EXCLUSIVO: “ELES ACHAVAM QUE ESTARIAM LIVRES PARA SEMPRE, MAS A CASA CAIU DE VEZ”
A rendição cinematográfica do sobrinho foragido, a prisão do ex-bombeiro e os bastidores assombrosos do inquérito que desvendou a execução da cozinheira Berenice Ramos em Ubatuba
O litoral norte do estado de São Paulo tornou-se o epicentro de uma das investigações criminais mais estarrecedoras e rumorosas dos últimos tempos. O que começou sob o disfarce burocrático de um simples boletim de ocorrência por desaparecimento desmoronou em poucas semanas, dando lugar a uma trama visceral de ódio, ganância, sequestro e sangue frio. A pacata rotina de Ubatuba foi rasgada pela revelação de que a cozinheira Berenice Ramos de Aguiar Faria, de 60 anos — uma trabalhadora incansável e querida pela comunidade —, não havia sumido por vontade própria. Ela foi friamente silenciada, vítima de um plano macabro orquestrado por pessoas com quem dividia o cotidiano. Com a conclusão oficial do inquérito pela Polícia Civil, a soberba dos envolvidos ruiu por completo: as prisões preventivas foram cumpridas, as mentiras caíram por terra e a justiça começou a fechar o cerco contra um trio que acreditava na impunidade absoluta.
O cerco se fecha: a fuga desesperada e a rendição nas sombras de Ubatubirim

A cartada final contra a quadrilha ocorreu com a prisão de Magno Santos Neri Barbosa, amplamente conhecido pela alcunha de Nei. Ele é sobrinho direto de Eliane, a ex-patroa de Berenice apontada pelo inquérito policial como a mentora intelectual do assassinato. Nei era a última peça solta do quebra-cabeça e encontrava-se foragido desde que as ordens judiciais de prisão preventiva foram emitidas.
Encurralado como uma fera, o acusado buscou refúgio na densa e inóspita mata atlântica do sertão de Ubatubirim. Ali, montou uma base clandestina e precária, contando com uma rede clandestina de familiares que lhe forneciam mantimentos, água e informações sobre as investidas policiais. Contudo, o cerco tático montado pelas forças de segurança transformou seu esconderijo em uma verdadeira ratoeira. Sabendo que equipes de inteligência e cães farejadores estavam a poucos metros de seu rastro e que a captura pela força era iminente, Nei não teve outra escolha a não ser negociar uma rendição estratégica.
Acompanhado por seu advogado de defesa, o foragido apresentou-se na sede da delegacia. Testemunhas que presenciaram a sua chegada relataram um misto de revolta e estarrecimento: Nei caminhava com olhar altivo, demonstrando uma frieza estarrecedora que contrastava violentamente com a dor da família enlutada da vítima. A algema que estalou em seus pulsos selou o fim da caçada humana e encerrou, de maneira definitiva, a fuga daqueles que transformaram o paraíso litorâneo em um cenário de filme de terror.
O amante de farda: perícia destrói farsa do bombeiro militar
A derrocada de Nei é apenas o desdobramento da prisão de outra figura central da trama: Irimar Castilho, bombeiro militar reformado e amante de Eliane. Longe de ser um mero espectador ou cúmplice por omissão, Irimar assumiu o papel de operador logístico do crime, abusando de sua experiência funcional para tentar forjar um álibi perfeito e apagar as digitais da morte.
Foi Irimar quem assumiu a direção da caminhonete utilizada no crime logo após a execução sumária da cozinheira. Demonstrando um cinismo desconcertante, o ex-militar levou o veículo até uma oficina de funilaria e pintura da região com um pretexto absurdo: alegou aos mecânicos que a perfuração de projétil de arma de fogo na lataria e no estofamento decorria de um “tiro acidental durante a limpeza de uma arma”.
A farsa, no entanto, desintegrou-se diante do trabalho minucioso dos peritos do Instituto de Criminalística. Com o auxílio de reagentes químicos de última geração, como o Luminol, a polícia encontrou vestígios expressivos de sangue humano que haviam penetrado as camadas profundas do tecido dos bancos e as frestas do assoalho do veículo.
Além disso, o cruzamento de dados telemáticos e a quebra do sigilo telefônico expuseram o rastro digital dos aparelhos celulares de Irimar, Eliane e Nei. As antenas de telefonia (ERBs) e os registros de GPS desmentiram todas as declarações prestadas em depoimento, provando que os três aparelhos viajaram juntos, na mesma velocidade e na mesma rota exata percorrida pela caminhonete no dia em que Berenice deu seu último suspiro.
Do acerto de contas ao sequestro: o estopim de uma tragédia anunciada
Para compreender a selvageria deste crime, é preciso revisitar as circunstâncias que transformaram um conflito estritamente trabalhista em um caso de homicídio triplamente qualificado. Berenice Ramos morava em uma pequena kitnet localizada nos fundos do restaurante de Eliane, onde trabalhava diariamente na cozinha preparando refeições sob calor escaldante e jornadas exaustivas.
Cansada das promessas não cumpridas e sentindo-se desvalorizada, a trabalhadora procurou um advogado para calcular o montante devido referente aos anos de serviços prestados e às suas verbas rescisórias. Com os cálculos em mãos, Berenice decidiu exigir o que lhe pertencia por direito legítimo.
A reação de Eliane foi imediata, desproporcional e violenta. Tomada pela cólera, a dona do estabelecimento ordenou que a funcionária juntasse suas coisas imediatamente e desocupasse o imóvel. Berenice recusou-se a sair sem o pagamento acordado. A discussão acalorada atraiu a atenção de vizinhos e testemunhas que ouviram ameaças veladas e insultos estrondosos.
Foi nesse momento que a emboscada se consolidou. Nei, instruído pela tia e auxiliado pelo clima de hostilidade generalizada, avançou violentamente contra a idosa. Usando sua compleição física, o jovem dominou a trabalhadora por meio de uma chave de braço, tapando-lhe a boca para abafar os seus gritos lancinantes de socorro. Berenice foi jogada brutalmente contra o assoalho do veículo e imobilizada enquanto a caminhonete arrancava em alta velocidade, deixando para trás um rastro de poeira e perplexidade entre as testemunhas que presenciaram a cena sem conseguir intervir a tempo.
Pânico na cabine: o disparo fatal e a rota do terror rumo ao precipício
Os minutos que se seguiram ao sequestro relâmpago foram marcados por pura agonia e desespero. Confinada no espaço exíguo do veículo em alta velocidade, ferida e em pânico, Berenice não se curvou: ela continuou a debater-se e a confrontar os sequestradores, suplicando por sua libertação e avisando que a polícia já estaria à procura do grupo.
A postura altiva da vítima despertou a fúria descontrolada de Eliane. Em meio aos gritos e à instabilidade do carro na rodovia, a mandante sacou uma arma de fogo de uso restrito. Berenice ainda tentou lutar por sua sobrevivência com as próprias mãos, tentando desviar o cano da arma, mas a curta distância selou seu destino: um estampido ecoou violentamente no interior da cabine. O projétil perfurou o abdômen da trabalhadora, provocando intensa hemorragia interna e externa.
Com a vítima ferida de morte e agonizando no banco de trás, o trio enfrentou um dilema crucial. Qualquer resquício de humanidade exigiria uma parada de emergência no primeiro pronto-socorro ao longo da rodovia. No entanto, o trio optou pela barbárie deliberada. Com medo da prisão em flagrante e do peso de um processo criminal, os três conspiradores concordaram que Berenice não poderia sair viva daquela caminhonete.
Ignorando os estertores da vítima, o ex-bombeiro Irimar assumiu a rota e acelerou em direção à divisa estadual, subindo os trechos mais escarpados e desertos da serra em direção a Angra dos Reis. O objetivo era apenas um: encontrar um abismo impenetrável onde o corpo da cozinheira pudesse desaparecer para sempre nas entranhas da mata atlântica.
O abismo da impunidade: o descarte macabro e a limpeza química
Ao atingirem uma das curvas mais ermas e perigosas da rodovia montanhosa, cercada por precipícios verticais de dezenas de metros, a caminhonete parou no acostamento sob a proteção da escuridão. O local havia sido escolhido a dedo pela sua topografia inacessível: um penhasco onde as chances de localização fortuita de restos mortais eram praticamente nulas.
Com a cozinheira já sem sinais vitais ou à beira do desfalecimento final, coube aos dois homens do grupo a tarefa mais física e perversa. Irimar e Nei retiraram o corpo inerte da vítima do veículo e o arremessaram sem qualquer hesitação rumo ao fundo da garganta da serra, observando o corpo rolar até sumir sob a densa folhagem das árvores centenárias.
Acreditando que o penhasco guardaria o segredo para sempre, o comboio da morte retornou para o litoral paulista com um protocolo meticuloso de ocultação:
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Lavagem pesada do veículo: a caminhonete foi submetida a banhos sucessivos com ácidos e solventes industriais para queimar qualquer mancha de sangue e fragmento biológico da vítima;
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Ocultação de placas e peças: as placas foram retiradas e peças internas danificadas por respingos foram trocadas;
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Construção de álibis falsos: os envolvidos alinharam narrativas mentirosas para prestar esclarecimentos formais, ensaiando discursos de inocência fingida caso fossem intimados.
Eles estavam convictos de que haviam planejado e executado o crime perfeito. No entanto, subestimaram a obstinação dos investigadores de polícia e a tecnologia forense.
A vitória da perícia, o Tribunal do Júri e a sede coletiva por justiça
A elucidação deste caso representa uma vitória categórica da investigação científica e da cooperação policial. Conduzida estrategicamente com apoio da delegacia regional de São Sebastião e forças operacionais especializadas, a apuração isolou o inquérito de ruídos externos — como disputas locais de posse de terras e ameaças que circundam os envolvidos — para construir uma blindagem técnica inabalável.
Os laudos periciais de balística, DNA, reconstituição em 3D da dinâmica do tiro e geolocalização dos sinais telefônicos transformaram as versões dos suspeitos em um amontoado de contradições grosseiras. O Ministério Público do Estado de São Paulo agora avança com a denúncia formal que levará Eliane, o ex-bombeiro Irimar e o sobrinho Nei ao banco dos réus perante o veredito popular do Tribunal do Júri.
O trio responderá por homicídio qualificado por motivo fútil, meio cruel, emboscada com impossibilidade de defesa da vítima, além dos crimes conexos de sequestro, cárcere privado, porte ilegal de arma e fraude processual com ocultação de cadáver.
A execução fria de Berenice Ramos transcende as páginas policiais de Ubatuba: tornou-se um clamor público por firmeza judiciária e pelo fim da sensação crônica de impunidade contra os mais vulneráveis. Aqueles que julgavam poder descartar uma vida humana do alto de um penhasco agora encaram os limites estreitos das celas prisionais do sistema penitenciário paulista, onde esperarão pelo julgamento rigoroso da história e da Justiça.