1968: O ANO EM QUE AS ALMAS COMEÇARAM A APARECER E MUDARAM MINHA VIDA PARA SEMPRE
Eu nunca esqueci a primeira vez que vi aquele homem no corredor da nossa casa. Eu ainda era criança e acordei no meio da madrugada com vontade de ir ao banheiro. Quando coloquei os pés no chão, percebi uma sombra passando por baixo da porta do quarto. Pensei que fosse meu pai. Abri a porta. O corredor estava escuro, mas havia um homem parado no final dele. Eu congelei.
Ele era alto, muito magro e vestia uma roupa escura que eu nunca tinha visto. Não conseguia enxergar perfeitamente seu rosto, mas havia uma coisa que me apavorava. Ele estava completamente imóvel, olhando para mim. Eu chamei meu pai. O homem não reagiu. Chamei novamente. Nada. Então ele começou a caminhar na minha direção.
Eu corri para o quarto, fechei a porta e me escondi debaixo do cobertor. Meu coração batia tão forte que eu conseguia ouvi-lo. Foi quando escutei três batidas na porta. Uma, duas, três. Comecei a gritar. Meus pais acordaram e entraram no quarto. Eu estava chorando e apontando para o corredor. Meu pai verificou a casa inteira. Não havia ninguém.
Meu nome é Justino e foi assim que tudo começou para mim. Durante anos, as pessoas imaginaram que eu tinha algum tipo de dom. Eu nunca enxerguei daquela maneira. Para mim, aquilo era um pesadelo. Depois daquela noite, comecei a ter medo de dormir sozinho.
Mas o pior aconteceu alguns dias depois. Minha mãe estava mexendo em uma caixa de fotografias antigas. Quando passei perto dela, vi uma fotografia sobre a mesa. Parei imediatamente. Era o homem do corredor. A mesma aparência, a mesma roupa. Perguntei quem era. Minha mãe me olhou de uma maneira que nunca esqueci. Era meu avô. Ele havia morrido antes de eu nascer.
Naquela noite, meu medo aumentou. Se aquele homem estava morto, como tinha entrado em nossa casa? Passei a dormir com a cabeça debaixo do cobertor. Eu não colocava os pés no chão durante a madrugada. Quando precisava ir ao banheiro, chamava minha mãe e então comecei a perceber outras coisas.
Às vezes eu acordava ouvindo passos no corredor. Em outras noites escutava alguém mexendo na cozinha. Meu pai levantava para verificar. Nada. Certa madrugada, senti alguém sentar na beirada da minha cama. O colchão afundou perto dos meus pés. Eu fiquei imóvel. Não tive coragem de olhar. Depois senti o peso desaparecer. Corri para o quarto dos meus pais.
Eu não queria saber quem eram aquelas pessoas. Não queria entender. Eu só queria que parassem de aparecer. Mas não pararam. E durante os anos seguintes, meu maior medo deixou de ser encontrar alguém dentro de casa. Meu maior medo passou a ser olhar para uma pessoa e perceber que talvez ninguém além de mim estivesse conseguindo enxergá-la.
Conforme fui crescendo, comecei a entender que precisava esconder aquilo. Na escola, eu já havia cometido o erro de perguntar quem era uma senhora que estava parada perto do portão. Um colega olhou para mim. Não havia senhora nenhuma. Nunca mais perguntei. Eu tinha medo de que rissem de mim, mas tinha ainda mais medo de estar ficando louco.
Foi nessa época que aconteceu uma das experiências que mais me assustaram. Eu devia ter uns 13 ou 14 anos. Estava sozinho em casa durante a tarde, quando ouvi alguém andando no quarto dos meus pais. Pensei que minha mãe tivesse voltado. Chamei por ela. Os passos pararam. Fui até o corredor. A porta do quarto estava entreaberta.
Quando me aproximei, ouvi uma mulher chorando lá dentro. Eu conhecia aquela voz. Era minha mãe. Empurrei a porta. O quarto estava vazio. Na mesma hora, saí correndo de casa. Esperei minha mãe voltar sentado do lado de fora. Quando finalmente a vi chegando pela rua, senti um alívio enorme. Não contei nada.
Naquela noite, porém, tive um sonho. Eu estava novamente no corredor. Uma mulher permanecia de costas para mim. Quando ela começou a virar o rosto, acordei. Poucos dias depois, recebemos a notícia da morte de uma conhecida da família. Quando vi uma fotografia dela, reconheci imediatamente a mulher do sonho.
A partir daí, comecei a lutar contra tudo aquilo. Quando sentia alguma presença, acendia as luzes. Quando sonhava alguma coisa estranha, tentava esquecer. Quando percebia alguém pelo canto dos olhos, não olhava novamente. Durante muito tempo, funcionou, ou pelo menos eu fingia que funcionava.
Na juventude, as aparições ficaram menos frequentes. Em compensação, comecei a sentir coisas antes que acontecessem. Uma noite, sonhei com uma estrada molhada e um carro parado, atravessado na pista. No sonho, alguém segurava meu braço e repetia: “Não vá.” Dias depois, eu tinha uma viagem marcada. Na manhã da viagem, senti o mesmo aperto que havia sentido no sonho. Desisti. Horas depois, soube de um acidente naquela estrada.
Aquilo deveria ter me deixado curioso. Não deixou. Deixou-me apavorado porque comecei a perceber que fechar os olhos não fazia aquilo desaparecer. Eu poderia evitar olhar para o corredor, poderia dormir com as luzes acesas, poderia fingir que meus sonhos não significavam nada, mas como eu fugiria de algo que acontecia dentro da minha própria cabeça? Durante anos carreguei esse medo em silêncio, até que algo começou lentamente a mudar.
Eu ainda não entendia o que acontecia comigo, mas já não era mais a criança que se escondia debaixo do cobertor. Com o tempo, eu comecei a me acostumar. Não aconteceu de uma hora para outra. Depois de tantos anos, percebi que nem todas aquelas presenças pareciam querer me assustar. Algumas simplesmente estavam ali.

Foi quando comecei a observar em vez de correr. Certa vez, já adulto, acordei durante a madrugada e vi uma mulher sentada em uma cadeira perto da janela. Meu primeiro impulso foi levantar rapidamente, mas fiquei parado. Ela parecia uma senhora idosa. Não conseguia distinguir perfeitamente seus traços, mas percebia sua cabeça baixa e as mãos sobre o colo. Ela não se aproximou, não falou comigo. Depois de alguns segundos, simplesmente não estava mais ali. Eu fiquei assustado, mas não corri.
Naquela madrugada, percebi que alguma coisa havia mudado em mim. Eu estava começando a conviver com aquilo. Passei então a prestar atenção em padrões. Algumas casas me causavam um desconforto imediato. Perto de determinadas pessoas, eu sentia uma tristeza que desaparecia assim que me afastava. Às vezes um nome surgia na minha cabeça sem motivo. Outras vezes eu sonhava com alguém que não via havia anos e poucos dias depois recebia notícias daquela pessoa.
Mas eu ainda não chamava aquilo de mediunidade. Eu nem queria. Preferia dizer que tinha uma sensibilidade estranha. Minha família já sabia que algumas coisas aconteciam comigo, mas evitávamos conversar sobre isso. A vida seguiu. Trabalhei, construí minha rotina, tive problemas comuns como qualquer outra pessoa. E durante alguns anos achei que finalmente havia encontrado uma maneira de conviver com aquilo sem deixar que dominasse minha vida.
Então, minha mãe morreu. Nada do que eu havia vivido me preparou para aquilo. Depois do enterro, voltei para casa e encontrei um silêncio diferente de todos os outros. Eu havia passado a infância com medo de encontrar alguém que não deveria estar ali. Agora eu entrava nos cômodos, desejando encontrar justamente alguém que não estava mais.
Nos primeiros dias não aconteceu nada. Depois comecei a sentir o perfume dela. Era sempre rápido. Eu entrava em determinado cômodo e aquele cheiro surgia, então desaparecia. Uma noite ouvi um ruído vindo da cozinha. Era o som de uma xícara sendo colocada sobre a mesa. Eu conhecia aquele som. Minha mãe fazia aquilo todas as manhãs. Fui até lá. Não havia ninguém. Mas uma xícara que estava guardada aparecia sobre a mesa. Eu fiquei olhando para ela.
Pela primeira vez, uma experiência que durante toda a minha vida havia provocado medo despertou outra coisa: saudade. E foi justamente quando deixei de ter medo que aconteceu algo muito maior.
Algumas semanas depois da morte da minha mãe, tive um sonho diferente de todos os outros. Eu sabia que estava sonhando, mas tudo parecia real. Minha mãe estava sentada diante de mim. Não parecia doente, não parecia triste. Eu tentei abraçá-la. Ela segurou minhas mãos e disse que não tinha muito tempo. Então falou algo que me deixou confuso. Pediu que eu procurasse uma caixa que estava guardada atrás de roupas antigas. Disse também um nome. Eu não conhecia aquele nome.
Quando acordei, ainda conseguia lembrar de cada palavra. Fui até onde ela havia indicado. Afastei algumas roupas, havia uma caixa. Eu nunca tinha visto aquilo. Dentro dela encontrei fotografias, documentos antigos e uma carta. Na carta estava o nome que minha mãe havia dito no sonho. Senti minhas pernas enfraquecerem. Sentei no chão. Aquilo era diferente de enxergar uma sombra, diferente de ouvir passos, diferente de sentir alguém perto de mim. Eu havia recebido uma informação e a informação estava correta.
Levei a caixa para uma pessoa da família. Antes que eu contasse sobre o sonho, ela me perguntou onde eu havia encontrado aquilo. Expliquei apenas o local. Então veio outro detalhe. Ela me contou que dias antes havia acordado durante a madrugada sentindo o perfume da minha mãe. Eu não tinha contado a ninguém sobre o perfume.
Foi naquele momento que percebi que não conseguiria continuar fazendo o que havia feito durante décadas. Eu precisava entender. Alguém me falou sobre um centro espírita. Minha primeira reação foi recusar. Eu ainda carregava aquele medo antigo. Parte de mim pensava que estudar aquilo poderia fazer as experiências aumentarem, mas acabei indo.
Entrei esperando encontrar pessoas falando de aparições e fenômenos. Encontrei algo diferente. Ouvi sobre mediunidade, sobre continuidade da vida, sobre diferentes formas de percepção e ouvi uma coisa que ficou comigo: sentir medo não significava que eu precisava viver fugindo. Comecei a compreender que dentro da visão espírita nem toda a percepção acontece da mesma forma. Algumas pessoas relatam sonhos, outras intuições, outras dizem perceber presenças e algumas experiências podem ter explicações completamente comuns. Eu não precisava transformar tudo em manifestação, mas também não precisava continuar fingindo que nada havia acontecido comigo depois de tantos anos.
Finalmente consegui dizer uma frase que eu evitava desde criança: talvez eu fosse médium. Aceitar essa possibilidade não fez minhas experiências desaparecerem. O que desapareceu aos poucos foi o pânico. Eu comecei a estudar. Pela primeira vez aquelas experiências deixaram de ser monstros escondidos no corredor e passaram a ser perguntas que eu conseguia enfrentar.
Aprendi sobre reencarnação, sobre livre arbítrio, sobre causa e efeito, sobre a ideia de que a consciência poderia continuar depois da morte física e, principalmente, sobre responsabilidade. Eu havia passado anos pensando que mediunidade significava enxergar mortos. Comecei a compreender algo muito diferente. Se eu realmente possuía algum tipo de sensibilidade, isso não me tornava especial, não me tornava melhor e certamente não significava que tudo que eu sentisse estivesse correto.
Foi nessa época que vivi uma experiência que mostrou o quanto eu havia mudado. Acordei certa madrugada e percebi alguém parado próximo à porta. Décadas antes eu teria gritado. Dessa vez permaneci olhando. Era a figura de um homem. Ele parecia confuso. Não se aproximou, não falou. Eu senti medo, mas era um medo controlável. Fechei os olhos por alguns segundos. Quando abri, não havia mais ninguém. Na manhã seguinte, continuei minha rotina. Aquilo teria sido impossível para o menino inocente.
Foi então que percebi que aprender a conviver com minha sensibilidade não significava procurar fenômenos. Na verdade, comecei a fazer justamente o contrário. Parei de procurar sinais. Não tentava chamar minha mãe. Não queria provocar experiências. Não queria transformar minha vida em uma investigação permanente do mundo espiritual. Se existe outra dimensão da existência, pensei, eu chegaria a ela no momento certo. Enquanto estivesse aqui, tinha responsabilidades aqui.
Essa compreensão mudou também minha relação com o passado. Durante anos, eu havia perguntado por que aquilo acontecia comigo. Depois comecei a fazer outra pergunta: o que eu faria com aquilo? Eu poderia continuar alimentando medo, poderia transformar cada experiência em espetáculo, ou poderia simplesmente reconhecer meus limites e continuar aprendendo. Escolhi a terceira opção. Foi quando minha mediunidade deixou de parecer uma ameaça, não porque eu finalmente tivesse todas as respostas, mas porque aquilo já não controlava minha vida.
E ironicamente, foi depois de perder o medo que vivi uma das experiências mais emocionantes de todas. Eu já era muito mais velho quando acordei certa madrugada sentindo alguém tocar meu ombro. Não foi um toque forte, foi delicado, familiar. Abri os olhos. Não havia ninguém ao meu lado, então senti o perfume, o perfume da minha mãe.
Fiquei imóvel. Depois ouvi meu nome, Justino. Uma única vez, a voz parecia vir de perto. Décadas antes, eu teria acendido todas as luzes da casa. Naquela noite permaneci sentado. Meu coração acelerou, mas não de terror. Eu conhecia aquela sensação. Não tentei chamar por ela. Não pedi uma manifestação, apenas fiquei em silêncio.
Então pensei em uma coisa que minha mãe costumava dizer quando eu era pequeno. Uma frase simples, uma lembrança nossa, e sorri. Pouco depois, o perfume desapareceu. Eu não a vi. Não aconteceu mais nada. Mas naquela madrugada percebi a distância entre o homem que eu havia me tornado e o menino de antigamente.
Passei boa parte da infância aterrorizado. Tive medo do corredor, medo do escuro, medo de dormir, medo de enxergar alguém que ninguém mais enxergava. Depois passei anos tentando ignorar tudo. Quando isso não funcionou, tentei conviver e somente muito mais tarde decidi compreender. Hoje não digo que tenho respostas para tudo, mas também não preciso transformar minha história em uma sucessão de dúvidas. Algumas coisas aconteceram, eu as vivi, eu senti medo delas e elas mudaram minha vida.
O espiritismo me ajudou a encontrar uma forma de interpretar muitas dessas experiências sem precisar viver aterrorizado por elas. A ideia da continuidade da vida mudou principalmente minha maneira de lidar com a morte. Se existe algo depois daqui, então aqueles que partiram podem não ter sido apagados da existência. E isso também muda a maneira como olho para quem ainda está comigo.
Nossa comunidade provavelmente terá interpretações diferentes sobre minha história. Alguns já viveram situações parecidas, outros nunca passaram por nada semelhante. Alguns acreditarão que as experiências que relatei foram manifestações espirituais. Outros poderão enxergá-las de outra maneira, mas existe algo que independe da interpretação. Durante anos, o medo fez com que eu desejasse fugir de uma parte da minha própria vida. Quando finalmente parei de fugir, descobri que aquela história não precisava terminar no medo.
Talvez você também tenha uma lembrança que nunca contou para ninguém. Um sonho, uma voz, um perfume que apareceu quando não deveria, uma presença ou aquele instante em que você teve certeza de que alguém que já havia partido estava muito perto. Eu não posso dizer o que aconteceu com você, só posso contar o que aconteceu comigo.
E antes de terminar, eu quero agradecer de coração a todos vocês que permaneceram comigo até aqui, ouvindo a minha história. Depois de tudo o que vivi, existe uma pergunta que continua atravessando gerações. Vocês acreditam que existe vida após a morte? Contem nos comentários. Eu gostaria muito de conhecer as experiências e também a opinião de cada um de vocês.
Se me perguntarem qual é a minha resposta depois de tudo o que presenciei ao longo da minha vida, eu posso dizer com tranquilidade: “Eu acredito. Acredito que nossa existência não termina aqui. Acredito que os laços verdadeiros de amor são maiores do que a distância que a morte coloca entre nós.”
Muito obrigado por terem permanecido comigo até o final. Que todos vocês tenham muita luz em seus caminhos, muita paz em seus corações e força para enfrentar aquilo que a vida colocar diante de vocês. E que todos vocês e suas famílias sejam sempre abençoados por Deus.