Um Juiz Exigiu Provas que Chico Falava com Mortos-O Que Aconteceu Depois Deixou Todos Sem Explicação
Quando o Dr. Heráclito leu a denúncia, ele ficou parado por um longo tempo. Leu duas vezes, três vezes. Tirou os óculos, esfregou os olhos e ficou olhando pela janela do gabinete. Ele sabia que aquilo era dinamite. Sabia que mexer com Chico Xavier era mexer com uma figura que metade do Brasil venerava.
Mas ele também era um homem de lei. E a lei para ele não fazia distinção entre santo e pecador. A lei era a lei. Ele chamou o escrivão e disse: “Abra um processo. Quero ouvir as partes e quero que o senhor Francisco Cândido Xavier seja intimado a comparecer neste tribunal. A notícia se espalhou como fogo em mato seco.
Em dois dias, toda Uberaba sabia. E quando eu digo toda Uberaba, é toda Uberaba mesmo. Do dono do armazém da esquina até o padre da igreja matriz, do motorista de ônibus até o prefeito. Todo mundo comentava. E as opiniões eram tão divididas que famílias inteiras brigaram por causa disso. De um lado, os espíritas, os seguidores de Chico, as centenas de pessoas que tinham recebido cartas psicografadas e que juravam de pé junto que aquelas cartas eram verdadeiras, que traziam informações que ninguém mais no mundo poderia saber. Essas pessoas
diziam que Chico estava sendo perseguido, que era uma injustiça, que a justiça dos homens não tinha autoridade para julgar a justiça de Deus. Do outro lado, os céticos, os católicos mais conservadores, os comerciantes que achavam que o espiritismo era coisa do demônio, e alguns políticos locais que, por motivos que só eles sabiam, queriam ver Chico Xavier humilhado em público.
E no meio de tudo isso, Chico, quieto, calmo, trabalhando como sempre, dizem que quando ele recebeu a intimação, estava sentado no centro espírita, psicografando uma carta para uma mãe que tinha perdido uma filha de 12 anos num acidente de caminhão. parou no meio da carta, leu o papel da intimação, dobrou com cuidado, colocou no bolso do palitó e voltou a escrever.
Não disse uma palavra sobre aquilo, não reclamou, não xingou, não pediu ajuda. Terminou a carta, entregou para a mãe e foi embora, caminhando, como fazia todas as noites, sozinho pela rua escura. Mas os amigos de Chico não ficaram quietos. Um deles, um advogado chamado Dut Valdo Vieira, que na época já era uma figura conhecida no meio espírita, foi procurá-lo no dia seguinte.
Bateu na porta da casinha simples onde Chico morava, aquela casa que todo mundo conhecia, com o portãozinho de madeira e o quintal cheio de plantas. Chico abriu a porta já de pijama e sorriu. Chico, o senhor precisa de um advogado disse Valdo, preocupado. Chico olhou para ele com aqueles olhos mansos e respondeu: “Se Deus achar que eu preciso, ele vai providenciar.
Chico, isso é sério? Estão acusando o senhor de fraude, de estelionato. Se o senhor for condenado, pode ir preso. E Chico, com uma calma que só ele tinha, disse: “Meu filho, eu já estive preso à vida inteira, preso na pobreza, preso na doença, preso na incompreensão dos homens. Se agora Deus quiser que eu esteja preso numa cela, eu vou estar lá fazendo o mesmo que faço aqui, orando e servindo.
Valdo saiu de lá com um nó na garganta, porque ele sabia que Chico não ia se defender, não por orgulho, mas por humildade. Chico acreditava de verdade, do fundo da alma, que se ele estava passando por aquilo, era porque tinha que passar e que no final a verdade ia aparecer sozinha. Mas a verdade, meu amigo, nem sempre aparece do jeito que a gente espera.
As semanas foram passando e o processo foi ganhando corpo. O Dr. Heráclito marcou a audiência para o dia 17 de setembro de 1974, uma terça-feira, e determinou que Chico Xavier deveria comparecer pessoalmente para prestar depoimento. Não bastava mandar um advogado. O juiz queria olhar nos olhos de Chico. Queria ver se aquele homem que todo mundo chamava de santo era capaz de sustentá-lo olhando de frente.
Nos dias que antecederam a audiência, o clima em Uberaba ficou pesado. Literalmente, o céu ficou cinza, coberto de nuvens baixas, e uma chuva fina caía sem parar. daquelas chuvas de inverno mineiro que parecem que nunca vão acabar. As ruas ficaram lamacentas. O rio que passava nos fundos da cidade subiu um pouco e as pessoas andavam de cabeça baixa, como se pressentissem que algo grande estava para acontecer.
No centro espírita, os voluntários faziam turnos de oração, dia e noite, sem parar. Acendiam velas, liam trechos do Evangelho segundo o Espiritismo e pediam a Emanuel, o guia espiritual de Chico, que protegesse o médium, que não deixasse a injustiça prevalecer, que desse a Chico a força para enfrentar aquele tribunal sem perder a dignidade.
E Chico durante todo esse tempo não parou de trabalhar, continuou psicografando, continuou recebendo famílias desesperadas, continuou dando conselhos, distribuindo livros, visitando doentes no hospital, como se nada estivesse acontecendo, como se o mundo não estivesse prestes a desabar sobre a cabeça dele.
Teve uma noite, poucos dias antes da audiência em que algo aconteceu, algo que pouquíssimas pessoas souberam. E é aqui que a história começa a ficar realmente estranha. Era uma quinta-feira. Chico tinha passado o dia inteiro no centro trabalhando sem parar. voltou para casa por volta das 11 da noite, tomou um banho, vestiu o pijama e sentou na cama para fazer a oração dele antes de dormir.
E foi aí que, segundo o que ele contou depois para apenas duas pessoas de confiança, Emanuel apareceu não numa psicografia, não numa intuição. Emanuel apareceu de corpo inteiro, de pé no quarto de Chico, luminoso, sério, com aquela expressão que Chico conhecia tão bem, aquela expressão de pai que está prestes a dar uma notícia difícil ao filho.
E Emanuel disse apenas uma frase: “Chico, no tribunal, não fale. Deixe que eles falem por você”. Chico perguntou: “Quem?” Emanuel? E Emanuel respondeu: “Os que já partiram.” Depois disso, a luz se apagou. Emanuel desapareceu e Chico ficou sentado na cama, no escuro, tremendo, não de medo, mas de emoção, porque ele entendeu, entendeu que não estava sozinho naquela batalha, que o mundo espiritual estava se organizando, que algo ia acontecer naquele tribunal que ninguém esperava.

Mas calma, antes de chegar ao tribunal, eu preciso te contar o que estava acontecendo do outro lado. Preciso te contar sobre dona Eulália e sobre o filho dela, Osvaldo, porque sem entender a motivação deles, você não vai entender o peso do que aconteceu depois. Dona Eulália Pimenta Rocha era uma mulher simples.
Nasceu e cresceu na roça. Casou com o Geraldo aos 19 anos e viveu a vida inteira naquele sítio, cuidando de galinha, de porco, de horta e dos três filhos que teve. Geraldo era um homem trabalhador, honesto, mas duro. Duro como pedra. Não era carinhoso, não era de palavras bonitas. E nos últimos anos de vida, depois que começou a beber, se tornou uma pessoa difícil de aguentar.
Quando Geraldo morreu em 72, dona Eulália ficou aliviada. Eu sei que isso pode soar forte, mas é a verdade. Ela ficou aliviada porque os últimos anos tinham sido terríveis. Geraldo bebia, gritava, quebrava coisas dentro de casa e mais de uma vez levantou a mão para ela. Quando ele teve o infarto e caiu morto no meio do terreiro, dona Eulália chorou, mas não de tristeza, chorou de cansaço.
Chorou porque finalmente tinha acabado. Só que aí veio a carta. Uma vizinha espírita chamada dona Conceição, convenceu dona Eulália a ir ao centro. onde Chico Xavier trabalhava. Vai lá, Eulália. Quem sabe o Geraldo não tem alguma coisa para te dizer do outro lado. Quem sabe ele não mudou. Dona Eulália foi com medo, com desconfiança, mas foi e sentou numa cadeira de madeira no fundo da sala e esperou.
E quando Chico começou a psicografar, a mão dele começou a tremer. A letra mudou. ficou mais grossa, mais torta, mais angulosa. E a carta que saiu dali começava assim: “Eu, Lália, minha velha, é o Geraldo. Eu sei que errei com você, eu sei que fui um cão, mas aqui do lado de cá eu estou aprendendo o que não aprendi aí.
E eu peço perdão. Perdão por cada grito, por cada noite que te fiz chorar, por cada vez que levantei a mão sem razão. Dona Eulália começou a chorar antes de terminar de ler, porque aquela era a letra do Geraldo. Aquele era o jeito do Geraldo de falar. Minha [limpando a garganta] velha. Ele sempre a chamava assim.
E o detalhe dos gritos, das noites de choro, da mão levantada, ninguém mais sabia. Ninguém. Era um segredo entre marido e mulher. Dona Eulália nunca tinha contado para ninguém, nem para os filhos, nem para a vizinha, nem para o padre. Mas a carta não terminava. Aí no final, Geraldo dizia: “Eu, Lália, eu sei que aquele pedaço de terra perto do córrego não serve mais para nada.
está abandonado desde que eu morri. Se você puder, doa para o centro espírita. Não por mim, não por você, mas pelo bem que eles fazem. É o mínimo que eu posso fazer daqui. E foi aí que o problema começou. Porque quando dona Eulália contou para Osvaldo sobre a carta e sobre o pedido de doação, Osvaldo explodiu. Osvaldo tinha 32 anos.
era o filho mais velho e era completamente diferente do pai, ou pelo menos ele achava que era. Osvaldo era inteligente, ambicioso, tinha estudado contabilidade numa escola técnica em Uberlândia e tinha planos para aquele sítio, planos grandes. Ele queria vender a terra, toda ela e usar o dinheiro para abrir um negócio na cidade, uma loja de materiais de construção e aquele pedaço de terra perto do córrego que o Geraldo dizia estar abandonado, era justamente o pedaço mais valioso do sítio, porque ficava na beira de uma estrada nova que
o governo estava abrindo. E todo mundo sabia que em poucos anos aquele terreno ia valer. uma fortuna. Osvaldo não acreditava em espíritos, não acreditava em Chico Xavier e, acima de tudo, não acreditava que o pai, aquele homem bruto e avarento que ele conheceu a vida inteira, fosse capaz de pedir para doar terra para alguém.
“Mãe, isso é golpe”, ele disse. Esse Chico Xavier é um espertalhão que estudou a vida do pai. descobriu que a gente tem terra e inventou essa carta para ficar com o terreno. Dona Eulália ficou dividida. De um lado, ela sentia no coração que a carta era verdadeira. Do outro, o filho estava gritando com ela, dizendo que ela era uma idiota, que ia perder tudo, que ia morrer pobre.
E foi Osvaldo que a levou ao fórum. Foi Osvaldo que escreveu a denúncia. Foi Osvaldo que sentou na frente do Dr. Heráclito e disse com a voz tremendo de raiva: “Excelência, minha mãe está sendo manipulada por um homem que finge falar com os mortos para roubar terras de viúvas.” E o juiz ouviu e o juiz acreditou que valia a pena investigar.
Agora, presta atenção, porque é aqui que a coisa começa a se complicar de verdade. Nos dias que antecederam a audiência, o Dr. Heráclito fez algo que ninguém esperava. Ele mandou um oficial de justiça ir até o centro espírita e aprender todas as cartas psicografadas por Chico Xavier nos últimos seis meses. Todas centenas de cartas.
Cartas que famílias guardavam como relíquias. Cartas que mães liam antes de dormir toda a noite. Cartas que eram para muitas pessoas a única prova de que seus entes queridos continuavam existindo em algum lugar. Quando o suo oficial de justiça chegou ao centro espírita com a ordem judicial, os voluntários ficaram desesperados.
Houve choro, houve grito, houve gente que se ajoelhou na porta e disse que não ia deixar levar nada. Mas Chico apareceu, colocou a mão no ombro de um dos voluntários e disse: “Entrega tudo. Se as cartas são verdadeiras, elas se defendem sozinhas.” E entregaram, caixa após caixa, centenas de folhas escritas à mão, com aquela letra miúda e apressada que Chico produzia durante as sessões mediúnicas.
O oficial de justiça levou tudo para o fórum e o Dr. Heráclito passou três dias lendo aquelas cartas. Três dias inteiros, fechado no gabinete, sem receber ninguém. Só ele, as cartas e um silêncio que os funcionários do fórum diziam que dava arrepio. Ninguém sabe exatamente o que o juiz sentiu lendo aquelas cartas, mas uma funcionária do fórum, uma senhora chamada Dona Yolanda, que trabalhava como auxiliar de limpeza e que era a única pessoa que entrava no gabinete durante aqueles três dias para levar café, contou depois que viu algo
estranho. Ela disse que no segundo dia, quando entrou com a bandeja de café por volta das 3 da tarde, o juiz estava sentado na cadeira, de costas para a porta, segurando uma das cartas com as duas mãos, e chorando, chorando em silêncio, com os ombros tremendo, como um menino que acaba de perder alguém. Dona Yolanda colocou o café na mesa e saiu sem fazer barulho e nunca mais falou sobre aquilo com ninguém.
Até muitos anos depois, quando já estava velha e doente, e contou para uma sobrinha que era espírita. Mas o que o juiz leu naquela carta que o fez chorar? Isso, meu amigo, é outra camada desta história e eu vou te contar, mas no momento certo, porque tudo tem seu tempo. O dia da audiência chegou. 17 de setembro de 1974, terça-feira.
O céu amanheceu cinza, como tinha sido todas as manhãs daquela semana. A chuva tinha parado durante a noite, mas o chão ainda estava molhado, e o ar tinha aquele cheiro de terra úmida que só quem cresceu no interior de Minas conhece. O fórum de Uberaba era um prédio antigo, com paredes grossas de alvenaria, piso de taco de madeira escuro e janelas altas com vidro fosco.
Na frente do prédio havia uma escadaria de sete degraus e naquela manhã aquela escadaria estava lotada de gente. que tinha vindo de toda a cidade, de cidades vizinhas de outros estados até. Havia jornalistas, havia fotógrafos, havia policiais tentando controlar a multidão e havia centenas de espíritas rezando baixinho, de mãos dadas, formando uma corrente humana que ia da escadaria até o meio da rua.
Chico chegou às 8:13 da manhã a pé sozinho, caminhando devagar. com aquele passo miúdo que todo mundo conhecia, vestia o terno marrom surrado de sempre, a camisa branca com o colarinho um pouco amarelado, a gravata fina e os óculos grossos de lente fundo de garrafa. carregava debaixo do braço um livro, apenas um livro, o Evangelho segundo o Espiritismo.
Quando a multidão o viu, houve um silêncio, um silêncio completo, como se a cidade inteira tivesse prendido a respiração. E depois do silêncio começaram os aplausos. Não aplausos de festa, não aplausos de carnaval, aplausos respeitosos, cadenciados. Como uma oração feita com as palmas das mãos. Chico parou no pé da escadaria, olhou para aquelas pessoas e acenou com a cabeça.
Não sorriu, não falou, apenas acenou como quem agradece, sem palavras, e subiu os degraus devagar, um de cada vez, segurando o corrimão de ferro com a mão direita. Do lado de dentro do fórum, a sala de audiência já estava cheia. Todas as cadeiras ocupadas, gente em pé encostada nas paredes, gente sentada no chão.
O calor era sufocante, porque as janelas estavam fechadas por ordem do juiz, que não queria que o barulho da rua atrapalhasse. E o cheiro era uma mistura de perfume barato, suor, naftalina e cera de açoalho. Na frente da sala, atrás da mesa alta de madeira escura, estava o Dr. Heráclito, impecável no terno cinza, gravata escura, cabelo branco penteado para trás, rosto fechado, olhos fundos e sérios.
Ao lado dele, o escrivão, um rapaz jovem de bigode fino, que mantinha os olhos grudados no caderno de anotações, como se tivesse medo de olhar para qualquer pessoa na sala. Do lado esquerdo, sentados na primeira fileira, estavam dona Eulália e Osvaldo. Dona Eulália parecia encolhida, pequena, como se quisesse desaparecer dali. Usava um vestido preto simples e segurava um lenço branco nas mãos, torcendo e destorcendo o tecido sem parar.
Osvaldo, ao contrário, estava ereto, de peito estufado, com um terno novo que tinha comprado especialmente para se a ocasião. Ao lado deles estava o advogado que Osvaldo tinha contratado, um sujeito chamado Dr. Amilcar Bustamant, conhecido na região por ser agressivo, teatral e absolutamente implacável nos tribunais.
Do lado direito, na cadeira reservada ao réu, Chico Xavier sentou-se em silêncio. Ao lado dele não havia advogado. Chico tinha recusado defesa. Tinha dito que não precisava de advogado porque não tinha nada a esconder. O juiz, quando soube disso, ficou irritado. Disse que era direito do réu ter representação legal.
Mas Chico insistiu e o juiz, por fim, aceitou, mas registrou em ata que o réu havia dispensado a defesa por vontade própria. A audiência começou às 9 horas em ponto. O Dr. Heráclito bateu o martelo e disse: “Estamos aqui para apurar os fatos relacionados à denúncia apresentada pela senora Eulalia Pimenta Rocha contra o Senr.
Francisco Cândido Xavier, acusado de prática de estelionato mediante fraude espiritual. A acusação alega que o réu forjou uma carta supostamente psicografada pelo espírito do senor Geraldo Pimenta Rocha, com o objetivo de obter doação indevida de terras pertencentes à família da denunciante. Ele fez uma pausa, olhou para Chico e continuou: “Senhor Francisco, o senhor entende a gravidade da acusação que pesa contra si?” Chico levantou os olhos e disse com voz mansa: “Sim, excelência, entendo.
E o senhor confirma que dispensou o direito à defesa técnica?” Confirmo, excelência. Pois bem, vou ouvir primeiro a acusação. Dr. Amil Carbustamante se levantou como um ator que entra no palco, ajeitou o palitó, pigarreou e começou a falar com aquela voz grave e projetada que advogados experientes aprendem a usar como uma arma.
Excelência, senhores presentes, o que temos diante de nós não é um caso comum, não é um caso de roubo, de furto, de briga entre vizinhos. O que temos diante de nós é algo muito mais grave. Temos um homem que se diz capaz de se comunicar com os mortos. Um homem que, usando essa suposta capacidade, escreveu uma carta na qual o falecido Geraldo Pimenta Rocha supostamente pede que sua viúva doe terras valiosas para uma entidade religiosa.
Uma carta que convenientemente beneficia a própria instituição onde o réu trabalha. Ele caminhou pela sala, olhando para os presentes, e continuou. Eu não estou aqui para discutir fé. Eu não estou aqui para dizer se espíritos existem ou não. Eu estou aqui para dizer que, independentemente do que se acredite, a lei brasileira não reconhece a comunicação com os mortos como prova de nada.
E quando um homem usa essa suposta comunicação para convencer uma viúva idosa e vulnerável a se desfazer de seus bens, isso tem um nome no Código Penal. Chama-se Estelionato. A sala ficou em silêncio, um silêncio pesado, carregado. Deu para ouvir o barulho de alguém engolindo o seco. Dr. Milcar continuou. Eu vou provar, excelência, que o réu tinha meios de obter informações sobre a família Pimenta Rocha por vias ordinárias, que ele sabia da existência das terras, que ele sabia do valor dessas terras e que a carta psicografada não passa de uma
farça elaborada para se apropriar do patrimônio de uma mulher indefesa. Ele sentou, a sala explodiu em murmúrios. O juiz bateu o martelo. Silêncio. E então olhou para Chico. Senr. Francisco, o senhor quer dizer alguma coisa em sua defesa? Chico se levantou devagar, com dificuldade, porque já naquela época ele sentia dores nos joelhos e nas costas.
Ficou de pé, com as mãos cruzadas na frente do corpo e disse: “Excelência, eu não escrevi aquela carta. Quem escreveu foi o Geraldo. Eu só emprestei a mão. Dr. Amilcar soltou um riso irônico. Emprestou a mão muito conveniente. O juiz olhou para o advogado com severidade. Doutor, o senhor terá sua vez de falar por enquanto.
Deixe o réu responder. Chico continuou. Eu sei que o senhor não acredita, doutor, e eu não espero que acredite. Mas eu posso dizer uma coisa. Eu nunca pedi nada à dona Eulalia. Eu nunca soube da existência daquele terreno até o Geraldo mencionar na carta. Eu nunca vi aquela senhora antes daquela noite e o centro espírita onde eu trabalho nunca aceitou doações de terras, de dinheiro, de nada.
Tudo o que a gente faz lá é de graça, com dinheiro do nosso bolso, do nosso suor. Dr. Amilcar se levantou novamente. Excelência, palavras bonitas não substituem provas. Eu peço que o tribunal exija do réu uma demonstração. Se ele realmente é capaz de se comunicar com os mortos que prove aqui, agora, diante de todos. A sala explodiu.
Gritos de protesto de um lado, aplausos de outro. O juiz bateu o martelo várias vezes. Silêncio. Eu vou prender por desacato quem perturbara a ordem deste tribunal. Quando o silêncio voltou, o juiz ficou parado por um longo momento, olhando para o nada. E depois disse algo que ninguém esperava, algo que mudou o rumo de tudo. Dr.
Milcar, sua sugestão é incomum, mas não é absurda. Se o réu afirma que possui uma capacidade sobrenatural e se a acusação afirma que essa capacidade é uma farsa, então talvez a maneira mais justa de resolver essa questão seja exatamente essa, uma demonstração. Ele olhou para Chico. Senr. Francisco, eu vou lhe fazer uma proposta e o senhor é livre para recusar.
Eu vou lhe dar a oportunidade de psicografar uma carta aqui neste tribunal sob supervisão diante de testemunhas. Se a carta contiver informações que possam ser verificadas e que comprovem que o Senhor não poderia tê-las obtido por meios ordinários, eu levarei isso em consideração no meu julgamento. Se a carta for vaga, genérica, ou contiver informações que qualquer pessoa poderia inventar, isso pesará contra o senhor.
O senhor aceita? O silêncio que se fez naquele momento foi o silêncio mais profundo que aquele tribunal já conheceu. Ninguém respirava, ninguém piscava. Todos os olhos estavam em Chico. E Chico, com a voz muito baixa, quase um sussurro, disse: “Eu aceito, excelência, mas eu preciso que o senhor entenda uma coisa.
Eu não tenho controle sobre isso. Eu não escolho quem vem, quando vem ou o que diz. Eu sou apenas um instrumento. Se ninguém vier, eu não posso forçar. E se alguém vier, o que essa pessoa disser? Pode não ser o que o senhor quer ouvir. O juiz assentiu. Entendido. Vamos fazer uma pausa de 30 minutos.
Quando voltarmos, o Senhor terá sua oportunidade. E aqui, meu amigo, é onde a história entra num território que desafia qualquer explicação racional. Durante os 30 minutos de pausa, Chico ficou sentado na cadeira dele, de olhos fechados, com o livro do Evangelho aberto no colo. Não falou com ninguém, não bebeu água, não se moveu.
As pessoas passavam por ele e ele parecia não perceber, como se estivesse em outro lugar, em outro mundo. Do lado de fora do fórum, a multidão tinha crescido. Havia agora mais de 1000 pessoas na rua. Alguém tinha trazido um rádio e uma emissora local estava transmitindo o que sabia da audiência em tempo real. Os espíritas continuavam rezando, mas agora rezavam mais alto, com mais urgência, como se sentissem que o momento decisivo estava chegando. Dentro do fórum, o Dr.
Heráclito também ficou sozinho no gabinete durante a pausa. E foi durante esses 30 minutos que algo aconteceu, que ninguém soube naquele dia, mas que depois veio à tona por caminhos improváveis. O juiz, sozinho no gabinete, abriu a gaveta da mesa e tirou de lá uma das cartas psicografadas que tinha apreendido do centro espírita.
A mesma carta que dona Yolanda o tinha visto segurando enquanto chorava. Ele leu a carta mais uma vez e suas mãos tremiam. Aquela carta não era de dona Eulália, não era de nenhuma das pessoas que ele estava julgando. Aquela carta era endereçada a uma mulher chamada Helena e começava assim: “Helena, minha filha querida, é o papai.
Eu sei que você sofreu muito quando eu parti. Eu sei que você ficou brava comigo por não ter contado sobre a doença, mas eu não queria te preocupar. Eu não queria que você largasse a faculdade para cuidar de mim. O juiz sabia quem era Helena. Helena era filha dele e o homem que assinava aquela carta, o espírito que supostamente a tinha ditado, era o pai do juiz, o senhor Joaquim Mendes Figueira, que tinha morrido de câncer no pulmão em 1969, sem contar para ninguém da família que estava doente. Escondeu a doença durante
meses, até que não deu mais. E quando Helena soube, já era tarde, e ela nunca se perdoou por não ter estado ao lado do Pai nos últimos dias. E a carta continuava: “Helena, o seu pai está aqui do outro lado e está bem. Diga ao Heráclito que ele não precisa ser tão duro, que ser justo não significa ser frio.
Diga a ele que eu tenho o orgulho do homem que ele se tornou, mas que ele precisa aprender a chorar. Porque um homem que não chora é um homem que não vive. O juiz não sabia que essa carta existia. Não sabia que sua irmã Helena tinha ido ao centro espírita pedir uma carta do Pai. Helena nunca tinha contado para ele, porque ela sabia que o irmão não acreditava nessas coisas e ela tinha medo do julgamento dele.
Mas agora a carta estava ali nas mãos do juiz e continha detalhes que ninguém, absolutamente ninguém poderia saber o fato de que o pai escondeu a doença, o fato de que Helena largou a faculdade, o apelido que o pai usava para chamar Heráclito quando ele era criança, meu juizinho, que aparecia no meio da carta e uma referência a um relógio de bolso que o pai tinha prometido dar ao Heráclito quando ele se formasse e que nunca chegou a entregar porque morreu antes.
Esse relógio, esse detalhe era o que tinha feito o juiz chorar, porque aquele relógio existia. Estava guardado numa caixa de sapatos no fundo do armário do quarto do juiz. E ninguém, ninguém vivo sabia da promessa que o pai tinha feito. Era um segredo entre pai e filho. Um segredo sussurrado numa tarde de domingo, quando Heráclito tinha 15 anos, e disse ao pai que queria ser juiz.
E agora esse segredo estava escrito numa carta psicografada por um homem que o juiz estava prestes a julgar por fraude. 30 minutos se passaram. O juiz voltou para a sala de audiência. Estava mais pálido que antes, os olhos um pouco vermelhos, mas o rosto fechado, impenetrável, profissional. “Vamos continuar”, ele disse. “Senor Francisco, o senhor está pronto?” Chico abriu os olhos, olhou para o juiz e por uma fração de segundo algo passou entre os dois.
Um olhar não de desafio, não de medo, algo mais profundo, como se Chico soubesse, como se ele pudesse ver alguma coisa que ninguém mais na sala podia ver. Estou pronto, excelência”, disse Chico. O escrivão trouxe papel e caneta, colocou na mesa diante de Chico. O juiz determinou que duas testemunhas indicadas por ele ficariam de pé ao lado de Chico durante todo o processo, observando cada movimento das mãos dele, cada letra que ele escrevesse.
As testemunhas eram o delegado de polícia da cidade, um homem chamado Anísio B. e o diretor do cartório local, Dr. Sebastião Ferreira. Ambos homens sérios, respeitados, sem nenhuma ligação com o espiritismo. Chico pegou a caneta, fechou os olhos e a sala inteira prendeu a respiração. Passou um minuto, 2 minutos, 3 minutos, nada acontecia.
Chico estava sentado, imóvel, com a caneta na mão, os olhos fechados, a respiração lenta, o suor começou a escorrer pela testa dele. Uma gota desceu pelo rosto e caiu no papel em branco. Dr. Amilcar, o advogado da acusação, começou a se mexer na cadeira, impaciente. Olhou para o juiz com um meio sorriso, como quem diz.
Viu? Eu avisei. 5 minutos, 6 minutos. O silêncio era tão absoluto que dava para ouvir o relógio de parede no fundo da sala. Tic tac tic tac. E então, no sétimo minuto, a mão de Chico se moveu. Não se moveu devagar, como quem começa a escrever. se moveu de repente, como se alguém tivesse agarrado a mão dele por trás e puxado para baixo.
A caneta bateu no papel com força, quase rasgando, e Chico começou a escrever. Mas não era a letra de Chico. Quem já viu o Chico psicografar sabe disso. A letra muda, o ritmo muda, o tamanho das letras, a inclinação, a pressão da caneta no papel, tudo muda, porque não é Chico quem está escrevendo, é outro. A mão de Chico voava pelo papel, linha após linha, sem parar, sem levantar a caneta, sem abrir os olhos.
O delegado Anísio e o Dr. Sebastião estavam grudados ali, olhando cada traço, cada palavra, e seus rostos foram mudando à medida que a carta avançava. Primeiro era curiosidade, depois espanto, depois algo que se parecia muito com medo. Chico escreveu por 19 minutos seguidos. 19 minutos sem parar, sem abrir os olhos, sem hesitar, sem corrigir uma única palavra.
E quando terminou, a mão dele caiu sobre a mesa, como se tivesse sido abandonada por quem a estava guiando. A caneta rolou e caiu no chão. E Chico abriu os olhos, olhou para o papel como se não soubesse o que tinha escrito e ficou quieto. O juiz estendeu a mão. Me dê a carta. O escrivão pegou as folhas e levou até a mesa do juiz.
Eram quatro páginas escritas dos dois lados, com letra miúda e firme. O juiz começou a ler em silêncio e, à medida que lia, seu rosto foi mudando. A dureza foi dando lugar a algo que ninguém naquela sala esperava ver naquele homem. Perplexidade, pura perplexidade. Depois de ler a carta inteira duas vezes, o juiz olhou para a sala e disse: “Eu vou ler esta carta em voz alta.” Dr.
Amilcar protestou. Excelência, eu me oponho. Essa carta não tem valor jurídico. Eh, doutor, sente-se. Disse o juiz com uma voz que não admitia a réplica. Eu sou o juiz desta audiência e eu decido o que tem ou não tem valor. Sente-se. O advogado sentou e o juiz começou a ler. Carta começava assim: Geraldo Pimenta Rocha, nascido em 23 de março de 195 na fazenda Boa Esperança, filho de Antônio Pimenta e Joana da Silva Rocha.
Dona levou a mão à boca porque aqueles dados estavam corretos todos, inclusive o nome da fazenda onde Geraldo nasceu. Um detalhe que quase ninguém sabia porque a fazenda já não existia mais. Tinha sido engolida por uma represa nos anos 50. A carta continuava: “Eu, Lalha, eu sei que o Osvaldo não acredita e eu não condeno ele por isso.
Ele é meu filho, tem o meu sangue e o meu sangue sempre foi teimoso. Mas eu preciso que ele saiba de uma coisa que eu nunca contei para ninguém, nem para você, minha velha.” O juiz parou de ler. Olhou para a dona Eulália, que estava chorando. Olhou para Osvaldo, que estava pálido, e continuou: “Osvaldo, quando você tinha 7 anos, você ficou doente, muito doente.
Febre alta, vômito, delírio. A sua mãe queria te levar ao hospital, mas eu não deixei porque eu não tinha dinheiro e tinha vergonha de pedir ajuda. E numa noite, você estava tão mal que eu achei que ia te perder. E eu fiz uma coisa que nunca fiz antes e nunca fiz depois. Eu me ajoelhei no chão do quarto, ao lado da sua cama e rezei.
Eu rezei a noite inteira. Eu, que nunca acreditei em nada, me ajoelhei e pedi a Deus que salvasse o meu filho. E no dia seguinte, a febre cedeu. Você melhorou e eu nunca mais falei sobre aquela noite. Nunca mais rezei, mas nunca esqueci. Osvaldo estava branco como papel, branco como a parede atrás dele, porque ele se lembrava daquela noite, se lembrava da febre, do delírio, do medo, mas não sabia que o pai tinha rezado, não sabia que o pai tinha se ajoelhado, não sabia que aquele homem duro, que nunca mostrou fraqueza, tinha passado a noite inteira
de joelhos ao lado da cama dele, pedindo a Deus. A carta continuava e cada parágrafo era um soco no estômago. Osvaldo, eu sei que você quer vender a terra. Eu sei que você tem planos e eu não vou te impedir. A terra é de vocês. Mas aquele pedaço perto do córrego, meu filho, aquele pedaço não é nosso. Nunca foi.
Eu comprei aquele terreno do velho Tibúrcio em 63, mas nunca paguei. Fiz um acordo de boca com ele. Prometi pagar em parcelas e nunca paguei. O Tibúrcio morreu em 67 sem receber um tostão, e a viúva dele nunca cobrou porque tinha medo de mim. Então aquele terreno, Osvaldo, é roubado, é terra roubada.
E eu não quero carregar esse peso daqui de onde eu estou. Por isso eu pedi para a sua mãe do ar. Não é para o centro espírita, é para limpar a minha alma. A sala estava em choque. Absoluto choque. Dona Eulalia soluçava. Osvaldo estava imóvel, como uma estátua, com os olhos arregalados e a boca aberta. E o advogado Dr.
Amilcar tinha perdido toda a pose, toda a teatralidade, e estava sentado na cadeira com a expressão de um homem que acaba de ver algo impossível. Mas a carta não tinha terminado. E agora eu preciso falar com o Dr. juiz. Sim, com o senhor Dr. Heráclito. O juiz parou de ler. Seus olhos se arregalaram.
Ele olhou para o papel, olhou para Chico e olhou de novo para o papel. “Continue, excelência”, disse alguém na sala. E o juiz, com a voz agora tremendo, continuou: “Doutor Heráclito, eu sei que o senhor é um homem justo. Eu sei que o senhor está fazendo o seu trabalho e eu respeito isso. Mas eu preciso que o senhor saiba que tem alguém aqui do meu lado que quer falar com o senhor.
é um homem de cabelo branco, bigode fino, que usa um colete xadrez e tem um relógio de bolso no bolso do colete. Ele diz que é seu pai e ele diz que o relógio ainda está na caixa de sapatos. O juiz parou de ler e eu preciso que você entenda o que aconteceu naquele momento. Aquele homem, aquele juiz duro, impenetrável, que nunca perdeu a compostura em 30 anos de carreira, largou o papel na mesa, tirou os óculos e ficou parado, parado, olhando para o nada, com os olhos cheios de água.
A sala inteira estava em silêncio. Ninguém entendia exatamente o que estava acontecendo. Mas todos sentiram, todos sentiram que algo tinha mudado naquele tribunal, algo grande, [limpando a garganta] algo que ia além da lei, além da lógica, além de qualquer coisa que aquelas paredes já tinham presenciado. E então o juiz fez algo extraordinário, algo que os funcionários do fórum juraram depois que nunca tinham visto na vida.
Ele se levantou da cadeira, desceu do estrado onde ficava a mesa do juiz, caminhou até Chico Xavier, parou na frente dele e disse com a voz embargada: “Senhor Francisco, como o senhor sabia sobre o relógio? Chico olhou para ele com aqueles olhos mansos e disse: “Eu não sabia, excelência. Quem sabia era o seu pai e o colete xadrez? Eu nunca vi o seu pai, doutor.
Mas o espírito que ditou a carta me descreveu um senhor de cabelo branco, bigode fino, usando um colete xadrez. Ele estava sorrindo e ele queria que o senhor soubesse que tem orgulho do Senhor. O juiz ficou parado por um tempo que pareceu uma eternidade e depois fez algo que destruiu qualquer fachada que ele ainda mantinha. Ele estendeu a mão para Chico Xavier e Chico apertou.
E quando as mãos dos dois se tocaram, o juiz fechou os olhos e uma lágrima escorreu pelo rosto dele. A sala inteira chorava. Dona Eulália chorava, as testemunhas choravam. O delegado Anísio, aquele homem que carregava uma arma na cintura e passava os dias lidando com bandidos, estava chorando. O escrivão tinha parado de escrever porque não conseguia enxergar o caderno através das lágrimas.
O único que não chorava era Osvaldo. Osvaldo estava sentado na cadeira, com a cabeça entre as mãos em silêncio. Mas não era o silêncio da raiva, era o silêncio de um homem cujo tinha acabado de ser virado de cabeça para baixo. O juiz voltou para a cadeira dele, enxugou os olhos com as costas da mão, colocou os óculos de volta e disse com a voz ainda trêmula, mas firme: “Esta audiência está encerrada por hoje.
Eu preciso de tempo para analisar o que aconteceu aqui. A próxima sessão será marcada por intimação.” E bateu o martelo, mas a próxima sessão nunca aconteceu. Três dias depois da audiência, o Dr. Heráclito emitiu uma decisão. E essa decisão, meu amigo, é talvez o documento mais surpreendente que já saiu de um tribunal brasileiro naquela época.
Porque na decisão o juiz não apenas arquivou o caso contra Chico Xavier por falta de provas de fraude, ele foi além. Ele escreveu no corpo da sentença o seguinte parágrafo: “Este juízo reconhece que os fatos apresentados durante a audiência do dia 17 de setembro de 1974 não podem ser explicados pela lógica jurídica convencional.
A carta psicografada pelo Sr. Francisco Cândido Xavier continha informações que, após verificação, mostraram-se verdadeiras e que não poderiam ter sido obtidas por meios ordinários. Este juízo não se propõe a julgar a existência ou inexistência de comunicação com espíritos, pois tal questão foge à competência da justiça dos homens.
Porém, este juízo reconhece que a boa fé do réu restou demonstrada de forma inequívoca e que não há qualquer indício de que o Senr. Francisco Cândido Xavier tenha agido com intenção de fraudar ou prejudicar quem quer que seja. Quando essa decisão foi publicada, a notícia se espalhou pelo Brasil inteiro. [limpando a garganta] Jornais, rádios, revistas.
Todo mundo falava sobre o tribunal de Uberaba, sobre o juiz que desafiou o Chico Xavier a provar que falava com os mortos e sobre o que aconteceu quando Chico aceitou o desafio. Mas a história não termina aqui, porque o que aconteceu depois nos bastidores longe dos holofotes? é tão importante quanto o que aconteceu no tribunal.
Três semanas depois da audiência, Osvaldo Pimenta Rocha foi até o centro espírita sozinho. De noite, bateu na porta às 9 da noite, quando o centro já estava fechado. Um voluntário abriu e encontrou Osvaldo ali, com os olhos vermelhos, cheirando a cachaça, com a camisa desabotoada e o cabelo despenteado. Eu preciso falar com o Chico”, ele disse.
O voluntário explicou que Chico já tinha ido embora, que voltava no dia seguinte, mas Osvaldo insistiu. “Eu preciso falar com ele agora, por favor.” O voluntário, sem saber o que fazer, foi até a casa de Chico, que ficava a poucas quadras. Bateu na porta. Chico abriu já de pijama e quando ouviu que Osvaldo estava no centro, não hesitou.
vestiu uma camisa, calçou os sapatos e foi. Quando Chico chegou ao centro, encontrou o Osvaldo sentado no chão, encostado na parede, chorando. Chico sentou ao lado dele no chão, lado a lado, dois homens sentados no chão frio de um centro espírita fechado no meio da noite, com um único abajur aceso no canto da sala.
E Osvaldo contou tudo. Contou que depois da audiência foi até o cartório de Uberaba e pesquisou a escritura do terreno perto do córrego e descobriu que o pai dele realmente nunca tinha registrado a compra, que o terreno estava no nome do velho Tibúrcio até hoje, que tudo o que a carta dizia era verdade.
contou que foi até a viúva do Tibúrcio, uma senhora de 80 anos que morava numa casinha caindo aos pedaços na periferia da cidade e que a velha quando viu Osvaldo, começou a tremer de medo, porque achava que ele tinha ido cobrar alguma coisa. E quando Osvaldo disse que tinha ido pedir desculpas, a velha caiu sentada na cadeira e disse: “Meu Deus! O Geraldo mandou o filho resolver o que ele não resolveu.
E Osvaldo contou mais. contou que naquela noite, depois de sair da casa da viúva do Tibúrcio, ele voltou para o sítio, entrou no quarto que era do pai e ficou ali parado no escuro. E pela primeira vez na vida, ele tentou rezar, tentou falar com o pai, tentou pedir perdão por ter chamado o Chico de charlatão, por ter levado a mãe ao tribunal, por ter tentado destruir a reputação de um homem inocente.
“E sabe o que aconteceu, seu Chico?”, disse Osvaldo com a voz embargada. Eu senti o cheiro do meu pai ali no quarto, cheiro de fumo de rolo e suor, o cheiro do meu pai. E eu senti a mão dele no meu ombro. Juro por Deus. Senti a mão dele pesada, como sempre foi, apertando o meu ombro, como ele fazia quando eu era menino e ele queria me mostrar que estava ali.
Chico ouviu tudo em silêncio e quando Osvaldo terminou, Chico disse apenas uma coisa. Osvaldo, seu pai nunca saiu do seu lado, nem quando estava vivo, e não sabia demonstrar, nem agora. Osvaldo encostou a cabeça na parede e chorou como uma criança. E Chico ficou ali sentado no chão ao lado dele, sem falar mais nada, apenas presente, apenas ali.
Nos meses seguintes, Osvaldo mudou. Não virou espírita, não começou a frequentar o centro, mas parou de beber. regularizou a situação do terreno, pagando à viúva do Tibúrcio o valor justo que o pai devia, e doou o pedaço de terra perto do córrego, não para o centro espírita, mas para a própria viúva do Tibúrcio, que poôde finalmente registrar a terra no nome dela e viver os últimos anos de vida com dignidade.
Dona Eulália ficou em paz. Nunca mais se casou. Viveu no sítio até os 81 anos, quando morreu dormindo, numa noite de julho, com a carta psicografada pelo Geraldo debaixo do travesseiro, e o juiz, o Dr. Heráclito Mendes Figueira. Essa talvez seja a parte mais silenciosa e mais bonita de toda essa história. Duas semanas depois da audiência, o Dr.
Heráclito escreveu uma carta à irmã Helena, uma carta comum, de próprio punho, sem nenhuma mediação espiritual. E nessa carta ele dizia: “Helena, eu sei que você foi ao centro espírita do Chico Xavier. Eu sei que você recebeu uma carta do papai. Eu li essa carta e eu preciso te dizer que não sei explicar o que senti.
Não sei se acredito em espíritos. Não sei se o papai realmente mandou aquela carta. Mas eu sei de uma coisa. As palavras que estavam ali eram do papai. O jeito de falar era do papai. E o relógio, Helena, o relógio de bolso que ele prometeu me dar quando eu me formasse. Ninguém mais sabia disso. Ninguém.
Então, ou existe algo que vai além do que eu consigo entender, ou eu sou um homem muito mais ignorante do que pensava. De qualquer forma, eu te peço desculpas por ter sido tão duro com você todos esses anos. O papai tinha razão. Eu preciso aprender a chorar. Helena recebeu essa carta numa manhã de sábado, sentada na varanda da casa dela em Belo Horizonte.
E chorou. chorou de alegria, chorou de alívio, porque o irmão dela, aquele homem de pedra, tinha finalmente rachado. E por dentro, onde ninguém via, ele era tão humano quanto qualquer um de nós. O Dr. Heráclito se aposentou da magistratura em 1979. Nunca mais falou publicamente sobre o caso de Chico Xavier, nunca deu entrevista, nunca escreveu artigo, nunca comentou com colegas.
Mas os funcionários do fórum de Uberaba contam que nos últimos anos antes de se aposentar, o juiz mudou, ficou mais calmo, mais paciente, mais humano nas decisões e que às vezes, no final do expediente, quando achava que ninguém estava olhando, ele tirava da gaveta da mesa um relógio de bolso antigo, segurava-o com as duas mãos e ficava ali olhando para ele em silêncio por longos minutos.
E Chico Xavier, Chico continuou sendo Chico. No dia seguinte, ao encerramento do processo, ele estava de volta ao centro espírita às 7 da manhã, sentado na cadeira dele, com o caderno aberto esperando. Quando perguntaram a ele sobre o tribunal, ele disse apenas: “Não fui eu que provei nada. Foram eles, os espíritos. Eu só estava ali segurando a caneta.
E essa, meu amigo, é a parte que mais me emociona nessa história. Porque Chico poderia ter saído daquele tribunal como um herói. [limpando a garganta] Poderia ter dado entrevistas, poderia ter capitalizado aquela vitória. Poderia ter se tornado ainda mais famoso e poderoso do que já era. Mas não. Ele simplesmente voltou ao trabalho, voltou a servir, voltou a emprestar a mão para quem precisasse do outro lado.
Porque Chico Xavier nunca fez nada para si mesmo. Nunca. Em toda a vida dele, ele nunca buscou fama, dinheiro, reconhecimento ou poder. Ele viveu pobre, morreu pobre e no meio disso tudo ajudou mais gente do que a maioria de nós consegue imaginar. Ele escreveu mais de 400 livros, todos psicografados, e doou os direitos autorais de cada um deles. Doou tudo, ficou com nada.
E é por isso que histórias como essa importam. Não porque provam ou deixam de provar que os espíritos existem, não porque convencem os céticos ou reforçam a fé dos que já acreditam, mas porque nos lembram de que existiu um homem no Brasil que viveu de uma forma que a maioria de nós não tem coragem de viver, com entrega total, com humildade absoluta, com uma fé tão profunda que ele aceitou ser julgado.
acusado, humilhado e não reclamou, não se defendeu, apenas confiou. E sabe o que mais me impressiona? É que Chico nunca pediu para ser acreditado. Nunca. Ele dizia: “Não acredite em mim. Acredite no amor. Acredite que os que partiram continuam amando vocês. Acredite que a morte não é o fim, mas o começo de outra jornada.
E se você não conseguir acreditar em nada disso, tudo bem. Eu vou continuar aqui fazendo o meu trabalho até o dia em que Deus me chamar de volta. E ele fez, fez até o último dia, até o dia 30 de junho de 2002, quando partiu desta vida, no dia do seu aniversário, exatamente como ele tinha pedido. Porque Chico Xavier, aquele homem simples de Uberaba, tinha dito uma vez que queria morrer num dia em que o Brasil estivesse feliz.
e morreu no dia em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo pela quinta vez. morreu enquanto o país inteiro celebrava e talvez do outro lado tenha sido recebido com a mesma alegria. Agora eu vou te fazer uma pergunta e eu quero que você pense antes de responder. Não responda de impulso. Se você estivesse naquele tribunal em 1974, sentado numa daquelas cadeiras de madeira, ouvindo aquela carta ser lida em voz alta, o que você teria sentido? Você teria acreditado ou teria procurado uma explicação racional? Eu não sei a sua resposta e sinceramente não importa,
porque a beleza desta história não está em acreditar ou desacreditar. A beleza está no fato de que um homem sozinho, sem advogado, sem defesa, sem nada além da caneta e da fé, enfrentou um tribunal inteiro e deixou a justiça brasileira sem explicação. E esse homem era Chico Xavier. Eu preciso te contar. Mais uma coisa antes de terminar, uma coisa que quase ninguém sabe e que eu guardei para o final porque acho que é o detalhe que amarra tudo.
Muitos anos depois, em 1993, uma repórter de uma revista de São Paulo foi a Uberaba para fazer uma matéria sobre Chico Xavier. E durante a apuração, ela descobriu a história do tribunal. Quis saber mais. Quis encontrar as testemunhas e conseguiu localizar o delegado Anísio Borges, que naquela época já estava aposentado, e morava numa chácara nos arredores da cidade.
Anísio tinha 81 anos. Estava fraco, doente, usando uma cadeira de rodas. Mas quando a repórter perguntou sobre o dia em que ele foi testemunha no tribunal, o velho delegado arregalou os olhos como se tivesse 20 anos de novo. “Eu lembro como se fosse ontem”, ele disse. Eu fiquei do lado do Chico olhando ele escrever.
E eu vi uma coisa que nunca contei para ninguém, nunca, porque ninguém ia acreditar. A repórter perguntou o que ele tinha visto e o delegado disse. Enquanto o Chico escrevia, eu vi a mão dele se movendo, mas não era só a mão dele. Tinha outra mão em cima da mão dele. Uma mão que eu não conseguia ver direito, como se fosse feita de fumaça ou de luz.
Uma mão que guiava a mão dele. E essa mão tinha um anel, um anel com uma pedra vermelha. E eu me lembro de ter pensado na hora: “Quem é o dono desse anel?” A repórter ficou em silêncio e o delegado continuou. Muitos anos depois, em 87, eu vi uma foto do Geraldo Pimenta Rocha num álbum que a dona Eulália mostrou para o padre da cidade.
E na foto, o Geraldo estava usando um anel, um anel com uma pedra vermelha, o mesmo anel que eu vi naquela mão naquele dia no tribunal. O delegado ficou quieto por um momento, depois olhou para a repórter e disse: “A senhora pode acreditar ou não? Eu sou um homem da lei. Passei a vida inteira lidando com provas, com fatos, com evidências.
E eu sei o que eu vi. Eu vi a mão de um morto guiando a mão de Chico Xavier. E isso mudou tudo o que eu pensava sobre a vida e sobre a morte. A repórter publicou a matéria, mas esse trecho, o trecho do anel, o editor mandou cortar. disse que era inverificável, que poderia causar problemas legais, que era sensacionalismo. A repórter protestou, brigou, mas no final o trecho foi cortado e a história do anel ficou guardada nos cadernos de anotação dela, esquecida até hoje.
Mas agora você sabe. Sabe que num tribunal no interior de Minas Gerais, em 1974, um juiz desafiou Chico Xavier a provar que falava com os mortos e Chico, em vez de se defender com palavras, deixou que os mortos falassem por ele. E o que eles disseram foi tão preciso, tão íntimo, tão impossível de ser inventado, que a justiça não teve outra opção a não ser se calar.
Porque tem coisas nesta vida que a lei dos homens não alcança. Tem verdades que nenhum tribunal pode julgar. Tem provas que nenhum advogado pode refutar. E Chico Xavier sabia disso. Sabia que a maior prova da existência do espírito não está nos livros, nos tribunais, nos laboratórios. está no coração de quem ama alguém que já partiu e sente no fundo da alma que essa pessoa ainda está ali ainda presente, ainda amando.
E se você sente isso, meu amigo, se você alguma vez perdeu alguém e sentiu que essa pessoa ainda estava perto, que mandava sinais, que aparecia nos sonhos, que soprava um vento quente no seu rosto numa tarde fria. Então, [limpando a garganta] você sabe do que eu estou falando. Você sabe que Chico Xavier não era um charlatão, não era um mentiroso, não era um manipulador.
Chico Xavier era um homem que viveu para servir e que, mesmo depois de morrer, continua servindo através das histórias que deixou, dos livros que escreveu, das vidas que transformou. Agora me diz, comenta aqui embaixo. Você já sentiu a presença de alguém que já partiu? Você já recebeu um sinal que não pode explicar? Você já leu uma carta psicografada por Chico Xavier? e sentiu que era real.
Conta para mim, porque essas histórias precisam ser contadas, precisam ser ouvidas, precisam ser lembradas para que a geração que vem depois da nossa saiba que existiu um tempo em que a fé era vivida com entrega, com coragem e com o coração aberto. Siga esta página se você admira o legado de Chico Xavier.
E se esse história tocou o seu coração, compartilha com alguém que também precisa ouvir essa história, porque o amor não morre e as histórias de quem amou de verdade também não.