PROCESSADA E CONDENADA NA REDE: A TRÁGICA SAGA DE “DUDA ENCRENCA”, A JOVEM QUE DESAFIOU O SUBMUNDO COM POSTAGENS E ACABOU NO TRIBUNAL DO CRIME DO GUARUJÁ
A ilusão de poder, a busca por uma identidade ostentativa no submundo digital e a falsa sensação de segurança que as redes sociais proporcionam transformaram a vida de mais uma jovem brasileira em um enredo de horror, dor e ruína. O que para Maria Eduarda Cordeiro da Silva, de apenas 20 anos — amplamente conhecida no ambiente virtual pelo vulgo provocativo de “Duda Encrenca” —, parecia uma brincadeira audaciosa de apologia e alianças simbólicas, converteu-se na sua própria sentença de morte em uma das regiões mais conflagradas do litoral paulista.
Natural do Paraná, nascida em uma família simples e criada sob os cuidados exaustivos de uma mãe trabalhadora, Duda trilhou o caminho da provocação. Através de fotos com rostos cobertos por balaclavas, exibição de armas de fogo, munições, drogas e o constante enaltecimento do Comando Vermelho (CV) em plataformas digitais, a jovem acreditou que a sua persona virtual a blindaria. Ela errou miseravelmente.
Ao mudar-se para o município do Guarujá, no litoral de São Paulo, e pisar em um território rigorosamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), Duda Encrenca viu o peso da realidade esmagar a ficção das redes sociais. Suas postagens foram capturadas, circularam em grupos de faccionados e motivaram uma caçada humana que culminou em sequestro, tortura física e psicológica no “Tribunal do Crime” e em uma execução sumária cujo corpo, até hoje, permanece oculto.
Abaixo, os detalhes perturbadores de uma investigação complexa conduzida pela Polícia Civil de Santos, as prisões dos envolvidos e a dor de uma mãe que suplica apenas pelo direito de enterrar a própria filha.
A CONSTRUÇÃO DE UMA PERSONA PERIGOSA: DE PARANAGUÁ ÀS REDES SOCIAIS

A história de Maria Eduarda desenrolou-se inicialmente em Paranaguá, importante cidade portuária do litoral paranaense. Sua mãe, Claudiele Natalie Cordeiro, enfrentou a maternidade ainda na adolescência e manteve uma rotina de dupla jornada para sustentar as filhas com dignidade, trabalhando como balconista.
Contudo, ainda na adolescência, Duda começou a se aproximar do submundo do crime. O envolvimento, que começou com a convivência em pontos vulneráveis da cidade, logo evoluiu para passagens policiais registradas por ato infracional análogo ao tráfico de drogas. À medida que crescia, a jovem passou a utilizar as redes sociais não apenas como forma de lazer, mas como uma vitrine de provocação.
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│ A ESCALADA DIGITAL DE "DUDA ENCRENCA" │
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│ • Registro Policial: Apreensão por tráfico ainda na adolescência. │
│ • Persona Virtual: Uso do apelido "Duda Encrenca" em perfis abertos.│
│ • Conteúdo Explícito: Fotos com armas, munições, balaclavas e drogas. │
│ • Apologia Faccionada:Sinais de mãos e siglas alusivas ao Comando Vermelho│
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Duda adotou o pseudônimo “Duda Encrenca”, do qual demonstrava orgulho. Em seus perfis, acumulavam-se registros em que ostentava cigarros de maconha, poses com armas de fogo e vídeos com músicas de apologia a facções criminosas. Em diversas ocasiões, a jovem fazia gestos com os dedos associados ao Comando Vermelho (CV) e publicava indiretas dirigidas a grupos rivais e às forças de segurança.
Apesar de não possuir uma função formal na hierarquia da organização, seu comportamento nas redes era o de alguém plenamente inserido na rotina do crime. Em novembro de 2024, aos 19 anos, Duda chegou a ser presa em flagrante em Pontal do Paraná após denúncias de comercialização de entorpecentes em uma residência. Na ocasião, alegou em depoimento que a droga apreendida pertencia a dois indivíduos falecidos e que não atuava mais no tráfico. Paralelamente, em suas redes sociais, mantinha publicações em que se autodenominava “mulher de preso”, fazendo referência à rotina de relacionamentos com homens custodiados no sistema prisional.
A MUDANÇA PARA O GUARUJÁ: A ARMADILHA EM TERRITÓRIO RIVAL
No segundo semestre de 2025, Maria Eduarda iniciou um relacionamento virtual com um jovem morador do Guarujá, no litoral paulista. O rapaz vivia em uma residência pertencente à sua irmã, localizada no bairro Morrinhos. Sem histórico de envolvimento criminal, o jovem convidou Duda para morar com ele.
Buscando o que mãe e familiares acreditavam ser um recomeço e o afastamento dos problemas no Paraná, Duda mudou-se para o Guarujá em outubro de 2025. Em conversas diárias com a mãe, relatava estar feliz e trabalhando como vendedora ambulante nas praias da região. A mãe, Claudiele, chegou a relatar em entrevistas que a filha estava grávida e tentando estruturar uma nova fase.
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│ A FRONTEIRA INVISÍVEL E O ERRO ESTRATÉGICO │
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│ • Origem da Vítima: Paraná (Histórico de alinhamento ao CV nas redes) │
│ • Novo Endereço: Guarujá / Baixada Santista (Domínio do PCC) │
│ • A Provocação: Apesar de morar no local, manteve postagens de CV │
│ • A Foto Crítica: Mesa com armas e munições formando a sigla "CV" │
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Entretanto, o comportamento virtual de Duda permaneceu inalterado. Mesmo residindo na Baixada Santista — região de forte influência e controle territorial do Primeiro Comando da Capital (PCC) —, a jovem continuou a publicar conteúdos em alusão à facção rival carioca.
O ponto de ruptura definitivo ocorreu quando Duda publicou a foto de uma mesa onde duas pistolas, um carregador e diversos projéteis estavam dispostos de forma a desenhar a sigla “CV”. A imagem circulou rapidamente e foi interpretada pelos integrantes da facção local como uma afronta direta e inaceitável.
O MONITORAMENTO E O SEQUESTRO NA MADRUGADA DE ANO NOVO
As imagens publicadas por Duda Encrenca chegaram às mãos de Alexandre Barros Neves, de 50 anos, apontado pelas investigações como integrante do PCC com funções de fiscalização e disciplina na região. Alexandre distribuiu o material em grupos de mensagens mantidos por faccionados, solicitando informações precisas sobre a localização da jovem.
Nas últimas horas de 2025, Duda e o namorado comemoravam o Réveillon na praia do Guarujá, fazendo registros fotográficos do evento. Faccionados que já acompanhavam suas redes identificaram o casal e passaram a monitorar seus passos em tempo real.
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│ A CRONOLOGIA DO SEQUESTRO E DO CRIME │
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│ 31/12/2025 — Réveillon: Duda e o namorado são identificados na praia. │
│ 02/01/2026 — Madrugada: Casal é rendido em um churrasco e colocado no │
│ porta-malas de um carro de aplicativo. │
│ 02/01/2026 — Manhã/Tarde:Interrogatório no "Tribunal do Crime". │
│ Namorado é liberado; Duda fica em cativeiro. │
│ 02/01/2026 — 16h40: Duda envia últimas fotos à mãe sob coação. │
│ 02/01/2026 — Noite: Ordem de execução cumprida a tiros. │
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Na madrugada de 2 de janeiro de 2026, o casal dirigiu-se a um churrasco na casa de conhecidos no Guarujá. Segundo a apuração da Polícia Civil, dois dos presentes no local facilitaram a ação dos criminosos, repassando a localização exata de Duda.
Pouco tempo depois, um veículo de aplicativo transportando homens armados com pistolas e facões invadiu o imóvel. Alexandre Barros Neves e seus comparsas renderam diretamente Duda e o namorado, ignorando os demais presentes. O casal foi colocado no porta-malas do veículo e transportado para um local isolado nas imediações da Vila Baiana.
O “TRIBUNAL DO CRIME” E O CATIVEIRO
No cativeiro temporário, Maria Eduarda e o companheiro foram submetidos a um intenso interrogatório que se estendeu por horas, acompanhado de violência física e psicológica. Os faccionados buscavam determinar a profundidade do vínculo de Duda com o Comando Vermelho.
Conforme apontado pela 3ª Delegacia de Homicídios da DEIC de Santos, a liderança responsável por deliberar a sentença foi André Santos de Araújo, de 40 anos, conhecido pelo vulgo de “Da Sete”. Dentro da estrutura da facção na Baixada Santista, “Da Sete” exercia o papel de “juiz” do Tribunal do Crime, cabendo a ele determinar a execução ou liberação de detidos.
Ao constatarem que o namorado de Duda não possuía qualquer envolvimento com facções criminosas ou histórico no submundo, os integrantes do PCC optaram por liberá-lo, ordenando que deixasse a região imediatamente. Duda Encrenca, contudo, permaneceu sob poder dos criminosos em cárcere privado.
Por volta das 16h40 do dia 2 de janeiro, Claudiele recebeu as últimas mensagens da filha. Duda enviou fotos da comemoração do Ano Novo e afirmou que estava bem. A linha investigativa aponta que a própria jovem foi forçada pelos captores a enviar o material para evitar que a família acionasse a polícia prematuramente.
Segundo o inquérito policial, a ordem final de execução foi emitida no fim daquele dia. A tarefa foi atribuída a Anthony Francisco Dias Moreira, conhecido como “Pit”, apontado como operador de um laboratório clandestino de refino de drogas do PCC no Guarujá. Duda foi executada a tiros e seu corpo foi ocultado em um cemitério clandestino da região.
A PISTA FALSA E A INVESTIGAÇÃO DA DEIC
Após o crime, os envolvidos tentaram criar uma cortina de fumaça para enganar o trabalho da polícia. Um casal que esteve no churrasco foi até a residência de Duda e retirou seus pertences pessoais para dificultar as buscas.
Em 3 de janeiro de 2026, parte do grupo contratou um motorista de aplicativo para levá-los ao estado do Paraná. Um dos passageiros embarcou portando o telefone celular de Duda. O objetivo era fazer com que o aparelho emitisse sinais de GPS ao longo da rodovia, sugerindo às autoridades que a jovem havia retornado voluntariamente ao seu estado de origem.
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│ AS PROVAS E A ENGENHARIA DA POLÍCIA │
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│ • Rastreamento do Celular: Sinal emitido na viagem ao PR entregou o motorista.│
│ • Depoimento do Namorado: Confirmou o julgamento e o cativeiro à mãe. │
│ • Análise Digital: Mapeamento das mensagens e fotos que motivaram o crime.│
│ • Material Apreendido: Disparos, armas e confissões de envolvidos. │
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Entretanto, a mãe de Duda, sem conseguir contato direto com a filha, recebeu mensagens da irmã do namorado da jovem informando sobre o sequestro. Claudiele registrou um boletim de ocorrência eletrônico. No dia 5 de janeiro, o namorado de Duda entrou em contato com a mãe da jovem e revelou que ambos haviam sido julgados pelo PCC, confirmando que ele fora liberado, mas que o veredito de Duda havia sido a morte. Temendo retaliações, o rapaz fugiu e não foi mais localizado pelas autoridades para prestar depoimento formal.
A 3ª Delegacia de Homicídios da DEIC de Santos assumiu as investigações sob a liderança do delegado Thiago Nemi Bonametti. O rastreamento do celular de Duda levou a polícia ao motorista de aplicativo que realizara a viagem ao Paraná. A partir da análise do comportamento digital da vítima e do cruzamento de depoimentos na comunidade, a Polícia Civil identificou a cadeia de envolvidos.
A SÉRIE DE PRISÕES E O DESMANTELAMENTO DO LABORATÓRIO
Em 19 de fevereiro de 2026, a Polícia Civil cumpriu os primeiros mandados de prisão preventiva. Foram detidos:
Anthony Francisco Dias Moreira (“Pit”): Apontado como o executor de Maria Eduarda.
O Motorista de Aplicativo: Acusado de prestar apoio logístico e utilizar o celular da vítima para criar a pista falsa.
O Casal do Churrasco: Indiciado por colaborar com a facção ao indicar a localização de Duda e retirar seus pertences da casa.
Em prosseguimento às diligências, no dia 14 de abril de 2026, a polícia estourou o laboratório de drogas administrado por “Pit” no Guarujá. O imóvel de dois andares abrigava um fuzil, vasta quantidade de entorpecentes e insumos químicos de alto risco explosivo em área residencial.
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│ RÉUS E INTEGRANTES PRESO PELA POLÍCIA │
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│ • Anthony Francisco Dias Moreira ("Pit") ➜ Apontado como executor. │
│ • Alexandre Barros Neves ➜ Responsável pelo sequestro. │
│ • André Santos de Araújo ("Da Sete") ➜ Liderança e "juiz" do PCC. │
│ • Apoio Logístico e Articuladores ➜ Casal do churrasco e motorista.│
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Em 24 de abril, a Polícia Militar prendeu Alexandre Barros Neves, o responsável por capturar as fotos digitais de Duda e organizar o sequestro. Finalmente, em 22 de maio de 2026, as equipes capturaram André Santos de Araújo, o “Da Sete”, em sua residência na Vila Zilda, no Guarujá. Ao ser abordado, o criminoso tentou destruir seu aparelho celular, que foi apreendido e encaminhado à perícia.
Durante as investigações, um síndico local chegou a ser detido temporariamente devido a uma transferência via Pix de R$ 30 destinada a um dos investigados, mas sua prisão foi revogada em 1º de junho após a confirmação da identidade do verdadeiro líder (“Da Sete”).
O CORPO AUSENTE E A ANÚNCIA PERMANENTE
Apesar das prisões e das confissões informais de alguns dos detidos de que executaram Maria Eduarda Cordeiro da Silva, nenhum dos réus revelou a localização exata do cadáver. A Polícia Civil concluiu o inquérito indiciando os acusados por homicídio qualificado, sequestro, tortura, ocultação de cadáver e organização criminosa. Todos permanecem custodiados aguardando julgamento.
Para a mãe de Duda, a conclusão formal do inquérito não traz o encerramento do luto. Claudiele segue apelando às autoridades e à comunidade para que o corpo da filha seja localizado, permitindo-lhe realizar o sepultamento.
“Para as pessoas nas redes sociais, ela era a ‘Duda Encrenca’. Mas para mim, ela é a minha filha. Viver sem saber onde o corpo dela foi deixado é uma dor enlouquecedora. Eu só quero o direito de dar um enterro digno para a minha filha”, desabafou a mãe.
O caso de Maria Eduarda Cordeiro da Silva permanece como um alerta grave sobre os riscos da glorificação da cultura do crime no ambiente virtual. A busca por visibilidade e a ostentação de símbolos de organizações criminosas nas redes sociais não representam poder, mas sim uma exposição fatal em um cenário onde a violência não tolera ficção.