Uma Menina Cega Viajou 3 Dias para Pedir a Chico Xavier que Descrevesse o Rosto da Mãe

Nenhum soube que ela estava esperando um ônibus para atravessar metade do Brasil. Ela não falou com ninguém; ficou com as mãos no colo e a cabeça levemente inclinada para o lado, como quem está catalogando sons. O ônibus para Bom Jesus saiu às 17 horas e chegou às 11 da noite. Aí o plano começou a falhar: de Bom Jesus não tinha como chegar a Uberaba com o dinheiro que Rosa tinha.

A rota mais curta passava por Brasília ou por Montes Claros, e qualquer uma das duas custava mais do que 43 cruzeiros, descontando os bilhetes já usados. Ela ficou parada dentro da rodoviária de Bom Jesus de madrugada, com o terminal quase vazio e uma luz fluorescente cintilando no teto, tentando calcular o que era possível fazer.

Segundo o que ela depois contou, passou uns 20 minutos sentada naquele banco de plástico laranja da rodoviária de Bom Jesus antes de aceitar que precisava de carona. O homem que a ajudou se chamava Tarcísio, caminhoneiro, 47 anos, barba cerrada, voz de quem sempre falou alto demais em lugares barulhentos. Ele levava uma carga de couros curtidos para Pirapora, em Minas Gerais, e ia passar por Montes Claros.

Quando Rosa explicou para onde ia, ele ficou um tempo sem responder. Depois disse que tinha uma filha da idade dela em Teresina e que não ia conseguir dormir bem se deixasse uma cega sozinha numa rodoviária de madrugada. A cabine do caminhão cheirava a couro curtido, a graxa de motor e a um aromatizador de carro preso no espelho retrovisor, desses de plástico verde em forma de pinheiro.

Tarcísio dirigia com uma mão e falava com a outra, gesticulando para o ar, o que não tinha nenhuma utilidade para Rosa. Mas ela foi percebendo ao longo da noite que ele sabia disso e gesticulava para si mesmo, como quem não consegue se expressar de outro jeito. Ele fez paradas de 3 em 3 horas. Em cada parada, enquanto bebia café numa xícara de plástico ou urinava na beira da estrada com o motor ainda funcionando, ele descrevia o que tinha do lado de fora com um nível de detalhe que ninguém pediu, mas que Rosa absorvia em silêncio.

“Aqui tem um posto de gasolina com uma placa torta. Aqui tem uma fazenda com um portão de ferro pintado de verde-bandeira. Aqui do lado da estrada tem um açude que está quase seco; dá para ver pelo espelho d’água bem baixo.” Rosa ficou com a mão na janela a noite toda, sentindo o ar mudar conforme o caminhão cruzava do cerrado para a região de chapadões de Minas.

Chegaram a Montes Claros às 6 da manhã do segundo dia. Tarcísio comprou um pão de queijo para ela antes de seguir viagem. Ela agradeceu; ele foi embora. A fumaça do escapamento do caminhão ainda estava no ar quando ela entrou na rodoviária de Montes Claros. De Montes Claros até Uberaba eram mais 400 km. Rosa tinha oito cruzeiros.

O bilhete de ônibus custava 12. Ela ficou na rodoviária de Montes Claros por quase 5 horas: pediu informação ao atendente do guichê e a duas mulheres que esperavam outro ônibus. Todos foram educados; nenhum resolveu. O que resolveu foi uma mulher chamada Aparecida. Ela estava esperando o mesmo ônibus para Uberaba com uma bolsa grande de couro e um terço enrolado no pulso.

Percebeu que Rosa estava contando as moedas na palma da mão pela quarta vez seguida. Perguntou para onde ela ia. Rosa disse que ia a Uberaba ver Chico Xavier. Aparecida ficou um segundo sem falar. Depois abriu a bolsa, tirou quatro cruzeiros e colocou-os na mão de Rosa sem pedir licença. Disse: “Eu sou do centro espírita de Belo Horizonte.

Eu também já precisei que alguém pagasse a diferença para mim uma vez.” Esse detalhe importa e vai aparecer de novo num lugar que ninguém esperaria. O ônibus chegou a Uberaba às 19 horas do segundo dia. A cidade tinha uma qualidade de luz diferente, aquela luz de fim de tarde em cidade de Minas Gerais, que escurece devagar, como se a noite hesitasse antes de cair.

Rosa saiu no terminal com a mochila nas costas e a mão esticada para a frente, tateando o ar antes de dar o primeiro passo. O centro espírita estava fechado. Ela sabia que estaria: uma criança que passava na calçada perto do terminal, segundo o que Sônia depois soube reconstruindo a história, indicou a direção. Rosa caminhou seis quadras.

Encontrou a fachada de tijolo rebocado com uma plaquinha de metal que ela não conseguia ler, mas que uma senhora que passava leu para ela: “Centro Espírita de Uberaba, atendimentos às segundas, quartas e sextas.” Era quarta-feira; o centro abriria na manhã seguinte. Rosa encontrou uma praça a meia quadra dali, com um coreto de madeira pintado de verde no centro,

bancos de pedra embaixo das árvores e uma bica d’água que ainda funcionava numa das esquinas. Ela encheu as mãos na bica, bebeu, lavou o rosto; depois foi até um banco de pedra embaixo de uma amendoeira e sentou-se. Quem a viu naquela noite na praça conta que ela ficou com a coluna ereta o tempo todo, os pés no chão, as mãos no colo.

Às vezes a cabeça inclinava para o lado por alguns minutos e depois voltava ao centro. Ninguém soube dizer se ela dormiu ou não. Às 7h30 da manhã seguinte, Rosa estava na porta do centro espírita. Um homem de cabelo grisalho cortado bem rente, camisa branca passada, calça de tecido escuro e uma prancheta com folhas na mão estava abrindo o cadeado do portão quando ela chegou.

Esse homem era Severo Antunes, 58 anos, casado havia 32 com uma mulher chamada Geralda, dois filhos adultos e uma filha mais nova de 7 anos, que estava perdendo a visão progressivamente por uma doença que os médicos ainda estavam tentando entender em 1971; morador de Uberaba havia 29 anos e voluntário do centro espírita havia 15. Mas disso Rosa não sabia nada.

Ela só sabia que havia um homem abrindo o portão e que ela precisava entrar. Severo terminou de abrir e viu Rosa. Ela disse o próprio nome; disse que queria ver Chico Xavier; disse que tinha viajado de Floriano. Severo olhou a prancheta: o nome de Rosa Fernandes não estava em nenhuma das folhas. Ele explicou com uma paciência que quem o conhecia dizia ser a sua marca registrada, mas que às vezes tinha uma rigidez por baixo que você só percebia quando encontrava um obstáculo:

disse que os atendimentos de Chico Xavier eram agendados com semanas de antecedência, que Chico tinha compromissos firmes naquela semana, que ela podia deixar um pedido por escrito e o centro entraria em contato. Rosa perguntou quanto tempo levaria para agendar. Severo disse: “Duas a três semanas, talvez mais.”

Rosa disse: “Entendi”, e ficou no lugar. Severo esperou; ela continuou parada. Ele perguntou se ela estava bem; ela disse que estava. Perguntou se precisava de alguma coisa; ela disse que não. Severo entrou. Ela ficou do lado de fora do portão. Às 10 da manhã, quando o turno dos voluntários começou a chegar e o movimento de pessoas que entravam e saíam ficou maior, Rosa ainda estava lá, na mesma posição: costas retas, mochila de lona apoiada nos pés.

Sônia chegou às 10h20 com um grupo de outros três voluntários: tinha 26 anos, filha de um ex-oficial do exército que tinha se convertido ao espiritismo depois de uma experiência que ela não explicava para qualquer um, apenas dizia que acontecera numa madrugada em São Paulo, em 66, e que mudara tudo. Sônia era a voluntária mais nova do centro e fazia as funções que os mais velhos não queriam: limpar o corredor de saída, organizar as cadeiras, receber os visitantes que chegavam sem agendamento.

Ela viu Rosa e foi perguntar se queria água. Rosa disse: “Pode trazer água sim, mas não me peça para sair, porque eu não vou sair.” Sônia trouxe a água. Depois voltou com um pedaço de broa que tinha sobrado do café da manhã dos voluntários. Sentou-se no degrau do portão do lado de fora, ao lado de Rosa. As duas ficaram em silêncio por uns 10 minutos.

O sol de março em Uberaba batia no cimento da calçada com uma força que fazia o ar tremeluzir na altura dos tornozelos. Rosa perguntou: “Tem alguma cadeira aqui fora?” Sônia foi buscar. Às duas da tarde, Severo saiu pela segunda vez. Encontrou Rosa sentada na cadeira de madeira que Sônia tinha trazido, com Sônia sentada num banco de cimento ao lado. Severo chamou Sônia num canto.

Disse em voz baixa que ela tentasse convencer a moça a ir para uma casa de acolhida que a comunidade mantinha para visitantes de fora. Sônia disse que já tinha perguntado; Rosa tinha dito que ficaria lá. Severo foi falar com Rosa diretamente pela segunda vez: disse que entendia o esforço que a viagem tinha representado, que a situação de Chico era delicada, que ele tinha compromissos firmes, que o centro não podia criar exceções, porque cada exceção abria uma porta que ficava difícil de fechar depois. Rosa disse: “Eu entendo, seu Severo, e o senhor pode me entender também: eu andei três dias. Se o senhor me mandar embora, eu fico nessa calçada até morrer.”

Severo ficou em silêncio, depois disse: “Isso é uma ameaça?” Rosa disse: “Não, é uma explicação.” Severo voltou para dentro. Às 4 horas da tarde, mandou chamar o Dr. Amaral. O Dr. Amaral tinha 55 anos, clínico geral com consultório a duas quadras do centro espírita, homem de poucas palavras e diagnósticos rápidos. Ajudava o centro às vezes em situações como aquela, quando aparecia alguém em estado de sofrimento agudo e precisava de avaliação antes de qualquer decisão. Chegou às 16h40 com uma pasta preta debaixo do braço e os óculos de grau no bolso do jaleco branco.

Conversou com Rosa por quase meia hora: perguntou sobre a viagem, sobre de onde vinha, sobre quem tinha ficado em casa esperando, sobre como ela se sentia. Examinou os olhos dela — os olhos que estavam fechados para fora havia 17 anos, mas que ela movia normalmente na direção da voz quando alguém falava. Perguntou se ela tinha comido.

Ela disse que tinha tomado café de manhã na casa de uma família que Sônia tinha arranjado para ela dormir naquela noite. Depois, o Dr. Amaral chamou Severo num corredor lateral, perto de uma janela de vidro fosco que dava para um jardim com um canteiro de girassóis. Disse em voz baixa:

“Ela está completamente lúcida, sabe exatamente onde está e o que quer. Está exausta, mas sem nenhum sinal de desorientação ou instabilidade. Se você a mandar embora por motivo médico, eu não vou assinar nada.” Severo olhou pela janela de vidro fosco. Lá fora, no jardim, os girassóis estavam virados todos para a mesma direção: para o oeste, para o lado onde o sol estava descendo.

Ele foi até Rosa mais uma vez, ficou de pé na frente dela. Disse: “Vou mencionar sua situação ao senhor Chico; não posso prometer nada.” Rosa disse: “Obrigada, senhor”, e ficou no lugar. Severo entrou e foi até o quarto de Chico Xavier. O que aconteceu nessa conversa, segundo o que Severo depois contou a pessoas de sua confiança, foi o seguinte:

ele entrou e explicou a situação com a objetividade de sempre: uma jovem cega de 22 anos, sem agendamento, vinda de Floriano, no Piauí; três dias de viagem, pedido de atendimento fora da agenda. Descreveu a postura dela na calçada, a recusa em sair, a avaliação do Dr. Amaral. Chico Xavier escutou tudo sem interromper. Ficou quieto por quase 5 minutos depois que Severo terminou.

Cinco minutos de silêncio que Severo descreveu como um silêncio que pesava diferente dos outros. Chico estava com as mãos sobre uma Bíblia aberta sobre a mesa, os olhos abertos, mas voltados para algum ponto fixo que não era a parede nem a janela. Depois disse: “Deixem ela entrar amanhã de manhã, às 8.” Severo quis perguntar mais, mas havia algo no tom — não um tom proibitivo, não uma rispidez, nada desse tipo:

havia uma firmeza tranquila que Severo reconhecia. Quando Chico dizia alguma coisa com aquela firmeza, a conversa estava encerrada. Severo disse sim e foi embora. Naquela noite, segundo Sônia, Rosa dormiu em Uberaba pela segunda vez. A família que Sônia tinha arranjado — um casal de espíritas frequentadores do centro, dona Teresa e seu Arlindo, com uma casa de três quartos perto da praça — tinha um sofá na sala que Sônia preparou com um lençol limpo e um travesseiro.

Rosa ficou sentada no sofá por um longo tempo depois que todos foram dormir. Sônia estava num quarto emprestado no corredor. Às duas da madrugada, Sônia acordou com sede e passou pela sala: Rosa estava sentada com a mochila no colo e a cabeça ligeiramente inclinada para o lado. Sônia foi buscar água, voltou e sentou-se na poltrona perto do sofá.

Rosa perguntou como era o rosto de Chico Xavier. Sônia ficou uns segundos organizando a resposta; depois descreveu o cabelo escuro com mechas grisalhas perto das têmporas, os óculos de armação escura que ele tirava às vezes para limpar com o canto da camisa, as bochechas redondas que ficavam mais redondas quando ele sorria.

E o sorriso que, segundo Sônia, aparecia sempre um pouco antes do que a maioria das pessoas esperava, como se ele soubesse de antemão que ia ter motivo. Rosa ficou escutando com os olhos fechados. Quando Sônia terminou, ela ficou em silêncio por um momento, depois disse: “Parece um rosto de quem nunca mentiu de propósito.”

Sônia disse que sim, que era exatamente isso. Rosa disse: “A senhora sabe que minha mãe morreu quando eu tinha 12 anos?” Sônia disse que não sabia. Rosa disse: “Ela morreu num agosto: febre alta, cinco dias e acabou. Antes de ela ir, eu tentei tocar o rosto dela, mas ela estava tão fraca que eu não quis incomodar. Fiquei com a mão perto, mas não cheguei a tocar.”

Sônia não disse nada. Rosa continuou: “Meu pai descreveu o rosto dela uma vez, uma semana antes de ele morrer também. Ele falou por quase uma hora, mas tinha uma coisa que ele falou que ficou na cabeça mais do que o resto.” Sônia esperou. Rosa disse: “Mas isso é para perguntar para Chico amanhã”,

e deitou-se no sofá com o casaco do pai dobrado debaixo da cabeça em vez do travesseiro. Sônia voltou para o quarto; ficou pensando no que Rosa tinha dito por um tempo antes de conseguir dormir. A manhã do dia seguinte chegou com neblina fina sobre as ruas de Uberaba, um cheiro de café fresco saindo de uma janela aberta na esquina da rua,

o som de um caminhão de padaria passando devagar no paralelepípedo molhado. Rosa estava acordada quando Sônia saiu do quarto às 7 horas: já estava de pé com o casaco marrom do pai vestido, a mochila no chão ao lado dos pés. As duas foram caminhando até o centro espírita: seis quarteirões. O sol estava subindo por trás dos telhados de telha colonial e a neblina ia se desfazendo devagar em filetes de vapor sobre o asfalto.

Na porta do centro, Severo estava de costas, organizando as folhas na prancheta quando elas chegaram. Ele viu Rosa, ficou um segundo sem dizer nada, depois disse: “Pode entrar.” Rosa entrou, mas Severo disse para Sônia: “Você espera aqui.” Sônia disse com uma firmeza que ela depois descreveu como vinda de um lugar que ela não sabia que tinha: “Eu fico com ela.”

Severo não respondeu. Entraram os três: Rosa, Sônia e Severo, que as seguiu. A sala de atendimento era menor do que Sônia tinha imaginado, levando em conta o que acontecia ali: uma mesa de madeira escura com marcas de uso, seis cadeiras de palha, uma janela com persiana de madeira cujas ripas deixavam entrar faixas de luz em ângulo. Numa das paredes, uma imagem de Jesus em papel encadernado com moldura simples de madeira clara.

Numa outra parede, uma prateleira com alguns livros e um vaso com flores de plástico brancas que estavam um pouco tortas. Havia 11 pessoas na sala quando Rosa e Sônia entraram: pessoas com rostos de quem acordou cedo para estar ali. Uma senhora idosa com um lenço branco na cabeça, um homem de meia-idade com uma pasta de couro no colo,

uma mulher jovem com olhos vermelhos de quem tinha chorado há não muito tempo. Cada um com um pedido, cada um com uma razão que não contava para ninguém. Rosa e Sônia sentaram-se nas últimas cadeiras disponíveis. Às 8h17, Chico Xavier entrou pela porta lateral. Tinha 61 anos naquele 1971: cabelo escuro com mechas brancas nas têmporas, exatamente como Sônia tinha descrito;

camisa branca abotoada até o pescoço, calça de tecido escuro, os óculos de armação preta que ele limpou com o canto da camisa antes de cumprimentar alguém. Cumprimentou as pessoas, foi sentando, começou os atendimentos na ordem. Segundo Sônia e segundo um outro voluntário chamado Benedito, que estava naquela sala fazendo anotações dos atendimentos, Chico trabalhou naquela manhã com uma concentração que dava para sentir no ar da sala, como pressão de temperatura.

As pessoas iam sendo chamadas, ficavam um tempo com ele, saíam com alguma coisa diferente no rosto: às vezes com lágrimas, às vezes com um olhar de quem acabou de pôr no chão um peso que carregava tempo demais. Rosa esperou. Foi a última a ser chamada. Às 9h45, Benedito foi até ela e disse baixinho que o senhor Chico ia recebê-la agora. Severo, que estava na sala desde o início, encostado na parede perto da porta, deu um passo para a frente quando Sônia se levantou junto com Rosa. Disse: “Só ela.” Sônia disse: “Ela precisa que alguém leia para ela.” Severo ficou um segundo, depois recuou. Os três entraram: Rosa, Sônia e Severo, que os seguiu.

Chico Xavier estava sentado à mesa quando Rosa entrou. Mas, segundo Sônia — e isso ela disse várias vezes nos anos seguintes, com as mesmas palavras para qualquer um que perguntasse —, quando Rosa cruzou a porta, Chico Xavier se levantou. Quem frequentava o centro sabia que isso acontecia às vezes com algumas pessoas específicas, sem que jamais houvesse uma explicação clara.

Chico levantava, e quando levantava daquela forma, havia uma qualidade naquele gesto que Sônia depois tentou descrever assim: era como se ele já soubesse quem era antes de ver. Ele caminhou até Rosa, ficou na frente dela por um segundo, depois pegou as duas mãos dela entre as mãos dele. Rosa disse depois, em conversas que Sônia relatou ao longo dos anos seguintes, que as mãos de Chico eram quentes — não de febre, não de esforço físico; quentes de um jeito que ela associou de forma imediata e sem conseguir explicar com mais palavras do que estas: as mãos da mãe quando ela era pequena e ficava com febre, e a mãe ficava do lado da cama a noite toda. Ficaram assim por quase um minuto sem falar nada. Depois Chico disse: “Você viajou três dias.” Rosa disse: “Sim, senhor.” Chico disse: “E você quer saber o rosto da sua mãe?” Rosa disse: “Sim, senhor.”

Chico ficou em silêncio por alguns segundos. Depois disse: “Senta aqui”, e guiou-a com as mãos até uma cadeira ao lado da mesa dele. Rosa sentou-se. Chico voltou para o lugar dele, pegou uma folha de papel da pilha que estava sobre a mesa, pegou a caneta — uma caneta esferográfica preta, do tipo comum, que ele usava em todos os atendimentos — e ficou quieto.

Três minutos, segundo Sônia: três minutos com a mão sobre a folha, mas sem escrever. Os olhos de Chico estavam abertos, mas com aquela qualidade que os frequentadores do centro reconheciam: presentes na sala, mas voltados para algum lugar que a sala não continha. Severo estava encostado na parede perto da porta.

Benedito estava num canto com o caderno de anotações fechado sobre o joelho. Sônia estava de pé ao lado de Rosa, com uma mão levemente sobre o ombro dela. Então, Chico começou a escrever. Escreveu sem parar: a letra era firme, inclinada para a direita. Benedito, que conhecia a caligrafia de Chico em correspondências e em outros atendimentos, percebeu que o traço era diferente do habitual: mais inclinado, com algumas letras maiores no meio das palavras, como se a mão que segurava a caneta não fosse exatamente a mesma mão de todos os dias. Uma folha, duas, três…

A ponta de plástico da caneta rangia levemente no papel branco. O sol entrava pelas ripas da persiana em ângulos que iam se deslocando muito devagar enquanto os minutos passavam. Lá fora na rua, um carro passou uma vez; uma pomba pousou na janela por um segundo e foi embora. Oito folhas, dez, onze… Chico parou.

Ficou mais um momento imóvel sobre a mesa, com a caneta ainda na mão. Depois pousou a caneta, tirou os óculos, limpou-os com o canto da camisa, colocou-os de volta, olhou para Rosa e disse: “Tem uma coisa que sua mãe quer que você saiba antes de eu entregar isso.” Rosa ficou muito quieta. Chico disse:

“Ela diz que você já conhece o rosto dela.” Rosa não respondeu imediatamente; depois disse com a voz saindo de um lugar muito fundo: “Eu nunca vi o rosto de ninguém, senhor Chico.” Chico disse: “Ela sabe disso, mas diz que você já conhece mesmo assim.” Uma pausa. Depois, Chico disse: “Mas ela quer descrever de qualquer jeito, porque você viajou três dias e merece ouvir com palavras.”

Então, Chico passou as 11 folhas para Sônia e disse: “Lê para ela.” Esse foi o momento em que Severo se descolou da parede, deu um passo para a frente — não chegou a falar, mas o gesto, a mão que se levantou levemente para o lado das folhas, foi visto por Sônia e por Benedito. Nenhum dos dois entendeu na hora, mas ambos se lembraram depois.

Chico olhou para Severo. Aquele olhar, segundo Sônia, durou menos de 3 segundos. Severo baixou a mão e ficou no lugar. Sônia pegou as folhas e leu: a carta estava escrita em primeira pessoa; a voz era de uma mulher. O nome assinado na última linha da 11ª folha era Eulália. O nome da mãe de Rosa era Eulália Fernandes.

Rosa não tinha mencionado o nome da mãe para ninguém ali em Uberaba. Chegara três dias antes com uma mochila, uma sandália amarrada com pano e uma pergunta: não tinha dado a ninguém nenhum detalhe sobre a mãe além do fato de ela estar morta. Sônia leu devagar, em voz alta, para que Rosa pudesse acompanhar cada palavra:

“Rosa, filha, você partiu de Floriano no dia 18 com o casaco marrom que pertenceu a seu pai. Você cruzou o sertão pelo trecho que fica ao sul da BR, pelo lado que a maioria das pessoas evita de dia por causa do calor. No segundo dia, numa estrada de terra vermelha que saía da estrada asfaltada à direita, perto de um açude quase seco, onde tinha um pé de caju do lado esquerdo, você perdeu a alça da sandália esquerda.

Você amarrou com um pedaço de pano que tirou da bainha da saia. Você continuou andando. Era perto das 4 da tarde, o sol alto, e você sentiu o calor do piso de terra através do pano do conserto.” A sala estava em silêncio absoluto. Ninguém tinha dito isso: Rosa não tinha mencionado a sandália, nem o pano, nem o açude, nem o cajueiro.

Sônia nunca tinha ouvido isso antes da primeira palavra da carta. Rosa tinha as mãos no colo: os dedos começaram a apertar a saia devagar. Sônia continuou: “Na primeira noite, você dormiu numa praça com a coluna reta porque aprendeu ainda menina que dormir curvada dói na manhã seguinte. Mas você não dormiu de verdade.

Ficou escutando a cidade que não conhecia. Em Uberaba, você não reconheceu nenhum som familiar: nem o tipo de cachorro que latia, nem o jeito como o vento passava entre os prédios. Isso foi a parte mais difícil. Você ficou com os pés no chão frio de cimento e esperou amanhecer de um jeito muito organizado.” Rosa tinha os olhos fechados.

Uma lágrima desceu pelo lado direito do rosto. Sônia parou por um segundo e continuou: “Uma mulher chamada Aparecida pagou a diferença do seu bilhete de ônibus em Montes Claros. Ela é espírita; eu estava com ela quando ela decidiu fazer isso. Ela não vai querer que você devolva. Mas um dia você vai entender por que ela fez aquilo: quando aparecer na sua frente uma pessoa com oito cruzeiros na mão e a olhar para a mesma direção que você olhava naquela rodoviária.”

O homem de meia-idade com a pasta de couro no colo, que tinha ficado na sala depois do próprio atendimento, ficou completamente quieto. A senhora idosa com o lenço branco na cabeça tinha os olhos fechados. Benedito tinha o caderno aberto no joelho, mas a caneta parada no ar. Sônia continuou lendo: “Agora eu vou descrever o meu rosto.

Tenho os olhos escuros, mais escuros do que o café, quase pretos quando a luz bate de frente. O cabelo eu puxava para trás com um pente de tartaruga que sua avó me deu quando eu me casei, mas escapava sempre do lado esquerdo, um fiapo teimoso que você pegava com os dedos quando era muito pequena e tentava colocar no lugar como se fosse responsabilidade sua manter meu cabelo no sítio certo.

O nariz tem uma curva pequena no meio, que seu pai chamava de ‘o nariz que pensa’. A boca sorri mais de um lado do que do outro: o lado direito sobe mais. Embaixo do olho esquerdo tem uma marca de nascença da cor do café.” Rosa não fez nenhum movimento durante esses segundos: ficou absolutamente parada e então levou as duas mãos ao rosto.

Colocou a ponta dos dedos nas próprias bochechas, embaixo dos próprios olhos, como se estivesse apalpando uma marca que não estava lá, mas tentando imaginar exatamente onde estaria se estivesse. Severo encostou a cabeça na parede e fechou os olhos. Aquele detalhe — a marca de nascença embaixo do olho esquerdo, da cor do café — era o mesmo que o pai de Rosa tinha sussurrado para ela na cama de morte em Floriano, dois anos antes:

a única coisa concreta e específica que ele tinha descrito no meio de uma hora de palavras que saíam cada vez mais devagar, uma hora antes de adormecer e não acordar mais. Rosa não tinha contado esse detalhe a ninguém. Tinha chegado a Uberaba havia menos de 72 horas: tinha dormido numa praça, esperado numa calçada, comido um pedaço de broa e um pão de queijo.

Em nenhum momento desses dias tinha mencionado marcas de nascença, a cor do café nem o olho esquerdo de quem quer que fosse. Mas estava escrito ali, na quarta linha da segunda folha. Sônia continuou lendo com a voz um pouco mais baixa: a carta descrevia a casa de Floriano, o cheiro de terra molhada que entrava pela janela da cozinha quando chovia no inverno piauiense, o rádio que ficava na prateleira perto da porta e que só sintonizava com clareza duas estações, a textura áspera do reboco da parede do corredor que descascava do lado direito perto do chão.

Descrevia o jeito como Rosa dormia quando era bebê, com o punho direito fechado e encostado no queixo. Descrevia uma tarde de setembro em que tinham ficado sentadas juntas na soleira da porta enquanto chovia, sem falar nada, ouvindo a chuva bater no telhado de telha e no barril d’água no quintal.

Descrevia a doença que foi rápida, que o último pensamento antes de perder a consciência foi sobre os filhos, sobre quem ia olhar por eles, e que ela tinha pedido ajuda antes de ir. Dizia que estava bem, que o que existia do lado de lá não cabia bem em palavras, mas que era bom de um jeito que não era fácil de comparar com nada de cá; que tinha encontrado a mãe dela, a avó de Rosa, que mandava lembranças.

A sala inteira estava parada: nenhum barulho de cadeira, nenhuma tosse. A pomba não voltou para a janela. E então a leitura chegou à oitava página. Sônia pausou: havia uma instrução escrita no início da oitava folha, em letras um pouco maiores do que o resto do texto: “O que vem agora é para Rosa ler sozinha.

Entregue a ela quando estiver só.” Sônia olhou para Chico Xavier. Chico disse: “Lê.” Severo deu um passo à frente. Disse: “Talvez seja mais prudente respeitar o que…” Chico olhou para Severo. Esse olhar, segundo Sônia, durou menos de 3 segundos. Severo não terminou a frase e ficou no lugar. Sônia leu, e o que veio na oitava página falava de uma coisa que Rosa nunca tinha mencionado a ninguém, nunca na vida:

nem aos irmãos, nem a Tarcísio no caminhão, nem a dona Marcolina no ônibus, nem a Sônia naquela madrugada no sofá de dona Teresa. Falava de uma boneca: uma boneca de pano feita à mão pela vizinha Iracema quando Rosa tinha 7 anos. Corpo de tecido de algodão cru, cabelo de linha preta, vestido de chita azul com uma fita branca na cintura.

Rosa tinha dormido com ela durante anos. Tinha levado para todo lugar que ia dentro da casa. Tinha ficado com ela escondida num lugar que os irmãos não sabiam e tinha dado um nome a essa boneca — um nome que veio de um sonho, um sonho de uma noite de fevereiro em que havia uma voz que não era de ninguém que ela conhecia, uma voz feminina que disse um nome só e sumiu antes que Rosa acordasse completamente.

O nome era Irene. A boneca virou Irene. Rosa guardava-a numa caixa de lata embaixo da cama, envolta num pano de flanela. Os irmãos nunca souberam; ninguém soube. Quando a mãe morreu, Rosa ainda tinha a boneca. Ficou com ela até os 16 anos. Depois, num dia de terça-feira que estava nublado, ela foi sozinha para os fundos da casa, cavou um buraco embaixo do pé de jurema com um pedaço de madeira, colocou a caixa de lata com a boneca dentro, tapou com terra e voltou para dentro de casa sem contar nada para ninguém. A carta dizia:

“Você enterrou a Irene embaixo da jurema, nos fundos da casa, num dia de terça que estava nublado. Você fez isso porque achou que guardar era segurar demais, mas você não jogou fora: você sabia que enterrar é diferente de perder.” Sônia parou de ler. Rosa estava com as duas mãos fechadas sobre a saia: os nós dos dedos estavam brancos de tanto apertar.

A carta continuava: “Eu sei do nome que você deu a ela. Eu estava lá quando o sonho veio naquela noite de fevereiro. A voz que disse o nome era a minha voz, filha. Eu te dei esse nome antes de ir embora para você ter uma companhia enquanto eu ainda não podia ficar do jeito que você precisava.” Sônia parou de ler de novo. Havia um silêncio na sala do tipo que não tem som nenhum:

nem respiração, nem o rangido de uma cadeira, nem o barulho da rua do lado de fora. Rosa disse com uma voz que vinha de um lugar muito fundo dentro dela: “Como ela sabia o nome da boneca?” Ninguém na sala respondeu. Ela perguntou de novo: “Como ela sabia?” Chico Xavier disse devagar, com a calma de quem diz uma coisa que não precisa de ênfase para ser enorme: “Ela sabia porque ela deu.”

Rosa ficou parada por um tempo que Sônia depois disse que não sabia quanto durou: podia ter sido um minuto, podiam ter sido três. Depois levou a mão ao rosto e ficou coberta com ela. Você que está ouvindo isso agora, alguma vez teve medo de receber uma resposta? Não a resposta dos outros, a sua própria. Deixe nos comentários: você teria entrado naquela sala? Severo Antunes saiu pela porta lateral antes que Sônia terminasse de ler as últimas três folhas. Benedito viu o gesto;

Sônia também. Nenhum dos dois saiu atrás naquele momento. O que havia nas últimas três folhas eram mais detalhes: detalhes sobre a vida cotidiana em Floriano, que a carta descrevia com a precisão de quem estava presente; o sabor do feijão-de-corda que Rosa cozinhava às sextas; a forma como ela dobrava as roupas dos irmãos menores em pilhas por tamanho, sempre da mesma forma,

porque aprendeu que, se tudo ficasse no mesmo lugar, ela sabia onde estava sem precisar procurar; o nome do padre da cidade, seu Benedito Araújo, que tinha dado a Rosa uma medalha de Nossa Senhora quando ela tinha 8 anos e que ela ainda carregava no fundo da mochila; e uma instrução final nas últimas linhas da 11ª folha:

“Quando você voltar para Floriano, vá embaixo da jurema. A caixa ainda está lá. Você não precisa desenterrar para nada em especial, mas pode se quiser. A Irene ainda está com o vestido de chita azul e ainda está te esperando.” Sônia dobrou as folhas com cuidado e entregou-as para Rosa.

Rosa segurou o maço de papel com as duas mãos, com a firmeza de quem está segurando algo que pode voar. Chico Xavier ficou sentado à mesa por mais alguns minutos depois que a sala começou a esvaziar. Quando Rosa se levantou para ir, com a mão de Sônia no braço, ele disse uma última coisa: “Você já ia conhecer o rosto dela de qualquer jeito, mas agora você sabe por quê.”

Rosa disse: “Por que, senhor Chico?” Chico disse: “Porque você é do tipo de pessoa que precisa ter certeza antes de poder carregar.” Rosa não respondeu imediatamente; depois disse: “Obrigada”, e saiu. Mas aquelas perguntas que ficaram abertas no começo dessa história, lembra? A razão do silêncio de 5 minutos de Chico antes de chamar Rosa;

o nome que apareceu nas folhas que ninguém ali conhecia; o que Severo tentou fazer com as folhas… Tudo isso ainda não fechou. Vamos lá. Nos dias que se seguiram ao atendimento, segundo os relatos que circularam entre os voluntários do centro, Severo Antunes tentou verificar se havia algum registro formal daquela sessão:

falou com dois voluntários; perguntou a Benedito se o caderno de anotações tinha registrado o conteúdo do atendimento de Rosa. Benedito disse que não, que o conteúdo das sessões de psicografia ficava só com as pessoas envolvidas, que era política do centro. Severo foi até Chico e perguntou se havia cópia das folhas em algum lugar.

Chico disse que não havia, que era uma carta entre uma mãe e uma filha. A razão pela qual Severo queria saber sobre as folhas ficou sem resposta clara por muitos anos. As especulações que circularam depois entre as pessoas do centro foram várias: que ele estava preocupado com a imagem do centro caso a história saísse de controle; que tinha medo do tipo de expectativa que casos assim geravam em outras pessoas; que achava que alguns relatos eram difíceis demais

de contextualizar fora do ambiente em que tinham acontecido. Mas havia uma outra versão. Essa foi contada por Fausto, um voluntário que trabalhou ao lado de Severo durante muitos anos. A filha mais nova de Severo tinha 7 anos em 1971: chamava-se Marta; estava perdendo a visão progressivamente por uma doença que os médicos de Uberaba ainda não tinham conseguido diagnosticar com precisão.

Havia a suspeita de uma neuropatia óptica, mas os exames disponíveis naquela época não eram suficientes para confirmar. Severo sabia, quando viu Rosa chegando naquela manhã, o que ela queria; e sabia que ele tinha uma filha que um dia podia ter a mesma idade de Rosa, os mesmos anos sem o rosto de ninguém, o mesmo vazio específico que cresce com a gente como uma sombra dentro de outra sombra.

O medo de Severo, segundo Fausto — segundo a versão que ele contou em voz baixa muitos anos depois —, era de que Chico Xavier escrevesse alguma coisa sobre Marta que ele não estava pronto para ouvir: uma verdade sobre a filha que chegasse cedo demais, antes que ele tivesse construído dentro de si o que fosse necessário para receber.

Severo tentou barrar Rosa porque tinha medo de que o que estava sendo escrito naquele quarto fosse sobre coisas que ele ainda não conseguia enfrentar. E quando saiu antes do final da leitura, quando cruzou a porta lateral sem olhar para trás, foi porque as últimas folhas ainda não tinham sido lidas e ele escolheu não saber.

Isso foi o que ficou. Fausto disse que nunca perguntou a Severo diretamente se era isso, mas disse que a forma como Severo ficou nos dias seguintes ao atendimento de Rosa — quieto de um jeito diferente do habitual — fazia sentido com isso. Rosa ficou em Uberaba por mais dois dias. A família de dona Teresa e seu Arlindo a hospedou sem fazer perguntas:

dona Teresa era bordadeira e passava a manhã toda com bastidor e linha na sala, e o silêncio que ela tinha era o tipo de silêncio cheio que não incomoda. Seu Arlindo era mecânico e chegava para o almoço sempre com um cheiro de óleo de motor que ela não conseguia tirar nem com sabão de coco. Rosa ficou nesses dois dias relendo a carta: lendo com os dedos nas letras, pedindo a Sônia que lesse em voz alta os trechos que ela queria ouvir de novo.

Sônia ia todas as manhãs à casa de dona Teresa depois do turno no centro. A última linha da carta era a que Rosa pedia para ouvir mais. Sônia leu-a 12 vezes, segundo o próprio cálculo dela nesses dois dias, sempre com a mesma voz, porque Rosa pedia que fosse igual ao que tinha ouvido na primeira vez,

sob o olhar parado de Chico Xavier sobre a mesa. A última linha dizia: “Você viajou três dias para me ver. Eu te vejo todo dia, filha, desde o primeiro até o último.” Na manhã do terceiro dia, Sônia acompanhou Rosa até a rodoviária de Uberaba. O ônibus de volta sairia às 10 horas da manhã, com baldeação em Montes Claros e depois em Teresina.

Sônia tinha conseguido dinheiro junto com outros voluntários do centro para pagar as passagens de volta — o suficiente para chegar a Floriano com algum trocado sobrando. Na fila do embarque, Sônia ficou do lado de Rosa até o último minuto. Antes de entrar no ônibus, Rosa ficou parada na frente dela por um segundo; depois disse: “A senhora ficou do meu lado desde o primeiro dia.”

Sônia disse: “Fiquei sim.” Rosa disse: “Como a minha mãe ficava quando eu tinha febre?” Sônia não soube o que responder. Rosa entrou no ônibus. A viagem de volta foi diferente. Quem acompanhou Rosa no trecho de Montes Claros a Teresina conta que ela ficou com a cabeça encostada na janela e assim ficou por horas, com o silêncio de quem acabou de guardar alguma coisa muito grande num lugar onde cabia.

Em Floriano, ela desceu na rodoviária de telhado de zinco, caminhou pelas ruas até a casa de adobe com janela de madeira pintada de azul que ficava no final da rua de terra. Entrou, colocou a mochila no chão de cimento do quarto, atravessou a cozinha e saiu pelos fundos. O pé de jurema estava no mesmo lugar: era uma árvore pequena, de tronco torto, com aquelas folhas miúdas da caatinga que fecham com o frio e abrem de manhã.

Rosa foi até ela, ajoelhou-se no chão seco, ficou com as mãos sobre a terra por um momento; depois começou a cavar com os dedos. A terra estava dura perto da superfície e mais solta embaixo. Ela cavou sem pressa, palmo a palmo, esvaziando o buraco devagar. A dois palmos de profundidade, os dedos encontraram metal frio.

A caixa de lata estava lá: enferrujada em volta das bordas, com a tampa um pouco amassada no canto esquerdo, mas fechada. Rosa ficou com ela no colo por um tempo que ninguém mediu. Depois abriu: a boneca de pano estava dentro. O vestido de chita azul estava desbotado, mas inteiro; o cabelo de linha preta estava embaraçado de um lado.

Rosa passou os dedos por ela devagar: o rosto de pano, os braços de algodão, a fita branca na cintura do vestido. A boneca cheirava a terra úmida e a flanela antiga. Rosa ficou assim por um tempo que ela nunca explicou quanto foi. Depois fechou a caixa, entrou de volta para casa e colocou a caixa em cima da prateleira da cozinha, à vista.

O que aconteceu nos anos que se seguiram, segundo os registros e os relatos que circularam entre as pessoas que conviveram com Rosa em Floriano e depois em Teresina, foi o seguinte: Rosa passou a frequentar o centro espírita de Floriano com regularidade — primeiro como ouvinte, depois como voluntária.

Lavava o chão, organizava as cadeiras de madeira que eram encostadas na parede depois das reuniões, atendia à porta. Com o tempo e sem que ninguém pedisse explicitamente, começou a ficar do lado de quem chegava chorando. Tinha um jeito de ouvir que era difícil de explicar, mas fácil de reconhecer: as pessoas ficavam do lado dela e contavam coisas que não tinham contado nem para a família.

Contavam com a confiança de quem sabe que a pessoa do outro lado não vai tirar conclusões rápidas demais. Ela não perguntava muito; ficava quieta ao lado, deixava o outro terminar. E quando dizia alguma coisa, era curto e certeiro de um jeito que ficava: pais que tinham perdido filhos, mães que tinham perdido maridos, gente que tinha perdido a fé num domingo qualquer e não sabia de onde pedir de volta.

Um voluntário de Teresina, que visitava o centro de Floriano, eventualmente falou sobre Rosa num encontro regional do movimento espírita do Piauí. Poucos meses depois, o centro de Teresina mandou um convite; Rosa aceitou. Em Teresina ela ficou: alugou um quarto num casarão que uma família espírita subdividia.

Levou a caixa de lata com a Irene dentro. Trabalhou no centro por décadas: pessoas vinham de outros estados para conversar com ela — uma mulher de Fortaleza que tinha perdido a filha num acidente de carro, um homem de São Luís que tinha largado tudo e não sabia para onde ir, uma jovem de Recife que chegou sem explicar o que tinha, mas que ficou ao lado de Rosa por três horas e depois foi embora com um aspecto diferente no rosto.

Rosa nunca se apresentou como médium, nunca disse que tinha nenhum dom especial. Quando perguntavam, dizia que só sabia ouvir, porque tinha aprendido cedo que ouvir era o único sentido que a gente podia desenvolver de verdade quando os outros falhavam. Tinha a caixa de lata com a Irene em cima da mesa do quarto,

ao lado de uma estátua pequena de Jesus de Nazaré que Sônia tinha mandado pelo correio três meses depois do atendimento em Uberaba, com um bilhete que dizia só: “Para você não esquecer da janela com as ripas de persiana.” Ela nunca esqueceu. Numa terça-feira de julho de 2003, um homem entrou no centro espírita de Teresina pela manhã:

cabelo completamente branco, óculos de armação mais fina do que os que usava em 1971 e uma camisa de algodão bege abotoada até o penúltimo botão. Perguntou por Rosa Fernandes. Disseram que ela estava e que ele esperasse. Rosa saiu de um corredor lateral e ficou parada na frente dele.

O homem disse: “Meu nome é Severo Antunes.” Rosa disse: “Eu sei.” Um segundo, dois… Ele disse: “Minha filha está perdendo a visão. Ela tem 38 anos.” Rosa ficou quieta por um momento. Depois disse: “Senta aqui, seu Severo.” Ele se sentou numa cadeira de plástico encostada na parede do corredor, ao lado de um vaso com uma planta de folhas largas que precisava ser regada havia alguns dias. Rosa sentou-se na cadeira ao lado.

Ela disse: “O senhor se lembra de mim?” Ele disse: “Lembro do seu rosto naquela calçada, da coluna reta e da cadeira que a moça voluntária foi buscar.” Rosa disse: “E eu me lembro do senhor pela voz.” Severo olhou para as mãos no colo, disse: “Eu tentei impedir que aquelas folhas chegassem até você.” Rosa disse: “Eu sei.” Ele disse: “Por que o senhor Chico não deixou?” Rosa disse: “Porque as folhas eram minhas.”

Severo ficou quieto por um tempo, depois disse: “Eu achei que ia estar escrito alguma coisa sobre a Marta naquela carta, sobre a cegueira dela, e eu não estava pronto.” Rosa disse: “Não estava escrito.” Severo disse: “Eu sei, mas eu não sabia naquele dia.” Rosa disse: “Eu também não sabia o que estava escrito naquele dia.”

Uma pausa. Severo disse: “Você ficou com as folhas assim mesmo?” Rosa disse: “Fiquei.” Ele disse: “E valeu a pena viajar três dias?” Rosa levou um segundo para responder. Depois disse: “Valeu por muita coisa, mas principalmente por uma: eu entendi que já conhecia o rosto dela.

Chico falou isso antes de começar a leitura e no começo eu não entendi. Mas depois entendi: eu conhecia o rosto dela pelos braços, pelo cheiro, pela voz que me deu o nome da boneca. A gente conhece as pessoas de muitas formas; o rosto é uma delas, mas tem formas que ficam mais do que o rosto.” Severo ficou em silêncio, depois disse: “Você pode me ajudar com a Marta?” Rosa disse: “O que a Marta precisa?” Ele disse: “Ela tem medo do escuro que vem.”

Rosa disse: “Então me traga ela aqui.” Severo voltou em setembro com Marta. Rosa conversou com ela por duas horas, enquanto Severo ficou sentado num banco de madeira no jardim externo do centro, ao lado de um canteiro de girassóis que estavam virados para o leste naquela manhã. Quando Marta saiu, estava com uma expressão que Severo depois descreveu como a mesma que Rosa tinha quando saiu do atendimento de Chico Xavier: não de alívio, mas de outro jeito — de quem colocou alguma coisa no lugar certo dentro de si. A doença de Marta estabilizou-se dois

anos depois. A progressão parou de um jeito que os médicos do Hospital das Clínicas não conseguiram explicar com clareza nos laudos subsequentes: ela ficou com uma visão parcial que não piorou mais. Isso Severo contou. Não há registro médico que se possa confirmar; é o tipo de dado que fica flutuando entre o que se mede e o que se sente como verdadeiro.

Severo foi a Teresina mais três vezes nos anos seguintes. Na última, dois anos antes de morrer, foi só para dizer obrigado. Ficou uns 20 minutos com Rosa no corredor do centro. Quando foi embora, deixou um envelope em cima da mesa da recepção. Dentro havia um papel dobrado, uma nota escrita à mão com letra de quem aprendeu a escrever com caderno de caligrafia e nunca perdeu o hábito.

Dizia: “Eu saí antes do final naquele dia porque tinha medo do que estava sendo escrito. Passei 32 anos descobrindo que o que eu tinha medo de saber não estava naquelas folhas: estava dentro de mim. Obrigado por me deixar entrar de novo.”

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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