Trios, Obsessão e Final Trágico: O Escândalo que CHOCOU a ITÁLIA

O marquês e Luisa Casati se separaram. Ela gastou a fortuna que havia herdado com a velocidade de quem nunca se preocupou com o dia seguinte e morreu praticamente sem nada em Londres, décadas depois. Depois disso, o marquês se casou com Anna Ewing Cockran, americana, filha de um senador, viúva de um diplomata grego.

Desse segundo casamento, em 1927, nasceu Camillo II. O menino herdou o sobrenome e pouco mais. O pai era uma presença distante, formal, o tipo de figura que aparecia raramente e sempre com a mesma formalidade de quem cumpria uma obrigação. A mãe era fria e pouco afetuosa. Despachou o filho para internatos e tutores assim que pôde, como quem resolvia um problema doméstico.

Dentro de casa, os empregados chamavam o menino de Camillino. Era o único diminutivo afetivo que ele recebia. O que cresce num vazio assim não desaparece: toma forma. Camillino cresceu na abundância de quem tinha tudo, exceto aquilo que realmente importava. E a combinação produziu nele um caráter que todos ao redor viram se formar e ninguém corrigiu.

Era mimado e grosseiro com os empregados desde cedo. Tratava-os com a naturalidade de quem nunca havia aprendido que pessoas não são mobília. Os acessos de raiva eram absorvidos, tolerados, justificados pelos que o rodeavam. O adulto que surgiu daí tinha a convicção de que o mundo existia para satisfazê-lo. Quando algo não lhe agradava na rua — um carro mal estacionado, por exemplo —, havia desenvolvido o hábito de jogar o próprio veículo contra ele repetidas vezes até destruí-lo completamente.

Carregava ovos cozidos na bolsa e os comia no bar, regando-os com champanhe, como se a excentricidade fosse outra forma de dizer que as regras não eram para ele. Havia também outro lado, mais silencioso, igualmente revelador. Camillino havia desenvolvido, com o passar dos anos, paixões que diziam muito sobre como ele precisava se relacionar com o mundo.

A caça era a principal, praticada com método quase maníaco. Os animais abatidos eram mandados empalhar e catalogados com o cuidado de um colecionador. A ornitologia completava esse universo: pássaros como objetos, criaturas vivas transformadas em peças de acervo. Nas palavras cruzadas, encontrava o prazer da lógica fechada, do problema com solução exata.

Nas corridas de cavalos, reunia controle e risco num equilíbrio que achava tranquilizador. Tudo de que ele gostava envolvia domínio. Tudo o que colecionava precisava permanecer dentro dos limites que ele estabelecia. Adulto, Camillo havia se casado com Letizia, bailarina de variedades conhecida pelo nome artístico de Lydia H.

Tivera uma filha, Anna Maria. Vivia no Palazzo Barberini, no coração monumental de Roma. Frequentava os círculos mais fechados da aristocracia italiana. Possuía uma biblioteca de mais de 10.000 volumes, propriedades na Brianza, uma coudelaria. No verão, deslocava-se para a ilha de Zannone, uma ilhota do arquipélago pontino concedida pelo Estado à família como reserva de caça.

Lá havia construído uma vila sobre os restos de um antigo mosteiro. A ilha era o seu fortim. Quem desembarcasse sem convite era convidado a ir embora, gentilmente, com a ajuda de uma espingarda. Camillo estava pronto para a próxima aquisição. O que ele ainda não sabia era que, dessa vez, o que ele queria não se deixaria ter da mesma maneira.

Anna Fallarino nasceu em 1929 em Amorosi, uma cidade pequena na província de Benevento, no sul da Itália. O pai era um funcionário modesto. A mãe abandonou a família quando Anna tinha 3 anos: foi embora com outro homem e não voltou. O pai ficou sozinho com a filha, não soube o que fazer com ela e a entregou a uma tia. A tia a recebia como um peso, não como uma pessoa.

Anna cresceu dentro dessa casa, sabendo exatamente qual era o seu lugar. Décadas depois, uma parente próxima escreveria num livro que, ainda criança, Anna havia sido abusada pelo pároco da cidade. Aos 16 anos, foi embora: chegou a Roma e foi morar na casa de um tio na Via Milano. Para não pesar no orçamento, arranjou trabalho como vendedora.

A aparência abriu portas que a instrução nunca abriria. Era alta, de físico escultural, com olhos e cabelos negros e um rosto para o qual as pessoas demoravam a parar de olhar. Começou a trabalhar como modelo e tentou a carreira no cinema: conseguiu uma participação pequena, quase invisível, num filme. A cena durou menos de um minuto.

O nome dela nos créditos não existia, mas Roma existia e Roma tinha olhos. Foi numa dessas noites que Anna conheceu Giuseppe Drommi, engenheiro bem relacionado com acesso aos ambientes que ela havia observado de longe a vida inteira. Casou-se com ele, e foi Drommi quem, em 1955, a levou pela primeira vez ao Palazzo Barberini. Ali estava Camillo.

Três anos depois, em 1958, Camillo, Anna e Drommi haviam se deslocado para a Costa Azul. Numa noite em Cap Martin, depois do jantar, foram todos para o Pirata, um clube frequentado por gente do jet set europeu. Numa das mesas estava Porfirio Rubirosa, dominicano, diplomata e playboy, conhecido em meia Europa pela lista de conquistas.

Naquela noite, de todas as mulheres presentes, escolheu Anna: aproximou-se, pousou a mão no ombro dela. Drommi explodiu. Camillo também, mas a raiva dele não era a mesma: não era defesa do amigo, era outra coisa que ele mal conseguia definir. Os dois partiram para cima de Rubirosa juntos: pratos quebrados, cadeiras derrubadas, o som da música coberto pelos gritos.

Camillo bateu mais forte do que a situação exigia. Quando a briga terminou, ele e Anna se olharam por um instante. No olhar dela havia uma expressão clara: não era medo, era aprovação. Numa noite seguinte, durante uma recepção, Drommi havia bebido demais e havia feito uma cena de ciúme diante de todos.

Saiu sozinho e deixou a esposa num canto do salão, em lágrimas. Camillo se aproximou, ofereceu companhia, pediu uma dança. Foi nessa dança que suas vidas se uniram para sempre, e foi assim que os dois se tornaram amantes. A partir dali, os dois passaram a se encontrar às escondidas: em viagens, nas propriedades de Camillo, nos intervalos que o dinheiro e a agenda de um marquês permitiam abrir sem que ninguém perguntasse nada.

Camillo havia anotado no diário o que sentia por Anna: descrevia aquela relação como única, absoluta, diferente de tudo o que havia conhecido. Acreditava que o que existia entre os dois era um vínculo que nenhuma circunstância externa conseguiria desfazer. Mas havia um problema concreto — dois, na verdade: ambos eram casados.

E, na Itália daqueles anos, o divórcio não existia. A lei simplesmente não previa essa possibilidade. Quem quisesse encerrar um casamento e começar outro precisava de outro caminho. E esse caminho tinha nome e endereço: a Sacra Rota, o Tribunal Eclesiástico do Vaticano, responsável por anular uniões que, segundo a Igreja, nunca deveriam ter existido.

O processo estava, em teoria, ao alcance de qualquer católico; na prática, exigia advogados especializados, documentação extensa, arguições canônicas, anos de espera e dinheiro — muito dinheiro. Mas, além dos valores e do tempo, havia uma exigência que não se comprava diretamente: a motivação. Era preciso apresentar à Igreja uma razão canônica válida para que o casamento fosse declarado nulo.

E foi aqui que veio a primeira revelação. O mesmo padrão que Camillo repetiria depois com Anna — os encontros organizados, os homens escolhidos por ele, o registro meticuloso de cada detalhe — não havia começado com Anna; havia começado com Letizia. Ainda no primeiro casamento, muito antes de Anna entrar na sua vida, Camillo já organizava e documentava os encontros da esposa com outros homens.

Era um comportamento de longa data, não uma novidade que o casamento com Anna havia criado. Só que, perante a Sacra Rota, Camillo não apresentou isso como um arranjo que ele mesmo havia construído: apresentou como traição. Disse ter sido traído pela esposa. O tribunal eclesiástico recebeu a alegação, avaliou as evidências — os próprios registros que Camillo havia feito, agora reapresentados sob outra luz — e declarou o casamento nulo.

O homem que havia organizado cada encontro assinou os papéis como vítima, e funcionou. Para garantir que Letizia não contestasse o processo, foi generoso da única forma que sabia ser: cedeu a ela o apartamento de 13 cômodos no Palazzo Barberini, onde a família havia vivido, e assegurou uma renda vitalícia para ela e para a filha, Anna Maria.

Camillo se instalou na cobertura da Via Puccini. Ela saiu. O processo seguiu. Do lado de Anna, o que houve entre ela e Drommi para justificar a anulação nunca ficou claro; as fontes não respondem. O que se sabe é que Camillo resolveu, como sempre resolvia tudo, com dinheiro — muito dinheiro. Anna saiu do casamento livre, e a amizade entre Camillo e Drommi, que havia durado anos e que havia sido, ironicamente, o caminho que os trouxera até ali, não sobreviveu a nenhuma dessas transações.

Em 1959, Camillo e Anna se casaram no civil. Em 1961, repetiram a cerimônia na igreja. Anna Fallarino, nascida numa cidade pequena do sul, criada por uma tia que a desprezava, que havia chegado a Roma com 16 anos e uma mala, havia se tornado a marquesa Casati Stampa di Soncino. Ela diria mais tarde que havia conquistado aquele marido a duras penas e que não poderia pedir mais à vida.

Em 1959, casados no civil, na primeira noite juntos como marido e mulher num hotel de luxo em Roma, Camillo exigiu que o garçom do serviço de quarto ficasse de pé com a toalha no braço enquanto o casal estava junto. Depois, verificou nas partes íntimas do garçom se a situação havia causado efeito. Deu uma gorjeta considerável.

Anna compreendeu naquela noite o que havia aceitado quando disse sim. O que no início parecia uma fantasia isolada, um capricho da primeira noite, foi se tornando, com o tempo, a única forma que Camillo conhecia de estar num casamento. Ele não participava: ele dirigia, escolhia os homens, organizava os encontros, pagava e registrava tudo — datas, valores, detalhes — com a mesma meticulosidade com que catalogava as aves empalhadas no quarto dos pássaros.

Eram dois mundos paralelos que Camillo mantinha com a mesma disciplina: o da aparência impecável, com a marquesa nos círculos certos e os títulos no lugar certo, e o outro documentado página a página num caderno de cetim verde que nunca deveria sair das paredes da vila. Por anos não saiu. Havia nele uma atração compulsiva pelo que se chama de candaulismo: a necessidade de ver a própria parceira na intimidade com outros homens, não como traição, mas como espetáculo — como algo que ele organizava, antecipava e documentava com

uma frieza que perturbava qualquer pessoa que tentasse ler aquelas páginas sem perder o fôlego. Anna amava Camillo. As fontes e os relatos de quem os conhecia são unânimes nisso: eram apaixonados. O que ninguém sabia responder com clareza era outra pergunta, mais difícil: se ela gostava de ser o centro dessa dinâmica, o troféu que o marido exibia e organizava, ou se simplesmente aceitava por amor, por cumplicidade, pelo peso de um casamento que lhe havia dado tudo.

Essa resposta nunca veio. Talvez só Anna soubesse. O que se sabe é que ela consentiu; por anos consentiu. E Camillo registrava tudo, não como memória afetiva, nem como diário de um homem apaixonado: registrava com a precisão seca de quem preenchesse uma planilha — datas, locais, perfis dos homens escolhidos, valores pagos, o que havia acontecido, em que ordem, com que resultado. Cada encontro catalogado com o mesmo cuidado que dedicava às aves empalhadas no salão, como se aquelas páginas fossem também uma coleção, como se Anna fosse também uma peça do acervo.

Era ele quem escolhia os homens. Preferia jovens de físico trabalhado: recrutas, soldados, banhistas, garçons. Abordava-os pessoalmente nas praias de Fregene e Óstia com uma naturalidade que sugeria que havia feito isso muitas vezes antes. Pagava entre 30 e 50 mil liras por encontro. As entradas do caderno falavam por si mesmas:

“Hoje, Anna me fez enlouquecer. Ela teve uma relação com um soldadinho. Me custou 30.000 liras, mas valeu a pena.” “No litoral de Fiumicino, muitos olhavam. Escolhemos um jovem, foi gratificante. Pagamos 30.000 liras.” “Na praia com Anna, inventei um novo jogo. Fiz com que ela se rolasse na areia.

Depois chamei dois recrutas para que lhe tirassem os grãos da pele com a boca.” Nenhuma emoção visível, nenhum conflito. A caligrafia era ordenada e metódica, como a de um homem que anotava compras ou despesas do mês. O que estava registrado ali era tratado com a mesma neutralidade de um livro contábil, exceto que o objeto catalogado era a vida íntima da esposa.

O centro dessa vida era a ilha de Zannone, o fortim pessoal de Camillo, longe de vizinhos, de imprensa e de qualquer olhar externo. O que acontecia lá ficava lá: ele garantia isso pessoalmente. Nas noites de verão, a vila recebia convidados. Bebida pesada, música, encontros que duravam até de manhã.

A circulação de pessoas entre os quartos durante a noite era uma constante que os hóspedes mais próximos haviam aprendido a encarar como parte da atmosfera do lugar. No quarto dos marqueses havia dois espelhos enormes colocados um de frente para o outro. O que parecia uma escolha de decoração não era: por meio de um mecanismo engenhoso, os espelhos podiam ser transformados em janelas de vidro transparente, painéis que revelavam o que acontecia nos quartos adjacentes.

Camillo havia mandado instalar aquilo, sabia exatamente como funcionava e usava. Foi numa dessas temporadas em Zannone que uma jovem de 16 anos chamada Maria Teresa Fiumanò chegou à ilha. Era filha de um primo de Anna. Ela chamava Anna de tia e as duas tinham uma relação próxima e confidencial. Anna lhe dava conselhos sobre rapazes.

Alertava-a frequentemente com uma convicção que vinha de algum lugar profundo: “Os homens, todos, sem exceção, são indivíduos asquerosos.” Maria Teresa passou dias despreocupados na ilha, mas à noite alguma coisa mudava. Ela percebia a circulação estranha de hóspedes entre os quartos, notava os espelhos e sentia que a atmosfera que havia durante o dia não era a mesma que existia depois que o sol se punha.

Numa daquelas noites, saiu, caminhou até as rochas que bordejavam a costa da ilha e encontrou Anna rodeada de homens, num canto protegido pela pedra e pela escuridão, longe dos olhares da vila, mas não longe o suficiente. Maria Teresa tinha 16 anos e entendeu o que era aquilo. No dia seguinte, arrumou as malas, inventou uma desculpa qualquer — alguma obrigação em Roma, algum compromisso que não podia esperar.

Beijou Anna, agradeceu o convite e foi embora. Não disse nada, não perguntou nada. Décadas depois, ela colocaria tudo num livro. Por uma década, aquela dinâmica funcionou: Camillo dirigia, Anna consentia, o caderno crescia, a ilha guardava tudo. Anna tinha tudo: o título, o palácio, as viagens, os vestidos, o homem que a havia tirado de Amorosi e colocado no centro do mundo que ela havia observado de longe desde sempre.

Os anos 60 passaram assim, com o brilho intacto por fora e um desgaste silencioso crescendo por dentro. Tinha tudo, exceto uma coisa que nenhum dinheiro do marquês conseguia comprar: havia tentado engravidar várias vezes. Cada gravidez se interrompia antes do segundo mês. Não uma vez, não duas: uma após a outra, com uma regularidade que parecia cruel demais para ser acaso.

E assim seguiram-se os tratamentos extenuantes, longos, humilhantes na sua intimidade forçada: períodos de repouso obrigatório, consultas em clínicas fora da Itália, medicamentos, médicos que prometiam e não entregavam. Camillo tratava tudo isso de longe, com a mesma distância formal com que acompanhava qualquer coisa que não cabia no seu roteiro de controle.

Era um sofrimento silencioso que Anna carregava, enquanto, do lado de fora, tudo continuava a brilhar, como se nada pudesse se deteriorar. Com o tempo, outras coisas também foram pesando. A dinâmica, que no início tinha algo de transgressão consentida, foi se tornando uma obrigação. O que ela aceitava por amor foi virando um fardo.

Havia um aspecto de Camillo que ela havia subestimado quando disse sim: não o ciúme, não a violência, mas algo mais perturbador — a ausência. Ele nunca participava; estava sempre presente, mas nunca dentro. Era o diretor eterno de uma cena em que ela era a única atriz. E, com o tempo, essa posição começou a pesar de um jeito que ela não conseguia colocar em palavras sem que parecesse ingratidão.

E havia o resto: a vida cotidiana de um homem como Camillo, as estreias no Scala, os fins de semana sempre iguais nas casas dos mesmos amigos, as conversas que giravam em torno dos mesmos assuntos — a caça, os cavalos, as palavras cruzadas. Um homem que considerava tão inconveniente falar diretamente com os empregados que se comunicava com eles por intermediários; que havia espancado severamente um colaborador e havia resolvido a situação como resolvia tudo: com dinheiro, muito dinheiro. Anna havia se tornado sombria,

intolerante. Aquele marido conquistado com tanto esforço agora lhe causava, nas palavras de quem a conhecia na época, algo próximo do horror. A ruptura teve um momento físico na ilha de Zannone: durante uma das temporadas de verão, Anna pegou um candelabro e arremessou contra os dois espelhos do quarto.

Aqueles mesmos espelhos que Camillo havia mandado instalar, aquelas janelas disfarçadas que revelavam tudo. O vidro estilhaçou. Ninguém sabe exatamente o que havia acontecido antes disso: que discussão, que pedido, que limite foi cruzado naquela noite. O que se sabe é que, depois dos espelhos quebrados, o casal deixou de dormir no mesmo quarto.

As noites ficaram longas para Anna, cada vez mais longas. A insônia chegou e não foi embora. Ela passou a tomar tranquilizantes para conseguir dormir — um detalhe que os que a conheciam notavam, mas sobre o qual ninguém falava abertamente. Em sociedade, os dois ainda apareciam como o casal que sempre haviam sido: elegantes, unidos, impecáveis.

Era uma performance que ambos sabiam manter. Dentro de casa estavam em guerra e, por dentro de Anna, havia outro medo crescendo. Ela ainda era bela. Quem a via em 1970 via uma mulher de 41 anos com uma presença que não havia diminuído. Mas Anna não se via assim. Sentia o tempo passar, sentia o corpo ceder — não como os outros viam, mas como ela mesma se reconhecia.

E havia algo especialmente cruel nesse medo: ela havia construído boa parte de sua ascensão sobre a própria beleza. Havia usado a aparência como ferramenta, porta de entrada e moeda. A ideia de perder isso, num casamento em que Camillo a queria perfeita, eternamente desejável, à altura das fantasias que ele havia cultivado por mais de uma década, era insuportável.

Foi nesse estado que Anna tomou uma decisão: submeteu-se a uma mamoplastia — foi uma das primeiras mulheres na Itália a fazer esse procedimento. Depois, uma lipoaspiração abdominal. As intervenções deixaram marcas. A lipoaspiração, em especial, deixou cicatrizes profundas no abdômen, que ela passaria os meses seguintes tentando cobrir, escolhendo as roupas com cuidado, ajustando o que aparecia e o que ficava escondido.

Acreditou que se ver bela novamente no espelho resolveria alguma coisa. Foi uma ilusão que durou pouco. Em janeiro de 1970, numa festa beneficente em Roma, Anna conheceu Massimo Minorenti. Massimo tinha 25 anos. Era bonito — o tipo de beleza que não precisa de título nem de sobrenome para ocupar espaço numa sala. Dizia ser estudante de Ciências Políticas.

Dizia ser dos Parioli, o bairro nobre da Roma burguesa onde morava a gente que havia chegado, que tinha o nome certo e o endereço certo. Falava com a desenvoltura de quem circulava naquele mundo havia anos. Quase nada disso era verdade: Massimo nunca havia prestado sequer um exame na faculdade. Não era dos Parioli; vinha da Piazza Vescovio, pequena burguesia — uma origem da qual se envergonhava com uma intensidade que só quem precisava esconder algo carregava.

Havia atuado brevemente em filmes para adultos. Trabalhava como acompanhante de mulheres mais velhas e ricas. Era também filiado ao MSI, o Movimento Sociale Italiano, partido de extrema-direita fundado por ex-membros do regime fascista de Mussolini. Em suma: um jovem que fingia ser o que não era, num ambiente onde todos sabiam disso.

E ninguém dizia nada, porque a performance era boa o suficiente. Anna ficou fulminada por ele e, pela primeira vez em mais de uma década, foi ela quem escolheu, não Camillo. Ela apresentou Massimo ao marido como próximo parceiro dos arranjos habituais. Camillo aceitou ou pareceu aceitar. Massimo entrou no universo do casal da mesma forma que os outros haviam entrado antes: como peça de um jogo cujas regras Camillo havia escrito.

Massimo conhecia as regras, sabia como funcionava. O que Camillo não havia previsto era que, desta vez, as regras não se aplicavam. Anna e Massimo passaram a se encontrar sem ele, não como parte de nenhum arranjo, mas às escondidas, nos intervalos, longe dos olhares do marido. Trocavam cartas apaixonadas com aquela urgência de quem estava escrevendo algo que não deveria existir.

Anna havia parado de ir à ilha de Zannone. Havia parado de aceitar os homens que Camillo escolhia. Pela primeira vez em mais de uma década, ela estava conduzindo algo que Camillo não havia organizado. Camillo descobriu ou apenas confirmou aquilo que já sabia. E ali, pela primeira vez na vida, esse homem que havia gerenciado a própria realidade como um diretor gerencia um set — escolhendo cada pessoa, organizando cada cena, documentando cada resultado —

sentiu que estava perdendo o controle de algo: não do corpo de Anna, mas do coração dela. A diferença destruiu tudo o que havia resistido até então. Entre amigos, tentou conter o que sentia com uma frase que soava como distância, mas traía exatamente o oposto: “É a primeira vez que minha mulher me trai com o coração”, e acrescentou com uma confiança que já não enganava nem a ele mesmo: “mas tenho certeza de que vai passar.” Não passou.

Camillo havia passado a vida inteira acreditando genuinamente que era o dono do mundo, que tudo tinha preço, que tudo se resolvia com dinheiro, com poder, com a força de um sobrenome que havia sobrevivido 500 anos. Havia comprado casamentos, comprado silêncios, comprado corpos, comprado anulações eclesiásticas.

Havia construído um sistema perfeito em que controlava cada variável. E, dentro desse sistema, Anna havia funcionado durante mais de uma década. Massimo Minorenti não era uma variável que Camillo havia inserido no sistema: era a primeira coisa em décadas que havia entrado sem que ele abrisse a porta. Em 7 de julho de 1970, menos de dois meses antes da noite de agosto, Camillo abriu o caderno verde e escreveu: “A maior decepção da minha vida. Queria estar morto e enterrado.

Que nojo, que asco o que Anna me fez. Pensava que éramos o único casal verdadeiramente unido. E, no entanto…” A frase não termina. Em 29 de agosto de 1970, Camillo havia aceitado um convite para uma caçada na propriedade dos Marzotto, em Valdagno, no Vêneto. Foi ao campo e abateu quase 200 patos numa manhã — um número que não fala de esporte, fala de outro lugar.

Ao longo do dia e da noite, ligou para Anna várias vezes. As discussões foram se acalorando a cada ligação. Na última, o conde Marzotto, que estava perto, ouviu Camillo gritar no telefone: “Mato vocês dois! Mato vocês dois!” Anna ouviu e acreditou: saiu do apartamento com Massimo e foi passar a noite na casa de Cesare Marangoni, um amigo em comum que os acolheu sem fazer perguntas.

Na manhã seguinte, Camillo ligou para Anna com um tom diferente: conciliatório, contido. Convidou os dois para um encontro naquela tarde para resolver o assunto todos juntos. Anna aceitou. Antes de ir, escreveu dois bilhetes. Um para Massimo: “Meu Max, tenta reconstruir sua vida da melhor forma. Sê feliz, tão feliz. Tchau, meu amor. Tua Anna.” Um para Camillo:

“Deves me perdoar se errei. Te prometo que não verei mais Massimo e voltaremos a estar unidos como antes.” Anna havia tomado uma decisão: havia escolhido o marido. Naquela tarde, Camillo entrou no carro e fez o trajeto de volta a Roma com a espingarda Browning calibre 12 no banco de trás. Chegou às 18 horas, reuniu os cinco empregados e deu a ordem: não abrir a porta do salão por nenhum motivo.

Quem desobedecesse estava despedido. Anna Maria, que havia sabido do regresso do pai e havia tentado encontrá-lo, foi despachada com poucas palavras. Ele prometeu um telefonema; nunca ligou. Sozinho, pegou um calendário com uma figura feminina na capa e escreveu no verso: “Morro porque não posso suportar teu amor por outro homem.

Meu amor, minha vida, perdoa-me, mas o que farei devo fazer. Adeus, minha única alegria passada. E, às vezes, venha me visitar.” Às 19 horas, Anna e Massimo chegaram. Os empregados os fizeram entrar. Fecharam a porta. Ninguém mais viu nada: ouviram vozes, o tom que subia antes de uma discussão e, então, os tiros. Seis, talvez sete, em rápida sucessão.

Depois, o silêncio. Os empregados não abriram a porta; tinham ordens. Chamaram a polícia. O que encontraram no quarto dos pássaros não se apagou de nenhuma memória de quem esteve lá. Anna estava recostada numa poltrona: três tiros à queima-roupa — no braço, na garganta, no peito. Do tórax escorria um líquido branco e denso que os peritos não conseguiram identificar de imediato.

Só mais tarde o laudo explicaria: silicone. As próteses que ela havia colocado numa tentativa de se ver de outro jeito no espelho. Massimo estava no chão, atrás de uma mesinha tombada: dois tiros — um nas costas, um na nuca. Havia tentado se proteger; não havia conseguido. Camillo foi encontrado de bruços num tapete persa, encharcado de sangue.

O tiro havia destruído parte da mandíbula e dilacerado o rosto. Uma orelha havia sido arrancada pela força do disparo e estava presa numa tela a óleo na parede acima do corpo. A espingarda Browning calibre 12 estava no chão ao lado dele. Das 18 espingardas na estante, faltava apenas uma.

Os 300 animais empalhados observavam tudo com olhos de vidro. Na inspeção do local, a polícia encontrou sobre a escrivaninha o tal caderno de capa de cetim verde e, dentro de uma gaveta, mais de mil fotografias. O crime tinha explicação — crime passional —, mas o caderno tinha outra história, mais complexa de se contar. Não se sabe quem retirou as fotografias do apartamento, nem como isso foi feito.

Talvez a polícia. Mas, como elas chegaram ao conhecimento público, ninguém menciona. O escândalo explodiu logo após o sepultamento e, no dia seguinte, o assunto já estava na boca de toda a Itália. Um jornal pagou 400.000 liras por apenas 12 imagens. As revistas Men e L’Europeo publicaram o resto. Trechos do caderno verde circularam em reportagens que misturavam curiosidade com veredito moral.

A Itália de 1970 tinha uma imprensa semanal com tiragens enormes e pouquíssima contenção. E esse caso tinha todos os ingredientes: título milenar, sangue nobre, fotografias comprometedoras, uma mulher do sul que havia subido demais e um marido que a imprensa tratava como o traído de uma história que ele mesmo havia escrito.

Massimo desapareceu das manchetes em dias: jovem demais, sem título, sem história suficiente. Anna foi esmiuçada com a minúcia de quem mistura curiosidade com veredito moral antecipado. E Anna Maria, a filha de Camillo, de 18 anos, que havia perdido o pai e a madrasta numa única noite de agosto, acordou no dia seguinte com o próprio rosto em todas as capas, ao lado dos detalhes mais íntimos de uma família que havia implodido enquanto ela ainda era menor de idade. Não havia onde se esconder.

Camillo havia deixado tudo para Anna no testamento, mas Anna estava morta. E a questão que os advogados identificaram era ao mesmo tempo simples e brutal: quem havia morrido primeiro? A autópsia foi decisiva: Anna havia morrido 150 segundos antes de Camillo. Ela havia falecido antes dele, o que significava que nunca havia chegado a herdar nada.

O patrimônio inteiro passava para Anna Maria: uma fortuna de mais de 2,4 bilhões de liras — palácios, propriedades, obras de arte e a Villa San Martino, com 150 cômodos. Em 1972, Anna Maria tinha acabado de se casar e estava se preparando para vir morar no Brasil. O advogado que se apresentou para cuidar de tudo chamava-se Cesare Previti.

Previti a convenceu a vender a vila: “Uma velha casa semirruinada”, disse ele, “um peso para uma jovem sem experiência.” O comprador era um empresário lombardo de 34 anos chamado Silvio Berlusconi. Pagou 500 milhões de liras — valor que o próprio banco, logo depois, avaliaria em 20 vezes esse montante ao aceitar a vila como garantia para um empréstimo.

O pagamento foi feito em ações de uma empresa fechada, sem liquidez. Quando Anna Maria tentou convertê-las em dinheiro, havia apenas um interessado disposto a comprá-las: o próprio Berlusconi, que ofereceu metade do valor que ele mesmo havia pago. No final das contas, a propriedade havia saído por um quarto do valor: Anna Maria havia sido lesada.

A vila vale hoje, numa estimativa conservadora, 52 milhões de euros. Berlusconi viveu na propriedade até morrer, em 2023. Anna Maria veio para o Brasil. Décadas depois, admitiu que entendia menos do que deveria e confiou em quem não merecia. Não foi além disso. E faz sentido: às vezes, o silêncio é a única coisa que ainda pertence a alguém.

Anna repetia sempre: “Quando se ama, tudo é permitido.” No fim, foi exatamente isso o que destruiu todo mundo ao redor dela. Você acredita nisso? Que o amor justifica tudo? Deixe sua opinião nos comentários. Se você chegou até aqui, deixe o like e ajude o canal a chegar a mais pessoas. Inscreva-se para não perder a próxima história, porque as próximas histórias são tão sombrias quanto essa.

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Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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