde os anos 80, mas ninguém se deu ao trabalho de as mover. “Se tivessem caído lá para dentro, ouviríamos os gritos”, disse um dos polícias.
À medida que os meses foram passando, a vida tentou voltar ao normal. O Carocha foi retirado da estrada e guardado na garagem da família Quintana. As buscas diminuíram, depois cessaram completamente. Sebastião continuou saindo aos fins de semana para procurar o filho, mas agora caminhava sozinho, carregando às costas o peso de um mistério que lhe consumia as forças.
A cidade desenvolveu uma espécie de amnésia coletiva. O nome do casal era mencionado cada vez menos. Novos casos ocuparam as conversas. A seca que atingiu as plantações, o regedor que desviou verba da merenda escolar, a construção da nova igreja no bairro de São Vicente. Márcio e Denise tornaram-se apenas uma recordação dolorosa que Pirenópolis preferia esquecer.
Sete anos passaram quando Vanderlei dos Santos, pedreiro aposentado de Brazaville, aceitou o trabalho de reformar a velha quinta do tio Osvaldo. Era março de 2001 e o calor do serrado castigava qualquer pessoa que trabalhasse sob o sol depois das 10 da manhã. Osvaldo havia vendeu a propriedade a um empresário de Goiânia, que queria transformar o local em pousada rural.
O novo dono queria ampliar a casa, construir mais quartos e, principalmente, criar uma zona de lazer nas traseiras, onde ficava o terreno baldio coberto de mato. “Bem um poço velho ali”, disse Osvaldo para Vanderley, apontando para uma elevação de pedras cobertas por tufos de erva-gorda. Está tapado há mais de 20 anos.
É melhor aterrar aquilo antes de iniciar a obra. Vanderlei trabalhou sozinho na manhã de 15 de março. O céu estava limpo, sem uma nuvem, e o silêncio do cerrado era quebrado apenas pelo canto dos bentis e pelo zumbido das cigarras. Ele começou a retirar as grandes pedras que cobriam a boca do poço, blocos de arenito que exigiam força e alavanca para serem movidos.
A primeira pedra saiu com facilidade, a segunda resistiu, mas cedeu passados alguns minutos. Quando Vanderley retirou a terceira, um cheiro estranho subiu do buraco. Não era exatamente putrefacção, mas algo doce e terroso, misturado com bolor e humidade. Baixou-se, aproximou o rosto da abertura e utilizou a lanterna para iluminar o fundo do poço.
A luz amarelada desceu cerca de 4 m e embateu contra algo que não deveria estar ali. Ossos? Não eram ossos de animal. Vanderlei conhecia esqueletos de boi, porco, galinha. Tinha crescido no campo, sabia a diferença. Aqueles ossos tinham forma humana, estavam entrelaçados, como se duas pessoas tivessem sido ali colocadas juntas. E havia mais coisas.
Um pedaço de tecido azul, desbotado, mas ainda recognizível, parecia o mesmo tipo de xadrez das camisas que os homens usavam nos anos 90. fragmentos de couro que podiam ter sido de uma bolsa e a brilhar como uma pequena estrela no fundo do poço, um anel dourado com uma pequena pedra vermelha.
Vanderlei subiu a correr à monte, saltou a vedação, atravessou a plantação de milho do vizinho e chegou ofegante na cidade. Parou o primeiro carro que viu, uma combi branca, e gritou para o motorista: “Há pessoas morta no poço da quinta do Osvaldo. Tem esqueleto lá em baixo. A notícia chegou à esquadra em menos de uma hora. Chegou também aos ouvidos de Sebastião Quintana, que naquele momento estava a almoçar na casa da irmã.
Ele largou o prato de arroz com pequi e correu para a quinta, seguido de meia cidade. Quando os bombeiros de Anápolis chegaram com equipamento adequado para descer no poço, encontraram exatamente o que Vanderley tinha visto, dois esqueletos humanos, alguns fragmentos de roupa preservados pela humidade e objetos pessoais que pareciam ter sido enterrados juntamente com os corpos.

O anel dourado tinha uma inscrição gravada na parte interior para D. Com amor, M. A Denise usava sempre aquele anel. Era um presente que Márcio tinha dado no primeiro dia dos namorados, dois anos antes do desaparecimento. O laudo da perícia chegou em Junho de 2001, três meses após a descoberta no poço. Os esqueletos eram de um homem e de uma mulher jovens, com idades compatíveis com as dos Márcio e Denise quando desapareceram.
Não havia sinais de violência nos ossos, mas a análise dos fragmentos de roupa e objetos pessoais confirmava. Eram eles. A notícia reabriu feridas que Pirenópolis tentara cicatrizar. Sebastião Quintana, agora com cabelo completamente brancos, teve finalmente resposta para 7 anos de angústia. Dona Olga Castro, que passara todo aquele tempo aguardando na varanda, chorou pela primeira vez desde o desaparecimento da filha.
Lágrimas de alívio misturadas com uma tristeza infinita. Mas a descoberta dos corpos trouxe uma questão ainda mais perturbadora. O que tinha acontecido naquela noite de junho de 1994, a investigação foi reaberta. O delegado Romário Figueiredo, transferido recentemente de Goiânia, decidiu rever cada detalhe do caso original. Conversou novamente com familiares, amigos, vizinhos, revisitou a quinta, examinou o poço, estudou a topografia do terreno.
Foi então que surgiu o nome de Evaristo Pinto. Evaristo era caseiro de uma quinta vizinha, a quinta do tio Osvaldo. Em 1994, tinha 31 anos e vivia sozinho numa casa simples a menos de 1 km do poço. Era conhecido na região como homem calado, trabalhador, mas com fama de meio estranho.
Nunca se casou, não gostava de festas, evitava o contacto com os vizinhos. Lívia Amaral, a amiga que viu o casal pela última vez, mencionou um pormenor que não constava dos depoimentos originais. Na noite do desaparecimento, quando regressava a casa depois da festa na praça, ela passou pela estrada que levava as quintas e viu uma luz estranha a piscar nos fundos da quinta do Osvaldo.
“Parecia lanterna”, disse ela. “As pensei que fosse o próprio Márcio e a Denise. Evaristo foi localizado em Goiânia, onde trabalhava como vigilante noturno desde 1998, quando os investigadores lhe bateram à porta numa manhã de Setembro de 2001. Ele nem se surpreendeu. Eu sabia que um dia iam vir, disse, convidando-os para entrar.
Durante 4ro horas de interrogatório, Evaristo mudou de versão três vezes. Primeiro, disse que não sabia de nada. Depois admitiu que havia visto o casal na quinta nessa noite, mas que já estavam mortos quando chegou. Por fim, pressionado pelas contradições do seu próprio depoimento, revelou a verdade. “Eu não queria matar ninguém”, disse com a voz trémula.
Eles namoravam perto do poço, fazendo barulho, rindo alto. Eu só queria que saíssem de lá. Cheguei perto, pedi para irem embora. O rapaz levantou-se, começou a gritar comigo, disse que eu não tinha nada com aquilo. Segundo Evaristo, houve uma discussão. Márcio o empurrou. Ele ripostou, mais forte do que pretendia.
O jovem caiu para trás, bateu a cabeça numa pedra afiada e deixou de se mexer. A Denise começou a gritar. ameaçou chamar a polícia. Ela ia denunciar-me por uma coisa que nem foi culpa minha”, disse Evaristo. “Entrei em pânico. Empurrou Denise, que também caiu, e bateu com a cabeça. Quando se apercebeu, os dois estavam imóveis no chão.
Não sabia que fazer. Arrastei os corpos para dentro do poço, atirei as pedras por cima, tirei-lhes as chaves do carro e Deixei na estrada, longe dali, para ninguém suspeitar que tinham chegado até à quinta. A confissão de Evaristo encerrou oficialmente o caso, mas deixou em Pirenópolis uma sensação de vazio maior do que o mistério original.
7 anos de buscas, orações e a esperança e o desespero terminaram numa história simples e brutal. Dois jovens apaixonados mortos por um homem solitário que não suportou ver a felicidade alheia. Evaristo foi condenado a 20 anos de prisão por duplo homicídio negligente. Cumpriu 12 anos e foi libertado por bom comportamento em 2013. Nunca mais voltou à região de Pirenópolis.
O Márcio e a Denise foram enterrados juntos no cemitério da cidade numa cerimónia que reuniu centenas de pessoas. Na lápida, uma inscrição simples. O amor verdadeiro não conhece fim. A quinta foi vendida novamente. O novo proprietário aterrou o poço e construiu uma horta no local. Dizem que as verduras crescem especialmente bonitas naquele cantinho, como se a terra guardasse alguma boa memória de quem ali descansou durante tanto tempo.
Mas nas noites de junho, quando o vento sopra mais forte e as estrelas brilham com intensidade sobre Pirenópolis, os mais antigos da cidade jurinda conseguem ouvir, trazido pela brisa do cerrado, o eco longínquo de uma gargalhada jovem, como se algures para além do tempo, Márcio e Denise ainda caminhassem de mãos dadas, namorando sob a luz da lua cheia.
15 anos depois da descoberta dos corpos em 2016, Vanderlei dos Santos encontrou algo que mudaria para sempre a sua perceção sobre aquela manhã de março, quando descobriu o poço. Ele havia guardado durante todos estes anos, uma pequena caixa de metal que encontrara no fundo do buraco juntamente com os esqueletos, um objeto que, na confusão da investigação, acabou esquecido pelos peritos.
Era uma latinha antiga de rebuçados miúdo, enferrujada e amolgada, que parecia não ter qualquer importância. Numa tarde chuvosa, enquanto organizava os seus pertences para uma mudança, Vanderley decidiu finalmente abrir a caixa. No interior, protegidas por um saco de plástico que resistiu milagrosamente à humidade. Estavam duas cartas manuscritas.
A primeira era de Denise para Márcio. Meu amor, se estás a ler isto, é porque a nossa ideia resultou. Sei que os nossos os pais vão ficar desesperados no início, mas quando voltarmos casados de Brasília, eles vão entender que era isso que queríamos. És tudo para mim e não aguento mais esconder o nosso amor dos outros. Amo-te para sempre. D.
A segunda era de Márcio para Denise. Denise, a minha princesa, quando amanhecer em Brasília, vamos ser marido e mulher. Deixei dinheiro suficiente escondido na quinta do tio Osvaldo para a viagem. Ninguém vai encontrar-nos lá. E na segunda-feira apanhámos o primeiro autocarro. Os seus pais e o meu pai vão perdoar-nos quando virem como somos felizes juntos.
Para sempre, seu M. As cartas revelavam uma verdade perturbadora. O Márcio e a Denise haviam planeou uma fuga romântica. Eles não foram à quinta apenas para namorar. Foram buscar dinheiro escondido e passar a última noite em Pirenópolis antes de fugir para casar. Vanderley ficou em choque. Durante 22 anos. Todos acreditaram na versão de Evaristo, que tinha matado o casal por acaso numa discussão que fugiu ao controlo.
Mas as cartas sugeriam algo diferente. Ele procurou o comissário Romário Figueiredo, já reformado, e mostrou a descoberta. Juntos analisaram os autos do processo. Foi então que notaram incoerências que tinham passado despercebidas. Evaristo disse que faziam barulho, rindo alto, mas as cartas mostravam que estavam numa missão secreta, tentando não chamar a atenção.
O caseiro afirmou que o Márcio o empurrou primeiro, mas O Márcio era franzino, pesava 15 kg a menos que Evaristo. Mais importante, Evaristo sabia exatamente onde estava o dinheiro escondido na quinta, informação que só o casal conhecia. Romário reabriu discretamente a investigação. Descobriu que em 1994, Evaristo passava por graves dificuldades financeiras.
A sua mãe estava internada em Goiânia com cancro e devia três meses de renda da casa onde vivia. A nova teoria chocante. Evaristo não matou por acaso. Ele sabia do dinheiro escondido e da fuga planeada pelo casal. Mas como é que ele sabia? A resposta veio através de Benedita Santos, prima de Evaristo, que vivia em Pirenópolis. Ela revelou que o caseiro tinha o hábito de dar umas voltas pelas propriedades vizinhas durante as madrugadas, oficialmente para verificar se estava tudo seguro, mas na verdade para bisbilhotar. Ele ouvia conversas através
das janelas, mexia em gavetas quando as pessoas saíam”, contou Benedita. “O meu mãe dizia sempre que o Evaristo sabia de coisas que não devia saber. Confrontado com a evidência em 2017, aos 54 anos, Evaristo admitiu finalmente a verdade completa. Ele tinha escutado semanas antes uma conversa entre o Márcio e o tio Osvaldo sobre o esconderijo do dinheiro na quinta.
Na noite de 12 de junho, foi até lá para roubar o dinheiro, mas encontrou o casal no local. Eles me reconheceram”, disse Evaristo, “Desta vez, sem fingir remorso. Se me deixassem ir embora, iam contar a toda a gente que eu estava a roubar. Não podia deixar que isso aconteça. Ele matou os dois deliberadamente, roubou o dinheiro e inventou a história da discussão que fugiu ao controlo para conseguir uma condenação mais leve.
O caso foi reclassificado para duplo homicídio qualificado. Evaristo, que já tinha cumprido a sua pena anterior, foi condenado a mais 25 anos de prisão. Desta vez, não há possibilidade de sair mais cedo. As cartas foram entregues às famílias numa cerimónia emocionante. Sebastião Quintana, já com 81 anos, segurou com mãos trémulas a última mensagem do filho.
Dona Olga Castro, internada num lar desde 2010, ouviu a leitura da carta da filha e sorriu pela primeira vez em décadas. Pelo menos sabemos agora, disse Sebastião, que eles morreram a tentar construir um futuro juntos. Morreram por amor. A descoberta das cartas trouxe uma estranha sensação de completude para Pirenópolis. O mistério que perseguia a cidade por mais de duas décadas tinha finalmente todas as as suas peças no lugar.
Márcio e Denise não foram vítimas do acaso, foram vítimas da ganância de um homem que preferiu destruir dois sonhos jovens a enfrentar as suas próprias dificuldades. Hoje, no local onde estava o poço, cresce um pé de peque plantado pelos familiares. Todos os anos, no dia dos namorados, aparecem flores frescas debaixo da árvore.
Ninguém sabe quem as leva, mas os habitantes da cidade preferem acreditar que o verdadeiro amor ainda encontra uma forma de florescer, mesmo depois de tanto tempo enterrado.