EXCLUSIVO: “EU VOU ATÉ O INFERNO, MAS BUSCO ELE HOJE”: A TRAMA MACABRA, A TORTURA E O CRIME QUE DESMASCAROU UM EX-PRESIDENTE DA OAB
O que separa a obsessão doentia de um homem da destruição completa de uma família? No caso do pequeno Gustavo Veloso, de apenas três anos de idade, essa linha foi cruzada em um final de semana marcado por terror, dissimulação perversa e uma barbárie que estarreceu até os legistas mais experientes da polícia científica brasileira.
A tragédia que culminou na morte brutal do menino não começou no sábado em que ele foi entregue aos braços do próprio pai; ela foi gestada ao longo de meses de ameaças, disputas judiciais ferrenhas e um ódio cego nutrido pelo advogado Igor Gustavo — ex-presidente do Tribunal de Ética e Disciplina (TED) da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no estado do Tocantins. Sob o verniz de uma figura respeitável da elite jurídica local, escondia-se, segundo as investigações, o arquiteto de um dos crimes mais revoltantes e chocantes da história recente do país.
A profecia do horror: “Ele pode estar no inferno, que eu vou buscar”

O sábado que antecedeu o crime foi marcado por um clima de tensão sufocante. A mãe do garoto, a jovem Sabrina, estava trabalhando em outro município quando recebeu uma série de investidas e mensagens intimidadoras do ex-companheiro exigindo a visitação do filho.
Conhecendo a escalada de agressividade de Igor e percebendo o pavor que o menino demonstrava a cada aproximação do pai, Sabrina tentou adiar o encontro. A resposta do advogado, gravada nos autos da investigação, soou como uma sentença sinistra:
“Sabrina, eu vou até o inferno, mas eu vou buscar o Gustavo hoje. Eu vou pegar o Gustavo hoje. Você me diz onde ele tá, que ele pode estar no inferno que eu vou lá buscar ele.”
A declaração inflexível, dita com uma frieza calculada, revelava que ter a criança sob seu teto naquele final de semana não era uma questão de afeto paterno, mas uma imposição de domínio absoluto. O que a mãe jamais poderia imaginar é que, ao ceder à força da pressão e às imposições legais das regras de convivência, estaria entregando o pequeno Gustavo diretamente para as mãos de seu algoz.
O vídeo que corta a alma: o pavor documentado da criança
Um dos elementos mais dilacerantes anexados ao inquérito policial é um arquivo de vídeo gravado por Sabrina momentos antes de entregar o menino. Nas imagens estarrecedoras, Gustavo aparece chorando copiosamente, tremendo e implorando para não ir à residência paterna.
Quando o vídeo começou a circular, vozes precipitadas na internet tentaram questionar a postura da mãe ao expor o sofrimento do filho. No entanto, a assistência de acusação, liderada pela advogada Dra. Estela Bueno, desfez qualquer dúvida: aquele registro audiovisual não era exposição; era um grito desesperado de socorro processual.
Vivendo sob o jugo de mensagens autodestrutivas e de visualização única enviadas por Igor, e desprovida de provas periciais para convencer juízes de que o regime de convivência precisava ser imediatamente suspenso, Sabrina vinha sendo orientada a documentar tudo.
Todas as vezes que Gustavo retornava da casa do pai, apresentava sinais alarmantes: hematomas espalhados pelo corpo, manchas roxas inexplicáveis, arranhões e frequentes episódios de vômito por estresse extremo. Do outro lado, o advogado usava sua retórica refinada para desqualificar as suspeitas, inventando histórias convenientes de que o menino havia se machucado brincando no sítio, caído no mato ou comido alimentos inadequados.
Ao receber o vídeo do filho em desespero naquele sábado, Igor não demonstrou compaixão. Pelo contrário: debochou da situação, afirmou que o choro era fruto de “mimo” materno e garantiu que na casa dele a criança aprenderia o que era “disciplina”.
A farsa do afogamento e a limpeza minuciosa da cena
Na tarde de segunda-feira, por volta das 16h30, Igor Gustavo rompeu o silêncio acionando socorro e sustentando uma narrativa conveniente: o filho teria sido vítima de um trágico e fatídico afogamento acidental na piscina de sua casa. O pai alegou que retirou a criança da água, prestou os primeiros socorros, observou uma suposta melhora e deixou o garoto descansar, encontrando-o sem vida apenas na manhã seguinte.
A versão teatral montada pelo advogado, contudo, começou a se despedaçar nos primeiros minutos de intervenção das equipes periciais e da Polícia Civil.
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Ausência total de água nos pulmões: O exame de necropsia revelou que não havia uma única gota de líquido no sistema respiratório de Gustavo, sepultando de imediato qualquer hipótese de asfixia por submersão.
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Higienização química da residência: A perícia técnica com reagentes de luminol constatou que cômodos inteiros haviam passado por uma faxina minuciosa para apagar poças de sangue, respingos e outros fluidos biológicos.
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Tempo real da morte: Para o espanto generalizado das autoridades, os peritos comprovaram que o menino já estava morto há mais de 20 horas antes de qualquer ligação ser feita para a polícia ou para o serviço de emergência.
20 horas de convivência com um corpo sem vida
Os passos de Igor Gustavo após o espancamento fatal expõem uma mentalidade de assustadora frieza. Enquanto o menino já se encontrava inerte e sem sinais vitais no quarto, o agressor procedeu a um ritual macabro de encenação.
Ele deu banho no cadáver do próprio filho para retirar resquícios de fluidos, vestiu roupas limpas no menino, colocou-lhe uma fralda nova e o deitou cuidadosamente sob os lençóis de uma cama, arrumando os travesseiros para simular uma cena de sono profundo e angelical.
Na manhã de segunda-feira, para garantir que ninguém desconfiasse da tragédia que jazia naquele quarto fechado, a babá da residência — que cuidava do outro filho de Igor — foi abordada pelo patrão logo na porta de entrada. Com naturalidade desconcertante, ele dispensou os serviços da funcionária daquele dia, impedindo-a terminantemente de pisar na casa ou de se aproximar do quarto onde o corpo de Gustavo estava ocultado.
O laudo da necropsia: a anatomia da barbárie
Se a postura pós-crime chocou os policiais, o laudo emitido pelo Instituto Médico Legal (IML) produziu um impacto devastador. O documento descreve um cenário de violência física inominável, que afastou qualquer possibilidade de agressão acidental ou impulso momentâneo de fúria.
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Causa mortis: Choque neurogênico e choque hemorrágico provocados por traumatismo cranioencefálico maciço associado a perfurações nos órgãos internos da cavidade abdominal.
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Sinais de tortura prolongada: O corpo da criança apresentava dezenas de lesões contundentes em múltiplos estágios de evolução na cabeça, tronco, abdômen e membros, revelando uma sequência contínua de espancamentos.
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Abusos gravíssimos: Os peritos atestaram que o menino apresentava lacerações viscerais profundas e traumatismos compatíveis com agressões e violência de natureza extrema praticadas enquanto a vítima ainda agonizava em vida.
Nas palavras técnicas dos médicos legistas, a vítima foi submetida a um sofrimento físico e psíquico descomunal, configurando emprego de tortura explícita, crueldade deliberada e impossibilidade absoluta de defesa.
A gênese da vingança: o perfil de um predador narcisista
Para os investigadores e especialistas forenses, o caso não é um homicídio comum, mas um exemplo emblemático e tenebroso de vicaricídio — quando o abusador assassina o próprio filho com a intenção principal de destruir psicologicamente a mãe, aplicando-lhe uma tortura existencial da qual ela jamais conseguirá se recuperar.
A derrocada e o rancor de Igor Gustavo tinham raízes bem definidas. Homem acostumado ao poder e à influência nos círculos da advocacia no Tocantins, ele ocupou postos de prestígio até meados de 2023, quando denúncias severas de agressões, assédio e ameaças contra Sabrina vieram à tona. Ao contrário de ex-companheiras que silenciaram perante o medo, Sabrina buscou o Poder Judiciário:
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Conseguiu Medidas Protetivas de Urgência contra o advogado;
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Moveu processos de cobrança de pensão alimentícia;
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Batalhou pela fixação de guarda unilateral do filho.
A exposição das denúncias provocou a queda de Igor, que foi sumariamente afastado da presidência do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB. A perda de status social, o declínio do prestígio financeiro e o sentimento ferido de onipotência transformaram-se em um plano de vingança direcionado a Sabrina. Tirar Gustavo da mãe era, para ele, a aniquilação definitiva de sua rival.
A cumplicidade do silêncio: a conduta da madrasta
As atenções da Polícia Civil e do Ministério Público voltam-se agora com intensidade sobre a figura de Kathleene Moreira, a madrasta de Gustavo.
Kathleene estava presente no imóvel durante todo o final de semana. Ela permaneceu sob o mesmo teto enquanto a criança era submetida a agressões cruéis e manteve-se em completo silêncio durante as quase 24 horas em que o corpo do garoto permaneceu inanimado no quarto ao lado. Em nenhum instante acionou ambulâncias, buscou a polícia ou prestou auxílio à vítima.
Juristas que acompanham o caso apontam que a convivência pacífica com a tortura e a ocultação de um cadáver configuram omissão penalmente relevante. Enquanto Igor responde formalmente por homicídio triplamente qualificado, tortura e fraude processual (pela alteração intencional do local do crime), Kathleene é investigada a fundo como partícipe e cúmplice das atrocidades.
A defesa da mãe da criança também repudiou declarações iniciais infelizes de terceiros que tentaram cogitar a responsabilização de Sabrina por entregar o menino:
“Sabrina é a maior vítima dessa cadeia de violências. Ela estava munida de medidas protetivas, cumpriu ordens judiciais sob pena de ser acusada de desobediência e buscou socorro incansavelmente. Transformar a mãe em suspeita é praticar uma revitimização institucional covarde”, pontuou a advogada Estela Bueno.
O clamor por justiça e a urgência de reformas
O inquérito policial chega à sua conclusão final sem deixar margem para dúvidas. A denúncia do Ministério Público encaminhará Igor Gustavo para o banco dos réus no Tribunal do Júri, onde sete cidadãos decidirão o futuro daquele que usou o conhecimento das leis para praticar uma barbaridade clandestina. A promotoria exige que o réu permaneça em regime de prisão preventiva estrita até o dia do julgamento.
Além da condenação exemplar, o assassinato de Gustavo Veloso acendeu uma mobilização nacional sem precedentes em Brasília e nos tribunais de família do Brasil. Movimentos sociais e juristas cobram a reformulação imediata das leis que regem a custódia infantil em lares violentos: a regra proposta é que a concessão de medidas protetivas em prol da genitora deve acarretar, de forma automática e preventiva, a suspensão imediata de visitas desacompanhadas por parte do genitor agressor.
Enquanto as engrenagens da Justiça se movimentam, Sabrina segue amparada por apoio médico e psicológico, vivendo o luto impossível de carregar. A voz e o sorriso de Gustavo calaram-se precocemente aos três anos de idade, mas a história de sua curta existência tornou-se o mais estarrecedor libelo contra a cegueira institucional e a impunidade dos que usam o poder para destruir a inocência.
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