“AQUELE BURACO ERA CLARAMENTE DE TIRO!”: O DEPOIMENTO BOMBA DO FUNILEIRO QUE DESTRUIU A FARSA DA PATROA ELIANE NO CASO BERENICE E PROVOU A EXECUÇÃO DENTRO DA PICAPE
A máscara de frieza, arrogância e impunidade que sustentava o império da empresária Eliane Alves dos Santos desmoronou de maneira definitiva e estrondosa. Apelidada no Litoral Norte paulista como a “Coronel de Ubatumirim”, a mulher que comandava negócios com mão de ferro e ostentava armas pesadas agora se vê cercada pela ciência forense e por testemunhos estarrecedores. O desaparecimento de Berenice Ramos de Aguiar Faria, a cozinheira de 60 anos cujo sumiço mobilizou forças de segurança por semanas, deixou de ser um enigma para se transformar no mais estarrecedor dossiê de homicídio triplamente qualificado, execução sumária e fraude processual já visto na divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro.
O que a assassina não contava era que a verdade não ficaria sepultada no fundo do abismo da Serra das Águas, nem seria apagada com massa plástica, lixas e verniz. Uma descoberta crucial feita pelos investigadores da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de São Sebastião virou o jogo da investigação: o relato corajoso e cirúrgico do proprietário de uma oficina de funilaria, que expôs aos delegados a tentativa desesperada e macabra da patroa de esconder as marcas da execução cravadas na lataria de sua picape de luxo.
A Corrida Contra o Tempo na Oficina: A Ordem Era Apagar o Tiro a Qualquer Preço

Quando esteve pela primeira vez na delegacia para prestar esclarecimentos, Eliane representou um teatro impecável. Falou em tom brando, posou de vítima de boatos e jurou de pés juntos que havia se despedido amigavelmente da funcionária após pagar um acordo trabalhista. Segundo ela, sua caminhonete preta de luxo sequer havia passado perto de qualquer tumulto.
A farsa, no entanto, começou a sangrar quando os agentes da DIG, desconfiados da movimentação dos carros do clã logo após o dia 30 de junho, fizeram um pente-fino em dezenas de oficinas mecânicas, centros automotivos e funilarias de Ubatuba, Taubaté e cidades vizinhas. Foi em uma dessas oficinas que os policiais encontraram a peça de ouro que a perícia tanto buscava.
Intimado a comparecer à sede policial, o funileiro responsável pelo atendimento relatou em detalhes o pânico da empresária. Dias após o desaparecimento de Berenice, Eliane chegou ao estabelecimento com os olhos esbugalhados, visivelmente descompensada e exigindo que um serviço específico de solda, lixamento e repintura na porta da picape preta fosse executado em caráter de extrema urgência. Não importava o valor cobrado; o dinheiro não era problema, desde que o automóvel ficasse pronto e impecável no menor tempo possível.
Ao inspecionar a lataria do veículo, o profissional, acostumado há décadas a consertar amassados de trânsito, deparou-se com uma imagem que lhe gelou a espinha: uma perfuração circular perfeita, rompendo a forração interna e estufando a chapa metálica de dentro para fora.
“Doutor, não era batida de trânsito, não era arranhão de cerca nem pedra de estrada. Aquele buraco era claramente de tiro! O projétil saiu de dentro da cabine e rasgou o metal para fora. Dava para ver a trajetória perfeita!”, revelou a testemunha aos delegados da DIG.
Para atender à cliente insistente, o mecânico precisou aplicar pontos de solda autógena na chapa rompida, cobrir a área com densas camadas de massa plástica de nivelamento automotivo e aplicar primer, tinta preta e verniz em alta temperatura para sumir com a perfuração. O depoimento do funileiro foi o tiro de misericórdia na defesa da patroa: o dano que ela tentou maquiar era a prova material indiscutível de que uma arma havia sido disparada no interior do veículo.
O Estopim da Maldade: A Ganância por R$ 4 Mil e o Ciúme Doentio
Para compreender a perversidade que culminou em um corpo crivado de balas e atirado em uma ribanceira de Angra dos Reis, é fundamental abrir as entranhas da convivência no Sertão de Ubatumirim. Berenice Faria era uma mulher idosa, trabalhadora incansável e de coração gigante. Sustentava os seus com o suor de cozinhar de domingo a domingo em jornadas exaustivas.
A crise começou a se desenhar quando Berenice foi chamada para realizar uma faxina profunda na residência do namorado de Eliane — um militar reformado do Corpo de Bombeiros. Pelo serviço pesado, o homem efetuou o pagamento regular de uma diária via Pix diretamente na conta da trabalhadora. Foi o suficiente para despertar a fúria desmedida e o ciúme descontrolado da empresária.
A partir dali, Eliane iniciou uma campanha de perseguição psicológica, acusando a cozinheira de crimes infundados e furtos jamais comprovados. Em seguida, expulsou Berenice de forma humilhante da quitinete onde ela morava, retendo o salário da funcionária.
Inconformada com o calote, Berenice procurou orientação jurídica. O valor legítimo de seus quatro meses de serviços prestados, horas acumuladas e rescisão contratual somava modestos R$ 4.000. Para Eliane, uma mulher que ostentava terras, mercados e frotas de veículos, pagar o que devia a uma trabalhadora humilde soava como afronta. Com desprezo, a patroa jogou sobre a mesa uma proposta indecente: ridículos R$ 900 para que a idosa sumisse sem reclamar seus direitos.
Berenice não aceitou a migalha e cobrou com firmeza o que era seu. O preço cobrado pela patroa foi a sua própria vida.
No dia 30 de junho, testemunhas no bairro presenciaram uma cena de selvageria em via pública. Aos berros, Eliane partiu para cima da idosa de 60 anos. A violência do golpe desferido contra o rosto de Berenice foi tão devastadora que a idosa perdeu os sentidos e caiu desacordada no asfalto. Vizinhos aterrorizados viram quando o corpo inerte da cozinheira foi arrastado e colocado no interior da caminhonete de luxo.
A Mentira da Carona e a Fuga Noturna Captada por Radares Inteligentes
A partir do desmaio da cozinheira, a quadrilha pôs em prática uma sucessão de farsas para tentar despistar as autoridades. Eliane chegou a gravar áudios e sustentar em depoimentos que teria se reconciliado com Berenice, pagando R$ 2.600 em dinheiro vivo e dando uma “carona generosa” até um trevo rodoviário na entrada da Praia das Toninhas, onde a idosa supostamente teria embarcado em um ônibus de viagem por vontade própria.
A mentira não resistiu a 24 horas de diligências policiais. Ao entrarem no casebre onde a idosa residia, os policiais civis encontraram todos os documentos originais de Berenice — RG, certidão, cartões bancários —, além de suas malas prontas, roupas pessoais e remédios de uso contínuo, tudo trancado na propriedade da patroa. Ninguém decide fazer uma viagem interestadual voluntária deixando para trás sua própria identidade e pertences básicos de sobrevivência.
A prova técnica definitiva veio com o sistema de radares inteligentes de leitura de placas (OCR) e o cruzamento de antenas de telefonia celular. A caminhonete de Eliane jamais esteve no trevo das Toninhas no horário alegado. Ao contrário: os sensores flagraram o utilitário acelerando furiosamente pela Rodovia Rio-Santos no sentido oposto, rompendo a divisa interestadual em direção a Paraty e Angra dos Reis, no estado do Rio de Janeiro.
Os relatórios de telemetria comprovaram que a picape permaneceu parada por quase duas horas em um trecho desabitado e tenebroso da Serra do Mar, cercado por abismos gigantescos encobertos pela Mata Atlântica.
O Horror no Penhasco: Rapel de 30 Metros e a Desova em Quadrilha
Graças ao mapeamento de satélite e à persistência dos investigadores, as equipes do 3º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP) e do Corpo de Bombeiros Militar localizaram o ponto da desova no Mirante da Serra das Águas. O drone da polícia avistou os restos mortais de Berenice suspensos na copa de uma árvore de grande porte, no meio de uma ribanceira com 30 metros de profundidade vertical.
A operação de resgate durou mais de sete horas de tensão ininterrupta. Bombeiros militares especializados em salvamento em altura desceram o paredão de pedra e lama por meio de técnicas de rapel e cabos de aço. A remoção da vítima exigiu força hercúlea e logística pesada.
Esse detalhe geográfico converteu-se em mais uma prova irrefutável contra os assassinos: é humanamente impossível que uma mulher sozinha conseguisse retirar o cadáver inerte de uma pessoa adulta da cabine alta, arrastá-lo pela lama do acostamento e projetá-lo com força sobre a vegetação para que caísse no desfiladeiro. A física e a biomecânica comprovam que Eliane contou com o apoio de múltiplos comparsas para arremessar o corpo da trabalhadora no abismo.
A linha de investigação da Polícia Civil aponta que um veículo vermelho, avistado em imagens de câmeras de segurança escoltando a caminhonete preta por estradas de terra no Sertão de Ubatumirim, serviu de apoio logístico na execução e no descarte do cadáver, transportando parentes e cúmplices da empresária.
O Luminol Brilha no Escuro: Sangue, Balística e o Arsenal de CAC
Ciente do poderio econômico de Eliane e das tentativas de intimidação contra testemunhas locais, a cúpula da Polícia Civil transferiu o caso com urgência para a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de São Sebastião, sob a liderança firme do delegado titular André Castro.
Munidos de mandados de busca e apreensão, os agentes vasculharam a mansão da suspeita. Foram recolhidos celulares, computadores, o módulo DVR de câmeras de segurança e três armas de fogo de grosso calibre devidamente registradas sob a licença de CAC (Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador), que a suspeita utilizava para aterrorizar a vizinhança.
Na garagem da delegacia, os peritos criminais aplicaram a substância reagente luminol no interior da picape preta de Eliane. No escuro absoluto do laboratório forense, o veículo se iluminou em um tom azul fluorescente intenso: havia manchas expressivas de sangue humano espalhadas pelo assoalho, pelo banco dianteiro do passageiro e pelo painel da porta. Mesmo após lavagens químicas sucessivas, a hemoglobina do sangue de Berenice gritou aos olhos dos peritos.
O laudo cadavérico coroou a montagem do quebra-cabeça: Berenice foi assassinada com um tiro à queima-roupa disparado em suas costas enquanto estava rendida no banco do carona da picape, com o projétil atravessando seu corpo e perfurando a lataria que o funileiro foi obrigado a soldar.
Mais de 30 Anos de Cadeia: O Silêncio da Culpa Diante da Justiça
Atrás das grades de um presídio feminino, a “Coronel de Ubatumirim” optou pela covardia do silêncio, recusando-se a responder às perguntas da autoridade policial. Mas contra a ciência forense, contra a balística, contra as gravações de câmeras de segurança e contra a palavra firme do funileiro, o silêncio da ré nada pode fazer.
O Ministério Público formalizou denúncia pesadíssima por:
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Homicídio Triplamente Qualificado: Motivo fútil (não pagar uma dívida de R$ 4.000), meio cruel (espancamento até o desmaio) e recurso que impossibilitou qualquer defesa da vítima idosa;
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Ocultação de Cadáver: Transporte interestadual e arremesso em penhasco de 30 metros;
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Fraude Processual Qualificada: Modificação intencional de cena de crime com lavagem de sangue e solda da perfuração de bala na oficina mecânica.
Se somadas as penas no Tribunal do Júri, a empresária poderá pegar mais de 30 anos de reclusão em regime fechado, enquanto seus comparsas continuam sendo caçados pela Justiça.
A vida simples e honesta de Berenice Ramos de Aguiar Faria não voltará, mas a tentativa sórdida de transformar seu assassinato em um mistério perfeito foi esmagada. A lataria soldada falou, o luminol brilhou e a Justiça caminha a passos largos para garantir que a crueldade, a prepotência e a tirania paguem o preço devido atrás das grades.
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