VITOR BELFORT CONFESSOU O QUE FEZ COM A FEITICEIRA JOANA PRADO

A história completa

Ídolo do UFC, fenômeno brasileiro que conquistou as artes marciais, casado com a maior sex symbol da televisão brasileira, a Feiticeira Joana Prado. E esse mesmo homem, 20 dias depois do casamento com Joana, a própria irmã dele foi sequestrada em pleno centro do Rio de Janeiro e nunca mais voltou. Hoje você vai descobrir o que a Feiticeira Joana Prado revelou 20 anos depois na frente das câmeras.

Ainda mais sombrio, quem sequestrou a Priscila e por quê? Você também vai saber quem foi a mulher que se entregou ao Ministério Público, confessando o motivo real do sequestro. Fica até o final, porque 21 anos depois não tem corpo, não tem sepultura, mas tem muita pergunta que ninguém quis revelar até hoje.

Rio de Janeiro, bairro carioca da Zona Sul. A família Vieira Belfort morava num apartamento pequeno com vista pro morro. José Marcos Belfort, engenheiro; Jovita Belfort, dona de casa; e dois filhos: a mais velha, Priscila, e o caçula, Vítor. José Marcos Belfort, engenheiro mecânico da Universidade Federal Fluminense, trabalhava na Petrobras, na refinaria de Duque de Caxias.

Perdeu o emprego dentro da reforma administrativa do governo Collor no ano de 1990 e nunca mais conseguiu se recolocar profissionalmente. A Jovita bancou a casa sozinha com aulas particulares de matemática que dava dentro do próprio apartamento. A Priscila tinha 16 anos quando o engenheiro abandonou o lar de Copacabana para sempre.

O Vítor tinha 12. E desde aquele ano de 1990 até 2016, quando o engenheiro morreu num hospital do interior mineiro com 78 anos, nem a Priscila nem o irmão caçula voltaram a ter contato regular com o pai. No velório do engenheiro no interior de Minas, a irmã mais velha já estava desaparecida do Centro carioca há 12 anos.

O ídolo do UFC viajou sozinho de Boca Raton, ficou 2 horas dentro do cemitério do bairro rural, assinou o registro de presença com o sobrenome paterno e voltou pro aeroporto sem dar declaração para a imprensa local. Os pais se separaram quando a Priscila e o Vítor ainda usavam uniforme escolar. A Jovita ficou com a criação sozinha em Copacabana.

Desde criança, a Priscila foi a irmã que cuidava do caçula, fazia a comida dele, levava ele pra escola de jiu-jitsu e esperava o irmão na saída do treino da Carlson Gracie de Copacabana. O caçula tinha 4 anos a menos que ela, mas desde os 10 anos pegou o hábito de segurar forte a mão da irmã mais velha para atravessar a Avenida Atlântica de volta para casa.

A Priscila apertava firme e falava baixinho o que a Jovita falava para ela quando eram crianças: “Vítor, me promete uma coisa. Não importa o que aconteça na vida, família se cuida entre família”. O caçula concordava sem entender o que a irmã estava pedindo para ele. Guarda essa frase da Priscila, porque 20 anos depois, quando o caçula já tinha virado um dos lutadores mais famosos do planeta, essa promessa de infância ia voltar na cabeça dele no pior momento da vida inteira.

Com 18 anos, o caçula assinou contrato com o Ultimate Fighting Championship dos Estados Unidos. No UFC 12, disputado no Alabama, ganhou o torneio dos pesos pesados e virou o lutador mais jovem da história a levantar um cinturão do octógono. Os cronistas americanos batizaram ele de O Fenômeno. A Priscila via as lutas do irmão pela televisão do apartamento da Jovita em Copacabana.

Rezava o terço enquanto o caçula entrava no octógono e se apegava ao irmão a 5.000 km de distância. No ano de 2001, num evento em São Paulo, o lutador se encontrou com a mulher que ia mudar a trajetória da família: Joana Prado, a Feiticeira, a dançarina do programa H, de Luciano Huck, a maior sex symbol da televisão brasileira dos anos 90.

Nenhum dos dois sabia o que estava prestes a começar. Rio de Janeiro, Igreja Nossa Senhora do Carmo, bairro de Ipanema. Um sábado de dezembro do ano de 2003, às 7 da noite, o fenômeno do UFC entrou de smoking preto pela porta principal da igreja católica. Havia 270 convidados dentro e meia imprensa esportiva brasileira do lado de fora com as câmeras.

A revista Caras havia fechado os direitos exclusivos das fotos do casamento por uma cifra de seis dígitos. A Feiticeira caminhou pela nave central da igreja com o vestido branco da casa de Ossimar Versolato, baixando os olhos como tinham ensinado no curso pré-matrimonial. Vítor Belfort esperava ela parado no altar com as mãos entrelaçadas na frente do corpo. Guarda essa data.

Cerimônia católica, padre carioca celebrando, a família Vieira Belfort do lado do noivo e a família Prado do lado da noiva. A cunhada do ano, a irmã mais velha do ídolo do UFC, Priscila Belfort, com vestido azul-marinho, sentada na primeira fileira da ala direita da igreja. A Priscila abraçou a nova cunhada Feiticeira no final da cerimônia, deu um beijo no rosto dela, sussurrou algo no ouvido que só as duas escutaram e sorriu na frente das câmeras da Caras. A foto oficial do casamento saiu na edição da revista Caras do dia 26 de dezembro do ano de 2003. No canto direito da foto grande de página dupla, dá para ver Priscila Belfort com o vestido azul-marinho sorrindo, segurando o braço do irmão caçula. É a última foto pública de Priscila Belfort viva ao lado da família inteira.

No dia seguinte ao casamento, no dia 21 de dezembro, Vítor e Joana embarcaram para Roma. Começava a lua de mel: Itália, cinco dias; Espanha, cinco dias; Portugal, cinco dias. Suíte presidencial reservada no Hotel de Russie de Roma, no Ritz de Madrid, no Palácio Belmonte de Lisboa. Valor total da viagem pago com cartão corporativo da agência que cuidava do lutador brasileiro.

Nenhum dos dois levou o secretário pessoal na viagem. Nenhum dos dois levou o motorista. Nenhum dos dois avisou para a família carioca o endereço exato dos hotéis onde iam se hospedar na Europa. Lua de mel. Era lua de mel. Desconexão total. Aqui é onde tudo se quebra. Rio de Janeiro, uma sexta-feira de manhã. 9 de janeiro do ano de 2004.

20 dias exatos depois do casamento na igreja de Ipanema. Priscila Belfort, 29 anos, acordou passando mal no apartamento da Jovita em Copacabana. Estava com dor de cabeça, estava enjoada, quis ficar na cama, mas a mãe insistiu. A Priscila trabalhava de segunda a sexta na Secretaria Municipal de Esportes e Lazer do Centro carioca, no Edifício Marquês do Herval, da Avenida Rio Branco.

A Jovita ofereceu levar ela de carro. A Priscila aceitou, saiu do apartamento com a bolsa pendurada no ombro, sem dinheiro solto, sem cartão do banco, com o celular em 23% de bateria e sem carregador, vestida com uma calça clara e uma blusa branca. A Jovita deixou ela na porta do prédio do Centro carioca às 9 da manhã.

A Priscila subiu pro oitavo andar, passou a manhã na sala da Secretaria Municipal. Colegas de trabalho viram ela trabalhando na frente do computador com normalidade. À 1 da tarde, avisou que ia almoçar, saiu do Edifício Marquês do Herval e caminhou pela Avenida Marechal Floriano, perto da Presidente Vargas.

Um funcionário do prédio vizinho viu ela passando, andando em direção ao norte da avenida. Foi a última pessoa a ver a Priscila. Priscila Belfort sumiu em pleno Centro carioca no horário do almoço, com 29 anos, sem dinheiro, com o celular quase descarregado numa área com centenas de pessoas circulando a cada minuto, e nunca mais voltou.

Escuta bem o que a família fez. 5 da tarde da sexta-feira, a Priscila não tinha voltado do almoço pra secretaria. Os colegas ligaram pro celular dela: caixa postal. Ligaram pro apartamento da Jovita em Copacabana; a Jovita ainda não sabia de nada, começou a se preocupar, saiu do apartamento e foi de carro até o Centro carioca procurar a filha.

Percorreu a Avenida Rio Branco de ponta a ponta com as mãos tremendo no volante. Nada. 8 da noite, nenhum rastro da Priscila. A Jovita finalmente aceitou o que a cabeça não deixava ela pensar e ligou pro número internacional do filho caçula na Europa. Em Lisboa, eram 11 da noite.

O ídolo do UFC estava com Joana Prado no terraço do Palácio Belmonte, jantando com vista pro Tejo, quando tocou o celular que quase ninguém tinha. Do outro lado, a Jovita disse quatro palavras: “Vitor, sua irmã sumiu”. O lutador brasileiro parou o jantar, subiu pro quarto com a Joana, fez a mala e antecipou o voo de volta. Pousaram no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, no sábado de manhã, menos de 24 horas depois da ligação da Jovita.

E desde aquele sábado de manhã começou a busca pública mais famosa do Brasil daquela década. Presta atenção, porque 3 anos e 7 meses depois daquela ligação noturna da Jovita para Lisboa, apareceu no Ministério Público do Rio de Janeiro uma mulher com a resposta exata do porquê tinham sequestrado a irmã do ídolo do UFC naquela sexta-feira de meio-dia da Avenida Marechal Floriano, no Centro carioca.

8 de agosto do ano de 2007, quarta-feira à tarde, sede do Ministério Público do Rio de Janeiro. Uma mulher de 27 anos entrou voluntariamente na sala do promotor Ruben Viana, coordenador da segunda central de inquérito, sentou de frente pra mesa, disse que estava sendo ameaçada de morte, que não aguentava mais, e confessou pro promotor a participação dela no sequestro e assassinato de Priscila Belfort.

Chamava-se Eliane Paiva da Silva. Verbatim documentado pelo promotor Ruben Viana para a imprensa brasileira naquela mesma tarde da quarta-feira do dia 8 de agosto do ano de 2007, republicado pela Gazeta do Povo, pelo O Globo, pelo Extra e pelo portal Jusbrasil. No depoimento, Eliane disse que o grupo foi contratado para sequestrar Priscila Belfort com o objetivo de fazer a cobrança de uma dívida que a Priscila e o namorado teriam com um casal, presumivelmente traficante.

Um homem preso na Penitenciária Bangu 1 fez o contato com o grupo para executar o sequestro. A dívida seria de R$ 9.000 em drogas. R$ 9.000. Esse era o motivo pelo qual tinham sequestrado a irmã do ídolo do UFC em pleno Centro carioca. R$ 9.000 de dívida em drogas com um casal de traficantes do Morro da Mangueira.

Ordem emitida do pavilhão de segurança máxima de Bangu 1 pelo traficante Nilson da Maré. Grupo contratado para cobrar sequestro de pressão psicológica. Nunca teve pedido de resgate porque nunca foi um sequestro de resgate. Foi uma cobrança que virou assassinato, porque a Priscila viu os rostos dos sequestradores dentro do cativeiro.

Segundo a confissão de Eliane pro Ministério Público, a irmã do lutador brasileiro foi mantida viva por 3 meses e meio dentro de um cativeiro na periferia carioca, foi estuprada, foi baleada, foi esquartejada e foi queimada num sítio da Estrada de Ipís, número 1003, no município de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Eliane indicou pra polícia a localização exata do sítio. A Divisão Antissequestro cavou com retroescavadeira por dois dias; só acharam pedaços de roupa e um sapato, nenhum resto humano identificável. Nos depoimentos ampliados de Eliane Paiva para a Divisão Antissequestro nos dias seguintes a 8 de agosto, republicados pela Gazeta do Povo no dia 9 de agosto do ano de 2007, apareceram quatro nomes específicos dentro do grupo de amigos que dividia aquela dívida de R$ 9.000 com os traficantes do Morro da Mangueira: Priscila Belfort, o namorado da Priscila, um amigo do grupo e um quarto nome. Escuta bem: esse quarto nome que Eliane Paiva citou duas vezes pro Ministério Público do Rio de Janeiro no mês de agosto do ano de 2007, a família Belfort nunca comentou publicamente, nem desmentiu em cadeia nacional nos 17 anos posteriores à confissão.

E na coletiva de imprensa da série documental Volta Priscila, do Disney+, exibida no mês de setembro do ano de 2024, 20 anos depois do sequestro do Centro carioca, a Feiticeira deu duas declarações públicas emocionais sobre a cunhada desaparecida. Verbatim da Feiticeira ao Disney+ na coletiva de setembro do ano de 2024:

“Ela era uma menina meiga e eu brigava várias vezes com ela porque este aqui tirava proveito da meiguice dela. Ela perguntava: ‘Vitor, você tá com frio?’ E eu falava: ‘Não, você fica agasalhada, ele passa frio’.”

E a segunda declaração na mesma coletiva sobre a criação dos três filhos do casamento, nascidos entre os anos de 2005 e 2009:

“Eu, mãe de três crianças, vivi um trauma por muitos anos a ponto de não deixar meus filhos irem para nenhuma viagem de escola, nem passeio de escola. A gente ia para um shopping center e andava praticamente os cinco juntos.”

Duas declarações emocionais da Feiticeira sobre a cunhada desaparecida e o trauma da criação dos filhos do casamento. E uma única palavra que a Feiticeira Joana Prado nunca disse em nenhuma das duas declarações ao Disney+, nem em nenhuma outra entrevista pública dada por ela nos 20 anos posteriores ao desaparecimento da cunhada do Centro carioca: a palavra drogas. Guarda essa ausência na cabeça, porque nos 17 anos seguintes ao desaparecimento do Centro carioca, a família Belfort — ou seja, a mãe Jovita, o ídolo do UFC Vítor e a Feiticeira Joana Prado — nunca comentou publicamente em nenhuma entrevista concedida para nenhuma imprensa brasileira os quatro nomes específicos que Eliane Paiva tinha citado pro Ministério Público no mês de agosto do ano de 2007.

Mas enquanto o silêncio público da família se mantinha intacto por 20 anos, a polícia carioca perseguiu três pistas brutais que iam cair uma por uma sem devolver o corpo da Priscila: um corpo carbonizado dentro de um Astra preto encontrado em Búzios, um traficante morto em operação policial antes de ser interrogado e uma mulher que se entregou pra polícia confessando o assassinato por interesse romântico pelo próprio delegado que investigava o caso.

Presta atenção, porque o motivo pelo qual as três pistas caíram uma por uma e pelo qual o corpo de Priscila Belfort nunca apareceu em 21 anos tem a ver com uma coisa que o próprio namorado da Priscila declarou em cadeia nacional pra Rede Globo no ano de 2007. E essa declaração muda tudo o que a família Belfort contou pro Brasil por duas décadas.

Para entender o que declarou o namorado da Priscila em cadeia nacional no ano de 2007, primeiro você tem que entender as três pistas brutais que a Divisão Antissequestro do Rio de Janeiro perseguiu entre o mês de janeiro do ano de 2004 e o mês de agosto do ano de 2007. Três pistas em que a família carioca acreditou, sofreu e viu cair uma atrás da outra sem devolver o corpo da irmã do ídolo do UFC.

A primeira pista apareceu 11 meses depois do desaparecimento do Centro carioca, em dezembro do ano de 2004. Búzios, balneário da Região Metropolitana carioca, a 170 km ao norte do Rio de Janeiro. Cidade turística de casas coloniais, praias de águas cristalinas e ruas de pedra. Destino de fim de semana da classe média alta brasileira.

A 127ª DP local recebeu uma denúncia anônima naquele mês de dezembro: um corpo carbonizado tinha sido encontrado dentro de um Astra preto abandonado numa praia deserta do município de Búzios. Corpo de mulher, idade estimada entre 25 e 35 anos, sem documentação identificável, sem digitais legíveis devido ao estado de carbonização.

A delegacia de Búzios avisou a Divisão Antissequestro do Rio de Janeiro. O delegado Anestor Magalhães, coordenador da investigação do caso Belfort desde o mês de janeiro daquele ano, viajou para Búzios no mesmo dia. Guarda esse Astra preto. A família Belfort foi avisada pelo delegado na mesma noite. Jovita, Vítor e a Feiticeira Joana Prado se prepararam pro pior.

A Feiticeira estava grávida de 2 meses de Davi Prado Belfort, primeiro filho do casamento carioca do ano anterior. O ídolo do UFC cancelou as lutas programadas para dezembro daquele ano. A família inteira fechou fileiras e, nos quatro meses seguintes à descoberta do Astra preto, a família carioca viveu com a certeza silenciosa de que aquele corpo carbonizado era a Priscila.

Rezou novenas, acendeu velas, começou a organizar mentalmente o velório da irmã perdida. 26 de abril do ano de 2005, sede do Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro. O resultado do exame de DNA comparativo entre as cinzas do corpo de Búzios e as amostras genéticas de Jovita Belfort deu negativo. O corpo carbonizado do Astra preto da praia de Búzios não era Priscila Belfort, era outra mulher desaparecida, outra mãe, outra família esperando resposta em algum lugar do Brasil.

4 meses de luto interior da família carioca por nada. E aí chegou a segunda pista. Julho do ano de 2005, 60 dias depois do DNA negativo do corpo de Búzios, a Divisão Antissequestro capturou o chefe do tráfico do Morro da Providência, no Centro carioca, um homem conhecido na comunidade como Dão, cabeça visível da quadrilha acusada de estar envolvida no desaparecimento do Centro carioca do ano de 2004.

O delegado Anestor Magalhães interrogou Dão por 48 horas seguidas. Os advogados do preso chegaram no dia seguinte ao Ministério Público do Rio de Janeiro e, cinco dias depois da captura, a justiça soltou Dão por falta de provas concretas. Nada. A segunda pista caiu tão rápido quanto tinha se levantado.

E aqui é onde o caso Belfort começou a acumular uma característica que ia marcar os 17 anos seguintes de investigação: cada vez que a polícia carioca achava um suspeito concreto, esse suspeito acabava morto, liberado por falta de provas ou desaparecendo antes do interrogatório.

O traficante Gerinho, do Complexo do Alemão, Zona Norte carioca, um dos 10 complexos de favelas mais perigosos do planeta segundo a própria Interpol, ponto de disputa territorial entre facções rivais do narcotráfico carioca. Um refém liberado de um sequestro comum da Zona Norte do Rio contou pra polícia carioca no ano de 2006 que, dentro do cativeiro, tinha escutado o traficante Gerinho comentar com orgulho na frente dos outros presos ter participado pessoalmente do sequestro e assassinato de uma irmã famosa de um lutador brasileiro do UFC.

O testemunho do refém liberado ficou registrado nos arquivos da Divisão Antissequestro. O delegado Anestor Magalhães emitiu ordem de captura contra Gerinho. A Polícia Militar carioca preparou uma operação conjunta com o Batalhão de Operações Policiais Especiais para capturar o traficante dentro do Complexo do Alemão. A operação entrou no complexo de favelas ao amanhecer.

3 horas depois de troca de tiros contra a quadrilha do traficante, Gerinho saiu morto da favela, com sete balas no corpo, jogado dentro de um carro blindado do Bope a caminho do necrotério do hospital municipal, morto antes de ser interrogado, morto antes de confirmar ou negar a confissão que tinha feito dentro do cativeiro da Zona Norte carioca, morto antes de dizer se ele tinha sequestrado pessoalmente Priscila Belfort ou se tinha escutado a história de outro traficante e se apropriado dela para ganhar prestígio dentro da favela. Nunca se soube a verdade e a família Belfort continuava sem corpo.

Escuta o que Jovita fez enquanto a polícia não achava nada. Entre o sábado 10 de janeiro do ano de 2004 e o mês de agosto do ano de 2005, enquanto a Divisão Antissequestro perseguia pistas falsas pela Zona Norte carioca, Jovita Belfort organizou pessoalmente a maior busca cidadã que o Brasil tinha visto para o caso de uma única pessoa desaparecida.

30 outdoors gigantes com o rosto da Priscila foram pagos pela família e colocados em pontos estratégicos do Rio de Janeiro: Avenida Presidente Vargas, no Centro carioca; Túnel Rebolsas, ligando Zona Norte e Zona Sul; Rodovia Presidente Dutra, saindo do município de Duque de Caxias; Aeroporto do Galeão; Aeroporto Santos Dumont; Rodoviária Novo Rio; Ponte Rio-Niterói; Estação Central do Brasil, no Centro carioca; e Terminal Marítimo do Porto do Rio.

No ano de 2005, a família carioca assinou um acordo pró-bono com a ONG Mães da Sé, de São Paulo, a organização mais importante de famílias de desaparecidos do Brasil. A ONG imprimiu o rosto de Priscila Belfort em 2 milhões de palitos de dente com o número do Disque-Denúncia do Rio de Janeiro. Os palitos foram distribuídos de graça em restaurantes, bares, lanchonetes e hotéis das cinco principais capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Recife.

Cada palito de dente que um desconhecido brasileiro pegava na mesa de um restaurante da capital paulista tinha o rosto da irmã do ídolo do UFC estampado do lado. E nenhum dos 2 milhões de palitos produziu uma única denúncia útil para a Divisão Antissequestro. Nada.

E no mês de agosto do ano de 2007, 41 dias exatos depois que a Rede Globo do Brasil dedicou um episódio do programa Linha Direta ao caso Belfort, apareceu a terceira pista: a que virou a mais brutal das três, a que sustentou a esperança da família carioca por quatro semanas seguidas e a que depois caiu do jeito mais humilhante pro Ministério Público do Rio de Janeiro.

8 de agosto do ano de 2007, quarta-feira, sede do Ministério Público carioca. Eliane Paiva da Silva, 27 anos, entrou voluntariamente na sala do promotor Ruben Viana para confessar o assassinato da irmã do ídolo do UFC. Rica em detalhes, com nomes específicos de nove cúmplices, localização exata do sítio da Estrada de Ipís, em São Gonçalo, onde estariam os restos de Priscila, reconstrução do cativeiro de 3 meses e meio, descrição da dívida de R$ 9.000 com os traficantes do Morro da Mangueira e o nome do mandante encarcerado em Bangu 1: o traficante Nilson da Maré.

O promotor Ruben Viana reativou a investigação naquela mesma tarde. A Divisão Antissequestro cavou com retroescavadeira no sítio de São Gonçalo por dois dias. Acharam pedaços de roupa, um sapato, nenhum resto humano identificável. Três cúmplices apontados por Eliane foram capturados naquela mesma semana: Aída da Silva Lopes, 42 anos; Silvana Luíza de Oliveira Lopes, 35 anos; e Hugo de Oliveira Lopes, 18 anos. Os três negaram toda a participação no crime.

E aí chegou o segundo golpe dessa história, sem folga entre um e outro, colado ao anterior, sem transição: Eliane Paiva mudou a versão. Nove dias depois de ter confessado o assassinato de Priscila na frente do promotor carioca, Eliane se retratou parcialmente.

Disse pro Ministério Público que ela não tinha atirado pessoalmente contra a irmã do ídolo do UFC, disse que tinha atribuído o disparo a si mesma para proteger a identidade do verdadeiro assassino da quadrilha, um homem com o qual ela tinha laços afetivos. O promotor Ruben Viana publicou verbatim para a imprensa brasileira naquela mesma semana, republicado pela Gazeta do Povo no dia 17 de agosto do ano de 2007:

“Inicialmente, nós concedemos crédito ao que ela dizia por ter se apresentado de livre e espontânea vontade ao Ministério Público. Mas ao retirar a autoria dos disparos e atribuir a outros dois integrantes da quadrilha, abrem-se dúvidas sobre a totalidade da versão.”

Os quatro cúmplices apontados por Eliane saíram da prisão temporária por falta de provas concretas ao terminar o mês de agosto do ano de 2007. O sítio de São Gonçalo foi investigado pela segunda vez com cães farejadores do Exército brasileiro, sem resultado. Eliane Paiva voltou para a casa onde morava com o marido na periferia carioca e não voltou a falar publicamente do caso Belfort nos 17 anos seguintes. A terceira pista tinha caído.

Presta atenção no que apareceu depois. 10 de agosto do ano de 2007, 48 horas depois da retratação parcial de Eliane Paiva na frente do promotor Ruben Viana, uma segunda mulher se apresentou voluntariamente ao Ministério Público do Rio de Janeiro. Chamava-se Michelle.

Disse também ter participado do sequestro de Priscila Belfort, confirmou parte da versão inicial de Eliane e trouxe detalhes adicionais do cativeiro do Centro carioca. O promotor Ruben Viana reativou de novo a investigação pela terceira vez em quatro semanas, mas alguma coisa não batia no depoimento da segunda mulher.

A psicóloga forense da Divisão Antissequestro entrevistou Michelle por 6 horas seguidas. Detectou incoerências na reconstrução do cativeiro, detectou dados que não coincidiam com a investigação anterior e detectou, sobretudo, um padrão obsessivo de referências ao delegado Anestor Magalhães dentro do depoimento da mulher.

Michelle estava apaixonada pelo próprio delegado que investigava o caso e tinha inventado toda a participação no sequestro de Priscila Belfort durante um surto psicótico agudo, motivada pelo interesse romântico obsessivo com o investigador principal do caso. A quarta pista caiu antes de chegar na investigação.

E aqui é onde a investigação inteira do caso Belfort começou a mostrar uma coisa que a Divisão Antissequestro do Rio de Janeiro nunca disse publicamente em cadeia nacional nos 17 anos seguintes ao desaparecimento do Centro carioca: cada pista forte que aparecia acabava se desfazendo, cada suspeito concreto acabava morto ou liberado, cada confissão detalhada acabava se retratando ou sendo descoberta como surto psicótico, como se alguém estivesse desativando as pistas antes que elas chegassem na conclusão, ou como se nunca tivesse tido sequestro no sentido tradicional do termo.

Escuta bem isso, porque tem um dado que a Divisão Antissequestro teve desde o primeiro dia do desaparecimento do Centro carioca, no mês de janeiro do ano de 2004. Um dado que a família Belfort nunca comentou publicamente nas dezenas de entrevistas concedidas por 20 anos. Um dado que o delegado Anestor Magalhães mencionou de passagem numa entrevista ao portal Splash, do UOL, no ano de 2018, mas que a imprensa esportiva brasileira não destacou naquele momento.

Nos primeiros dias posteriores ao desaparecimento de Priscila do Centro carioca, no mês de janeiro do ano de 2004, a Divisão Antissequestro estabeleceu que não teve pedido de resgate. Nenhum pedido de resgate. Nem nas primeiras 48 horas, quando estatisticamente todos os sequestros tradicionais do Rio de Janeiro produzem contato dos sequestradores com a família da vítima; nem nas primeiras duas semanas; nem nos primeiros dois meses. Nunca.

A família Belfort tinha capacidade econômica documentada para pagar um resgate de qualquer tamanho. O ídolo do UFC assinava contratos milionários com o circuito norte-americano. A Feiticeira Joana Prado ganhava milhões com contratos publicitários da Rede Bandeirantes. Jovita Belfort tinha patrimônio familiar. Um sequestro tradicional no Centro carioca com aquela vítima teria produzido contato imediato. Nunca teve contato.

E por isso, dentro da Divisão Antissequestro, desde fevereiro do ano de 2004, começou a ser tratada silenciosamente uma hipótese alternativa que a família Belfort rejeitou publicamente por 20 anos seguidos: a hipótese de que Priscila não tinha sido sequestrada por traficantes do Morro da Mangueira, nem por nenhum grupo criminal do Centro carioca, mas sim a hipótese de que Priscila tinha ido embora por vontade própria naquela tarde de sexta-feira de janeiro do ano de 2004.

E essa hipótese interna da Divisão Antissequestro tinha um fundamento clínico documentado desde o primeiro mês de investigação do caso: Priscila Belfort tinha sido diagnosticada com depressão maior aos 16 anos, com 13 anos seguidos de tratamento psiquiátrico intermitente com dois psiquiatras distintos de Ipanema, múltiplas medicações antidepressivas rotacionadas pelos especialistas quando a anterior deixava de funcionar e pelo menos dois episódios documentados anteriores ao desaparecimento do ano de 2004 em que Priscila tinha sumido da casa da Jovita em Copacabana por períodos de 24 a 48 horas, sem avisar ninguém, sem levar documento, sem celular, a ponto de perder contato definitivo com a família carioca. Padrões idênticos ao da sexta-feira, 9 de janeiro, do ano de 2004: sem dinheiro, sem cartão do banco, com o celular quase descarregado, vestida com roupa qualquer, saindo da rotina de trabalho sem explicação prévia.

Guarda essa hipótese silenciosa da Divisão Antissequestro na cabeça, porque a única pessoa do círculo íntimo de Priscila Belfort que confirmou publicamente essa hipótese em cadeia nacional brasileira nos 17 anos seguintes ao desaparecimento do Centro carioca foi a pessoa que conheceu Priscila mais intimamente que Jovita, mais que o irmão ídolo do UFC, mais que a cunhada Feiticeira Joana Prado: foi o próprio namorado da Priscila, o homem com o qual a irmã do ídolo do UFC estava planejando casar antes de sumir do Centro carioca naquela sexta-feira de janeiro do ano de 2004.

O homem que Eliane Paiva mencionou pro Ministério Público no mês de agosto do ano de 2007 como parte do grupo de amigos que dividia a dívida de R$ 9.000 com os traficantes do Morro da Mangueira. O homem que preferiu não mostrar o rosto na frente das câmeras da Rede Globo do Brasil quando a emissora dedicou o episódio do programa Linha Direta do dia 28 de junho do ano de 2007 ao caso do desaparecimento da namorada carioca.

E esse homem, quando finalmente aceitou dar declaração pública em cadeia nacional naquela noite de junho do ano de 2007, com a voz distorcida pelo técnico da emissora e com o rosto escondido pela penumbra do estúdio, disse uma frase que ia definir tudo o que a família Belfort brigou contra a imprensa brasileira nos 17 anos seguintes. Presta atenção, porque o que o namorado da Priscila declarou em cadeia nacional naquela noite de junho do ano de 2007 muda tudo o que a Feiticeira Joana Prado contou pro Brasil por duas décadas e explica por que o corpo de Priscila Belfort nunca apareceu.

E para entender por que o próprio namorado da Priscila ia fazer uma declaração pública em cadeia nacional que ia contradizer a versão da família carioca, primeiro você tem que entender quem era esse homem e por que o ídolo do UFC detestava ele em silêncio desde o primeiro dia do namoro com a irmã mais velha.

O namorado da Priscila era 8 anos mais velho que ela. Trabalhava como analista financeiro de uma empresa privada de Botafogo, divorciado de um primeiro casamento, com filhos já adolescentes. Tinha conhecido ela no ano de 2001 dentro de um curso curto de administração pública que Priscila fazia na Fundação Getulio Vargas, no Centro carioca.

Começaram a namorar em março do ano de 2002. Moravam juntos num apartamento pequeno no Flamengo desde outubro do ano de 2003, menos de três meses antes do casamento do ídolo do UFC com a Feiticeira na igreja carioca de Ipanema. A família Belfort nunca aceitou publicamente o namorado dentro do círculo íntimo carioca, não convidou ele para a cerimônia religiosa do casamento do irmão caçula na Igreja Nossa Senhora do Carmo e ele não apareceu nas fotos oficiais publicadas pela revista Caras no dia 26 de dezembro do ano de 2003.

Os familiares que compareceram ao casamento explicaram pros cronistas de sociedade que o homem não tinha conseguido viajar naquela noite por compromissos profissionais. Nunca teve compromisso profissional; a família decidiu não convidar ele. A Priscila aceitou a decisão da mãe e do irmão caçula sem discutir publicamente, foi sozinha pra igreja carioca de Ipanema naquela noite de 20 de dezembro do ano de 2003.

E nos 20 dias seguintes ao casamento do ídolo do UFC, entre o sábado 21 de dezembro do ano de 2003 e a sexta-feira 9 de janeiro do ano de 2004, Priscila Belfort teve uma série de brigas com a mãe Jovita Belfort dentro do apartamento carioca de Copacabana sobre a decisão familiar de ter excluído o namorado do evento social do ano.

Testemunhas da família estendida Vieira Belfort, entrevistadas pela produção do Disney+ pro documentário Volta, Priscila, do ano de 2024, confirmaram na frente das câmeras que as brigas entre Jovita e a filha mais velha naquelas três semanas de dezembro do ano de 2003 tinham sido as mais intensas do histórico familiar carioca.

A Priscila tinha ameaçado a mãe de se mudar definitivamente pro apartamento do namorado no bairro do Flamengo, de abandonar a casa materna de Copacabana onde tinha morado nos últimos 29 anos, de cortar o contato regular com Jovita e com o irmão ídolo do UFC até que a família aceitasse publicamente o relacionamento com o homem do bairro de Botafogo.

E essa ameaça silenciosa de Priscila pra mãe carioca de Copacabana, feita nas três semanas anteriores à sexta-feira, 9 de janeiro do ano de 2004, é o que a Divisão Antissequestro do Rio de Janeiro levou em conta nos primeiros dois meses de investigação do ano de 2004 quando começou a trabalhar silenciosamente com a hipótese alternativa do caso Belfort: a hipótese de que Priscila não tinha sido sequestrada por traficantes, a hipótese de que Priscila tinha ido embora por vontade própria naquela tarde de sexta-feira do Centro carioca para cumprir a ameaça que tinha feito pra mãe nas três semanas anteriores, para ir morar com o namorado do bairro do Flamengo, para começar uma vida nova longe do controle familiar carioca.

E por isso, 3 anos e 5 meses depois do desaparecimento do Centro carioca, quando a produção do programa Linha Direta Justiça, da Rede Globo do Brasil, finalmente conseguiu — depois de três meses de negociação — uma entrevista com o homem do bairro do Flamengo naquela noite de quinta-feira, 28 de junho do ano de 2007, a família Belfort teve motivos concretos para se preocupar com o que o namorado ia dizer na frente das câmeras do estúdio do Jardim Botânico.

28 de junho do ano de 2007, quinta-feira à noite, 9:30 da noite no horário do Brasil, estúdios centrais da Rede Globo, bairro carioca de Jardim Botânico, Zona Sul do Rio de Janeiro. Transmissão ao vivo do programa Linha Direta Justiça, apresentado por Domingos Meirelles, um dos programas policiais mais vistos da televisão brasileira daquela década. Audiência estimada em 18 milhões de espectadores naquela noite de quinta-feira.

Episódio do programa dedicado integralmente ao caso Belfort, 3 anos e 5 meses depois do desaparecimento do Centro carioca. Reconstrução dramatizada da sexta-feira, 9 de janeiro do ano de 2004. Entrevistas exclusivas com Jovita Belfort, com a Feiticeira Joana Prado e com o próprio ídolo do UFC.

E uma entrevista final que a produção da Rede Globo tinha brigado por três meses seguidos para conseguir: o namorado da Priscila. Vítor Belfort e a Feiticeira tinham voltado especialmente pro Rio de Janeiro três semanas antes da exibição do programa. A família carioca tinha se reunido no apartamento da Jovita em Copacabana nos dias anteriores à quinta-feira, 28 de junho, para revisar as declarações que cada um ia dar na frente das câmeras do estúdio de Jardim Botânico.

Jovita insistiu nessas reuniões familiares num único ponto: a família inteira tinha que manter publicamente a tese do sequestro violento por traficantes cariocas, rejeitar categoricamente qualquer hipótese alternativa e fechar fileiras contra as especulações que começavam a circular nos jornais da Zona Sul do Rio de Janeiro sobre a saúde mental de Priscila antes do desaparecimento do Centro carioca.

O ídolo do UFC aceitou a instrução da mãe; a Feiticeira também aceitou. Os dois entraram no estúdio de Jardim Botânico com a versão familiar consensual, mas nenhum dos dois sabia o que o produtor executivo do programa Linha Direta Justiça, Júlio César Ferrari, tinha conseguido nas três semanas anteriores à ida ao ar da quinta-feira: a entrevista com o namorado da Priscila.

O produtor Ferrari tinha negociado pessoalmente com o homem por três meses seguidos: reuniões em cafeterias da Zona Sul carioca, compromisso de voz distorcida, rosto escondido e nome completo silenciado, autorização prévia do advogado pessoal do entrevistado para não responder perguntas específicas sobre o nome de terceiros e o compromisso final que finalmente destravou a entrevista e que a família Belfort não conhecia na noite de quinta-feira, 28 de junho do ano de 2007, quando entrou no estúdio de Jardim Botânico. O namorado tinha carta branca para expressar qualquer hipótese pessoal sobre o desaparecimento do Centro carioca, sem filtro editorial da Rede Globo, sem interrupção do apresentador, sem corte comercial durante a resposta.

E o homem tinha preparado por 3 anos e meio uma única frase que queria dizer pro Brasil inteiro em cadeia nacional. Escuta o que ele disse naquela noite. O homem tinha aceitado dar a declaração pública em cadeia nacional sob três condições estritas: voz distorcida pelo técnico da emissora, rosto escondido na penumbra do estúdio, nome completo silenciado durante a transmissão.

Domingos Meirelles entrevistou ele por 7 minutos ininterruptos de frente pra câmera principal do estúdio, perguntou como tinha sido a última conversa com Priscila na noite anterior ao desaparecimento do Centro carioca, perguntou o que ele achava da investigação da Divisão Antissequestro, perguntou o que ele pensava pessoalmente depois de 3 anos e meio de busca sem resultado.

E o namorado da Priscila respondeu com uma frase que a Rede Globo do Brasil deixou no ar naquela mesma noite de quinta-feira, sem cortes nem edição posterior. Verbatim documentado do programa Linha Direta Justiça do dia 28 de junho do ano de 2007, republicado pelo jornal Extra no dia seguinte, pelo portal G1 no ano de 2014 e pela Wikipédia brasileira no ano de 2021:

“Eu acredito que a Priscila foi embora por vontade própria.”

Nove palavras. Nove palavras que o homem que conheceu Priscila mais intimamente nos últimos três anos da vida da irmã do ídolo do UFC disse em cadeia nacional brasileira naquela noite de quinta-feira do ano de 2007. Nove palavras que apagaram a teoria do sequestro, que destruíram a versão do casal de traficantes do Morro da Mangueira, que deixaram sem sentido a dívida de R$ 9.000 em drogas e que a família Belfort rejeitou publicamente no mesmo estúdio da Rede Globo naquela noite.

Aqui é onde se fecha o círculo. Jovita Belfort respondeu à declaração do namorado na mesma edição do programa Linha Direta Justiça, apenas dois blocos comerciais depois. Verbatim documentado de Jovita ao apresentador Domingos Meirelles no estúdio central da Rede Globo:

“Minha filha não foi embora. Minha filha levaram. Minha filha tá esperando que a gente ache ela. Eu sei que a Priscila tá viva em algum lugar.”

A Feiticeira Joana Prado, sentada ao lado do ídolo no estúdio, ficou paralisada nos primeiros 25 segundos depois da declaração do namorado. A câmera principal registrou a reação facial da mulher do lutador brasileiro num plano fechado de 2 segundos que a produção de Júlio César Ferrari deixou no ar sem edição posterior. 17 milhões de espectadores brasileiros viram a reação ao vivo naquela noite de quinta-feira.

A Feiticeira apertou a mão do ídolo do UFC dentro do bolso interno do paletó escuro do lutador brasileiro, não disse palavra pelo resto do bloco de televisão e Domingos Meirelles cortou pros comerciais 2 minutos antes do horário previsto pela produção.

E nos 14 anos seguintes até a coletiva do Disney+ de setembro do ano de 2024, a Feiticeira nunca comentou publicamente a declaração do namorado de 28 de junho do ano de 2007, nem a favor, nem contra. Silêncio absoluto da mulher do ídolo do UFC por 14 anos seguidos sobre a única hipótese alternativa que tinha aparecido publicamente em cadeia nacional brasileira sobre o desaparecimento da cunhada do Centro carioca.

Só Jovita Belfort respondeu naquela noite de quinta-feira. E daquela noite de quinta-feira, 28 de junho do ano de 2007, até o ano de 2024, quando o Disney+ lançou a série documental Volta Priscila, a família Belfort manteve publicamente a tese do sequestro violento, rejeitou sistematicamente a hipótese do namorado e fechou fileiras em volta de Jovita.

Mas enquanto a família carioca defendia na imprensa brasileira a teoria do sequestro traficante, a Divisão Antissequestro trabalhava silenciosamente sobre o arquivo clínico psiquiátrico de Priscila em Ipanema: 13 anos de tratamento por depressão maior, dois psiquiatras do consultório da Rua Visconde de Pirajá, múltiplas internações voluntárias breves em clínicas privadas de Botafogo, trocas frequentes de medicação antidepressiva e, sobretudo, uma coisa que nem Jovita, nem o ídolo do UFC, nem a cunhada Feiticeira Joana Prado tinham dito publicamente pro Brasil nos três anos anteriores ao programa Linha Direta: dois episódios anteriores, no ano de 2002 e no ano de 2003, em que Priscila tinha sumido da casa da mãe em Copacabana por períodos idênticos ao da sexta-feira, 9 de janeiro do ano de 2004, sem levar dinheiro, sem cartão do banco, com o celular quase descarregado, vestida com roupa qualquer, saindo da rotina de trabalho sem explicação prévia.

Nos dois episódios anteriores, Priscila reapareceu por conta própria 24 a 48 horas depois, voltou pro apartamento da Jovita em Copacabana andando sozinha, se enfiou na cama, não quis falar de onde tinha estado. A família deixou passar os dois episódios sem comunicar pra polícia nem pra imprensa carioca. O delegado Anestor Magalhães teve acesso ao arquivo psiquiátrico completo dos dois psiquiatras do consultório de Ipanema nos primeiros dois meses de investigação do ano de 2004, verificou os dois episódios anteriores com os especialistas e confirmou o padrão clínico.

Desde o mês de março do ano de 2004, a Divisão Antissequestro trabalhava com duas hipóteses simultâneas do caso Belfort:

  • Hipótese pública: sequestro por dívida de drogas com traficantes cariocas, a que a família bancava em cadeia nacional, a que Eliane Paiva ia reforçar 3 anos depois com a confissão no Ministério Público.

  • Hipótese interna: fuga voluntária de uma mulher com depressão maior de 13 anos de evolução, a que o próprio namorado ia confirmar em cadeia nacional em junho do ano de 2007, a que o delegado Anestor Magalhães trabalhava silenciosamente desde o mês de março do ano de 2004.

A diferença entre as duas hipóteses não era pequena. Era o motivo exato pelo qual, 21 anos depois do desaparecimento do Centro carioca, o corpo da Priscila nunca apareceu. Porque se Priscila foi sequestrada por traficantes do Morro da Mangueira, o corpo teria que estar em algum lugar da Zona Norte do Rio de Janeiro, num sítio de São Gonçalo, numa vala comum da periferia carioca, em algum terreno acessível para a investigação policial.

Mas se Priscila foi embora por vontade própria naquela sexta-feira de meio-dia do Centro carioca, o corpo pode estar em qualquer lugar do Brasil, da América do Sul ou do planeta, ou pode não estar, porque Priscila pode estar viva.

E essa última possibilidade é a que a Feiticeira Joana Prado, 20 anos depois — no Instagram, em 9 de janeiro do ano de 2023, aniversário do desaparecimento do Centro carioca —, admitiu publicamente num vídeo de 2 minutos e 14 segundos publicado da casa da família em Boca Raton, Flórida. Verbatim da Feiticeira Joana Prado ao Instagram no dia 9 de janeiro do ano de 2023, republicado pelo portal Metrópoles, pelo O Globo e pelo portal Terra:

“A gente não sabe, na verdade, se a Pri tá viva ou se a Pri tá morta, se ela passa frio, se ela tá feliz ou se ela tá lá com o nosso Senhor.”

Escuta bem essa frase. Porque em 20 anos de declarações públicas sobre a cunhada desaparecida, a Feiticeira nunca tinha dito a palavra morta, nunca tinha admitido a possibilidade de Priscila estar com vida em algum lugar, nunca tinha deixado abertas as duas hipóteses simultaneamente em cadeia nacional. Foi a primeira vez, e coincidiu no calendário do canal do Instagram da Feiticeira com o momento exato em que a produção da série documental Volta Priscila, do Disney+, dirigida por Eduardo Rajabali, começava as primeiras entrevistas de pré-produção com a família Belfort na casa de Boca Raton.

25 de setembro do ano de 2024. Estreia mundial do documentário Volta Priscila na plataforma Disney+. Quatro episódios de 60 minutos cada um. Entrevistas exclusivas com Jovita Belfort, hoje com 78 anos; com o ídolo do UFC, hoje aposentado do octógono desde o ano de 2018, morando com Joana em Boca Raton; com a Feiticeira Joana Prado, hoje empresária evangélica e autora de um CD gospel com o marido publicado no ano de 2020; e com duas figuras da televisão brasileira que tinham coberto o caso desde o ano de 2004: a jornalista Sônia Abrão, da RedeTV!, e o apresentador Gilberto Barros, ex-programa Boa Noite Brasil, da Rede Bandeirantes.

Dentro do segundo episódio do documentário Volta Priscila, no minuto 23 do corte final, aparece uma cena que a produção de Eduardo Rajabali filmou dentro do apartamento de Jovita Belfort em Copacabana no mês de maio do ano de 2024. Jovita, com 78 anos, sentada no sofá da sala com a Feiticeira Joana Prado do outro lado, na frente das câmeras do Disney+, com uma caderneta pequena de capa preta aberta nas mãos da mãe. Escuta bem.

A caderneta continha, segundo revelou a própria Jovita na cena do documentário, a lista de todas as mulheres do Brasil que nos últimos 20 anos tinham sido reportadas como parecidas com Priscila Belfort: mulheres avistadas em supermercados de São Paulo, mulheres fotografadas em praias do Nordeste, mulheres reportadas nas ruas de Salvador, de Recife e de Belo Horizonte, mulheres avistadas no exterior, em Portugal, na Espanha, nos Estados Unidos. A caderneta tinha anotados 314 endereços. 314 mulheres desconhecidas do Brasil e do exterior que a família Belfort tinha ido verificar pessoalmente nos 20 anos posteriores ao desaparecimento do Centro carioca.

Nenhuma era Priscila, mas a mãe continuava anotando cada denúncia nova, cada avistamento, cada foto anônima que mandavam para ela pelo WhatsApp. Verbatim de Jovita Belfort ao Disney+ naquela cena de maio do ano de 2024:

“Eu sei que um dia a Priscila vai tocar a campainha dessa casa e eu vou estar aqui esperando ela. Mesmo que eu tenha 100 anos, mesmo que eu esteja numa cadeira de rodas, mesmo que eu tenha que abrir a porta para ela me arrastando, eu vou estar aqui.”

A caderneta pequena de capa preta com os 314 endereços foi fechada na frente da câmera do Disney+. Jovita guardou ela dentro da gaveta da mesinha de cabeceira da sala.

E aqui é onde se fecha o círculo inteiro, que começou no ano de 1980, quando Priscila apertava forte a mão do irmão caçula na Avenida Atlântica de Copacabana e falava baixinho o que Jovita falava para ela quando eram crianças: “Vítor, me promete uma coisa. Não importa o que aconteça na vida, família se cuida entre família”.

Aquela promessa infantil que Priscila arrancou do caçula aos 10 anos, 44 anos depois, sustenta Jovita Belfort na frente da câmera do Disney+, no sofá da sala do apartamento de Copacabana. E sustenta também a Feiticeira em Boca Raton, empresária evangélica, mãe de três filhos que nunca conheceram a tia Priscila, casada há 21 anos com o homem que perdeu a irmã 20 dias depois do casamento na igreja carioca de Ipanema.

Verbatim final da Feiticeira Joana Prado para a revista Caras do Brasil, edição de 14 de outubro do ano de 2024, três semanas depois da estreia do documentário:

“O desaparecimento é um luto diário. Não sabemos o que aconteceu com a Pri. Eu, minha cunhada, nunca conheci verdadeiramente. Consegui conviver com ela 20 dias como cunhada e tive amor de irmã por ela pelo resto da minha vida.”

Hoje, 21 anos depois da sexta-feira, 9 de janeiro do ano de 2004, Priscila Belfort completaria 50 anos no dia 5 de dezembro que vem, se estiver viva. Jovita Belfort tem 78 anos, mora sozinha no apartamento de Copacabana, no mesmo prédio onde criou os dois filhos depois da separação do engenheiro José Marcos Belfort, continua anotando as denúncias novas na caderneta pequena de capa preta, se recusa a se mudar do bairro carioca caso Priscila um dia decida voltar.

O ídolo do UFC tem 47 anos, aposentado do octógono desde o ano de 2018, mora com a Feiticeira Joana Prado e com os três filhos do casamento numa casa em Boca Raton, Flórida, e dá palestras motivacionais evangélicas pelos Estados Unidos e pelo Brasil. Os três filhos do casamento Belfort Prado nunca conheceram a tia Priscila: Davi Prado Belfort, 20 anos, estuda com bolsa esportiva de futebol americano na Universidade do Alabama; Vitória Prado Belfort, 18 anos; e Kiara Prado Belfort, 16 anos.

O namorado da Priscila nunca voltou a dar declaração pública sobre o caso depois do programa Linha Direta Justiça do ano de 2007, casou com outra mulher, teve filhos, continua morando no Rio de Janeiro. O delegado Anestor Magalhães se aposentou da Divisão Antissequestro no ano de 2015, mas continua dizendo quando a imprensa carioca pergunta para ele que a hipótese da fuga voluntária de Priscila nunca foi descartada pela polícia.

Nilson da Maré, o traficante de Bangu 1 citado por Eliane Paiva no ano de 2007 como mandante do suposto sequestro, continua preso no pavilhão de segurança máxima, nunca foi interrogado formalmente sobre o caso Belfort.

10 anos depois do desaparecimento, em fevereiro do ano de 2014, a mãe da Priscila conseguiu uma coisa que nenhuma outra família brasileira de desaparecidos tinha conseguido da Polícia Civil do Rio: pressão sustentada por uma década sobre governadores, secretários de segurança pública, deputados estaduais e ministros do governo federal produziram finalmente a criação oficial da Delegacia de Descoberta de Paradeiros do Estado do Rio de Janeiro (DDPA), uma delegacia específica dedicada exclusivamente a investigar casos de pessoas desaparecidas do estado carioca.

A DDPA começou operações com 58 agentes especializados, orçamento anual de R$ 22 milhões de reais, base de dados genética conectada ao Instituto Médico Legal do Estado e convênio de cooperação com a Interpol para casos de possíveis desaparecimentos internacionais. E do ano de 2014 até o ano de 2024, a DDPA do Rio de Janeiro resolveu 387 casos de pessoas desaparecidas do estado carioca que estavam há anos sem resolução. O caso Priscila Belfort não foi um dos 387 resolvidos; continua aberto.

Eliane Paiva da Silva mora na periferia carioca, completou 45 anos esse ano, nunca voltou a falar do caso Belfort na frente de uma câmera. E em algum lugar do planeta, se o namorado da Priscila tinha razão no estúdio da Rede Globo do ano de 2007, tem uma mulher de 50 anos que se chamou Priscila Vieira Belfort nos primeiros 29 anos da vida dela, que agora usa outro nome, que agora tem outro rosto, que agora vive outra rotina, ou que descansa há 21 anos em algum sítio da periferia carioca onde nunca vamos encontrar ela.

Nenhum de nós vai saber nunca qual das duas possibilidades é a verdadeira, mas Jovita Belfort no sofá do apartamento de Copacabana continua esperando que um dia toquem a campainha. Porque a promessa que Priscila fez pro irmão caçula aos 10 anos na Avenida Atlântica do bairro carioca, com a mão apertada firme da irmã mais velha, ainda tá de pé: família se cuida entre família, nem que demore 21 anos, nem que demore 50, nem que demore a vida inteira.

Muitos irmãos mais velhos fizeram promessas parecidas pros irmãos mais novos nas avenidas das cidades desse país. Muitos filhos cresceram sem conhecer os tios que sumiram antes deles nascerem. Muitas mães continuam anotando denúncias em cadernetas pequenas de capa preta dentro de apartamentos silenciosos, esperando que um dia toquem a campainha.

Se na sua família tem uma cadeira vazia na mesa que ninguém quer nomear em voz alta, se tem um irmão, uma irmã, um filho ou um primo que sumiu há muitos anos e que nunca mais voltou, se você tá adiando a ligação telefônica para alguém do seu próprio sangue que há meses não te atende, lembra hoje à noite da cadeira vazia do sofá do apartamento de Jovita Belfort, no bairro carioca de Copacabana, e compartilhe este história com alguém da sua família essa mesma noite.

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Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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