Balsa Com 31 Passageiros Sumiu No Rio Araguaia Em 1998 — Mergulhadores Filmaram Algo Que Parou Tudo
No dia 11 de julho de 1998, um sábado de inverno seco no coração do Brasil, uma balsa saiu do porto de Luciara às 7:45 da manhã, com 31 passageiros a bordo. O rio Araguaia estava calmo naquele horário. Luz que entrava pelo lado nascente batia na superfície escura da água e fazia o rio parecer quieto, quase inofensivo.
O motoriro era Dorival Machado Barros, 62 anos, pele curtida de sol e rio, homem de poucas palavras e muitos anos de barco. Em Luciara, todo mundo o conhecia como seu Durval. Ele havia feito aquela travessia mais de 300 vezes. Conhecia cada metro daquele trecho do Araguaia. Sabia onde o fundo aprofundava, sabia onde a areia florava, sabia quando o rio estava mal humorado e quando estava dormindo.
Naquela manhã de sábado, o rio estava dormindo. A travessia de Luciara para a outra margem durava em torno de 40 minutos. era menos de 1 quilômetro em linha reta. A balsa chamada São Benedito era uma embarcação de madeira reforçada com estrutura de ferro, motora a diesel, capaz de transportar até 40 passageiros e veículos de pequeno porte.
Era a mesma balsa que atendia aquela rota havia mais de uma década. Seu Durval conhecia cada ruído que ela fazia. 31 passageiros embarcaram naquele sábado. Havia famílias com sacolas pesadas do mercado de Luciara. Havia trabalhadores rurais com a mão calejada que cochilavam antes de a balsa sair do porto. Havia crianças que ainda não tinham acordado direito, encostadas nos pais.
Uma delas tinha 6 anos e se chamava Tomás. A mãe Risonei de Carvalho Pires carregava o menino no colo mesmo com a barriga de se meses de gravidez. Ao lado dela, o marido Evaldo Pires da Silva, com uma caixa de ferramentas entre os pés e um sorriso que, segundo a irmã dele, era a coisa que mais fez falta depois que ele sumiu.
Havia também uma jovem de 23 anos chamada Cleonice Ferreira Dias. Ela carregava uma mochila pequena com roupas dobradas direitinho e um envelope com o salário dos últimos três meses de trabalho como empregada doméstica no interior do Mato Grosso. Estava voltando para São Félix do Araguaia, onde morava a mãe. Dois dias antes, tinha ligado de um orelhão de uma cidade vizinha para avisar que estava chegando.
Mãe, dona Neusa Ferreira, disse que ia fazer arroz com frango e pirão, que a filha gostava. Preparou a mesa, ficou esperando. Às 8:35 da manhã, a balsa São Benedito ainda não havia chegado no outro lado. A mulher, que esperava no porto da margem oposta, foi até o bar à beira d’água e pediu uma água com açúcar. Disse que estava nervosa, que o marido estava naquela balsa. Ela esperou.
O marido não chegou, a balsa não chegou, o Araguaia não disse nada. Nas horas seguintes, o que deveria ter sido um atraso se transformou em ausência. E a ausência naquele Brasil sem celular e sem internet no interior do Mato Grosso, demorou tempo demais para ter um nome. A delegacia de Plantão em Luciara recebeu o primeiro boletim de ocorrência às 18:40 daquele sábado. Já estava escurecendo.
O Araguaia naquele trecho, some rápido quando o sol vai embora. A paisagem que de dia é vermelha e dourada se torna à noite escuridão e barulho de bicho. A delegada titular estava em Barra do Garças, a 340 km por estrada de terra. Ela só soube do desaparecimento na manhã do dia seguinte.
Nesse intervalo, nenhuma busca foi organizada. Nenhum barco entrou no rio. As famílias que esperavam na margem passaram a noite sentadas no porto, olhando para a água escura como se o rio fosse responder. 31 nomes. 31 mundos que pararam naquele sábado de julho de 1998. E o rio Araguaia, que tem mais de 2000 km de extensão e que já guardou muita coisa, não devolveu nada naquela noite.
26 anos depois, em abril de 2024, uma equipe de mergulhadores voluntários desceu a 14 m de profundidade naquele mesmo trecho do Araguaia. A câmera subaquática que eles carregavam filmou a balsa São Benedito no fundo do rio. Ela estava intacta e o que a câmera mostrou a seguir fez o Ministério Público do Mato Grosso emitir uma portaria de suspensão das buscas em menos de 72 horas.
O que eles encontraram dentro daquela balsa não era o que ninguém esperava ver. A balsa não naufragou em tempestade. O dia estava limpo. O inverno seco do Centro-Oeste é assim: céu sem nuvem, sol forte, ar que resseca a garganta. Quem estava na beira do rio naquela manhã disse que a água estava tranquila, quase parada. O motor estava funcionando quando a balsa saiu do porto.
A carga estava dentro do limite de capacidade. O motoriro era experiente, o trajeto era de menos de 1 km e o trecho do Araguaia entre Luciara e a margem oposta era o mesmo que seu Durval havia navegado por quase duas décadas, em condições melhores e piores do que aquela manhã. E ainda assim 31 pessoas desapareceram num intervalo de 40 minutos em pleno dia, com visibilidade total num rio que o motoriro conhecia de cor.
O Corpo de Bombeiros Militar do Mato Grosso chegou ao local apenas no terceiro dia, dois dias inteiros depois do desaparecimento. No Araguaia, dois dias é tempo suficiente para uma corrente levar fragmentos a mais de 100 km. É tempo suficiente para que qualquer coisa que boiava já tenha afundado e para que a possibilidade de entender o que aconteceu fique cada vez mais distante.
Nos primeiros dias de busca, o que o rio devolveu foram fragmentos. Um colete salva vidas inflado e nunca usado, com o nome de Dorival bordado em vermelho. Uma sandália de criança cor- de rosa presa nas raízes de um buriti. Pedaços de madeira que podiam ou não ser da balsa. A balsa em si o rio não devolveu.
Os passageiros também não. Por que o único colete encontrado era o do único profissional a bordo que sabia exatamente quando usá-lo? O que aconteceu no único trecho do Araguaia, onde não havia testemunha naquela manhã? E o que os mergulhadores de 2024 encontraram no interior da balsa afundada, que fez o Corpo de Bombeiros suspender a operação antes de o mergulho terminar.
Você chegou até aqui porque percebeu que essa história tem mais camadas do que parece ter e o que vem a seguir vai mostrar porquê. Luciar é um município do Mato Grosso que existe às margens do Araguaia, como se o rio houvesse decidido um dia que ali havia de ter gente. Em 1998 tinha pouco mais de 2.000 habitantes.
tinha uma praça com um banco de cimento, uma escola, uma farmácia, duas igrejas e um porto de balças, que era na prática a única ligação diária entre aquela comunidade e o lado goiano do rio. O porto funcionava todos os dias da semana. As travessias começavam ao nascer do sol e iam até o anoitecer. Não havia horário fixo de saída.
Havia demanda, havia o juízo de seu Durval sobre quando a balsa estava completa o suficiente para valer a viagem e havia o rio que às vezes cooperava e às vezes não. Naquele sábado de julho havia bastante gente esperando no porto desde cedo. Era dia de feira em São Félix do Araguaia e muita gente do lado goiano atravessava para o Mato Grosso para fazer compras e voltar no mesmo dia.
A balsa São Benedito era o único caminho. Uma testemunha que estava no porto naquela manhã e que não embarcou porque chegou tarde demais, descreveu o embarque depois. Estava tudo como sempre. Seu Durval verificou os amarres, checou o motor, olhou o rio, cuspiu no chão como fazia antes de toda a viagem. Não disse nada fora do comum, não pareceu preocupado com nada.
A balsa partiu em direção à outra margem. O sol já estava alto, aquele sol de julho do Centro-Oeste que bate de frente e faz o rio parecer ainda mais largo do que é. A superfície do Araguaia refletia uma claridade quase branca. Era um dia comum em tudo que se pudesse observar. Entre os passageiros havia perfis muito diferentes.
Havia seu Floriano Gomes e dona Elsa Gomes, um casal de idosos de 74 e 71 anos, que ia visitar a filha recém-casada na outra margem. Era a primeira viagem longa que faziam em anos. A filha Cristiane havia mandado recado dizendo que preparara um almoço especial. Eles saíram de Luciara animados naquela manhã. Havia Sebastião Ribeiro Lemos, 27 anos, trabalhador rural, que voltava para a fazenda, onde trabalhava depois de um final de semana visitando a irmã.
havia o seu Florêncio Alcântara, 72 anos, que atravessava sozinho para buscar na farmácia do outro lado os remédios do mês que a farmácia de Luciara não tinha em estoque. E havia naquela balsa um passageiro que ninguém identificou com certeza. Um homem de aproximadamente 40 anos, camisa xadrez vermelha, chapéu de palha, sem bagagem visível. Ninguém o conhecia pelo nome.
Ninguém sabia de onde havia vindo. Havia embarcado como todos os outros, havia pago a passagem como todos os outros e havia sumido como todos os outros. Esse homem sem nome voltaria a ser mencionado 26 anos depois, no interior de uma câmera subaquática, no fundo do Araguaia. A balsa São Benedito saiu do porto de Luciara naquela manhã.
Os que ficaram na margem olharam até ela sumir na distância do rio. Nenhum deles imaginou que aquele seria o último registro visual da embarcação. As famílias que esperavam no porto da margem oposta foram se acumulando ao longo da manhã. Primeiro eram três, quatro pessoas. Quando meio-dia passou, já eram mais de 20, cada uma esperando alguém que havia embarcado na balsa São Benedito naquela manhã de sábado.
Não havia celular no interior do Mato Grosso em 1998. Havia telefone público na mercearia mais próxima ao porto, mas a linha era ruim e o sinal chegava cortado. Havia rádio de faixa em algumas fazendas da região. Não havia como se comunicar de forma rápida com o porto de Luciara do outro lado. O que se apurou naquelas primeiras horas foi o seguinte: A balsa havia saído no horário normal.
Seu durval estava no comando. Tudo certo na saída. A mulher de um dos passageiros, dona Jovelina Reis, foi a primeira a usar a palavra desaparecida. Disse em voz alta que a balsa estava desaparecida. As outras pessoas mandaram ela se acalmar. Disseram que estava exagerando, que devia ser problema no motor, que o seu durval ia resolver, que aparecia logo.
Você conseguiria ficar quieta nessa situação, sabendo que o seu familiar estava naquele rio havia mais de 4 horas sem dar sinal de vida. Dona Jovelina não ficou quieta, insistiu no telefone público até conseguir uma ligação e transmitiu o alerta para um conhecido em Luciara. A informação chegou à delegacia de plantão no fim da tarde. Era sábado.
A delegada titular não estava. O escrivão de plantão anotou os nomes dos 30 e um passageiros que as famílias conseguiram recordar e disse que ia verificar o que era possível fazer. As primeiras horas de ausência foram tratadas como atraso. As seguintes como incidente: “Só quando o sol se pôs e o rio ficou escuro, é que a palavra acidente ganhou espaço nas conversas”.
Mas mesmo assim, muitos ainda esperavam que a balsa aparecesse logo ali avariada, mas com todos a bordo. Esse otimismo durou até a noite do primeiro dia. Depois foi embora. As famílias que ficaram no porto naquela noite dormiam mal, de cadeira, enroladas em cobertores que alguém buscou de casa. O araguaia à noite tem um cheiro que mistura barro vermelho, peixe e mato fechado.
Tem o som das águas batendo nas pedras escondidas. Tem o grito do curiango que ecoa de uma margem a outra no escuro. Naquela noite, nenhum desses sons era reconfortante. Eram sons de um rio que guardava alguma coisa. A delegada Sônia Barreto Meirelles, titular da delegacia de Barra do Garças, soube do desaparecimento na manhã do domingo.
Partiu imediatamente, 340 km por estrada de Terra Vermelha, com buracos e trechos sem asfalto. Chegou a Luciara no fim da tarde do domingo com poeira na roupa e uma lista de perguntas que não tinham resposta ainda. Ela instalou um posto de comando na escola pública de Luciara. pediu às famílias que trouxessem fotos, documentos, qualquer informação sobre cada passageiro.
Muitas famílias não tinham os documentos na mão. Alguns não sabiam nem o número do RG do familiar que havia embarcado. Os dados foram anotados à mão num caderno de escola por um escrivão com um lápis porque a caneta havia secado. Esse foi o primeiro obstáculo e não seria o último. Amanhã de domingo, 12 de julho de 1998, chegou com um calor pesado.
O inverno seco do Mato Grosso tem disso. Frio durante a noite, sol forte quando o sol sobe. O rio Araguaia estava com o nível baixo, a época das secas que deixa as praias de areia branca amostra nas curvas do rio e faz o fundo parecer mais próximo do que é. Mais próximo, não visível o suficiente. O Araguaia tem trechos com profundidade de até 20 m.
Tem correntes internas que correm em direção diferente da superfície e que podem arrastar uma embarcação sem que nada apareça na água de cima. Tem bancos de areia que se deslocam e que podem cobrir qualquer objeto em questão de dias. Qualquer pescador da região sabe disso. Qualquer barqueiro que trabalha naquele trecho conhece os lugares onde o rio é traiçoeiro, mesmo quando parece quieto.
Os pescadores locais foram os primeiros a entrar na água naquela manhã de domingo, sem equipamento de mergulho, sem aparato técnico, com o conhecimento que tinham do rio e com a urgência de quem sabe que o tempo trabalha contra. Varejaram as margens com remos longos e varas de madeira.
Gritaram nomes no meio do rio. Ouviram o eco voltar. O Araguaia não respondeu de outra forma. O Corpo de Bombeiros Militar do Mato Grosso com sede em Barra do Garças para atender aquela região, chegou apenas na manhã da segunda-feira, 13 de julho, dois dias depois do desaparecimento. A distância e as condições da estrada de terra explicavam o atraso, mas o atraso tinha um custo que nenhuma justificativa eliminava.
48 horas em que o rio havia trabalhado sozinho, sem registro, sem intervenção de qualquer tipo. Os seis mergulhadores do Corpo de Bombeiros começaram as buscas com dois barcos de apoio e equipamento de mergulho convencional. O fundo do rio naquele trecho era de areia fina e lama escura, o que reduzia a visibilidade subaquática a quase zero mesmo em dias de sol forte.
Cada mergulho durava entre 15 e 20 minutos. Varreram o trecho central do rio primeiro, depois ampliaram para as margens, depois seguiram rio abaixo na direção provável da corrente de superfície. As famílias acompanhavam de longe, sentadas debaixo das figueiras e dos burites na margem. Uma senhora de lenço na cabeça ficou três dias seguidos de pé, olhando para o rio sem sentar.
Era dona Neusa Ferreira, 52 anos. havia chegado de São Félix do Araguaia de ônibus na madrugada do domingo, assim que a notícia chegou até ela por telefone. Dormiu numa cadeira de plástico na escola que servia de posto de comando. Na segunda-feira cedo foi direto para a margem e ficou lá. O que mais uma mãe pode fazer? Em dois dias de mergulho formal, os bombeiros encontraram um caixote de madeira de origem incerta, uma âncora enferrujada que provavelmente estava no fundo antes de 1998 e um sapato de couro masculino de número
- A balsa o rio não entregou, os corpos também não. E uma explicação que resistisse a mais de uma pergunta também não. As buscas das duas primeiras semanas cobriram um trecho de 12 km ao longo do Araguaia. 12 km de rio com profundidade variável, fundo de areia movediça e margens cheias de vegetação densa, burites, figueiras de rio e imbalbas, onde qualquer coisa carregada pela corrente pode ficar presa por meses antes de alguém passar e perceber.
As buscas foram feitas com o que havia, com o que o Estado tinha disponível para mandar ao município de 2.000 habitantes no interior do Mato Grosso em 1998, numa segunda-feira, e o que havia não era suficiente. No terceiro dia de busca, o corpo de bombeiros encontrou algo que mudou o foco da investigação. 3 km do ponto de saída da balça, preso nas raízes de um buriti, na margem esquerda do Araguaia, estava um colete salvavidas de cor laranja, bem inflado, fechos intactos, com uma inscrição em letras pretas que dizia São Benedito, e abaixo, em letra menor, de Machado. Era

o colete de seu Dururval, o colete do motoreiro nunca usado. um profissional com 18 anos de experiência em Rio, que havia navegado aia em condições difíceis dezenas de vezes, que sabia melhor do que qualquer passageiro quando uma embarcação está em perigo. Esse homem nunca havia colocado o próprio colete salvavidas.
A delegada Sônia Barreto Meirelles anotou esse detalhe com cuidado no relatório. Era uma dessas informações que podem significar várias coisas e nenhuma delas fecha completo. Naquele mesmo dia, em trecho diferente da margem, alguém encontrou uma sandália de criança, pequena, de borracha, cor- de-osa, com um laço quase desatado.
Podia ser do menino Tomás, de 6 anos, podia ser de outra criança entre os passageiros. Sem exame formal, não havia como confirmar. Nos dias seguintes, o rio foi devolvendo outros fragmentos, dois pedaços de madeira reforçada com parafusos de ferro, possivelmente da estrutura da balsa. Uma mochila de lona verde com roupas femininas encharcadas.
Uma caixa de ferramentas vazia com o fundo amassado e numa praia de areia branca a 5 km do ponto de partida, dentro de um envelope de plástico ainda fechado, uma carteira de identidade. Era a identidade de Cleonice Ferreira Dias. A foto mostrava uma jovem de cabelo preto, cortado reto, sorriso contido, olho escuro.
A identidade estava intacta. O plástico havia protegido o documento da água durante os dias que ele esteve no rio. Levaram a notícia para dona Neusa. Ela pediu para ver. Quando colocaram a carteira nas mãos dela, ela ficou olhando para a foto por um tempo que pareceu longo para quem estava do lado. Não disse nada.
guardou a carteira dentro da blusa do lado do coração. Ela carregaria aquela carteira pelos 26 anos seguintes. Tudo que o rio devolveu naquelas duas semanas foi recolhido como evidência e levado para o depósito da delegacia de Luciara. O inquérito foi aberto formalmente sob o título de acidente com vítimas fatais e bem submersos.
A palavra acidente naquele título incomodou as famílias desde o início. Não havia evidência conclusiva de que havia sido acidente. Não havia laudo de engenheiro naval. Não havia exame do motor, não havia testemunha do momento em que a balsa sumiu. Havia apenas o resultado. 31 pessoas e uma embarcação desaparecidas num rio que não estava explicando como.
A Defensoria Pública do Mato Grosso foi acionada meses depois por algumas famílias. Um defensor de Barra do Garças enviou ofício ao Ministério Público pedindo reabertura das buscas e reclassificação do caso. O ofício tramitou por meses, foi respondido com um documento, pedindo mais informações. Enquanto isso, o Araguaia continuou correndo e as famílias de 31 passageiros começaram a aprender o que significa esperar por algo que talvez nunca venha.
Dona Neusa Ferreira voltou para São Félix do Araguaia depois de três semanas em Luciara. Voltou sem a filha. Voltou com a carteira de identidade de Cleonice no bolso da blusa e com uma sensação que ela não conseguia colocar em palavras, mas que a vizinha mais próxima, dona Benedita, descreveu depois assim. Ela voltou menor.
Em São Félix, a vida de dona Neusa continuou da forma que pôde. Ela trabalhava como cozinheira numa lanchonete perto da rodoviária. Acordava às 5 da manhã, ia para o trabalho. Voltava à tarde. Nos meses seguintes ao desaparecimento, ela desenvolveu um hábito que as pessoas ao redor foram notando com o tempo. Ela não fechava a janela da frente à noite, deixava sempre aberto uma fresta.
Uma luz acesa na sala. Quando perguntavam, ela dizia que era por causa do calor. Dona Benedita sabia que não era por causa do calor. Era porque dona Neusa ainda esperava. Não sabia mais bem o quê, mas esperava. Essa espera silenciosa e de longa duração é algo que [música] as famílias de desaparecidos no Brasil conhecem de dentro.
A espera aguda das primeiras semanas, quando cada barulho na rua pode ser a pessoa que você ama, vai cedendo. O que fica é outra coisa. É a espera que se instala a fundo na vida como um móvel pesado que não tem mais onde colocar, mas que também não dá para jogar fora. Você consegue imaginar esse tipo de espera? Anos, décadas, com a janela aberta.
A irmã de Evaldo Pires da Silva, o homem da caixa de ferramentas e do sorriso que a família não esqueceu, continuou por anos registrando ocorrências na delegacia de Luciara, pedindo a atualização do caso. Foi ao Ministério Público de Barra do Garças, três vezes diferentes. foi até a sede da Defensoria Pública em Cuiabá uma vez de ônibus com o dinheiro que havia juntado por meses para pagar a passagem.
Voltou sem a resposta que queria, mas foi. Cristiane Gomes, filha do casal de idosos seu Floriano e dona Elsa, havia deixado Goiânia logo após o desaparecimento para acompanhar as buscas em Luciara. ficou se meses. Quando as buscas formais foram encerradas e o inquérito estava sem prazo de reabertura imediata, ela voltou para Goiânia, com a certeza de que os pais estavam no fundo daquele rio, mas sem nada que comprovasse isso legalmente, sem corpo, sem laudo do IML, sem encerramento formal.
No Brasil, sem laudo pericial, o processo de declaração de morte presumida pode se arrastar por muitos anos. Para algumas famílias da Balsa São Benedito, esse processo demorou mais de uma década para ser concluído. Enquanto o papel não fechava, o luto também não fechava. A espera virava hábito, o hábito virava vida. E os anos iam passando com aquilo instalado dentro, que não dói sempre com a mesma intensidade, mas que nunca some de vez.
A própria mãe de Cristiane morreu em 2018, sem saber o que havia acontecido com os pais dela naquele rio. E o inquérito da balsa São Benedito, ainda estava arquivado. O inquérito policial do caso foi arquivado em 2003, 5 anos depois do desaparecimento, arquivado por falta de novas provas, não por conclusão dos fatos.
Esse tipo de arquivamento existe no sistema jurídico brasileiro e é um dos mais difíceis para quem perdeu alguém. O processo não diz o que aconteceu. Diz apenas que não há mais o que apurar com os recursos disponíveis. A delegada Sônia Barreto Meirelles havia se aposentado dois anos antes do arquivamento. Em entrevistas concedidas muito tempo depois, ela disse que o caso da balsa São Benedito foi o único de sua carreira que ela não conseguiu encerrar com alguma resposta.
disse que havia elementos no inquérito que nunca foram explicados satisfatoriamente. Um deles era a ausência de sinais claros de acidente mecânico. Os fragmentos de madeira que o rio havia devolvido não apresentavam marcas de impacto violento. A estrutura parecia ter cedido de forma gradual, mas sem a embarcação inteira para examinar, qualquer conclusão técnica era especulação.
O segundo elemento perturbador era o colete nunca usado. 18 anos de Rio e seu Durval não havia colocado o próprio colete quando a balsa afundou. Isso podia significar que não houve tempo. Podia significar que ele não percebe perigo até que fosse tarde. Podia significar muitas coisas. Nenhuma delas eliminava completamente as outras.
O terceiro elemento era o passageiro sem nome. A polícia havia apurado que havia um homem a bordo da balsa que ninguém em Luciara ou nas cidades vizinhas conhecia. Nenhuma família havia se apresentado pedindo por ele. Não havia relato de ninguém que o houvesse visto embarcar regularmente naquele porto. A descrição que várias testemunhas do embarque forneceram era consistente.
Homem de aproximadamente 40 anos, camisa xadrez vermelha, chapéu de palha, sem bagagem visível. Essa descrição foi encaminhada ao sinalid. Nada correspondeu ao perfil. O homem de camisa xadrez vermelha ficou sendo, nos registros oficiais passageiro desconhecido, número 31. Nos anos que se seguiram ao arquivamento, algumas famílias tentaram a reabertura por via judicial.
A filha de Cristiane contratou um advogado para entrar com pedido formal. O pedido foi negado por falta de fatos novos. Fatos novos. Essa expressão jurídica é uma das mais brutais que existem para quem perdeu alguém. Ela coloca [música] nas mãos da família a tarefa de provar o que o Estado não conseguiu apurar com todos os seus recursos.
2005, 2010, 2015, o Araguaia continuou correndo, Luciara continuou existindo, o porto de Balsas continuou operando com outras embarcações, outros motoreiros, novas caras no Timão. A balsa São Benedito virou história de velho, do tipo que os mais jovens ouvem, mas não levam muito a sério. Mas as mães levavam, as irmãs levavam, as mulheres que carregavam aquela espera dentro delas, sem parar e sem esquecer, levavam.
E o araguaia lá embaixo continuava guardando o que sabia. Você se lembra do que foi dito no início? Que a balsa nunca foi encontrada nas buscas de 1998? A resposta para isso e para muito mais estava a 14 m de profundidade e estava chegando a hora de alguém descer buscá-la. O Brasil de 1998 era um país que ainda não tinha a palavra desaparecido integrada no seu sistema de modo eficiente.
As delegacias do interior recebiam casos assim e os registravam num livro físico. Os números não iam para nenhum banco de dados central que funcionasse de verdade em cidades pequenas. As famílias que queriam encontrar alguém precisavam fazer o trabalho sozinhas, de boca em boca, de cidade em cidade, usando o ônibus e o orelhão como ferramentas de investigação.
Foi assim que muitas delas tentaram e foi assim que muitas delas chegaram ao mesmo lugar, ao fim de um corredor de papel que não levava a nenhuma porta aberta. Em 2022, um mergulhador amador do interior do Tocantins, chamado Renato Salave de Aguiar, começou a reunir informações sobre acidentes fluviais não resolvidos no rio Araguaia.
Não era policial, não era investigador profissional, era técnico de manutenção de máquinas agrícolas 38 anos, que praticava mergulho recreativo nos rios do centro-norte do Brasil desde os 20 anos de idade. Renato havia ouvido a história da balsa São Benedito de um pescador idoso em Araguatins, no Tocantins. O pescador havia sido morador de Luciara no final dos anos 90 e se lembrava do desaparecimento com detalhes que a memória de gente do rio guarda diferente da memória de quem vive em cidade grande.
Renato ouviu tudo, anotou num caderno de capa preta e começou a fazer perguntas por conta própria. Levou quase dois anos para organizar o que tinha. cruzou os relatos dos pescadores com o extrato do inquérito parcialmente disponibilizado pelo Ministério Público do Mato Grosso em 2000. e 18.
Quando uma portaria estadual determinou que casos arquivados com mais de 15 anos e com vítimas fatais deveriam ter seus exatos acessíveis ao público. Renato leu cada folha que conseguiu. O que chamou a atenção dele não era o que o inquérito dizia, era o que não dizia. Não havia registro de varredura com sonar ou equipamento de detecção de fundo nos primeiros dias de busca.
Os mergulhadores do Corpo de Bombeiros em 1998 haviam feito mergulho manual, varrendo o fundo sem tecnologia de localização. No Araguaia, com aquela turbidez e aquela profundidade, essa limitação era enorme. Balsa podia estar lá desde o primeiro dia e ninguém havia conseguido encontrá-la com os meios que tinham em 1998.
Em março de 2024, Renato formou uma equipe de sete pessoas. Quatro mergulhadores com equipamento de câmera subaquática de alta definição. Um técnico com sonar portátil de uso civil do tipo usado por equipes de resgate em rios e represas no Brasil. e dois pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso que haviam mapeado os padrões de sedimentação do Araguaia naquele trecho.
Em estudos publicados nos anos anteriores. A equipe não tinha autorização formal do Ministério Público. foram ao rio como cidadãos que mergulham com os equipamentos que tinham, com a intenção de documentar tudo que encontrassem e de comunicar ao estado qualquer achado relevante. Chegaram ao trecho de Luciara na primeira semana de abril.
O rio estava no nível de início de vazante. A visibilidade subaquática, embora limitada, era melhor do que no período das chuvas. Instalaram um acampamento simples na margem e começaram a fazer varreduras com o sonar no trecho exato, onde a balsa havia desaparecido. No segundo dia de operação, o sonar registrou uma anomalia no fundo do rio.
6 m da posição original estimada do ponto de desaparecimento a 14 m de profundidade, havia uma forma densa sólida, com bordas retas e comprimento compatível com uma embarcação de médio porte. Não era rocha, não era sedimento, era estrutura. Renato disse que quando Sonar mostrou aquilo, o grupo ficou em silêncio por um tempo que pareceu longo.
Ninguém disse nada de imediato, porque todos sabiam o que aquilo provavelmente era. A balsa São Benedito estava lá. Não havia derivado 100 km rio abaixo. Estava a menos de 100 m do ponto onde havia desaparecido, numa profundidade de 14 m, num trecho onde a corrente de fundo era quase inexistente. Estava lá desde 1998.
Na manhã seguinte ao achado do sonar, 4 de abril de 2024, os primeiros dois mergulhadores prepararam os equipamentos na margem do Araguaia. A câmera subaquática era de alta definição, com iluminação própria de mergulho montada num suporte estabilizador. O rio, a 14 m de profundidade naquele trecho, estava escuro.
A luz solar não penetra com força nessa profundidade no Araguaia, especialmente com a turbidez da época de início de vazante. Os mergulhadores iam trabalhar praticamente no escuro, guiados pelas marcações que haviam deixado na véspera e pelo sonar que um dos assistentes mantinha ativo na superfície. A descida levou cerca de 4 minutos.
A água foi ficando mais fria, mais escura, mais quieta. O barulho do rio que se ouve nas superfícies some rapidamente quando você mergulha. Lá embaixo, o Araguaia tem um silêncio que poucos lugares têm. É o silêncio de um lugar onde nada de humano costuma chegar. A câmera ligou e começou a gravar.
O que apareceu na imagem foi a proa da balsa São Benedito. Ela estava encostada num barranco de areia do fundo, inclinada em ângulo de aproximadamente 30º. A madeira estava escura, coberta de musgo verde escuro, de lodo e de caramujos de rio, mas a forma era reconhecível. A estrutura principal havia resistido. O motor a diesel ainda estava no lugar.
O timão ainda existia. Uma parte do corrimão da plataforma estava intacta. Uma embarcação de madeira submersa por 26 anos num rio tropical não deveria estar nesse estado de conservação. A madeira exposta a organismos aquáticos e a variação de nível do rio ao longo de mais de duas décadas deveria ter se deteriorado muito mais.
Os mergulhadores notaram isso imediatamente. O ângulo em que a balsa havia afundado, encostada no barranco de areia, havia criado uma espécie de câmara que protegeu parte da estrutura do fluxo direto da corrente. Não explicava tudo, mas explicava parte. Os dois mergulhadores filmaram o exterior da balsa por 12 minutos.
deram a volta completa na embarcação. A câmera captou o nome São Benedito, ainda legível numa das laterais, em letras que o lodo havia parcialmente apagado, mas não eliminado. Quando se aproximaram da área coberta da embarcação, a cabine do motoriro e o abrigo para passageiros, foi que a filmagem começou a mostrar coisas que não fechavam.
O interior da cabine estava coberto de sedimento, era esperado. Mas entre o sedimento, visíveis com a iluminação da câmera, havia objetos pessoais dos passageiros, bolsas, sacolas, uma caixa de plástico com produtos de mercado dentro, com as embalagens irreconhecíveis pelo tempo, mas a estrutura da caixa intacta. Esses objetos não estavam espalhados pelo interior, como seria natural, num afundamento onde a água entra de repente e mistura tudo.
Estavam alinhados ao longo das laterais da embarcação em fileiras, como se alguém os houvesse organizado depois que a balsa afundou. Os mergulhadores ficaram olhando para aquilo. Havia algo muito errado com aquela cena. E eles ainda não tinham visto tudo. No centro da cabine, sobre o que restava de um banco de madeira no fundo do rio, havia um chapéu de palha.
estava de pé, apoiado de forma que não havia caído, não havia escorregado, não havia sido levado pela corrente em 26 anos de sedimentação, um chapéu de palha do tipo que homens do interior do Mato Grosso usam para trabalhar no campo, do tipo que poderia pertencer a um homem de aproximadamente 40 anos, camisa xadrez vermelha, que havia embarcado na balsa São Benedito, numa manhã de julho de 1998, sem que ninguém soubesse o nome dele.
Os mergulhadores ficaram parados diante daquilo por um momento que a câmera registrou inteiro. 18 segundos de imagem estática apontada para um chapéu de palha no fundo do Araguaia. 18 segundos em que ninguém fez nada porque ninguém sabia exatamente o que estava vendo. A câmera continuou gravando. Um dos mergulhadores se abaixou para registrar um ângulo diferente a partir do fundo da cabine.
Foi nesse momento que a luz artificial da câmera iluminou o teto interno da embarcação. E o que apareceu na imagem fez o mergulhador parar completamente no lugar. Na madeira do teto havia marcas regulares, espaçadas, feitas com instrumento ponte agudo. Não eram marcas de deterioração natural, não eram as marcas aleatórias de impacto que uma embarcação sofre quando colide com pedras ou quando o casco cede.
eram marcas feitas com intenção, em padrão, como se alguém em algum momento dentro daquela cabine submersa houvesse inscrito alguma coisa na madeira do teto. O mergulhador aproximou a câmera. As marcas eram linhas verticais em grupos de cinco com uma linha diagonal cruzando cada grupo. O padrão usado para contar dias ou para marcar a passagem de tempo, do tipo que se vê em paredes de celas, em madeiras de lugares onde alguém precisou registrar quanto tempo havia passado sem conseguir sair.
Os dois mergulhadores subiram à superfície antes de completar o tempo de mergulho planejado. Na beira do rio, Renato Salave de Aguiar os esperava. Passaram a câmera para ele. Ele assistiu ao vídeo ali mesmo no monitor portátil, em silêncio, com o barulho do Aragai ao fundo e o sol de abril batendo na superfície do rio.
Naquela noite, Renato enviou o vídeo completo ao Ministério Público do Mato Grosso com uma mensagem descrevendo o que haviam encontrado e pedindo orientação. O vídeo tinha 42 minutos de duração. Os últimos 18 eram os que importavam. A promotora responsável pelo acompanhamento de casos arquivados recebeu o arquivo na manhã seguinte, assistiu ao vídeo inteiro.
Convocou reunião com dois peritos do Instituto de Criminalística de Cuiabá e um representante do Corpo de Bombeiros do Mato Grosso. Três dias depois, o Ministério Público emitiu a portaria, que suspendeu qualquer atividade de mergulho ou exploração no trecho do Araguaia, em frente a Luciara, até nova decisão judicial.
A área foi classificada provisoriamente como cena de possível crime não determinado. Esse detalhe é importante, não de acidente, de possível crime. Essa mudança de classificação foi o que parou as buscas e foi o que em menos de 10 dias faria o vídeo circular em todo o Brasil. O vídeo da balsa São Benedito começou a circular em grupos de WhatsApp antes mesmo de o Ministério Público emitir a portaria formal.
Em menos de 48 horas, o vídeo completo estava disponível em vários canais digitais. Em menos de uma semana havia sido assistido por centenas de milhares de pessoas em todo o Brasil. Dona Neusa Ferreira, que em 2024 tinha 78 anos e ainda morava em São Félix do Araguaia, assistiu ao vídeo no celular da neta.
A neta ficou do lado enquanto ela assistia. Dona Neusa não disse nada durante o vídeo. Quando terminou, pediu para ver de novo o trecho do interior da cabine. Assistiu duas vezes. Depois pediu que a neta fosse buscar a carteira de identidade de Cleonice. A carteira estava na gaveta da cômoda do quarto de dona Neusa, no mesmo lugar de sempre.
A foto de Cleonice, amarelada pelo tempo, ainda estava lá. Dona Neusa ficou olhando para a foto por um longo tempo. A neta ficou do lado em silêncio. Depois de um tempo, dona Neusa disse apenas que queria ligar para a irmã dealdo para contar. A equipe de peritos do Instituto de Criminalística do Pará, especialistas em análise de cenas em ambientes fluviais, chegou ao Araguaia em junho de 2024.
mergulharam na balça com equipamento forense especializado e fizeram o registro completo da cena. O laudo preliminar, divulgado em agosto de 2024, confirmou e expandiu o que os mergulhadores voluntários haviam registrado. Confirmou a disposição não natural dos objetos no interior da embarcação, que os peritos descreveram como inconsistente com o padrão de distribuição de objetos em naufrágio por falha mecânica ou colisão.
confirmou as marcações no teto da cabine identificadas por um especialista em análise de inscrições como marcas de contagem em padrão reconhecível e confirmou um quarto elemento que os mergulhadores voluntários não haviam alcançado porque não haviam descido até a estrutura inferior do casco na parte de baixo da balça, amarrada ao casco com o tipo de nó que os pescadores do Arag Aia fazem com o cisal de rio.
Havia uma corda com o outro extremo cortado de forma limpa, em corte reto, sem desgaste gradual. uma corda amarrada na parte de baixo de uma balsa que naufragou a 14 m de profundidade com o outro lado cortado. O laudo não concluiu se o corte havia sido feito antes ou depois do afundamento. Não concluiu por quem havia sido amarrada.
Não concluiu se as marcações no teto eram uma mensagem ou um padrão diferencial de deterioração da madeira em condições de imersão prolongada. disse apenas que os elementos encontrados eram inconsistentes com acidente simples e que investigação criminal formal deveria ser retomada. A investigação foi aberta pelo Ministério Público do Mato Grosso em setembro de 2024.
A balsa São Benedito foi declarada cena de crime ativo. As buscas físicas continuaram suspensas pendente de protocolo forense e as famílias de 30 e um passageiros continuaram esperando, não mais por corpos, não mais por objetos no rio, esperando por uma resposta que dissesse de uma vez por todas o que havia acontecido naquele sábado de julho de 1900.
e 98, num trecho do Araguaia, onde não havia testemunha alguma, 26 anos de silêncio do rio e uma corda cortada no fundo da água, esperando por uma resposta que ainda não chegou. O Araguaia continua correndo. Vai continuar correndo quando esta história for esquecida pelos portais de notícia e pelos grupos de WhatsApp.
vai continuar quando a investigação for encerrada, qualquer que seja o resultado. Vai continuar com a indiferença que os rios grandes têm pela urgência humana. As famílias não têm essa indiferença. Dona Neusa Ferreira tem 78 anos e ainda dorme com a janela entreaberta. A luz da sala fica acesa, não é por calor.
Nunca foi. A irmã de Evaldo foi à delegacia de Luciara pela última vez em 2023, antes de o vídeo aparecer. Foi registrar o nome do irmão no sistema do Sinalid, porque alguém havia dito que havia um novo procedimento de atualização. O atendente não sabia do procedimento. Ela foi embora sem conseguir nada. e voltou.
Cristiane Gomes nunca mais voltou a Luciara. tem os documentos de morte presumida dos pais numa pasta plástica azul do lado do atestado de óbito da própria mãe, que morreu em 2018, sem saber o que havia acontecido com os pais dela naquele rio. Essas histórias não terminam com o laudo, não terminam quando a equipe de peritos vai embora e o Araguaia volta a ser só rio para quem passa por ali sem saber de nada.
Elas terminam ou não terminam na vida particular de cada família, nas perguntas sem resposta, nas carteiras de identidade guardadas em gavetas que nunca foram descartadas, nas janelas que ficam entreabertas, porque nenhum coração de mãe consegue fechar de vez uma porta enquanto não sabe com certeza. O que aconteceu com a balsa São Benedito em 11 de julho de 1998.