Avião da FAB desaparece em 79 no Mato Grosso, 30 anos depois, trilheiros acham pedaços nas árvores_

E se tudo o que conhece desaparecesse em questão de segundos, sem testemunhas, sem explicação, apenas o vazio infinito da selva. Na manhã de 14 de agosto de 1979, a base aérea de Cuiabá acordou com o cheiro forte a combustível de aviação misturado ao ar húmido do serrado. O calor já era intenso às 7 da manhã e o céu aberto prometia um dia limpo, bom para voos de inspeção.

No hangar principal, o capitão Humberto Valente dos Santos, 38 anos, piloto experiente com mais de 2.000 horas de voo, conferia os instrumentos do monomotor Cesna 182, matrícula FAB 734. Era um avião pequeno, resistente, usado para reconhecimento e transporte em áreas remotas. Ao seu lado estavam o tenente Edilson Carvalho Ramos, de 29 anos, copiloto e navegador, e o sargento técnico Mário Augusto Pinheiro, 42, responsável pelo equipamento de rádio.

Os três vestiam fatos verdes da Força Aérea Brasileira, as botas de couro já gastas pelo uso constante. O Mário fumava o último cigarro antes do embarque, apoiado na asa do avião. Edilson conferia mapas sobre o capot de um jeip militar estacionado ali perto. A missão era simples.

Sobrevoar a região norte de Mato Grosso, entre Sinope e Peixoto de Azevedo, para fotografar áreas de desflorestação irregular detectadas por satélite. A rota traçada no mapa mostrava uma linha reta sobre o verde denso da Amazónia, território ainda pouco explorado, coberto por floresta fechado e cortado por poucos rios conhecidos.

3 horas30 no ar, se tudo correr bem”, disse Humberto dobrando o mapa. “Voltámos antes do almoço.” Ele sorriu. Tinha dois filhos pequenos à espera em casa na Vársia Grande. Levava-lhes sempre alguma coisa quando regressava de missão. Um doce, uma revista, qualquer treta. Dessa vez tinha prometido um carrinho de plástico que viu numa loja perto da base.

Às 7:42, o motor do Cesna foi ligado. A hélice começou a rodar lentamente, depois acelerou até se tornar um borrão metálico. Humberto acenou pela janela do cockpit. O chefe de pista respondeu com o polegar levantado. O avião taxeou pela pista de terra batida, ganhou velocidade e subiu com facilidade, inclinando-se ligeiramente à direita enquanto ganhava a altitude.

Na rádio, a voz calma de Humberto confirmou a descolagem. Torre aqui. Fab 7134. Descolagem confirmada às 07:44. Rota norte estabelecida. Retorno previsto para as 11:30. Câmbio recebido. Fab 7134. Boa missão. Câmbio. Desligo. Foi a última comunicação registada. O Cesna desapareceu dos radares civis às 9:17 da manhã na altura de Sinop.

Não houve chamada de emergência, não houve sinal de falha mecânica, não houve qualquer pedido de socorro, apenas silêncio. Quando às 13 rios o avião ainda não tinha regressado, os controladores de voo começaram a tentar contacto. Nada. Às 14:30, o protocolo de pesquisa foi acionado. Helicópteros sobrevoaram a rota prevista.

Pequenas aeronaves civis se juntaram à varredura. Durante três dias consecutivos, equipas da FAB, Polícia Federal e Corpo de Bombeiros percorreram centenas de quilómetros quadrados de floresta densa, rios, campos abertos. Nada foi encontrado, nem destroços, nem sinais de fumo, nem vestígios de combustível, nem corpos. Em Cuiabá, a mulher de Humberto, Neusa dos Santos, ficou dia sentada na sala de casa, olhando para a porta como se ele fosse entrar a qualquer momento.

Ela segurava o carrinho de plástico que tinha deixado escondido no armário antes de sair. Os filhos perguntavam onde estava o pai. Ela não sabia o que responder. A mãe de Edilson, a dona Iraci, asendeu velas na igreja matriz de Rondonópolis e rezou o terço todas as noites durante um mês inteiro.

Ela dizia que tinha a certeza de que o filho estava vivo, perdido na mata, à espera de ser encontrado. Mário, o sargento, deixou uma filha adolescente que ainda guardava o último bilhete que escreveu antes de embarcar. Volto logo. Vou trazer uma surpresa. A surpresa nunca chegou. Nas semanas seguintes, a Força Aérea alargou o perímetro de busca.

Voluntários de Sinope, colonos recém-chegados, garimpeiros que conheciam a região, todos foram mobilizados. Cortaram trilhos, atravessaram riachos, escalaram morros, questionaram povos indígenas da região. Nada. A floresta tinha engolido três homens e um avião sem deixar rasto. Em outubro desse ano, a FAB emitiu um comunicado oficial.

A aeronave FAB 734 foi declarada perdida em voo sobre área de selva remota. Os tripulantes foram considerados desaparecidos. As famílias receberam indemnizações modestas. Os nomes foram gravados numa placa de homenagem na base aérea de Cuiabá, mas ninguém encontrou o avião. E durante 30 anos, a floresta guardou o segredo.

Nos meses que se seguiram ao desaparecimento, a vida das famílias parou. Neusa dos Santos deixou de dormir direito. Acordava de madrugada, achando que ouvia o barulho do gipe do marido chegando. Corria até à janela. A rua estava vazia. Ela voltava paraa cama e chorava baixinho, tentando acordar os meninos.

Os filhos de Humberto cresceram sem compreender bem o que tinha acontecido. O mais velho, Rodrigo, na altura com 7 anos, começou a desenhar aviões em todos os cadernos da escola. Dizia aos colegas que o pai ia voltar pilotando um Hércules gigante. A professora não tinha coragem de corrigi-lo. Dona Irassi, mãe do tenente Edilson, nunca aceitou a versão oficial.

Ela acreditava que os três tinham sobreviveram e estavam perdidos, talvez feridos, aguardando ajuda. Durante anos, ela guardou a mala de roupa do filho intacta no armário. Trocava as roupas de lugar de vez em quando, como se estivesse a arranjar para ele voltar. dizia aos vizinhos: “O meu filho está vivo. Eu sei, uma mãe sente estas coisas”.

A filha de Mário, de nome Clarice tinha 15 anos quando o pai desapareceu. Ela tornou-se uma adolescente calada que evitava falar sobre o assunto. Deixou de ir às festas da escola, deixou de sorrir nas fotos, trazia sempre no bolso o bilhete amassado que o pai tinha deixado. Quando alguém perguntava, ela desviava o olhar.

As buscas oficiais foram interrompidas em novembro de 1979, mas voluntários continuaram por conta própria. Pequenos grupos saíam aos fins de semana, principalmente colonos que viviam em Sinope e conheciam a mata. Levavam facões, bússolas antigas, sacos de serapilheira para marcar o caminho. Regressavam sempre de mãos vazias.

Com o passar do tempo, as expedições tornaram-se mais raras. As pessoas foram desistindo. A vida seguiu. Neusa precisou de voltar a trabalhar. Conseguiu um emprego numa escola municipal como merendeira. Acordava cedo, preparava a comida das crianças. Regressava a casa, cuidava dos filhos.

À noite sentava-se na varanda e ficava a olhar o céu. Às vezes, quando via um avião a passar, fechava os olhos e imaginava que era o Humberto a regressar. A Dona Iracia envelheceu rapidamente. O cabelo embranqueceu em menos de do anos. Ela desenvolveu problemas no coração e passou a tomar medicamentos controlados, mas nunca deixou de acender velas, nunca deixou de rezar e nunca tirou a roupa do filho do armário.

Clarice formou-se no liceu, casou jovem, teve dois filhos, mas nunca falou muito sobre o pai. Quando os filhos perguntavam sobre o avô, ela dizia apenas: “Era um homem bom” e desapareceu. Os anos passaram devagar, pesados ​​como a humidade da floresta. A década de 1980 trouxe mudanças para o Mato Grosso. Mais estradas, mais cidades, mais desmatamento.

A região que antes era selva fechada começou a ser recortada por quintas, serrações, pequenas aldeias, mas o avião continuava perdido. De vez em quando, algum boato surgia. Um garimpeiro dizia que tinha visto destroços perto de um riacho. Um caçador jurava que tinha ouvido barulho de motor avariado há anos atrás. Vindo do meio da floresta, um índio caiapó contava que os anciãos falavam de um pássaro de ferro caído numa zona sagrada.

Nada disso levava a lado nenhum. Na base aérea de Cuiabá, o nome de Humberto, Edilson e Mário, foi sendo gradualmente esquecido pelos novos recrutas. A placa de homenagem continuava lá, mas pouca gente parava para ler. O hangar onde o Cesna tinha sido preparado, virou depósito de peças antigas, mas as famílias não esqueceram.

Rodrigo, filho de Humberto, cresceu e tornou-se mecânico de aviões. Dizia que escolheu a profissão para perceber o que podia ter acontecido com o pai. Ele lia relatórios técnicos, estudava avarias mecânicas, conversava com pilotos reformados. Queria uma resposta. Qualquer resposta. Neusa envelheceu sozinha.

Nunca se casou de novo. Dizia que ainda era casada porque nunca tinham encontrado o corpo do marido. Morreu em 2004, aos 71 anos, sem saber o que tinha acontecido naquela manhã de agosto. Dona Irasse faleceu em 2007, também resposta. No velório, o padre disse que ela tinha morrido de coração partido. Clarice continuou viva, mas calada.

guardava o bilhete do pai dentro de uma pequena caixa de madeira. Por vezes abria e lia, sempre as mesmas palavras. Volto em breve, vou trazer uma surpresa. Passaram 30 anos. A floresta continuava densa, impenetrável, silencioso, e o avião continuava desaparecido. Até que numa manhã de Março de 2009, dois homens entraram numa trilho esquecido e encontraram algo que não deveria estar ali.

Era um sábado claro de Março de 2009, e o calor já pesava desde cedo. Dois amigos, Rodrigo Bitencur, 34 anos, guia de ecoturismo, e Thiago Lemos, 29 anos, fotógrafo amador, tinham saído de Sinope antes do amanhecer, com a intenção de explorar uma área pouco conhecida da floresta ao norte da cidade. Queriam mapear novas trilhos para um projeto de turismo ecológico que estavam a montar.

Levavam mochilas pesadas, machetes, GPS portátil, máquinas fotográficas, garrafas de água. A trilha que escolheram era antiga, quase apagada pela vegetação. Segundo um mapa velho que Rodrigo tinha conseguido com um colono reformado, aquela região nunca tinha sido muito explorada, ficava longe das estradas principais e não tinha valor comercial para as madeireiras.

Era mata fechada, húmida, cheia de lianas e árvores gigantes. Caminharam durante quase 2 horas, abrindo caminho no silêncio espesso da selva. O chão era coberto por folhas podres. Raízes grossas, troncos caídos tomados por fungos. O ar cheirava a terra húmida e a madeira em decomposição.

De vez em quando, ouviam o grito longínquo de um macaco ou o bater de asas de alguma ave desconhecida. “Aqui é longe para caraças”, disse Thiago a limpar o suor da testa com a manga da camisola. “Exatamente por isso que vale a pena,”, respondeu Rodrigo, conferindo o GPS. “Ninguém vem aqui. Dá para fazer trail exclusivo, sabe? turista paga bem por isso.

Pararam para descansar perto de uma enorme árvore, um jatobá com um tronco tão largo que três os homens não conseguiriam abraçar. Tiago tirou a mochila, pegou na máquina fotográfica e começou a fotografar a copa das árvores. A luz solar entrava em feixes finos entre as folhas, criando manchas douradas no chão. Foi quando ele viu.

Lá em cima, preso entre os ramos de uma sapucaia, a cerca de 15 m de altura, havia algo que não era natural. Algo metálico refletia a luz de uma forma diferente. Rodrigo chamou Thaago, apontando para cima. Estás a ver aquilo? Rodrigo levantou-se, protegeu os olhos com a mão e olhou para a direção indicada.

Que diabo é aquilo? Parecia um pedaço de chapa, retangular, enferrujado, preso nos ramos, como se tivesse sido atirado lá de cima há muito tempo. Os dois entreolharam-se. “Vou subir”, disse Rodrigo. “Espera lá, pá. Pode ser perigoso. Só vou dar uma olhada. O Rodrigo amarrou a mochila numa raiz, descalçou as botas, enrolou uma corda fina na cintura e começou a trepar.

A árvore tinha ramos grossos e bem distribuídos. Não foi difícil subir. O Thago ficou em baixo fotografando. Quando Rodrigo chegou perto do objeto, parou. Ficou a olhar por uns segundos, respirando fundo. E aí? gritou o Thago lá debaixo. É, é uma porta, respondeu Rodrigo com a voz estranha. Porta de avião? O coração de Thago disparou.

Como assim? Porta de avião, pá. Tem dobradiças, tem rebites, tem até. E espera, tem aqui uma marcação. Fabo sentiu um arrepio subir pela nuca. Rodrigo arrancou o pedaço de metal com cuidado. Era pesado, coberto de musgo e ferrugem, mas ainda se via parte da pintura original, um verde azeitona desbotado. Ele desceu lentamente, segurando a peça com uma mão.

Quando chegou ao chão, os dois ficaram ali parados, a olhar para o fragmento, como se de uma relíquia sagrada. “Há mais”, disse Tiago, apontando para cima novamente. E tinha. Agora que sabiam o que procurar, conseguiam ver outros pedaços espalhados pelas copas das árvores circundantes, um pedaço de asa presa num cipó, um painel com mostradores partidos enfiado entre dois ramos, parte de uma hélice retorcida cravada no tronco de uma samaira.

Era como se o avião tivesse explodido no ar e os destroços tivessem ficado pendurados na floresta, invisíveis do chão, escondidos pela densidade da floresta. Rodrigo e Thaago passaram as três horas seguintes trepando às árvores, fotografando, anotando posições no GPS. Encontraram mais de 15 fragmentos: pedaços de fuzelagem, um assento rasgado, fios elétricos corroídos, um extintor de incêndio vazio, uma bota militar apodrecida.

E depois, preso num emaranhado de cipóis a quase 20 metros de altura, Thago encontrou algo que fez o seu estômago embrulhar. Uma placa de identificação, pequena, retangular, de metal. Estava suja, mas ainda legível. Fabi 734. Ele desceu a tremer. A gente achou, sussurrou. Encontrámos o avião da Fabi que desapareceu em 79.

Rodrigo sentou-se no chão, tentando processar. Ele conhecia a história. Todos em Mato Grosso conhecia. O avião que desapareceu sem deixar rasto, os três homens que nunca foram encontrados. E agora, 30 anos depois, os destroços estavam ali pendurados nas árvores, invisíveis, esquecidos. “A as pessoas precisam de avisar alguém”, disse Thaago. “Precisa.

” Mas antes de sair, Rodrigo olhou em redor, tentando imaginar o que tinha acontecido. Não havia cratera, não havia área ardida. Os destroços estavam espalhados verticalmente, presos nas copas, como se o avião se tivesse desintegrado no ar. Marcaram o local no GPS, tiraram fotos de todos os ângulos possíveis e começaram a regressar.

Caminharam em silêncio, carregando a porta de metal como prova. Quando chegaram a Sinop, já era tarde, foram diretamente paraa esquadra. O delegado olhou-os com desconfiança no início, mas quando viu as fotos, a placa de identificação e a porta, pegou no telefone e ligou para a base aérea de Cuiabá.

Duas horas depois, uma equipa da FAB já estava a caminho. A notícia se espalhou-se rápido. Jornais locais publicaram matérias. Emissoras de TV enviaram repórteres. O caso que tinha sido esquecido voltou à tona e as famílias que tinham passado 30 anos à espera, finalmente tiveram uma resposta incompleta, dolorosa, mas real. Nos dias seguintes à descoberta, a Força Aérea Brasileira mobilizou uma equipa técnica completa, peritos, engenheiros aeronáuticos, investigadores, para além de bombeiros especializados em socorro em altura. A área foi isolada. Helicópteros

sobrevoaram o local vezes sem conta, mapeando a dispersão dos destroços. Do alto era possível ver que os fragmentos estavam espalhados por uma área de quase 200 m de diâmetro, todos suspensos nas copas das árvores. Equipas subiram com cordas, equipamento de rapel, câmaras. Cada peça foi fotografada, catalogada, descida com cuidado.

Foram encontrados mais de 40 fragmentos: partes da fuselagem, instrumentos de navegação, peças do motor, ferramentas, até uma mochila militar rasgada que ainda continha um cantil enferrujado, mas não encontraram corpos. Aência dos restos mortais intrigou os investigadores. 30 anos era tempo suficiente para a decomposição completa, mas ainda assim esperavam encontrar ossos, peças de uniforme, algum vestígio humano, nada.

O relatório preliminar da FAB foi divulgado três semanas depois. O avião tinha sofrido uma falha estrutural em pleno voo, provavelmente uma rotura na asa provocada por fadiga do material ou por turbulência severa. A aeronave partiu-se no ar a uma altitude estimada entre os 100 e 2000 m.

A queda terá sido rápida, mas não vertical. Os destroços ficaram presos nas árvores altas, que na região podiam atingir os 40 m de altura. Isso explicava porque nunca tinham sido encontrados. Do chão eram invisíveis, do ar confundiam-se com a copa da floresta. Quanto aos tripulantes, a hipótese oficial era que os corpos tinham sido completamente consumidos pela selva: animais, insetos, humidade, decomposição acelerada pelo clima tropical.

Era uma explicação plausível, mas que deixavam vazio nas famílias. Rodrigo dos Santos, filho do capitão Humberto, foi até ao local acompanhado pela equipa da FAB. Tinha 37 anos agora. Era casado, tinha uma filha. Quando viu os destroços descendo das árvores, teve de se apoiar num tronco. Ficou ali parado, a olhar, sem conseguir falar.

Um dos investigadores aproximou-se e entregou algo a ele. Encontramos isso preso num compartimento interno. Achamos que você deveria ter. Era uma carteira de couro podre, quase a desfazer-se. Dentro ainda era possível ver um documento de identidade militar plastificado. O nome estava legível: Capitão Humberto Valente dos Santos.

Rodrigo segurou a carteira com as duas mãos e chorou. Clarice Pinheiro, filha do sargento Mário, também foi ao local. Ela tinha 45 anos, era avó de dois netos, passou a mão numa das peças de metal e ficou em silêncio durante muito tempo. Não chorou, apenas respirou fundo e disse: “Agora eu posso seguir em frente”. A família do tenente Edilson, representada por uma sobrinha, recebeu um pedaço do painel de comando que tinha o seu nome gravado numa etiqueta antiga de identificação de assento.

As famílias pediram uma cerimónia militar. A FAB organizou um evento oficial na base aérea de Cuiabá com honras militares completas. Não havia caixões, apenas urnas simbólicas cobertas pela bandeira do Brasil. Militares apresentaram armas. Uma corneta tocou o toque de silêncio. O céu estava limpo, azul, sem nuvens. Neusa, esposa de Humberto, já tinha falecido.

Mas O Rodrigo estava lá a representar a mãe. Segurava a carteira do pai. dentro de um saco de plástico transparente, como uma relíquia. Clarice também estava presente. Ela levou consigo a caixinha de madeira, onde guardava o bilhete do pai. Não abriu, não precisava. Sabia de cor o que estava escrito. Durante a cerimónia, um oficial leu os nomes dos três homens em voz alta.

contou brevemente a história do voo, da busca do desaparecimento. Falou de coragem, dever, sacrifício. Disse que a selva tinha guardado o segredo durante 30 anos, mas que agora, finalmente, os heróis podiam descansar em paz. Depois da cerimónia, Rodrigo dirigiu-se até à placa de homenagem que se encontrava à entrada da base, leu o nome do pai ali gravado, passou a mão sobre as letras de bronze, pensou na mãe, que nunca soube a verdade.

Pensou nos irmãos que cresceram sem o pai. pensou em como a vida podia ser frágil, imprevisível, cruel, mas também pensou que de alguma forma tinha encontrado uma resposta e que esta, por mais dolorosa que fosse, era melhor do que viver para sempre na incerteza. Clarice voltou a casa nessa noite e abriu a caixinha de madeira.

Pegou no bilhete amassado, leu mais uma vez, depois, com cuidado, colocou ao lado dele uma foto que a Fabi tinha tirado dos destroços, uma imagem da floresta verde, densa, eterna. Fechou a caixinha e guardou-a de volta na gaveta. Nos meses seguintes, a história ganhou reportagens em jornais de todo o país. Foram feitos documentários. Os especialistas debateram sobre como os destroços tinham ficado escondidos por tanto tempo.

A descoberta tornou-se um símbolo de persistência, de mistérios não resolvidos que um dia voltam à tona. Mas para o Rodrigo, para a Clarice, para todas as as famílias envolvidas, a história não era sobre mistério, era sobre perda, sobre a espera, sobre como a ausência marca as pessoas para sempre e sobre como às vezes a verdade chega tarde demais para mudar o passado, mas ainda há tempo para trazer alguma paz.

Hoje, parte dos destroços do FAB 7134 encontra-se preservada no Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro. A carteira de Humberto foi devolvida à família. A placa de identificação da aeronave ficou exposta na base de Cuiabá, ao lado das fotos dos três tripulantes. A floresta continua lá densa, silenciosa, guardando segredos que talvez nunca sejam descobertos.

Mas aquele segredo, pelo menos, foi revelado. E três homens que desapareceram no céu do Mato Grosso numa manhã de agosto de 1979, finalmente puderam ser recordados não como desaparecidos, mas como encontrados. M.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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